Tradicionalmente, a tecnologia tem sido transferida para os sectores privados através de licenciamento (Siegel et al. 2003). Este sistema é mais utilizado devido ao facto que os agentes envolvidos são capazes de capitalizar as suas invenções, sem a necessidade de despender grandes quantidades de tempo na sua comercialização, podendo assim prosseguir com a sua pesquisa (Siegel et al. 2003).
No entanto, também se podem verificar desvantagens, como o facto de nem sempre ser possível patentear e transacionar por meio de contrato de licença algumas tecnologias (Shane, 2002) e porque, por meio de licenciamento, as universidades não são capazes de captar o verdadeiro valor das suas tecnologias. Assim, de forma a contornar estas desvantagens, a solução passa por uma comercialização mais direta através de empresas spin-off (Franklin et al., 2001). De facto, Thursby e Thursby (2003) vêm demonstrar isso mesmo, quando concluíram no seu estudo que mais de metades das invenções licenciadas pelas universidades americanas não podem ser comercializadas sem a cooperação dos seus inventores universitários. Percebe-se, assim, que o mecanismo que envolve uma maior ligação entre o inventor, a tecnologia e o seu mercado é a constituição de uma nova empresa (Bercovitz e Feldmann, 2006).
A literatura apresenta definições que, apesar de diferirem em certos aspetos, acabam por conceituar o mesmo fenómeno. Druilhe e Garnsey (2004) definem Spin-offs como sendo processos de geração de novas empresas e novos negócios, a partir de organizações existentes, como universidades, empresas-mãe e centros de pesquisa, e apoiada por capital de risco. Por sua vez, Bercovitz e Feldmann (2006) submetem mais
49
questões, referindo (1) que as empresas são formadas pela universidade ou por professores, (2) que as empresas são formadas em torno de uma licença universitária de propriedade intelectual, (3) que as empresas desenvolvem projetos de pesquisa conjunta com a universidade (4) que a empresa é formada por estudantes ou pós-doutorados em torno de uma pesquisa conduzida na universidade.
De uma forma estrita, Lockett e Wright (2005), definem spin-offs académicas como ―new ventures that are dependent upon licensing or assignment of the institution‘s intellectual property for initiation‖, coincidindo com a definição utilizada pela Association of University Technology Managers nos EUA.
No contexto da investigação interessa conhecer as características das novas empresas académicas, isto é, as Spin-offs Académicas. Assim, tendo em conta as definições apresentadas, as Spin-offs Académicas são novas empresas, que têm origem na investigação desenvolvida por investigadores, alunos ou docentes de uma instituição de ensino superior, que surgem de forma a explorarem um produto, serviço ou tecnologia em termos comerciais, colocando, assim, o conhecimento gerado disponível para a sociedade.
A maioria dos estudos sobre empreendedorismo académico retrata as empresas spin-offs como homogéneas (Charles e Conway, 2001), pois apresentam-se numa categoria homogénea de empresas inovadoras e de base tecnológica, diferenciando-se apenas com vários tipos de conceitos de negócios, desde empresas de serviços e tecnologia a empresas de desenvolvimento de tecnologia inovadora. De facto, algumas teorias, nomeadamente a teoria neoclássica da empresa, e as pesquisas em volta do empreendedorismo têm negligenciado as diferenças existentes entre os empresários e as atividades das empresas (Druilhe e Garnsey, 2004).
No que concerne à comercialização, existe a perceção de que estas empresas aumentam o potencial das inovações, mostrando-se bastante atraente para as universidades. As evidências empíricas indicam que o retorno de uma posição no capital de uma empresa spin-off universitária é, em média, no longo prazo, maior que o retorno médio disponível com um licenciamento (Bray e Lee, 2000).
Mais, a investigação sobre a contribuição real das iniciativas académicas oferecem uma visão preliminar do assunto comprovando performances mais elevadas de empresas spin-off, quer em termos de inovação, ou em termos de emprego criado e novos produtos desenvolvidos e vendidos. No entanto, os estudos empíricos sobre o desempenho das spin-offs académicas são controversos, não existindo um acordo a
50
respeito sobre a razão para a existência de taxas de sobrevivência significativamente superiores a outras start-ups do mesmo sector da economia (Chiesa e Piccaluga, 2000).
Apesar das indústrias estudadas por Zucker et al. (1998), no seu trabalho, serem bastante específicas, pôde-se apurar que as empresas fundadas por investigadores académicos era provável localizarem-se em torno das universidades. Esta escolha, observada em muitas pesquisas, podem refletir a necessidade inicial dos cientistas em tempo parcial se localizarem perto dos seus trabalhos académicos, de forma a cumprir com as suas carreiras multitarefas. Esta característica, do ponto de vista dos decisores políticos, apresenta-se como desejável pois promove o desenvolvimento económico. O mesmo acontece para os administradores das universidades, pois estas empresas podem servir como parceiros de investigação conjunta e licenciamento de tecnologias a posteriori (Franzoni e Lissoni, 2006)
Assim estas empresas não apresentam benefícios apenas a nível individual, pois as empresas spin-offs têm impactos importantes na competitividade, no emprego e na estrutura económica das regiões. De facto quando as empresas spin-offs nascem necessitam de estabelecer novas relações e selecionar os seus fornecedores e clientes, levando a mudanças nos sectores locais, tornando as atividades mais regionais que a dos seus parceiros. As spin-offs são orientadas pelos benefícios de cada cluster industrial local, tendo efeitos indiretos positivos na competitividade e no emprego desse cluster. Alguns exemplos destes efeitos são a importância do Fairchild Semiconductors para a existência do Silicon Valley, o MIT para a Route 128 e, na Europa, a importância da Nokia para o cluster finlandês de tecnologia e telecomunicações.
Apesar destas evidências, a criação de empresas spin-offs nem sempre é a melhor opção, uma vez que a maioria delas não cria uma riqueza substancial, pelo que maior atenção deve ser dada na identificação do canal mais adequado para exploração de invenções tecnológicas produzidas nas universidades (Lambert, 2003).
3.7. Organizações de incubação