a.C. e há um único exemplar do século IV d.C., cuja coerência com o conjunto não indica uma necessária continuidade.
PANATENAICAS III
A inserção primária e a secundária
A compreensão dos contextos de uso dos vasos panatenaicos é em grande medida parcial, dada a dificuldade de estabelecer uma observação normatizada de algumas informações elementares; principalmente o descompasso entre as informações disponíveis sobre sua inserção em contexto primário e secundário e a dinâmica de publicação dos dados concernentes à situação de achado. Os vestígios relacionados ao contexto primário (o evento específico para qual o vaso foi produzido, as Grandes Panatenéias)1 são muito pontuais e pouco consistentes do ponto de vista
arqueológico, promovendo um debate amplamente hipotético sobre questões básicas do evento2 e do vaso panatenaico, como sua função (se eram utensílios de
armazenamento e transporte) e simbólica (se eram os vasos efetivamente considerados parte importante da premiação).3 De outra forma, a situação desses
objetos após sua difusão em vários pontos Mediterrâneo proporciona um debate arqueológico mais consistente, já que o seu contexto de rejeição e (ou) imobilização (parcialmente ligado às condições de achado) é, em grande parte, relacionado a práticas antigas.
Optou-se aqui pela observação da dispersão dos vasos panatenaicos em detrimento da observação da inserção em contextos específicos (que poderá ser considerada eventualmente, mas não está no centro do debate). A opção pela informação mais generalista deu-se pela possibilidade de visualização de boa parte da documentação a partir de um elemento comum (sua inserção na paisagem), já que a especificidade da situação de achado não oferece um cenário regular de informações, impedindo uma projeção consistente no nível da interpretação de aspectos sócio-
1 Há uma extensa bibliografia sobre as Panatenéias. Como ela será descrita aqui apenas em
alguns elementos essenciais, vale a indicação de algumas publicações básicas: para uma introdução a esse festival, ver NEILS, 1992, p. 13-28; para uma visão detalhada de seu desenvolvimento, ver SHEAR, 2001 (com a apresentação extensiva e comentada das fontes literárias e epigráficas). Para uma apresentação mais breve das fontes literárias sobre as Panatenéias, ver DAVISON, 1958.
2 Como indica Neils (2007, p. 41) há ainda várias importantes questões em debate, como o
significado do nome do festival, o fundador mítico (Teseu ou Erictônio), aquele que promoveu a reorganização do festival em meados do século VI a.C.(Hipocleides ou Pisístrato), o programa gímnico e hípico, a época da inclusão de determinadas provas musicais, a natureza da premiação nas provas não-atléticas, e o grau de influência das Atenéias.
3 A distinção entre elementos práticos e simbólicos é puramente instrumental; ou seja, a
atribuição de uma função prática a determinado objeto já o situa numa esfera simbólica definida. Dessa forma, aqui, quando se fala em prático e simbólico, pensa-se em diferentes níveis de simbolismo relacionados a esses objetos, mais que uma delimitação entre prático e simbólico.
culturais, sobretudo do plano diacrônico. Isso, já que há dinâmicas diferentes de publicação dos dados e mesmo as situações básicas de contexto, como organizadas (locais públicos, santuários, contexto funerário e doméstico) apresentam uma coerência por vezes ilusória.
Por exemplo, ânforas panatenaicas encontradas em contexto funerário como a
Burgon Amphora (ver cat. 1) e alguns outros em uma tumba tarentina (ver cat. 130-3),
foram utilizados de maneira bastante diferente (o primeiro como urna cinerária e os outros ladeando um sarcófago), mas respondem a uma caracterização básica, como utilizados em contexto funerário. Esses locais de achado mereceriam uma tipologia interna para, depois, se pensar na sua articulação e no significado da inserção das ânforas panatenaicas, o que é um estudo em si, bastante dificultado pela desigualdade da apresentação dos dados nas publicações (desde descrições detalhadas até indicações sumárias).4
Como visto, a inserção dos vasos panatenaicos posterior à experiência das Grandes Panatenéias será aqui caracterizada inicialmente como secundária, sendo, dessa forma, a primária, aquela própria das Grandes Panatenéias. Tal divisão coloca alguns problemas que sevem ser ao menos delineados para a seqüência da discussão. A distinção entre contexto primário e secundário de inserção justifica-se, em certa medida, pela ação relacionada à produção e uso projetado desses vasos. Ou seja, entende-se aqui como contexto primário aquela inserção para a qual a produção do vaso responde mais imediatamente. Assim, uma quantidade de vasos produzidos em lotes e em certa periodicidade, respondendo a uma demanda específica (a utilização no evento atlético que compunha as Grandes Panatenéias); o que, nesse contexto, teria inserção previsível. Mas fora (ou “posterior”) a ele, havia tipos de inserção não previstas no projeto inicial; portanto, contextos secundários.
Essa distinção é problemática na medida em que seja formulada pensando-se numa hierarquia natural (que o contexto primário fosse mais importante que o secundário). O projeto e o uso previsível descrevem apenas parte da trajetória, mas não necessariamente parte mais importante. Como o interesse aqui reside sobretudo na prática humana sócio-culturalmente mediada, só é possível estabelecer tais hierarquias se ela é observada como prática sócio-cultural. E, consoante a isso, deve- se pensar na caracterização do contexto secundário a partir de sua não-previsibilidade
4 Segundo Bentz (2003, p. 114-5), para a produção do século VI ao IV a.C., 40% dos achados
são relacionados a santuários; 36% a locais públicos, 16% a tumbas e o restante a espaços domésticos; sobretudo em Atenas, Etrúria e norte da África. Para a discussão dos contextos específicos de achado, ver BENTZ, 1998, p. 95-110. Ainda, Kotsidu (2001, p. 56), revisando os dados (tratando-os em contextos mais delimitados), fala em 79 achados em santuários, 29 em sepulturas, 21 em espaços públicos e 17 em espaços provados.
e variabilidade; ou seja, o que se compreende como contexto secundário é um conjunto amplo de práticas que proporcionaram diferentes formas de imobilização desses vasos na Antiguidade. Assim, não-previsível nem necessariamente unificado.
O que se compreende como inserção primária é um conjunto de ações organizadas desde a preparação do evento até o momento da premiação e o elemento que dá certa coerência no plano estrutural é a ação administrativa da pólis. A organicidade das Grandes Panatenéias, tal como conhecida atualmente, é amplamente derivada de informações em fontes epigráficas e literárias, das quais a mais detalhada é a Constituição de Atenas (59-60) atribuída a Aristóteles,5 a partir da
qual é possível reconstituir algumas fases de preparação do festival: o arconte epônimo era responsável pela coleta de óleo sagrados das Moriai (arconte); o óleo era entregue para armazenamento na Acrópole (arconte tesoureiro (tamias)); procedia- se a medição do óleo, que era encaminhado durante o festival (tesoureiro fiscal (athloteta)); o óleo era entregue aos vitoriosos nos jogos (fiscal atleta). Deve-se considerar que se trata de uma descrição que responde à estrutura do festival na época de Aristóteles, mas esse evento mudou bastante ao longo do tempo.6
A situação específica de tais mudanças não é tão clara. O caso das provas repertoriadas nas Grandes Panatenéias é um exemplo. Não se sabe quando aparecem algumas provas hípicas que constam em listas de vencedores na Panatenéias do século II a.C.7 e algumas provas que aparecem figurados em ânforas
panatenaicas logo depois da reorganização dos jogos (em meados do século VI a.C.) indicam uma reestruturação do festival em c. de 530 a.C.8 Sabe-se que o festival
mudou bastante ao longo do tempo, mas não exatamente como. Além disso, essa descrição das atividades dos oficiais da cidade como aqui apresentada é bastante
5 Para uma breve apresentação do texto e da questão da autoria, ver STANTON, 2002, p. 130.
6 Por exemplo, “(...) até 418 a.C. eram os hieropoioi que entregavam a premiação e não os
atlótetas. Além disso, durante o quarto século IV a.C. e no período helenístico, o óleo panatenaico foi provavelmente armazenado no Pompeion no Cerâmico ou no Arsenal” (… at
least until 418 B.C., (...) the hieropoioi not the athlothetai were responsible for the distribuition of olive oil to the victors of games. Moreover, during the fourth century B.C. and Hellenistic period, the Panathenaic olive oil was probably stored in the Pompeion in the Kerameikos or in the Arsenal – THEMELIS, 2007, p. 25). Barringer (2003, p. 245) indica a substituição dos nomes
dos arcontes pelos dos tesouteiros (tamiai) nos vasos panatenaicos, o que sugere uma mudança na ornanização do festival em c. 310 a.C., época de Demétrio do Fálero; e Williams (2007, p. 150), um cenário parecido, com a substituição dos nomes dos tesoureiros pelos fiscais (agonotetas), na segunda metade do século III a.C., e o mais antigo vestígio é um inscrição de Deinias de Érquia, 266/5 a.C. Ainda, Valavanis (2004, p. 367) indica a introdução de concursos dramáticos em 162 a.C., inspirados no modelo das Grandes Dionísias.
7 OAKLEY, 1992, p. 199.
8 Ou revelam apenas uma lacuna no registro arqueológico para o registro anterior, como
circunscrita. Nesse sentido, cabe lembrar que a sua ação era bem mais ampla que a preparação e fiscalização nos jogos.9
Há mudanças em vários aspectos ao longo da ampla experiência das Panatenéias, mas a iniciativa administrativa como elemento mediador era amplamente presente: foi uma demanda específica da pólis ateniense que deu início e manteve a produção de ânforas panatenaicas durante séculos;10 assim, os elementos materiais
dos vasos, por mais que estivessem ligados a uma dinâmica artesanal estruturalmente articulada (ver Panatenaicas II), eram fortemente condicionados a um interesse público.11 Mas, na passagem para a inserção em contexto secundário, essa mediação
oficial é bem menos presente.12
O objetivo aqui não é a apresentação detalhada dos contextos primário e secundário de inserção das ânforas panatenaicas, mas a mobilização de elementos desse âmbito da paisagem (local; local-regional) para a caracterização do vaso panatenaico e, a partir disso, discutir a própria noção de inserção primária e secundária. Nesse sentido, duas questões básicas são colocadas: qual a relação do vaso com o óleo panatenaico (eram as ânforas panatenaicas relacionadas ao armazenamento e transporte de óleo panatenaico? e a difusão dos vasos panatenaicos em vários pontos do Mediterrâneo está ligado ao transporte de óleo – à sua comercialização ou à manutenção própria do interesse do atleta vitorioso?); e qual a situação do vaso panatenaico na caracterização do prêmio? As duas questões estão intrinsecamente conectadas já que a relação funcional entre esse tipo do vaso e o óleo é a base da discussão sobre seu grau de envolvimento na composição do prêmio.
9 Para as várias fontes e uma análise detalhada da preparação do festival, ver SHEAR, 2001,
p. 120-230; 962-87. Para a descrição das atividades dos oficiais ligados às Panatenéias, ver
Idem, p. 451-504.
10 Segundo Shear (op. cit., p. 505), o financiamento da pólis pode ser observado até o terceiro
quartel do século III a.C.
11 “A indústria de cerâmica e o culto de Atena Polias estiveram indissociavelmente ligados por
mais que dois século através da produção em larga escala cada quatro anos para a Granda Panatenéia” (The pottery industry and the cult of Athena Polias were for more than two centuries
insxtricably linked, through the prize amphoras manufactured in large numbers every four years for the Greater Panathenaia – SHAPIRO, 1998, p. 18). A questão da encomenda é pouco conhecida no
detalhe, havendo informações pontuais como na Constituição de Atenas (60, 1). A presença de inscrições de caráter público (aquelas de tipo athlon e , no século IV a.C., as dos arcontados e, depois disso, dos tesoureiros e agonotetas) esclarecem um pouco mais essa situação. Para outro exemplo de provável produção de vasos comissionada pela pólis ateniense, ver PRITCHARD, 2010, p. 272-3. Trata-se de lutróforos de c. 430 a.C., no contexto do arcontado de Polemarco, com cenas relacionadas às atividades militares, provavelmente ligados à memória daqueles que foram mortos em guerra.
12 Há interpretações que compreendem a ânfora panatenaica como um espécie de selo de
qualidade, uma efetiva marca do controle da entidade emissora: a cidade de Atenas (ver VALAVANIS, 1986, p. 454, n. 7; HANNAH, 2001, p. 162). Nesse contexto, o controle da administração do festival é nula, já que tal trajetória do vaso estaria ligada ao comércio de óleo.
Percebe-se, a partir das questões colocadas, que há ainda elementos básicos pouco claros sobre esse tipo de vaso e que sua discussão deve ser feita a partir de uma perspectiva relacional; ou seja, a situação do vaso frente ao óleo panatenaico. Assim, os tipos de inserção (situação na paisagem) e a dinâmica funcional (o vaso como continente e, conseqüentemente, a natureza de seu conteúdo) estão no centro do debate aqui proposto, cujo ponto de partida é o contexto primário – a inserção nas Grandes Panatenéias.
As Panatenéias de freqüência quadrienal eram chamadas “Grandes Panatenéias” (Panathēnaia ta megala) e a anual de “Panatenéias anuais” (Panathēnaia ta kat’eniauton) ou, como aparecem nas fontes literárias, “Pequenas Panatenéias” (Panathēnaia ta mikra). O termo “Panatenéia” isolado (Panathēnaia) indica, na maior parte das vezes, a Grande Panatenéia.13 As Panatenéias foram
originalmente baseadas num festival já tradicional em Atenas. Há, por exemplo, referências na Ilíada (2, 550-1) às Atenéias (mas pode ser uma interpolação inserida na época de Pisístrato) e Aelius Aristides se refere a esse festival como o mais antigo da Grécia, talvez menos que as Eleusinas.14 Essa fase do festival não é bem
conhecida e tem sua organização relacionada à dois heróis locais Erictônio e Teseu.15
A cronologia da nova fase do festival, na sua dimensão histórica, é fixada entre meados do século VI a.C. até o final do século IV/início do V d.C. A data de 566/5 para a reorganização das Panatenéias é apresentada por Jerônimo de Estrídon (século IV d.C., baseado na Crônica de Eusébio de Cesaréia) situando esse evento no ano 53.3- 4 (olímpico) e 1450-1 (de Abraão),16 data relacionada ao arcontado de Hipocleides;
entretanto, as fontes não citam esse arconte como o reorganizador dos festejos, mas Pisístrato.17 A interferência de Pisístrato e, sobretudo de seus filhos, correspondente
ao período de tirana em Atenas, está aparentemente ligada a alguns atos de reorganização do festival. Por exemplo, Nagy situa o inicio da cristalização do texto homérico (trechos da Ilíada e da Odisséia para a recitação nas Panatenéias) na época
13 Para a ocorrência dos nomes, ver DAVISON, 1958, p. 23.
14 Oração Panatenaica 13, 189.4-5; assim como Aristóteles (Peplos frag. 637) e Pausânias (8,
2, 1). Para as fontes, ver DAVISON, op. cit. e SHEAR, op. cit., p. 31.
15 Para o papel de Erictônio-Ericteu (principalmente Erictônio) e Teseu, como fundadores do
festival panatenaico; ver SHEAR, 2001, p. 55-66.
16 Uma versão armênia dessa obra apresenta as datas de 53.4 e 1451, correspondentes a 565
a.C. (DAVISON, op. cit., p. 27).
17 Ver DAVISON, op. cit., p. 28-9; para a apresentação das fontes e sua discussão. Segundo
Shear (Op. cit., p. 521), não há elementos suficientes para dizer a organização do festival teria acontecido na tirania de Pisístrato; mas, logo depois, há evidências mais consistentes (ver
dos Pisistratidas,18 o que pode ser relacionado também à reestruturação do concurso
atlético,19 à introdução das provas musicais20 e à fixação do programa ornamental na
produção das ânforas panatenaicas (ver Panatenaicas II, p. 55-7 e 83-4).
O final do festival também tem a cronologia discutida. Shear indica a data de 391 ou 395 d.C., articulando informações variadas, como a última inscrição encontrada sobre o festival datada do final do século IV d.C., época da legislação anti-pagã de Teodósio I e da destruição de Atenas por Alarico e seu exército composto de visigodos em 396 d.C.21 Já Valavanis acredita numa sobrevida do festival até 410 d.C., dizendo
que nesse festival se concentrava os últimos esforços de reação de atletas e filósofos à legislação anti-pagã, mas sem apresentar algum indício mais consistente. Assim, como aconteceu com outros festivais proibidos pela legislação de Teodósio I, tal proibição teve que ser ratificada por Teodósio II, dada a ineficácia da anterior.22
Valavanis apresenta uma dimensão importante que é a resistência a essa legislação (que não teria tido efetividade num primeiro momento), o que impele a pensar na relatividade das datas muito fixas para o fim do festival panatenaico – dessa forma, final do século IV e início do século V d.C.
A experiência do festival correspondeu a um recorte de quase mil anos ao qual a produção de ânforas panatenaicas corresponde parcialmente. Elas aparecem em meados do século VI a.C. A Burgon amphora (ver cat. 1) é constantemente
18 NAGY, 2002, p. 5-6.
19 O que sustenta tal interpretação é o aparecimento de um repertório mais variado de provas
não registradas até c. 530 a.C. nas ânforas panatenaicas (ver MOORE, 1999, p. 49; para tal tese e sua crítica).
20 Não se sabe ao certo a data de introdução das provas musicais nas Panatenéias, mas é
usual relacioná-las ao aparecimento das figuras de concurso musicais sobre as ânforas chamadas pseudo-panatenaicas (ver SHAPIRO, 1992, p. 64-6; SHEAR, op. cit., p. 521 e HAMILTON, 2004, s.p.). Segundo o catálogo de Bentz (2001), os mais antigos exemplares com provas musicais datam do terceiro quartel do século VI a.C. (c. 550 a.C. – nº 236; c. 530 a.C. – 234 e 550-525 a.C. – nº 145, 164, 225, 261 e 275), coerente com a cronologia do aparecimento da figura de musicista entre colunas em outros tipos de vasos (c. 550 a.C. – ver lista 5, nº 1).
21 SHEAR, 2001, p. 659.
22 VALAVANIS, 2004, p. 390. Sobre esse contexto, Fleischer, Lund e Nielsen (2001, p. 194)
dizem que “muitos proeminentes cidadãos, governadores e oficiais em Roma e em Atenas ignoraram as leis contra a adoração pagã e as multas no século IV d.C. A despeito da proibição dos sacrifícios pagãos emitidos por Constâncio II em 341 d.C., as Panatenéias quadrienais continuaram a ser celebradas ao menos até o início do século V d.C. O imperador Juliano (361- 363 d.C.) reabriu os templos e renovou o culto dos deuses, e a ativa comunidade pagã em Atenas poderia continuar suas atividades religiosas sob a política de tolerância no século IV d.C. (Many proeminent private citzens, governors, and officials in Rome and Athens ignored the
laws against pagan sacrifices anf the penalties in the 4th century. Despite the ban on pagan sacrifices issued by Constatnitus in AD 341, the quadrennial Panathenaia festival continued to be celebrated at least until the early 5th century AD. Emperor Julian (AD 361-363) reopened the temples and renewed the cult of the gods, and the active pagan community in Athens could continue their religious activities under the imperial policy of toleration in the 4th century).
apresentada como o vestígio mais antigo e comumente datada de 566/5, dada sua provável relação com o festival panatenaico reformulado nessa época; entretanto, não há elementos suficientes para situar a cronologia desse vaso numa data tão precisa. Já os mais recentes vestígios são datados do período romano (até o século I a.C.) – ver cat. 935-40; mas há uma ânfora aparentemente panatenaica (com ornamentação em verniz escuro e detalhes incisos, clara referência à técnica de figuras negras) datada do século IV d.C. (ver fig. 40).23 Entretanto, o isolamento desse objeto não
permite propor uma continuidade do século I a.C. ao IV d.C., situando-se, assim, o final da produção provavelmente no início do período romano, com possibilidade de criações isoladas posteriores (ver lista 1.4).24
Quando as Grandes Panatenéias foram instituídas (pouco depois dos festivais com concursos atléticos em Delfos, Corinto e Neméia), já havia mais de duzentos anos de experiência relacionada ao festival em Olímpia, e uma experiência específica das Atenéias, cuja origem remonta a um fundo mítico relacionado a heróis da cidade; mas a perspectiva ampla, com a tendência pan-helênica que ele foi adquirindo, estava certamente ligada ao quadro dos mais importantes festivais gregos, entre os quais o olímpico era o mais tradicional (ver lista 9).
Neils recentemente tratou da questão das Panatenéias em meados do século VI a.C. e a provável influência a partir de outros festivais pan-helênicos, sobretudo o de Olímpia e o de Delfos,25 e algumas propostas interessam bastante aqui. A autora
começa estabelecendo relações entre Atena e Zeus, sobretudo no plano do culto,
23 Atenas, Ágora P 26600. A datação, conforme indica Frel (1973, p. 32) é baseada no contexto
arqueológico. A caracterização do vaso como panatenaico não é clara, mas possível, considerando-se a presença da técnica de figuras negras e a figura de um atleta (?) numa face e de Atena (?) na outra – ambas duvidosas. A figura do atleta é proposta a partir de um esquema figurativo bastante comum para a época (por exemplo, em moedas cunhadas sob Galiano (século III d.C.), Heliogábalo (século III d.C.) e Cômodo (século II d.C.) e, num esquema um pouco diferente, em mosaicos de banhos de Caracala (século III d.C.): trata-se do atleta carregando uma palma numa mão (preservada parcialmente no vaso em questão) e, na outra, levando uma coroa em direção a própria cabeça (o atleta coroando-se); o que, na ânfora da Ágora, é sugerido pela posição alta do braço (não preservado). Para a moeda de Galieno, ver TOURATSOGLOU, 1988, p. 309, no. 38, V5, R19; para a moeda de Heliogábalo, ver SNG Varbanov 1462; para a moeda de Cômodo, ver SNG UK 1085 e para os mosaicos de Caracala, ver NEWBY, 2005, p. 67-86. Quanto à figura de Atena, sua identificação é baseada no quíton longo e da lança vertical (preservados apenas a parte baixa); ou seja, apresenta elementos comuns da figuração da deusa, mas destoando do esquema panatenaico observado até o século I a.C. Há, ainda, que se considerar a base vazada do vaso, o que o caracteriza claramente como um objeto não relacionado ao armazenamento de líquidos.
24 Há alguns indícios (não conclusivos) que sugerem a presença de ânforas panatenaicas
depois do século I a.C., como o Biel Throne (Londres G.R. 2001.5-8.1), datado de 140-143 d.C., que tem a figura de uma mesa agonística em relevo numa lateral, composta pela figura de uma oliveira (ao lado), de guirlandas e de uma ânfora panatenaica. Mas, vale dizer, não se trata de um indício consistente da continuação da produção até essa época.
lembrando que havia uma forte proximidade entre eles – por exemplo, a Atena Polias e o Zeus Polieus;26 mas, pode-se ainda lembrar de Atena Morias e de Zeus Morieus
responsáveis pelas oliveiras sagradas na região da Academia em Atenas, Atena
Archegetes e Zeus Archegetis; Atena Soteria e Zeus Soter, Atena Boulaia e Zeus