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A visão espiritual da vida é o fundamento constante e geral da tradição nyungwe, assim como das outras tradições africanas.233 No pensar de Altuna, “o banto está possuído de um tal sentimento de comunhão com as coisas, que o universo inteiro lhe parece animado e que a

230 ALTUNA, P. Raul Ruiz De Asúa. Cultura Tradicional Banto. Luanda: Edições do Secretariado Arquidiocesano

de Pastoral, 1985, pp. 64-65.

231 REHBEIN, Franziska C. S.Sp.S.. As raízes do mundo africano. In: Candomblé e Salvação, a salvação na

religião Nagô à luz da Teologia cristã. São Paulo: Edições Loyola, 1985, p. 21.

232 EVANS-PRITCHARD, E.E. (Edward Evan). Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande. Rio de Janeiro:

Jorge Zahar Editor, 2005, p. 22.

233 PAULO VI. Mensagem Africae Terrarum, sobre a promoção religiosa, civil e social da África. Petrópolis, 1968,

identidade interna de todas as coisas reveste um aspecto sagrado. A visão espiritual das coisas é a última finalidade da religião e da cultura, o terreno sobre o qual pode crescer”.234

Segundo Paulo VI, na sua visita a África, reconhecendo os valores tradicionais africanos, afirma que:

Não se trata de uma concepção “animista” no sentido emprestado desse termo na história da religião no fim do século passado. Trata-se antes de uma concepção profunda, mais ampla e universal, segundo a qual todos os seres, a mesma natureza visível, acham-se ligados ao mundo do invisível e do espiritual. O homem nunca é concebido apenas como matéria, limitado, finito, mas reconhece-se nele a presença e a eficácia de outro elemento espiritual que faz a vida humana ser sempre posta em relação com a vida do além.235

Segundo Paulo VI, esta relação com o além inclui a idéia de Deus, como presença de um ser Supremo maior, pessoal e misterioso, invocado como Pai, em orações comoventes.236 Estas palavras de Papa Paul VI introduzem-nos na visão africana do mundo e do homem e, de certa forma, a sintetizam. Esta visão encontra-se diluída e subjacente em todas as instituições, sejam comunitárias, políticas, sócio-religiosas, nos diversos traços culturais, como provérbios, contos, lendas, músicas, escultura e ritos.237 Assim, a relação com o ser supremo tem como lugar privilegiado a mediação necessária de outros seres. Desta forma, quebra-se a tensão psicológica existente na experiência de Deus:

a tensão entre a transcendência e imanência é superada harmoniosamente na experiência mística da mediação dos antepassados, ação que a sociedade ritualiza. O homem pode dirigir-se a estes seres com absoluta normalidade, porque ele e eles têm origem comum, porque experimentam existencialmente as mesmas provas da vida e porque os espíritos, agora se encontram dotados de poderes extraordinários que o homem comum não tem. Eles, os antepassados, são o elo de ligação com Deus.238

De acordo com Capossa Romão, o homem é visto como um ser finito, limitado no espaço e no tempo, mas também é ilimitado na medida em que viver como verdadeiramente humano é

234 ALTUNA, P. Raul Ruiz De Asúa. Cultura Tradicional Banto. Luanda: Edições do Secretariado Arquidiocesano

de Pastoral, 1985, p. 51.

235 PAULO VI. Mensagem Africae Terrarum, sobre a promoção religiosa, civil e social da África. Petrópolis, 1968,

pp. 6-7. 236 Idem, p. 7.

237 REHBEIN, Franziska C. S. Sp.S.. As raízes do mundo africano. In: Candomblé e Salvação, a salvação na

religião Nagô à luz da Teologia cristã. São Paulo: Edições Loyola, 1985, p. 22.

238 MARTINEZ, Francisco Lerma. O povo Macua e a sua cultura, Análise dos valores culturais do povo macua no

viver para sempre na companhia dos antepassados. Esse humano tem na sua essência uma trilogia: ele tem um corpo, um sopro e a sombra. A interação entre essa trilogia tem um nome: força vital. O homem nyungwe vive de tal forma que essa força vital não fique enfraquecida. O enfraquecimento dela produz doença e consequentemente morte.239 Essa força vital é o agente escondido que promove a ação, que procura o poder e a eficácia. É a força que se manifesta no ciclone ou na tempestade, na cólera dos antepassados, na energia, coragem e inteligência dos chefes, na árvore gigantesca e na agressividade dos carnívoros. Essa força encontra-se em toda a parte, é vida e energia.240

Em muitos grupos africanos, a pessoa humana como núcleo de relações procura fazer tudo o que estiver ao seu alcance para sustentar a força vital. Altuna critica a superioridade hegemônica européia. No dizer dele,

os europeus devem reconhecer que, julgavam a cultura dos povos africanos incapaz de proporcionar-lhes valores. Porque o Ocidente, desde o seu etnocentrismo, contempla os outros povos com a curiosidade compassiva de quem somente espera gestos exóticos e excitantes pelo seu desassombro, ou infantis e violentos, que merecem correção sem paliativos, e observa só as suas deformações, muitas vezes exageradas".241

Para Altuna, desaparece o fatalismo exclusivo, que tantos têm querido ver em observações superficiais, e descobre-se que o banto é consciente da totalidade coerente do universo. Por isso pode-se falar de uma filosofia global, cósmica, centrada na união vital.242

Em princípio, toda a relação deve estar em função de fortalecer a força vital. Tudo o que é contrário, deve ser banido, pois pode constituir porta de entrada da doença e da morte. Assim, qualquer falha nessa interação de corpo, sopro e sombra diminui a força vital e pode ser fatal.243 Sem a força vital, a existência ficaria paralisada, desprovida de toda a possibilidade de realização. A força vital é o princípio que torna possível o processo vital.244

239 CAPOSSA, Romão F.J.. A doença e a cura entre os Barghwes de Moçambique. In: Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana. Petrópolis: Vozes, n.49-2004/3, 2004. p. 74.

240 REHBEIN, Franziska C. S.Sp.S.. As raízes do mundo africano. In: Candomblé e Salvação, a salvação na

religião Nagô à luz da Teologia cristã. São Paulo: Edições Loyola, 1985, p. 23.

241 ALTUNA, P. Raul Ruiz De Asúa. Cultura Tradicional Banto. Luanda: Edições do Secretariado Arquidiocesano

de Pastoral, 1985, p. 51.

242 Ibidem

243 CAPOSSA, Romão F.J.. A doença e a cura entre os Barghwes de Moçambique. In: Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana. Petrópolis: Vozes, n.49-2004/3, 2004. p. 74.

244 REHBEIN, Franziska C. S.Sp.S.. As raízes do mundo africano. In: Candomblé e Salvação, a salvação na

Altuna afirma que, embora os banto não desconheçam o aspecto essencial, estático do ntu (ser), o certo é que não os preocupa a ordem das essências. Consideram os seres na sua realidade existencial. Vêem forças concretas, dinâmicas e ativas que não permitem uma visão-interpretação puramente abstrata e estática do universo. A sua ontologia fundamenta-se no dinamismo do ser, que leva, desde a participação vital, à inter-ação permanente. Por isso o ntu é capaz de aumentar ou diminuir. O ntu é dinâmico e é neste sentido que se pode falar de Dinamonologia banto.245

Laplantine ao falar da “Antropologia dos Sistemas Simbólicos”, afirma que, “o conjunto do edifício das sociedades africanas baseia-se numa filosofia e até numa ontologia que comanda a concepção toda que se têm do mundo e das relações dos homens na sociedade”.246

Portanto, a respeito da concepção espiritual da vida, o elemento comum importantíssimo é a idéia de Deus, como causa primeira e última de todas as coisas. Segundo Paulo VI:

esse conceito, percebido mais do que analisado, vivido mais do que pensado, exprime-se de modo bastante diverso de cultura para cultura. Na realidade, a presença de Deus penetra a vida africana, como a presença de um ser superior, pessoal e misterioso. A ele se recorre nos momentos mais solenes e críticos da vida, quando a intercessão de qualquer outro intermediário se julga inútil. Quase sempre, posto de lado o temor da onipotência, Deus é invocado como Pai. As orações a Ele dirigidas, individuais ou coletivas, são espontâneas e por vezes comoventes. E entre as formas de sacrifício sobressai pela pureza do significado o sacrifício das primícias.247

Paulo VI demonstra nesta Encíclica o bom entendimento que ele tinha dos valores tradicionais africanos, e da visão de mundo que o homem africano tem. Reconhece os valores e põe a anterioridade de Deus acima de tudo. O Sumo Pontífice reconhece ainda que:

A igreja considera com muito respeito os valores morais e religiosos da tradição africana, não só pelo seu significado, mas também porque neles vê a base providencial sobre que pode transmitir a mensagem evangélica e encaminhar a construção da nova sociedade em Cristo, como Nós mesmos o ressaltamos quando da canonização dos mártires de Uganda, primeiras flores de santidade cristã da nova África, saídas da cepa mais viva da antiga tradição. O ensinamento de Jesus Cristo e a sua redenção constituem, de fato, o cumprimento, a renovação e o aperfeiçoamento de tudo o que de bom existe na tradição humana. Eis por que o africano, quando se torna cristão, não se renega a

245 ALTUNA, P. Raul Ruiz De Asúa. Cultura Tradicional Banto. Luanda: Edições do Secretariado Arquidiocesano

de Pastoral, 1985, pp. 51-52.

246 LAPLANTINE, François. Aprender Antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2007, p. 113.

247 PAULO VI. Mensagem Africae Terrarum, sobre a promoção religiosa, civil e social da África. Petrópolis:

si mesmo, mas retoma os antigos valores da tradição em espírito e em verdade.248

Portanto, é em vista deste propósito que a pesquisa procura aprofundar os valores da tradição africana e o seu espaço no âmbito teológico. O sujeito africano nyungwe, ele tem a sua própria forma de ver, perceber e interpretar o mundo. Ele busca interpretar os vários fenômenos no seu meio e procura encontrar soluções para os problemas que desequilibram a vida. Entre os perigos que ameaçam a vida está a doença, da qual nos ocuparemos no capítulo asseguir.

Entendemos no nosso estudo que, as preocupações e inquietações do homem concreto africano são igualmente espaço para se teologar, pois as mesmas constituem um grande desafio pastoral do qual o povo precisa se libertar. Segundo Rahner, “a teologia de hoje e de amanhã deve estar orientada ou caminhar em direção a uma antropologia transcendental”.249 Assim, um

aprofundamento minucioso da cosmovisão do povo em estudo pode contribuir para um entendimento, de como é que o povo africano pensa a doença, saúde e cura e em seguida, buscaremos entender como é que os cristólogos africanos estão relendo a cristologia, a partir das categorias e condições sócio-culturais do continente africano.

248 Op. Cit., p. 9.

CAPÍTULO III