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4.2 Hva skjedde?

A igreja de S. João Baptista de Moura (Fig. 99), que foi objecto de estudo desenvolvido por Jorge Segurado, ficou concluída em 1502385. O seu tracista, segundo aquele autor, teria sido Boytac, devido à semelhança com a matriz da Golegã, enquanto a direcção das obras pertenceria a Cristóvão de Almeida. Para José Custódio Vieira da Silva386, esta atribuição não se afigura convicente, apresentando a cabeceira como elemento fundamental da diferenciação. Enquanto na Golegã surge o modelo mais tradicional de abside com dois absidíolos, em Moura a disposição adoptada, embora já a tenhamos detectada na Lourinhã, é mais recente: suprimem-se os 382 Ibidem. 383 Ibidem, pp. 138 e 139. 384 Ibidem, p. 139. 385

SEGURADO, Jorge, Data da igreja manuelina de S. João, em Moura, o. c., p. 41 (cit. por SILVA, José Custódio Vieira da, O Tardo-Gótico em Portugal, A arquitectura do Alentejo, p. 120).

absidíolos, substituídos por altares simples. Além da diferença que implica a leitura em planta, transforma completamente a organização do espaço e a exterior dos volumes. A solução adoptada em Moura proporciona do edifício uma leitura que a sua simplificação torna mais clara, de acordo com a tendência mediterrânica e a sensibilidade mudéjar assinalada, a partir da igreja da Conceição de Beja.

Outra diferença fundamental é a disposição da torre sineira. Elemento que, por ser insígnia de tempo paroquial, raramente aparece em templos conventuais, destaca-se por completo, como volume independente, na fachada da matriz da Golegã; em Moura, embora se localize em zona idêntica da fachada, funde-se quase com esta, sendo a sua leitura plena apenas possível em volume, já que, em planta, só um ligeiro ressalto da parede em que nasce a acusa. É um aspecto que nos parece também fundamental: integrada no todo da fachada, a torre sineira contribui eficazmente para a sua unidade, grande pano liso em que se destacam, unicamente, a porta e o óculo de iluminação. É, de novo, a integração na sensibilidade mediterrânica e mudéjar das grandes superfícies lisas de alvenaria387.

Escapou à observação de Jorge Segurado o facto de o abobadamento das naves (Fig. 100) de S. João Baptista de Moura não poder ser obra levantada em 1502. São três abóbadas de canhão, construídas em alvenaria, e não podem, de modo nenhum, ter sido levantadas no princípio do século XVI. O facto de a grossura dos muros do corpo da igreja de Moura, salientado por Jorge Segurado, ser maior que os da matriz da Golegã, prende-se com a existência, nesta, de contrafortes que na primeira, precisamente pela maior espessura dos muros, se dispensaram. A provável cobertura de madeira tornava-os desnecessários. Deste modo, convertem-se em mais um elemento que, em oposição aos contrafortes da igreja da Golegã, implica diferença fundamental na técnica construtiva utilizada: em Moura, é de novo a marca das mãos mudéjares a estar presente, emergindo, da leitura exterior do templo, o seu aspecto compacto, de volumetria simples e claramente acusada, mesmo que, na construção primitiva, o exterior apresentasse uma fisionomia diferente, resultante da desigual elevação das naves388.

No interior do templo (Fig. 100), os pilares definidores das naves são também elemento importante de caracterização. Totalmente diferentes do da igreja da Golegã, apresentam-se com o fuste oitavado, o que, a atendermos à datação proposta por Jorge

387

SILVA, José Custódio Vieira da, O Tardo-Gótico em Portugal, A arquitectura do Alentejo, p. 122.

Segurado, os constitui, segundo José Custódio Vieira da Silva389, em primeiro exemplo de pilares desse tipo a ser usado no tardo-gótico português, precisamente no mesmo ano em que se começava a erguer a igreja dos Jerónimos, onde os pilares oitavados irão atingir a sua máxima expressão. Em Moura, as bases são características do tardo- gótico, bem como os anéis de decoração vegetalista, que substituem os respectivos capitéis. Os ábacos, muito desenvolvidos, são de oito lados curvos e decoram-se com as meias esferas que, pouco antes, Boytaca aplicara também na igreja de Jesus de Setúbal e que, na obra da igreja de N.ª S.ª do Pópulo das Caldas da Rainha, ornam também as mísulas exteriores das gárgulas390.

Admite-se que não será forçar demasiado ligar o aparecimento de pilares oitavados (que já foram referenciados, embora de proporções diferentes, nos colunelos do claustro afonsino da Batalha e do convento de Varatojo), às influências do gótico catalão na arquitectura do tardo-gótico alentejano. Na verdade, as igrejas dessa zona mediterrânica, bem como algumas galerias dos típicos pátios catalães ou de claustros conventuais, utilizam de preferência essa forma arquitectónica. Referem-se, por exemplo, a igreja de Santa Maria del Mar, a catedral de Palma de Maiorca e a igreja de Santa Maria de Cervera.

A cabeceira da igreja de S. João Baptista de Moura, de planta rectangular e com gigantes nos ângulos, coroou-se (talvez em época posterior) de merlões chanfrados e de remates cónicos nos contrafortes. Juntamente com a cobertura em terraço, contribui para integrar plenamente este edifício, em conjunto com outros elementos já analisados, no tardo-gótico alentejano. Será de assinalar, ainda, o facto de os contrafortes escalonados terem o seu terceiro andar, que é definido por chanfros em papos de rola, transformado em prisma cujos lados frontais se dispõem em cunha. Aparecidos primeiro nos gigantes do corpo da igreja de Jesus de Setúbal, serão adoptados também na igreja dos Jerónimos de Lisboa, na antiga sé de Elvas e na igreja da Madalena de Olivença391.

O portal principal (Fig. 101) é elemento completamente novo no panorama do tardo-gótico alentejano. Em primeiro lugar, já não se apresenta rasgado em pano de muro saliente, como era uso então, constituindo o dos Lóios de Évora a última sobrevivência. Agora, a abertura desenvolve-se apenas na espessura das paredes em 389 Ibidem, p. 123. 390 Ibidem, p. 123. 391 Ibidem, p. 124.

que se insere. Muito desenvolvida (ocupa metade da altura total da fachada), a porta de S. João Baptista de Moura apresenta uma feição do tardo-gótico internacional, embora com tratamento português. As ombreiras são constituídas por dois colunelos de diferente espessura, apresentando o exterior caneluras espiraladas, ornadas com meias esferas pouco salientes. Entre ele e o colunelo interior, mais delgado e liso, o espaço alarga-se e enche-se de uma decoração desenvolvida que nasce de um entrançado grosso: no lado esquerdo (Fig. 102), bem desenhadas folhas de cardo (que mais parecem de acanto); no lado direito, grossos ramos ondulantes de possível azinheira, que as as bolotas identificam, prolonga-se a toda a extensão da moldura trilobada que encima o lintel de arco segmentar392. Os capitéis ficam reduzidos a anéis com decoração vegetalista e, sobre os ábacos, ambos os colunelos se prolongam em moldura. A exterior é torsa e, numa primeira inflexão, desenha três arcos sobre a verga da porta, enquanto outro ramo se eleva e desenha o arco contracurvado. Entre elas, o emblema de D. Manuel – a esfera armilar -, ladeia o escudo português. A moldura mais interior, lisa, desenha o mesmo trilobado da primeira moldura, abrigando sob os seus arcos duas rosetas e um escudo. De assinalar, ainda a existência de dois pináculos cujo arranque se efectua ao nível dos capitéis e que, com a sua feição de tardo-gótico internacional, contribuem para acentuar um pouco a elevação do largo portal. Esse sentido de elevação é bem preciso para equilibrar o peso dos desenvolvidos socos sobre que assentam as bases dos colunelos e que parecem querer agarrar com força, dando-lhe estabilidade, o portal à terra393.