Nunca houve essa candidatura. Isso é simplesmente invenção dos jornais e do palácio do Planalto, da turma que queria rifar o Frota porque ele fazia restrições ao candidato do governo, o general João Figueiredo. Nunca passou pela cabeça do Frota ser candidato a presidente da República. Ele conhecia a si próprio e sabia que carecia de flexibilidade para ser político ou presidente. Nunca pensou nisso. Não tinha o necessário jogo de cintura, era um homem de princípios rígidos, meio maniqueís ta. Não via muito o cinza: via o branco e o preto. Não tinha perfil adequado para nenhuma função civil, muito menos para presidente. Sempre foi o avesso de qualquer coisa política, porque diz o que pensa e sustenta seu pensamento até o fim: não muda de opinião.
Mas quando começaram a falar na sucessão do Geisel, e a candidatura do Figueiredo começou a ser insinuada pelos jor nais, o Frota não achou conveniente. Figueiredo era um gene ral-de-brigada e, para chegar aos altos postos, teria que ultra passar muita gente muito boa, com reais prejuízos à hierarquia militar e ao Exército. Para o Frota, dentro da rigidez dos seus princípios, Figueiredo era muito moderno para comandar ge nerais de três e quatro estrelas. Além disso, ele fazia restri ções, não ã capacidade intelectual e profissional do Figueiredo, mas ao seu comportamento civil. Não que o Figueiredo, na minha opinião, merecesse essas restrições. Não era pior nem melhor do que a maioria dos homens brasileiros. Mas para um
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homem como o Frota, com tanta rigidez de princípios, era altamente inconveniente pensar-se no Figueiredo para substi tuir o Geisel.
Aí, na minha opinião, o Frota fez uma tolice. Foi ao general Geisel, ainda no decorrer de 1977, e disse: "Presidente, estão falando na candidatura do João, e eu não acho conveniente." Geisel respondeu: "De modo algum isso passa pela minha cabeça. Você pode se tranqüilizar. Eu só vou cogitar da suces são em 1978." A partir daí, os jornais começaram a fazer uma série de insinuações sobre a candidatura Frota. Certa vez eu lhe sugeri que fizesse um desmentido, mas ele me declarou: "Não quero conversa com a imprensa. Não é do meu feitio." Insisti, dizendo: 'Tenho informações, de jornalistas conheci dos, de que essas notícias estão chegando aos jornais manda das pelo Planalto.
É
o pessoal do Planalto que está colocando isso na imprensa para queimá-lo.É
a turma do Golberi, do Humberto Macedo, da Caixa Econômica e do Heitor de Aquino. O senhor tem que desmentir." E ele: "Não, não quero conversa com a imprensa." Começou aquela onda, com os jornais cada dia publicando mais coisas sobre a candidatura Frota. Eu conversava com jornalistas influentes e afirmava:"É
mentira." Mas eles retrucavam dizendo que tinham informações do Pla nalto. O Frota também tinha informações seguras de que os boatos eram planaltinos. Sabia disso, não só através do Hugo Abreu, como também através do chefe da Agência Central do SNI. Ele tinha informações desse lado, e eu tinha outras vindas dos meus informantes. Eu estava servindo na Bahia nessa época e tinha meus contatos políticos. Aí, houve uma ofensiva muito grande na Cãmara para lançar a candidatura dele, liderada pelo Jaime Portela de Melo, com quem o Frota não se dava muito bem. Quer dizer, eles se davam formalmen te, mas não se beijavam muito. Veja bem: o Jaime Portela agiu sozinho, empurrado pelo Planalto, pelo Golberi et caterva, e se apresentou como o grande articulador da candidatura do Frota na Cãmara sem ter qualquer credencial para isso. Aliás, pos teriormente, depois da defenestração do Frota, o filho do Jaime Portela foi nomeado diretor do Banco do Brasil. Pode ter sido a recompensa ...Se o Frota tivesse qualquer pretensão política, teria dito a mim. E nunca me disse nada a esse respeito. Por outro lado, seus amigos mais leais jamais lançaram sua candidatura. Tudo isso me deixava bastante desconfiado, e os palacianos começaram a ter receio de mim porque sabiam que o Frota se aconselhava comigo. Então, obstavam de todo jeito qualquer espécie de conversação entre nós, até que um dia recebi um aviso de um oficial da minha confiança - minha cria -, chefe da Seção de Operações do SNI, que me disse: "General, recebi ordem de grampear pessoalmente todos os seus telefones do Rio." Digo:
"É
muita tolice grampear os meus telefones, porque sou profissional e não falo por telefone nada que não possa falar. Deixa grampearem." E me disse mais: "Recebi notícia de que a agência de Salvador também recebeu ordem de gram pear seus telefones na Bahia." Aceitei: "Está bem. Pode gram pear."No dia 9 de setembro, o Frota foi a Salvador com o presiden te e demais ministros para assistir à chegada de uma nova fragata, e eu fui o anfitrião. Ficamos, eu e ele, discutindo durante dois dias e duas noites, e eu ponderava: "O senhor não pode simplesmente dizer que não considera o Figueiredo uma boa escolha. Tem que apontar alguém que considere bom. Assim o senhor também se livra da pecha de estar querendo ser candidato." Olhamos o Almanaque do Exército de baixo para cima, de cima para baixo, e não havia nenhum general de-exército na ativa que ele considerasse em condições para o cargo. Realmente, não havia nenhum militar de quatro estre las no Exército, na Marinha, ou na Aeronáutica, que tivesse um perfil adequado. Dos híbridos, como nós dizíamos, havia dois que considerávamos apenas razoáveis: Passarinho e Nei Braga. Assim, como não havia opções entre os militares da ativa e da reserva e entre os híbridos, tentamos descobrir um nome civil. Mas quem? Frota perguntava: "Quem eu posso indicar? Não vou indicar ninguém." Eu lhe disse: "Bom, pelo andar da carruagem, o senhor já está totalmente incompatibi lizado com o Geisel." E ele: "Ah, então vou me embora e digo as coisas que acho devo dizer." Concordei: "Está bem. O melhor é o senhor ir embora."
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