Na exposição dos “episódios” de Fátima, temos um discurso relatado, uma vez que os fenômenos que ali se processaram têm como protagonista (terrestre) uma criança de 10 anos e não-alfabetizada. Embora os textos que encerram a fala dos sujeitos envolvidos na ação discursiva sejam uma transcrição dos manuscritos de Lúcia, como testifica o seguinte enunciado:
Os diversos relatos redigidos pela Irmã Lúcia são habitualmente designados como memórias I, II, III e IV (...). Para satisfazer o desejo dos leitores de uma maior autenticidade quanto ao conteúdo das mensagens de Fátima, revimos a versão anterior deste trabalho com base nos manuscritos da Irmã Lúcia ora publicados (...) (Machado, 1983, p. 23-28),
é certo que ela só teve condições de registrar suas experiências, após ter sido alfabetizada. Portanto, trata-se de uma enunciação enunciada que tem como sujeito
da emissão um locutor que relata fatos por ele “vivenciados” e um enunciador que se apresenta na perspectiva desse mesmo locutor.
Já nos discursos das “vidências” ocorridas em terras brasileiras, temos uma produção “em se fazendo” (cf. Koch, 1995, p. 69), pois eles são escritos ou enunciados durante o processo mesmo da “alocução”.
Em todos eles, porém, há um processo enunciativo onde figura um locutor da esfera celeste que interage, no plano da fé, com um alocutário do plano terrestre cujo “objeto de dizer” é um sujeito ou delocutário, ora do plano temporal, ora do plano espiritual.
No que se refere ao perfil sócio-cultural e religioso dos “videntes” de Fátima, urge esclarecer que:
1º. As três crianças eram filhas de camponeses, como atesta o seguinte enunciado:
As três crianças moravam (...) em Aljustrel, lugarejo da freguesia de Fátima. As aparições se deram numa pequena propriedade dos pais de Lúcia, chamada Cova da Iria, a dois quilômetros e meio de Fátima, pela estrada de Leiria (Machado, 1983, p. 35).
2º. Além de analfabetas levavam uma vida de muita simplicidade, segundo o depoimento abaixo:
Antes de mais nada, a própria vida e cultura dos pastorinhos depõe a favor deles. Seu nível de instrução era nulo. Nenhum deles aprendera a ler e escrever e nem sequer sabiam quem era o papa. Ademais, eram um tanto tímidos e ressabiados pela falta de contacto com gente estranha. (Dias, 1999, p. 61)
3º. No tocante ao grupo familiar, existe indicação de que, pelo menos no início, as crianças não desfrutavam de credibilidade quanto aos fenômenos em que se diziam envolvidas. É o que atesta o seguinte excerto:
A Irmã Lúcia pôs-se a escrever, entre os dias 7 e 21 de novembro daquele ano (1937) – após nova ordem de D. José Alves Correia da Silva – a história de sua vida (...); as críticas e zombarias surgidas (...) e as repreensões severas de sua mãe, induziram-na sempre a uma grande cautela e discrição. (Machado, 1983, p. 25).
4º. Tiveram de enfrentar desconfianças e perseguições não só da família como também de autoridades religiosas, civis e militares, de acordo com Dias (1999, p. 58):
Embora já fossem boas, normais e piedosas, essas crianças após as aparições do Anjo e da Virgem, têm tal maturidade espiritual (...) que tiveram fortaleza para fazer frente aos familiares, sacerdotes, policiais, autoridades e, inclusive, estiveram dispostas ao martírio; prudência para saber o que responder ou calar nos múltiplos interrogatórios que suportaram.
5º. Considerando que os três videntes (especialmente Lúcia que já estava com a idade de 10 anos) ainda não estavam alfabetizados, não é difícil inferir que seus pais eram também analfabetos, algo comum nas famílias camponesas da época.
6º A devoção ao Imaculado Coração de Maria surgiu, na Igreja Católica, a partir dos episódios de Fátima (Segunda Aparição).
Em relação a Angüera, o “vidente” tinha 18 anos, quando do início dos “acontecimentos”. Fez o curso de magistério e nunca estudou teologia. Seu nível de linguagem não é o padrão, como comprova o seguinte excerto de uma entrevista gravada no dia 21 de abril de 2001:
Falá pra professores, já pensou? Pobre de Pedro, né? Mais uma vez eu fui convidado pra falá na Universidade Federal de Aracaju, parece. É Federal aquela Universidade, né? Aí eu fui lá falá de muitos professores. É interessante porque depois de todo o meu falá, depois de duas horas e meia ou três, rezamos o terço e Nossa Senhora apareceu... Ajudem a divulgá os apelos de Nossa Senhora... Nosso maior valô, a gente descobrirá olhando pra Jesus na cruz.
Num cotejo deste discurso com outro que o “vidente” diz ser da Mãe de Jesus, produzido no mesmo dia, percebemos que os dois apresentam notáveis diferenças.
Queridos filhos, vós sois importantes para a realização dos meus planos. Sois os maiores tesouros de Deus na terra. E se soubésseis o quanto sois amados, choraríeis de alegria. Peço-vos que fujais do pecado por menor que seja, e se vos acontecer cair, chamai por Jesus, que é a vossa força e salvação. Deus não quer condenar a humanidade, mas peço-vos que estejais atentos para não cairdes nas mãos do inimigo. Hoje o pecado se alastrou como a pior de todas as epidemias, causando estragos em muitas almas. Arrependei-vos depressa. Confiai na misericórdia do Senhor. Ele deseja o vosso retorno. Não recueis. Pedirei ao meu bom Jesus por vós e pelas vossas necessidades. Coragem! Esta é a mensagem que hoje vos transmito em nome da Santíssima Trindade. Obrigada, por me terdes permitido reunir-vos aqui por mais uma vez. Eu vos abençôo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ficai em paz.
Esse último discurso, no dizer dos compiladores das mensagens não é escrito, mas ditado, como testifica, Apelos Urgentes de Nossa Senhora de Angüera Rainha da Paz em Angüera, Bahia (2000, p. 05):
Como Nossa Senhora pediu, todos os sábados Pedro volta ao lugar das aparições, onde foi erguida uma cruz a pedido Dela, e Maria dita uma mensagem. No início não tinha energia, mas a luz que irradiava de Nossa Senhora possibilitava que Pedro enxergasse o papel em que ele escrevia as mensagens ditadas pela Mãe de Jesus.
Vendo por esse prisma, tal discurso, pode ser considerado como língua oral com as peculiaridades do registro culto padrão.
Quanto aos pais do “vidente”, trata-se de pessoas simples, donos de uma pequena fazenda agropecuária – a Fazenda Malhada – palco das “aparições”, e residência da família (pais e filhos), conforme consignado na mesma obra (p. 06):
Pedro tem 14 irmãos, todos católicos praticantes que foram sempre orientados pelo seu pai, Sr. Jonas e sua mãe, Dona Amália. São pessoas simples, acolhedoras que vivem do cultivo do feijão, do milho, da mandioca e da providência divina. (Alves, 2000, p. 06) Do “vidente” de Itaperuna, podemos assinalar que é filho de pais católicos, mas sem significantes conhecimentos teológicos. Seu pai é pequeno comerciante e a mãe, professora, conforme testifica o excerto abaixo:
Rodrigo Ladeira Carvalho, 18 anos, solteiro, estudante e escriturário (...) Pais: Roberto da Silva Carvalho (comerciante) e Nilva de Pinho Ladeira Carvalho (professora). Tudo começou numa manhã nublada, do dia 24 de maio de 1995, quando o Rodrigo ia para o trabalho de bicicleta. Em locução interior (sem saber o que era), ouviu algo que lhe afirmava (não era intuição): “Hoje o sol irá raiar”. (Nossa Senhora Mãe do Infinito Amor, 2001, p. 9).
Já o “vidente” de Jacareí, na época em que os acontecimentos tiveram início, tinha apenas 14 anos. É de família pobre e não possuía nenhuma inclinação para qualquer intensidade espiritual, pois segundo sua própria afirmação, só sabia rezar o Pai Nosso e a Ave Maria (cf. Marcos Tadeu, 2000, p. 130).
No tocante à direção espiritual dos “videntes”, é importante ressaltar que ela não interfere no conteúdo das mensagens. Sua função é exatamente ajudar essas pessoas que se dizem depositárias de revelações particulares, no discernimento desses fenômenos.
Em sua autoridade (Papa, Bispos, Presbíteros), a Igreja Católica sempre age com muita cautela diante desses casos, como testemunham as palavras abaixo:
Os critérios de veracidade para se discernir se os fenômenos místicos são de origem divina ou meramente humana, há que se usar de certas normas imprescindíveis: Quando tais manifestações se apresentam com imposições, com datas marcadas para algum acontecimento, com elementos evasivos e alheios mesmo à própria revelação, elas são de origem diabólica, assinaladas pelo orgulho e soberba dos que as impõem aos outros. Quando são doentias, causadas por desvios psíquicos, falta-lhe objetividade, falta-lhes o senso do real e do realizável; são vagas, muito vagas. Quando são de procedência divina, elas são lindas, harmônicas, causam paz e gozo interiores (...); combinam com perfeição ao evangelho, e submissas á autoridade religiosa, seguem os critérios de santidade da Igreja. Nada acrescentam à Revelação, mas com agudeza e luminosidade incríveis aclaram partes de doutrina que nem mesmo bons teólogos chegam a intuir. (DELFINA, Gilberto Maria. As revelações particulares. São Paulo, 24/02/93. IN GOMES, Dr. Luiz. O terceiro segredo de Fátima, 1993, p. 10).
Esses depoimentos atestam que nem a família dos “videntes” e nem as autoridades eclesiásticas têm qualquer responsabilidade no conteúdo ou na estrutura lingüístico-discursiva das mensagens que integram o “corpus” deste trabalho. No que se refere à Igreja, notamos que é examente o especular dos ensinamentos bíblicos e eclesiásticos que a Igreja toma como um dos critérios de julgamento da autenticidade das Revelações Particulares, conforme já mostrado na introdução desse capítulo (p 69). Quanto às famílias, trata-se de pessoas simples, sem qualquer profundidade no campo da teologia.
Antes de proceder à atividade analítica, convém esclarecer que todos os textos que constituem o “corpus” desta tese foram coletados das obras:
1. As aparições e a mensagem de Fátima conforme os manuscritos da Irmã
Lúcia (MACHADO, Antônio Agusto Borelle (1993) – Fátima.
2. Apelos urgentes de Nossa Senhora Rainha da Paz em Angüera, na Bahia
(CERCHIAARI, Maria do Socorro Chaves, 1993) – Angüera.
3. Jesus e Maria nas aparições de Jacareí (MARCOS TADEU, 2000) –
Jacareí.