1 Innledning
1.4 Videre fremstilling
2.2.2 Hva menes med at gjerningspersonen må ha vært «psykotisk»?
Será abordado aqui a maneira como entendemos o corpo cinematográfico presente na obra de Gaspar Noé, e a forma pela qual ele faz uso dos elementos constituintes de uma estética do corpóreo, algo que observamos ser explorado esteticamente ao máximo em suas narrativas. O realizador torna o corpo um elemento
que fala tanto quanto a palavra para assim realizar cada cena da maneira mais crível possível.
Além disso, o modo como o corpo é cruelmente exposto no cinema de Noé assegura um modelo para se mapear como esse estilo agressivo de fazer cinema reflete um olhar profundamente niilista sobre o ser humano, além de tornar visível uma observação crítica extrema sobre as relações morais, éticas e políticas da sociedade francesa contemporânea. Esse olhar extremo perpetrado pelo cineasta acaba por localizá-lo dentro da tendência do cinema francês rotulada de New French Extremity.
O rótulo New French Extremity, que pode ser lido como ‘Novo Extremismo Francês’ ou ‘Nova Extremidade Francesa’ apareceu pela primeira vez no ensaio Flesh and Blood: Sex and Violence in Recent French Cinema, escrito pelo crítico americano James Quandt e publicado pela primeira vez em Artforum, em 2004, e reeditado em 2011 para a coleção de ensaios The New Extremism in Cinema: From France to Europe, por Tanya Horeck e Tina Kendall.
O termo foi criado por James Quandt com o intuito de contextualizar um estilo de cinema produzido na França desde a década de 1990, o que o crítico descreve até certo ponto pejorativamente: como uma “moda crescente de táticas de choque”17 (QUANDT, 2011, p.21 - tradução nossa e grifo no original).
Bava, tanto quanto Bataille, Salò não menos do que Sade parecem os determinantes de um cinema de repente disposto a quebrar todos os tabus, para avançar em rios de vísceras e espumas de esperma, para preencher cada quadro com carne, núbil ou retorcida, e submetê-la a todo o tipo de penetração, mutilação e profanação18 (QUANDT, 2011, p.76 - tradução nossa).
Um cinema extremamente transgressor produzido para “quebrar todos os tabus” e cuja estética hiper-realista tem como objetivo principal estimular a sensorialidade do espectador, principalmente para causar-lhe incômodo. Filmes em que histórias de drama pessoal, acompanhadas de terror físico e psicológico, privilegiam a apresentação gráfica, incondicional e sádica da violência e do sexo explícitos. Desse movimento, realizadores como Catherine Breillat, Marina de Van, Claire Denis, Bruno Dumont,
17‘growing vogue for shock tactics’.
18Bava as much as Bataille, Salò no less than Sade seem the determinants of a cinema suddenly determined to break every taboo, to wade in rivers of viscera and spumes of sperm, to fill each frame with flesh, nubile or gnarled, and subject it to all manner of penetration, mutilation, and defilement.
Gaspar Noé, François Ozon e Philippe Grandrieux, entre outros, pontificam como principais representantes (QUANDT, 2004), apesar de suas dessemelhanças.
Ao mapear os cineastas desse novo estilo de cinema, Quandt identifica que as respectivas obras têm propósitos muito díspares, para que o ‘Novo Extremismo Francês’ seja considerado como um movimento, apesar de enxergar-se [nelas] uma tendência e uma reconfiguração da estética do choque. Em consonância com o pensamento de Quandt, as autoras Tanya Horeck e Tina Kendall apontam para essa mesma premissa. De acordo com a justificativa das autoras
Dessa mesma forma, queremos deixar claro que nós não vemos o ‘novo extremismo’, como o rótulo coletivo para um novo ‘gênero’ ou ‘movimento’. O trabalho de cineastas associados ao novo extremismo não equivale a um ‘estilo’ coletivo, e os filmes considerados (...) evocam e muitas vezes desconstróem uma série de tropos genéricos em vez de constituir um coletivamente19 (HORECK e KENDALL, 2011, p.31 - tradução nossa e aspas no original).
Refletindo sobre o contexto histórico do atual ‘Novo Extremismo Francês’, Horeck e Kendall argumentam ainda que, ao enfatizar-se esse ‘movimento’ a partir da França, não se pressupõe deixar de lado questões de especificidade nacional, estética, socioeconômica ou política, em favor de uma abordagem a-histórica ou descontextualizada da representação do sexo e da violência no cinema. Pelo contrário, tenta-se evidenciar que tal tendência deve ser analisada através de uma visão crítica, localizando histórica e ideologicamente como tais estratégias extremas foram adotadas e representadas e comparando-as, em relação a outros contextos cinematográficos precedentes e diversos.
Ainda de acordo com Horeck e Kendall, a representação artística explícita do sexo e da violência são recursos compartilhados por uma série de outras tendências globais no cinema contemporâneo, como o ‘torture porn’ – termo utilizado por LOCKWOOD (2009); o ‘the new brutality film’ – rótulo empregado por GORMLEY (2005); ou o ‘Asia Extreme Cinema’ – nomenclatura usada por CHI-YUN SHIN (2008) (HORECK e KENDALL, 2011). No esforço de contextualizar o ‘Novo Extremismo Francês’, recorrendo-se às autoras Horeck e Kendall, estas apontam ainda outros
19Similarly, we want to make clear that we do not see the ‘new extremism’ as the collective label for a new ‘genre’ or ‘movement’.The work of film directors associated with the new extremism does not amount to a collective ‘style’, and the films considered (…) evoke and often deconstruct a range of generic tropes rather than constituting one collectively.
trabalhos acadêmicos sobre esse corpus de filmes que preferiram outros termos cognatos como: ‘cinema of sensation’ (BEUGNET, 2007); ‘cinéma du corps’ (PALMER, 2006); ‘cinéma brut’ (RUSSELL, 2010) e ‘extreme realism’ (WILLIAMS, 2009). E embora se perceba uma diferença na escolha dos termos usados, todos esses estudiosos concordam que a fisicalidade explícita e gráfica constitui uma tendência significativa nesse novo cinema francês desde os anos de 1990 (HORECK e KENDALL, 2011).
Ainda, segundo as duas autoras, embora esses filmes frequentemente sejam julgados como agressivos e reacionários, devido às complexas e contraditórias formas explicitamente gráficas pelas quais abordam o sexo e a violência, elas argumentam que as obras em questão, e as controvérsias por elas engendradas, são indispensáveis como um novo modelo localizado entre o final do século XX e o início do século XXI para se interrogar a relação entre o cinema e os seus espectadores.
Relatos de desmaios, enjoos e abandono em massa das salas de exibição têm caracterizado a recepção desse grupo de filmes, cujas imagens brutais e viscerais são pensadas e projetadas deliberadamente para chocar e provocar o espectador. E é exatamente esse apelo inflexível e, simultaneamente, autoreflexivo para o espectador o que se coloca como mais uma especificidade dessas obras.
Os filmes do novo extremismo trazem a noção de resposta à tona devido a sua prática de provocação como uma maneira de endereçamento, ao interrogar, desafiar e, muitas vezes destruir a noção de espectador passivo ou desinteressado o que, tendo em vista o modelo consolidado do cinema mainstream, realmente tem contribuído para extirpar a apatia do espectador contemporâneo.
Em relação ao cenário que veio a se desenhar através da nova onda extrema desde os anos de 1990, algumas características têm sido igualmente encontradas e compartilhadas pelos realizadores desta tendência, principalmente a opção por uma fisicalidade explícita e gráfica, como já se disse, um desrespeito ou hibridização das fronteiras de gêneros cinematográficos, e uma inclinação para combinar uma estética marcada por um cinema de arte em comunhão com “(...) táticas de choque tradicionalmente associadas com o gore, a pornografia, e o horror”20 (BEUGNET, 2011, p. 26 - tradução nossa), unidas a “(...) ‘atos chocantes’, tais como estupro, necrofilia e automutilação”21 (Ibid. Tradução nossa e aspas no original).
20(...) shock tactics traditionally associated with gore, porn, and horror. 21(…)‘shocking acts’, such as rape, necrophilia and self-mutilation.
E talvez seja exatamente por essa imbricação entre a estética de um cinema de arte com táticas de choque associadas aos gêneros ‘menores’ horror e pornográfico que os realizadores dessas obras tendem a representar seus temas controversos e polêmicos por meio de técnicas que aumentam o envolvimento via sensações e afecções do público, colocando em primeiro plano a questão da resposta do espectador de maneira à, segundo James Williams, “[nele unir] o intelectual e o visceral”22 (WILLIAMS apud HORECK e KENDALL, 2011, p.26 - tradução nossa e grifo no original).
Outros estudiosos têm contribuído para as discussões em torno da tendência extrema do cinema europeu contemporâneo, com maior ênfase ao novo extremismo francês, como Scott MacKenzie, que têm explorado a forma como os filmes do novo extremismo francês “(...) questionam profundamente a cumplicidade do espectador nos atos de voyeurismo (...)”23 (MACKENZIE, 2011, p. 27 - tradução nossa), Richard Falcon que detalha o que ele chama de “um desejo agressivo de confrontar (...) a audiência, para tornar a experiência do espectador problemática”24 (FALCON, 2011, p. 28 - tradução nossa e aspas no original) e Catherine Wheatley que reflete sobre a ‘agência espectatorial’ e a ‘reflexividade ética’25 presentes no novo extremismo francês (WHEATLEY, 2011, p. 29-30 - tradução nossa e aspas no original). Em todos os estudos, esse fenômeno cinematográfico é tratado como uma marca ou tendência que reúne uma série de abordagens estéticas, temas e preocupações cuja ênfase se encontra sobre os efeitos de choque empregados, sobre as sensações (muitas vezes desagradáveis) provocadas e os afetos despertados no espectador.
É precisamente através do endereçamento das obras do novo extremismo francês na sensação do corpóreo, tanto na narração como na figuração, bem como no corpo do ator e, por consequência, no corpo do espectador - através de sua extrema evocação da sensação visceral, por vezes acusada de sensacionalismo -, que esse cinema pode provocar uma sobrecarga sensorial na audiência. Para isso, e por isso, outra característica importante desse estilo de cinema é a forma como os realizadores privilegiam esteticamente e colocam em evidencia o próprio corpo do filme, num esforço imperativo para criar novas maneiras através das quais esses filmes consigam desafiar e afetar emocionalmente ainda mais o público, tanto pelos contextos reais da
22‘unites the intelectual and the visceral’.
23(...) profoundly question the complicity of the spectator in the acts of voyeurism (...).
24‘an aggressive desire to confront (...) audiences, to render the spectator’s experience problematic’. 25(...) spectatorial agency and ‘ethical reflexivity’.
visualização, como pelas estratégias extratextuais que contribuem para amplificar a capacidade de chocar.