Tendo como objectivo o estudo da privação material nas suas quatro dimensões, recorreu-se à AFC para estimar, em cada momento temporal, um modelo de medida para a privação material, em que esta se considera medida por quatro indicadores (figura 3.2). Cada indicador corresponde à soma dos itens considerados na respetiva dimensão.
As medidas de ajustamento (tabela 3.1) mostram ajustamentos modelo-dados ra- zoáveis para os anos de 2007 e 2008. Para o ano de 2007, o valor da estatística de qui-quadrado é de 51.57 com 2 graus de liberdade e o valor do RMSEA é de 0.076. Para o modelo ajustado aos dados de 2008, o valor da estatística de qui-quadrado é de 65.26 com 2 graus de liberdade e o RMSEA é de 0.084, valor este que se encontra no limite da razoabilidade. Da análise dos valores de CFI e RMR obtidos para os modelos estimados em cada um dos anos, e da comparação dos valores de AIC obtidos nos dois anos, é pos- sível concluir que existe um melhor ajustamento modelo-dados para o ano de 2007.
CAPÍTULO 3. MODELAÇÕES COM DADOS COMPLETOS Constrangimentos económicos Posse de bens duradouros Condições da habitação Privação material Vizinhança
Figura 3.2: Diagrama de um modelo de análise fatorial confirmatória com a privação material medida por quatro indicadores
χ2 df RMSEA AIC CFI RMR
2007 51.57 2 0.076 67.57 0.97 0.043
2008 65.26 2 0.084 81.26 0.96 0.050
Tabela 3.1: Medidas de ajustamento: AFC da privação material medida por quatro dimensões
Os pesos factoriais mostraram-se todos estatisticamente significativos, embora seja de salientar que em ambos os anos se verificou um peso fatorial estimado maior para a variável posse de bens duradouros (0.79 em 2007 e 0.77 em 2008), relativamente aos pesos fatoriais das restantes dimensões. No entanto, a variável vizinhança mostrou ter um peso fatorial muito pequeno, igual a 0.09 nos dois anos, valor esse bastante inferior ao 0.6 considerado na literatura como aceitável. De referir ainda que também os pesos factoriais para a dimensão condições da habitação estão no limite do aceitável. A tabela 3.2 apresenta as estimativas obtidas para os pesos fatoriais nos dois anos em estudo, numa solução estandardizada. Entre parênteses encontram-se os valores dos testes t à hipótese nula de que o peso fatorial é nulo.
2007 2008
Constrangimentos Económicos 0.72(35.12) 0.72(31.55)
Posse de bens 0.79(31.85) 0.77(28.06)
Condições da habitação 0.57(27.08) 0.53(23.58)
Vizinhança 0.09(3.82) 0.09(3.67)
Tabela 3.2: Estimativas, numa solução estandardizada, dos pesos fatoriais (valores dos testes t): AFC da privação material medida por quatro dimensões. A bold estão os valores que se mostraram significativos.
Face aos resultados obtidos, foi tomada a opção de não considerar a vizinhança como indicador de medida da privação material, tendo sido estimado um novo modelo con-
CAPÍTULO 3. MODELAÇÕES COM DADOS COMPLETOS
2007 2008
Constrangimentos Económicos 0.73(33.33) 0.73(29.45)
Posse de bens 0.78(30.29) 0.76(26.53)
Condições da habitação 0.53(24.81) 0.49(21.36)
Tabela 3.3: Estimativas, numa solução estandardizada, (valores do teste t) dos pesos fatoriais: AFC da privação material medida por três dimensões. A bold estão os valores que se mostraram significativos.
siderando a privação material como medida apenas por três dimensões: constrangimentos económicos, posse de bens duradouros e condições da habitação (figura 3.3 ). Os valores obtidos para as estimativas dos pesos fatoriais (tabela 3.3) mostraram mais uma vez um maior valor para a estimativa do peso factorial correspondente à variável posse de bens, 0.78 em 2007 e 0.76 em 2008, embora todas as variáveis tenham apresentado estimativas dos pesos fatoriais significativas. A variável condições de habitação é aquela que apresenta um peso fatorial menor nos dois anos, 0.53 e 0.49, respetivamente em 2007 e 2008.
Constrangimentos económicos Posse de bens duradouros Condições da habitação Privação material
Figura 3.3: Diagrama de um modelo de análise fatorial confirmatória com a privação material medida por 3 indicadores
Posteriormente foram considerados dois grupos, um correspondendo ao ano de 2007 com 4 303 observações válidas e outro correspondendo ao ano de 2008 com 4 450 obser- vações válidas, tendo-se realizado uma AFC multigrupos. Este procedimento estatístico teve como propósito detetar possíveis diferenças no modelo de medida da privação material nos dois momentos temporais em estudo. Face aos resultados obtidos, foi possível concluir quanto à invariância dos pesos fatoriais nos diferentes momentos temporais (∆χ2= 1.91,
com ∆df = 3).
Neste estudo foram utilizadas como variáveis caraterizadoras dos agregados: a existên- cia de crianças no agregado (categoria de referência: não existirem crianças no agregado), a dimensão do agregado e a área de urbanização do local onde o agregado reside (muito povoada, intermédia e pouco povoada). Para esta última variável e com o objectivo de a utilizar como variável explicativa nos modelos em estudo, foram criadas duas variáveis
CAPÍTULO 3. MODELAÇÕES COM DADOS COMPLETOS Privação material Área de urbanização Dimensão do agregado Existência de crianças Constrangimentos Económicos Posse de bens duradouros Condições da habitação
Figura 3.4: Diagrama de um modelo com equações estruturais com a privação material medida por 3 indicadores e 3 variáveis explicativas
dimensão do agregado foi considerada como contínua. Foi então estimado o modelo com equações estruturais representado na figura 3.4. Para as variáveis explicativas existência de crianças e dimensão do agregado, os valores obtidos para as estimativas dos parâmetros em 2007 (−0.16 e −0.14) e no ano seguinte (−0.06 e −0.18) permitem concluir que a pri- vação é menor quando existem crianças no agregado e nos agregados de maior dimensão. Em relação à variável área de urbanização, os valores estimados dos parâmetros não per- mitem conclusões idênticas nos diferentes momentos temporais. Assim, no ano de 2007, áreas muito povoadas e intermédias mostraram menor privação em relação a áreas pouco povoadas (os valores obtidos foram −0.69 e −0.67), e no ano de 2008, as áreas muito povoadas e intermédias mostraram maior privação relativamente a áreas pouco povoadas, tendo-se obtido os valores 0.37 e 0.46 (tabela 3.4).
Privação Material Privação Material
2007 2008 Existência de crianças (não) sim -0.16(-6.34) -0.06(-2.64) Dimensão do agregado -0.14(-10.02) -0.18(-12.75) Área de urbanização (pouco povoada) muito povoada -0.69(-56.25) 0.37(15.99) intermédia -0.67(-56.56) 0.46(20.03)
Tabela 3.4: Efeito das variáveis explicativas (valores dos testes t) sobre a privação material medida por três dimensões. A bold estão os valores que se mostraram significativos
CAPÍTULO 3. MODELAÇÕES COM DADOS COMPLETOS