Kapittel 1: Innledning
1.1 Hva og hvorfor fortetting?
4.1 – A doença e a saúde em notícias
Estudando a veiculação dos temas saúde e doença na imprensa cearense, da segunda metade do século XIX, Francisco Carlos Jacinto Barbosa afirma que eles ganharam as páginas dos jornais da província a partir da década de 1850, virando notícia desde então, seja na forma de artigos ou crônicas patrocinadas por médicos e redatores, ou na de propaganda de remédios e receitas (BARBOSA, p. 2004). O estourar de grandes epidemias de febre amarela, varíola e cólera pelas cidades brasileiras desse período, ajuda a entender o porquê dessa predileção.
O Araripe também seguiu essa linha editorial, tendo em vista que eram frequentes as impressões sobre tal objeto. Um indício claro disso pode ser visualizado já no seu primeiro número, em que foi impresso um texto intitulado A bexiga, como a varíola era popularmente conhecida. Nele se destacava a ceifa de vidas provocada no Amazonas, Pará, Maranhão e Pernambuco por esse mal terrível e como seus cortejos ameaçavam também aos caririenses, “por que sendo esta peste como o Judeo errante, devemos contar com ella no litoral de nossa província.”112
Defendendo a vacinação como a forma mais acertada de se contrapor à doença, o artigo convocava os chefes de família a antecipar-se a esse flagelo da humanidade. Era preciso deixar de lado antigos preconceitos que obstacularizavam a propagação da vacina. Em uma sociedade patriarcal, como a brasileira, cabia ao pai, marido e senhor definir o que os seus (esposa, filhos, escravos, agregados) deviam fazer ou não. Levá-los à vacinação era também uma decisão que competia aos chefes de família, daí a razão do apelo do jornal aos mesmos.
Para romper tais preconceitos, a vacinação não deixou de ser representada pelo O Araripe sob um manto religioso:
[...] devemos nos compenetrar da dura verdade, de que a vaccina é o unico remedio que pode evitar o mal, sendo ella uma quase inspiração Divina. O homem é obrigado, por preceito de Deos, a manter sua conservação: nesta congectura, para não infrigirmos a lei sagrada, devemos procurar o precioso remedio, para evitar o mal que sem duvida nos baterá a porta.
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Jornal O Araripe, n°. 01, 17 jul. 1855, p. 3. É interessante destacar que o cólera também foi representado pela metáfora do judeu errante, do que falarei no capítulo seguinte.
Diante de todas as supostas vantagens da vacina, um presente divino na definição do documento, competia às autoridades provinciais garantir sua aplicação, daí por que instava o presidente do Ceará a fornecer o pus vacínico e incumbir o Dr. Manoel Marrocos Teles – médico classificado como hábil e caridoso, residente no Crato e pertencente ao ciclo político- social d‟O Araripe –para o tarefa da vacinação na cidade.
Por fim, uma transcrição de um ofício emitido pelo bispo diocesano ao pároco local, reforçava o valor da prevenção frente à bexiga, ao instar o último a persuadir os fiéis sobre essa questão, durante os sermões.
S Exc. o Bispo Deocesano para satisfaser as ordens do Governo Imperia l determina, que V. Rev. á estação da Missa conventual, persuada aos seos parochianos a procurarem a vaccina para si, e para todas as pessoas subjeitas a sua direção e cuidados, fasendo V. Rer. [vossa reverendíssima] por dissipar-lhes os preconceitos, e repugnacia, que um terror panico oppõe a tão salutar providencia, evitando se assim por meio deste admiravel preservativo a terrivel mortalidade, que a peste de bixigas muitas veses tem causado em nosso paiz. S. Exc., confia que V. Rer. Compenetrado da emportancia, e nescessidade de uma tão eficaz medida, empregará todos os meios que suas luses, e zelo lhe sugerirem para acabar de uma vez com a indeferença, ou reluctancia de seos parochianos a cerca da vaccina, que bem longe de ser um mal, ao contrario he o unico socorro, e beneficio para prevenir, e obstar os estragos de uma das mais mortiferas epidemias. 113
Os argumentos religiosos para convencimento da população eram complementados por leis que puniam aos que não anuíssem à vacina, leis essas divulgadas pela imprensa local. Exercendo o cargo de professor público na cidade do Crato, o redator d‟O Araripe, João Brígido, fez imprimir uma nota no ano de 1857, na qual anunciava que, por conta da manifestação de casos de bexigas na cidade de Fortaleza e da possibilidade da propagação das mesmas pelo interior do Ceará, fora incumbido pela Diretoria de Instrução Pública de aplicar uma resolução de 1855, tolhendo a matrícula nas cadeiras públicas de meninos não vacinados. A nota prosseguia afirmando que já havia pus vacínico disponível no Crato, de forma que as novas matrículas só seriam feitas após a apresentação de comprovantes de vacinação. Para os já matriculados, o professor estipulava um prazo de aproximadamente vinte dias para apresentação dos mesmos vacinados, “sob pena de não serem admittidos na escola antes de terem cumprido este preceito, como tudo me é rigorosamente recommendado”. Por fim, João Brígido instava os professores particulares a seguirem tal procedimento. 114
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Jornal O Araripe, n°. 01, 17 jul. 1855, p. 3. Grifos meus.
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Além do incentivo ao combate à varíola, O Araripe esteve empenhado em prol da
higienização da cidade, especialmente de edifícios públicos localizados em sua urbe. As condições sanitárias da cadeia do município, por exemplo, foram mote para vários textos, como o que transcrevo a seguir:
Seria preciso um estilo de Dante, seo pavoroso, e aquellas frases de dor, e de aflição com, que elle descreve seo inferno, e o desespero de Urgolino, para com toda precisão descrevemos a lugubre e horrorosa prisão publica desta cidade [...]. Quando a sociedade parece ir deixando-se escapar aos abusos das epochas coloniaes, esta cadeia como que vai sendo conservada para atestar a barbaridade, em que o pais estava submerso, e como um escarneo ao seculo, em que predomina a filosofia, e tudo tende a uma perfeita regeneração...115
Utilizando de imagens inspiradas na Divina Comédia, de Dante Alighieri, o periódico descreve as condições estruturais e higiênicas da cadeia como “um anachronismo, um opprobio á humanidade, um desmentido a civilisação”. Fazendo uma comparação entre o presente da época com o passado colonial, a publicação acabava por representar um maniqueísmo entre práticas antigas e novas, entre o que apresentava como barbárie e
civilização, definindo, assim, a edificação como inaceitável para uma cidade que buscava foros de civilizada.
Por meio desse estilo dantesco, eram feitas críticas constantes às autoridades provinciais e municipais, por não providenciarem reformas no prédio que nem uma enfermaria tinha para tratar “os presos pobres, recolhidos às prisões desta cidade”, não menos de cinquenta pessoas que ficavam expostas a um ambiente de ar viciado, ocasionando, inclusive, algumas mortes em determinadas “estações do anno e notadamente no fim dos invernos”, quando eram frequentes “as febres malignas e perigosos catarraes”,116 que, como já explanei antes, agiam de modo endêmico e levavam muitos cratenses ao túmulo. Conforme a fonte, cotidianamente sujeitos ao ar infecto da masmorra, os presos que sobreviviam ao contato com este ambiente acabavam sendo afetados de outras formas:
Um grande numero de pessoas alojadas em estreitos compartimentos, privados de toda a luz e ventilação necessária, concorre para que os gases mephiticos ahi se condensem, e se respire um poderoso veneno que estraga de prompto a organização mais robusta: raro é o indivíduo que demorando
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Jornal O Araripe, nº. 03, 21 jul. 1855, p. 1.
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alguns dias em alojamentos tão insalubres, não contraia uma molestia grave, não volte por muito tempo incapaz de qualquer trabalho. 117
A presença de um prédio insalubre no meio da cidade – mais precisamente, no quadro da matriz, sua principal praça – e os miasmas dele advindos eram representados como uma vergonha e um perigo para a saúde dos presos – que, segundo sua opinião, quando não mortos, ficavam inválidos– e dos cratenses em geral.
Todavia, a prisão era só um dos prédios que continham problemas sanitários, como insinua um interessante e irônico comunicado impresso no ano de 1856, assinado por um lacônico K. Para o autor da nota, o mau fado se opunha de muitos modos ao “engrandecimento, aceio, limpesa desta nascente cidade!”. Indignado com a presença constante de urubus nos tetos dos edifícios públicos e particulares do Crato, animais a que acusava como causadores de grandes males, o senhor K lança reprimendas aos oleiros da cidade, a quem responsabilizava por essa situação, por, supostamente, exagerarem na quantidade de areia colocada no barro usado na fabricação de telhas e tijolos.
Em épocas de chuvas, este material falsificado produziria um cisco que atrairia os urubus. Para o documento, o peso de tais aves provocava prejuízos nas finanças e na saúde dos moradores desses edifícios, devido às goteiras surgidas nessas ocasiões. Na busca por convencer os leitores sobre a gravidade dessa situação, o autor apela para conjecturas pessimistas e teatrais:
Pode romper uma goteira em cima de uma loja de fasendas finas, onde hajão sedas, cambraias, polvara &; em cima de um armasem de rapaduras, e farinhas; em cima de uma parede, que deixa uma casa toda arruinada; e pode finalmente romper uma goteira em cima do leito de uma Senhora, que tenha dado a luz, e eil-a logo em risco de vida; eis o aflito marido correndo para os drogas allopaticos; e porque estes velhos elementos do engano [...] não vencem o mal, recorre ao Le Roy [um dos purgantes mais populares do Brasil oitocentista], e depois a celebrisada homeopathya; e por ultimo lá vai alta noite o parocho levar a Santa-unção, e antes de três horas o pesado Sacristão sobre a torre para dar funebres signaes da morte!!!! Todos aquelles males são nada em relação a este ultimo.118
Dramático e mordaz ao mesmo tempo – criticando, inclusive, às debilidades da medicina da época, enredada entre disputas e indefinições, daí porque a referência à alopatia
e à homeopatia –, o senhor K diz não se queixar, nem pedir providências a ninguém em particular. Unicamente encaminhava sua opinião ao Profeta Araripe, que, afirmava ele, queria
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Jornal O Araripe, nº. 281, 15 mar. 1862, p. 2.
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o bem de todos. Todavia, como de praxe, as disputas políticas se imiscuíam nos conteúdos publicados pelo semanário. O comunicado se encerra com uma provocação ao delegado local que, arrebatado pela violência de uma paixão de momento, atirou com espingarda em um urubu que quebrara um canto da cornija de sua casa, danificando a fachada, “e tem elle [o delegado] tido tanto desgosto, que ainda a não mandou concertar. O meo Profeta Araripe sabe quem é este sujeito, e a caza ahi está patente.”
A narrativa citada é reveladora: urubus, popularmente vistos como aves abjetas e símbolos de sujeira e podridão, eram presença constante nos tetos da cidade, o que revoltava a sensibilidade de um certo K. Obviamente, as elites cratenses do período não gostavam desses indesejados mascotes, tendo em vista os aperfeiçoamentos empreendidos por aquela época nas ruas da cidade e que procuravam dar um ar mais civilizado à mesma. A busca pela construção da imagem de cidade higiênica sofria sério revés com ninhos de urubus instalados nas telhas de prédios públicos e particulares.
Para conquistar a anuência da população no combate a tal situação, o autor exagera na pena e, de forma teatral e apelativa, produz uma narrativa na qual chega a matar uma senhora saída do parto, além de apontar para uma série de estragos que as goteiras poderiam provocar, hipoteticamente, nos pontos comerciais do Crato. Além disso, o senhor K não deixa de indispor os leitores contra os que julga ser os responsáveis por essa situação abjeta: a ganância dos oleiros e o descaso por parte das autoridades públicas da localidade, sarcasticamente representadas na figura do delegado da história, que, com a fachada de sua residência estragada por um urubu, andava dando tiros para o ar.
A preocupação com a saúde pública e com as condições higiênicas do Crato foram mote para um texto de capa de janeiro de 1861, que sintetiza muito bem como a redação d‟O Araripe representava tal assunto:
As pessimas condições hygienicas, em que estão muitos lugares deste município ou todo elle, sobretudo em certas quadras do anno, a grande população que vive aglomerada em um pequeno espaço de terreno humido e abrasado, exigem que a saude publica seja uma das necessidades do Cariri mais estudadas, e para a qual a attenção do governo convirja directamente.119
Ao conferir à questão sanitária o status de uma das necessidades mais prementes, o texto prosseguia afirmando que o propalado embaraço financeiro da Câmara Municipal, produtora de um sentimento de impotência e desanimo, não era razão suficiente para tal
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instituição desistir da ação em prol de melhorias higiênicas, abandonando, assim, a população miserável ao dízimo anual das moléstias endêmicas. Neste sentido, era preciso que a Câmara fizesse um esforço supremo, um sacrifício na altura desta grande necessidade, coisa que, afiançava o jornal, podia contar como o “seguro apoio das pessoas abastadas do paiz [da localidade], o que muito facilita qualquer providencia onde deva entrar um grande exforço”. Para a fonte, mesmo os problemas pecuniários eram mais aparentes do que reais, pois afirmava que uma boa economia, em outras palavras, uma gestão mais criteriosa dos recursos da Câmara, fariam superabunda r os meios.
Como remate do artigo, O Araripe afirmava que tomara para si a defesa dessa ideia, prometendo ao público melhor desenvolvê-la, com o fim de provar “até que ponto pode o Crato gozar das vantagens de que gozão hoje outros muitos lugares, tomando a si a municipalidade mais essa tarefa a de cuidar da saude publica.” 120 Pelo que foi exposto na matéria, percebe-se o quanto o tema saúde pública era caro aos ideólogos do semanário. No entanto, é possível aventar que nas entrelinhas do texto há mais coisas a ser lidas.
No ano de 1860, os liberais saíram vitoriosos nas eleições para a Câmara Municipal, conseguindo maioria sobre os conservadores. Dessa forma, as alusões do texto, a respeito da necessidade de uma boa economia dos recursos municipais, buscavam alfinetar seus adversários políticos, que perderam o comando da municipalidade, ao mesmo tempo em que pretendia representar os políticos liberais como bons gestores. Por outro lado, ao enfatizar que era dever da Câmara trabalhar para a melhoria das condições higiênicas da cidade, a fonte insinuava que essa seria uma bandeira para os liberais eleitos, o que corrobora o que afirmei ao longo do capítulo três, sobre a ligação estreita desse segmento social com as reformas urbanas empreendidas em meados do século XIX.
Contudo, as publicações veiculadas pelo O Araripe e dedicadas ao tema saúde/doença não se resumiram à preocupação com a higiene da urbe. Em um lugar em que os médicos eram raros, o semanário também imprimiu orientações intituladas como medicina caseira, no intuito de instruir seus leitores a curar seus males por meio do uso de produtos populares, presentes nas cozinhas, quintais e nas matas que emolduravam a cidade, ou de substancias químicas amplamente comercializadas nas boticas locais.
Os textos eram didáticos, compostos de perguntas e respostas simples, do tipo: “Desesperadoras enchaquecas que resistem a tudo? Tomai uma pitada da camphora em pó, e envolvido n‟um bocado de cassa, metei isto no ouvido de cada lado, e vereis o resultado”. A
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leitura dessas receitas permite uma aprazível visualização da farmacopeia de meados do Dezenove: as dores de dentes podiam ser sanadas com a aplicação de um algodão embebido em clorofórmio; massagens com sumo de urtiga combatiam hemorragias pelo nariz; cebolas brancas cozidas e quentes curavam os panarícios ou unheiros; o toucinho sem sal, aplicado três vezes por dia, era eficaz no tratamento das impigens, que desapareciam em uma ou duas semanas; e os calos não eram páreos para as cebolas brancas curtidas em vinagre, esfregadas em algodão com um pouco “de solução cáustica de potassa”. 121
Na quarta página do jornal, na qual eram impressos os anúncios, alguns profissionais da saúde propagandeavam seus préstimos, como homeopatas, médicos que passavam uma temporada nas cidades da região e cirurgiões dentistas, por exemplo. Algumas vezes tais avisos geravam denúncias que punham em suspeição as habilidades do anunciante. Assim ocorreu com Manoel Joaquim Carneiro, que publicou uma chamada – após abandonar o trabalho ao lado do cirurgião-dentista Affonso José de Noronha, possivelmente seu mestre no ofício – em que oferecia os serviços de “alimpamento de boccas, e chumbamentos de dentes, o que faz pelos prossessos moderno, que são os milhores e mais adoptados, productores de bons frutos.”122
Aparentemente, Affonso José de Noronha não gostou nada da atitude do seu ex- aprendiz: no número seguinte ao anúncio aludido acima, Affonso imprimiu uma declaração na qual negava que Manoel Joaquim estivesse habilitado a exercer as funções de cirurgião- dentista, já que o tempo que passaram juntos fora de apenas um mês, “inteiramente pouco para adquerir conhecimentos d‟arte”. Acusava, por fim, Manoel de querer iludir o público, isentando-se, assim, de qualquer responsabilidade pelos eventuais atos daquele. 123 Nessa polêmica, apreende-se indícios das disputas de sabe/poder enredadas naquele contexto.
No ano de 1857, foi a vez de Francisco Jacinto Silva Coelho ter sua titulação contestada. Em texto publicado na edição 96 do semanário, tal pessoa se apresentou como doutor em medicina pela Faculdade da Bahia e divulgou sua presença no Crato. Ofereceu, ainda, seus préstimos às pessoas, de dentro ou fora da cidade, que o procurassem, garantindo que os pobres seriam consultados de graça.124 Ao que parece, Benedito da Silva Garrido, dono de uma botica localizada ao lado do local em que se instalou o médico, andou a insinuar que o título do concorrente era falso, o que levou a uma resposta ácida deste, denominada Aviso aos charlatães:
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Jornal O Araripe, nº. 126, 16 jan. 1858, p. 3.
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Jornal O Araripe, nº. 57, 16 ago. 1856, p. 4.
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Jornal O Araripe, nº. 58, 23 ago. 1856, p. 4.
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Sr. Redactor do Araripe. Constando-me que nesta Cidade alguem duvida que eu seja formado em medicina, só tenho como resposta apresentar o artigo 25 do regulamento da junta de hygiene publica, que diz; ninguem póde exercer a medicina, ou qualquer dos seos ramos, sem titulo conferido pelas escolas de medicina do Brasil. Os infractores encorrerão na multa de cem mil reis, pela primeira vez, e nas reencedencias em dusentos mil reis, e 15 dias de cadeia. Portanto espero que a Camara Municipal, e as authoridades policiaes, tomando em consideração o citado artigo, uusem dos direitos, que a lei exige, ou prohibindo o pernicioso systema de taes charlatães, ou então que os obrigue à apresentar o titulo, pelo qual arrojadamente exercem a medicina, sacrificando, não só o povo incauto, como delle extorquindo grandes pagas só pelo motivo de terem aberto uma tosca a que chamão botica.125
Algumas semanas depois, O Ara ripe imprimiu uma nota de primeira página na qual pedia desculpas ao boticário Garrido, tendo em vista que dizia desconhecer que a acusação de charlatanismo insinuada pelo Dr. Coelho lhe fosse endereçada.126 De qualquer modo, a pendenga entre o boticário e médico não durou muito. Para alegria do dono de botica, Francisco Jacinto residiu poucos meses no Crato, visto que o mesmo número d‟O Araripe que publicou a nota de desagravo, noticiou a partida deste último.
Ainda tratando dos anúncios publicados n‟O Ara ripe, nenhum produto obteve tanto espaço como o Unguento e as Pílulas de Hollowa y, propagandeados como amigos dos americanos. Suas fórmulas teriam sido desenvolvidas por um professor londrino, Thomas Holloway, sendo adaptadas ao clima, compleição física e modos de viver dos habitantes da América. Entre 1857 e 1860, mais de quarenta edições veicularam propagandas desse remédio, oferecido como uma verdadeira panacéia. Alguns desses anúncios ocupavam mais de uma coluna da página, o que revela um alto investimento por parte do anunciante. No geral, as propagandas narravam curas extraordinárias ocorridas após a ingestão do medicamento.
A fórmula do Dr. Hollowa y prometia curar acidentes epiléticos, dores de cabeça, desinteira, erisipela, febres de qualquer espécie, hidropisia, icterícia, indigestão, lombrigas, irregularidades de menstruação, inflamações, problemas de rins e fígado, moléstias venéreas, alguns sintomas secundários da tísica, calos, cancros, espasmo, escorbuto, escrófulas, fístulas,