2 Hva er innovasjon i offentlig sektor?
2.2 Hva er offentlig sektor?
“A imaginação espicaça os nossos sentidos”.
Bachelard. La poétique de l’espace.
Como entender, ou melhor, como explicar os fenômenos do universo infinitamente grande e do infinitamente pequeno? Eles correspondem a algo observável e representável na realidade de nossa vida segundo a estrutura intelectiva de que dispomos? A constituição da razão humana permite abordá-los e conhecê-los, defini-los e, principalmente, prever suas manifestações na realidade física? Para Bachelard, este é um severo desafio que se impõe ao pensamento humano, que revela nossa incapacidade de agirmos nestes universos segundo as orientações metodológicas convencionais da ciência moderna, exigindo nova postura do cientista: “somos incapazes de agir tanto
sobre o microcosmo quanto sobre o sistema solar: é preciso contemplar”349, reconhece o
epistemólogo. Sendo assim, em vez de perscrutar racionalmente (cartesiana e positivamente) a realidade, em busca de uma identidade e de definição, precisamos descrever suas diversas manifestações em vista de compreender sua dinamicidade e complexidade, atributos que não podem ser abordados com base no racionalismo clássico, mas que são pertinentes à atividade da imaginação criadora. Nesse sentido, na contemporaneidade, a compreensão de ciência carece de resignificação.
Arte e ciência desenvolvem suas atividades sob modos diferentes, embora tenham a realidade e a imaginação como elementos comuns. Entretanto, arte e ciência permanecem tão distintas quanto à imagem e o conceito. Segundo Bachelard elas não podem ser reduzidas uma a outra, mas nada impede que elas sejam atividades complementares. A novidade da reflexão bachelardiana, então, se apresenta na
165 possibilidade de complementaridade entre a atividade artística e a científica, baseado no ímpeto que ambas recebem da imaginação criadora, bem como, na compreensão de que o ser que as realiza não está cindido; originariamente, o mesmo ser humano que cria a arte, igualmente, comporta a criação científica. No pensamento de Bachelard, razão e imaginação são complementares, no mesmo tempo em que mantêm suas diferenças constitutivas. Arte e ciência, igualmente, compreendem atividades antagônicas e, simultaneamente, complementares na compreensão da realidade.
Estas orientações (racionalismo clássico, realismo ingênuo e positivismo) que buscam a identidade e a definição, as quais tanto preocupam Bachelard na fenomenologia da imaginação, se manterão como motivo de reiteradas ponderações em sua epistemologia. Bachelard reúne-as sob a denominação de racionalismo ativo, um dos motivos que entrava a abordagem apropriada da questão da imaginação. No âmbito da poética, problematizava a irrefreável busca por definição e clareza, por finalização conceitual, enfim, por conhecimento objetivado, são elementos que impõe severas dificuldades à compreensão do fenômeno da repercussão poética, à medida que impedem o desapego do primeiro contato, movimento necessário para colocarmo-nos no âmbito da primitividade da imagem: “nós sentimos que a atitude ‘objetiva’ do crítico abafa a ‘repercussão’, rejeita, por princípio esta profundidade onde deve-se tomar o
ponto de partida do fenômeno poético primitivo”350, conclui Bachelard.
No âmbito da ciência, a oposição ao racionalismo clássico advinha do fato que esta orientação não pode estender seus princípios e pressupostos aos fenômenos do
universo infinitamente pequeno, à epistemologia, fundada na razão351, do universo
macroscópico Bachelard propõe uma microepistemologia, a qual comporta os atributos constitutivos da ciência contemporânea, a saber, dinamicidade, ambiguidade/relatividade, complexidade, indeterminação, dialeticidade/conhecimento por aproximação, o contingente, o acaso e a incerteza são atributos constitutivos desse conhecimento e, não representam mais imperfeições ou obstáculos; a previsibilidade vincula-se ao atributo da probabilidade; os princípios de identidade e de necessidade carecem de resignificação, posto que não mais se coadunam com o contato e a
350 « Nous sentons que l’attitude ‘objective’ du critique étouffe le ‘retentissement’, refuse, par principe,
cette profondeur où doit prendre son départ le phénomène poétique primitif. ». (BACHELARD, Gaston. La poétique de l’espace, p. 6.).
351 “A razão absoluta repousa sobre os princípios de indução e dedução; nós não podemos mais considerá-
la como instrumento de prova e de certeza; a imaginação frequentemente a ajuda”. (LAZORTHES, Guy. L’imagination: source d’irréel et d’irrationel, puissance créatrice. p. 123.).
166 construção de uma realidade que se revela radicalmente complexa e mutável. Em Ensaio sobre o conhecimento aproximado Bachelard se detém a descrever a peculiaridade desta nova epistemologia:
“Ora, na microepistemologia, as variáveis tornam-se tão numerosas, tão sensíveis, tão irregulares que, experimentalmente falando sua atuação assume o aspecto da contingência. O único meio de estudá-las é inscrever essa contingência no domínio da explicação, ou seja, pô-la no mesmo nível dos outros meios de explicação realista, enfim, fazer dela uma realidade. De fato, só com essa condição será possível aplicar o cálculo de probabilidades pelo qual se garante, senão nosso conhecimento, pelo menos o jogo de nossa previsão. Aliás, com que direito postularíamos aí uma necessidade oculta? Uma teoria do conhecimento habitual, manejando objetos dotados de unidade e permanência, pode entregar-se plenamente à necessidade. Ela encontra a cada passo o mesmo, o igual, o equivalente, o substituível. Vive de equações e de lógica. Os objetos do microconhecimento não têm essas qualidades.”352.
Se pensarmos uma epistemologia específica para o universo do infinitamente pequeno, por analogia, podemos pensar uma epistemologia do infinitamente grande. Astrofísica e Microfisica têm em comum o fato de trabalharem com grandezas infinitas ou que tendem ao infinito, em ambos os casos a razão humana não consegue perscrutar estes universos pela via da objetivação clássica, sendo assim, os cientistas constroem uma realidade complementar sobre a qual desenvolvem suas pesquisas, sem que seja obrigatório, por exemplo, no caso do astrofísico, direcionar a lente de um telescópio uma vez sequer em direção às estrelas.
Tanto na astronomia como em suas áreas conexas, as grandezas numéricas são utilizadas como adaptadores da gigantesca quantificação astronômica à compreensibilidade humana, ou seja, “para se aproximar de uma representação concreta dos números gigantescos referentes a espaço e tempo, nós nos servimos às vezes de um artifício: a realidade [dos números gigantescos] é substituída por uma figura que a reduz à escala humana. Por exemplo, tomemos a Via Láctea, suponhamos que cada estrela seja representada por um grão de areia, cada um medindo em média 4/10 de um
milímetro. 100 bilhões de estrelas então ocupariam 100 m3. Na realidade, as estrelas não
estão coladas umas às outras, como os grãos de areia”353. As grandezas numéricas, os
operadores matemáticos, então, criam uma realidade diminuta em relação à dimensão efetiva, é a construção de outra realidade, na qual o cientista trabalha. Análogo ao
352 BACHELARD. Gaston. Ensaio sobre o conhecimento aproximado, p. 281-282.
167 trabalho de criação vinculado às imagens, o artista cria uma realidade (figurativa,
mimética, musical) e sobre ela desenvolve uma existência estética354.
Diante do exposto que o nosso espírito não comporta as representações de
espaços infinitamente grandes ou pequenos355 (diâmetro da Via Láctea, perímetro de um
fóton), de durações de tempo igualmente infinitas (1 attosegundo356) ou de quantidades
analogamente infinitas, como então conseguimos tornar estas dimensões representáveis para nós. A razão constitutivamente não pode elaborar dados que remetam ao infinito, cabendo o auxílio da imaginação e sua capacidade de superar a realidade, ou seja, criar uma realidade complementar à efetiva. As condições reais, a função do real, portanto, não são mais determinantes na construção do conhecimento científico.
Com base nessa compreensão, no pensamento bachelardiano não se concebe um real que anteceda o próprio ato de conhecer, a ciência se apresenta como construção, e não como busca de expressar de forma absoluta a natureza. Esta negação conduz Bachelard a reconhecer que o conhecimento se constrói por aproximações sucessivas e pelas elaborações discursivas do cientista, conforme esta afirmação contida no texto L’expérience de l’espace dans la physique contemporaine: “Uma filosofia da aproximação sempre rejeitará essa passagens ao limite; ela igualará o pensamento à investigação, apoiando-se mais sobre a consciência de seus métodos discursivos do que
354 Superando os atributos de sua instrumentalidade para o conhecimento matemático e científico, as
grandezas numéricas, os operadores matemáticos comportam a possibilidade de comunicar algo além da sua representação, eles podem conduzir a outra realidade possível fruto da imaginação criadora, porquanto sustêm certa atividade poética de significação da realidade, comunicam imagens, cujo processo de criação amplia a função do real à medida que remete a outra realidade. Guy Lazorthes explica que: “Os numerais, longe de serem estes símbolos secos e áridos que muitas pessoas denunciam como as armas e os vetores de nossa sociedade tecnicista, sempre foram suporte de sonhos, de fantasias, de especulações metafísicas, materiais da literatura e sondas do futuro incerto ou, pelo menos, do desejo de predizer. Os numerais são de uma substancia poética; quase do mesmo modo que as palavras, eles foram úteis ao poeta, no mesmo tempo que foram instrumentos de contagem do homem da ciência.”. (Ibidem.).
355 O diâmetro da Via Láctea é de aproximadamente 100.000 anos luz. 1 ano luz corresponde a 9.647
bilhões de quilômetros. Então, temos que a diâmetro da Via Láctea é de 9.647.000.000.000.000 km, quase nove quadrilhões de quilômetros. Nem em 1.000.000 de anos conseguiríamos ir de uma extremidade a outra dela com os atuais meios de transporte. Cf. Ou ainda, falando-se da expansão do universo, segundo estudos espectrais de emissões de ondas de freqüência, os astros mais distantes de nós estão a aproximadamente 17 bilhões de anos-luz, que equivale a 163.999.000.000.000.000.000 (quase 164 quintilhões de quilômetros).
356 1 atto segundo corresponde a 1 bilionésimo de bilionésimo de segundo. “Os elétrons saltam do enxofre
para a superfície metálica em 320 attosegundos - um attosegundo é equivalente a 10-18 segundos, ou
0,000000000000000001 segundos. Para se ter uma idéia de quanto esse número é pequeno, basta dizer que um attosegundo está para um segundo da mesma forma que um segundo está para a idade do Universo (cerca de 14 bilhões de anos)”. Disponível em: <http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=010110050722>. Acesso em: 03 jan.2010. Entretanto, já se usa o termo yoctosegundo que equivale a 10-24 .
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sobre uma intuição única”357. A ciência contemporânea se constrói pelo conhecimento
aproximativo, pela consideração da probabilidade em detrimento da certeza e, desse modo, pelo constante ato retificador do conhecimento elaborado e pela construção da realidade.
Em sentido análogo a arte contemporânea se revela como opositora à antiga tendência de vincular a arte com a representação da realidade. Emancipando-se da forma e da simetria, a arte contemporânea abre-se a uma infinidade de formas – ou deformas – e materiais. A complexidade da realidade não é negada, antes ela é ampliada, não há identidade com a realidade tampouco ruptura, há aproximações
sucessivas358. A arte e a ciência se desenvolvem sob a égide da dialética.
No pensamento bachelardiano, dialético refere-se ao movimento de elaboração teórica ou experimental que se realiza mediante constantes reelaborasses, de aproximações sucessivas. O real e a verdade manifestam-se nesses movimentos, sem que se projete um último movimento, posto que essa última elaboração, essa última aproximação, já de início, não existe. A dinâmica e a pluralidade do conhecimento ou da criação artística revelam a dinamicidade e complexidade originária da imaginação criadora, que as constitui. Em La poétique de l’espace Bachelard assevera que “jamais a imaginação pode dizer: é só isso. Sempre há mais que isso. Como dissemos várias
vezes, a imagem da imaginação não está submissa a uma verificação pela realidade”359.
Encontramos nesse movimento a marca de uma pedagogia do porque não, na qual em vez de nos limitarmos a uma modalidade explicativa e a uma conclusão, assentimos a adoção de vários modos possíveis de abordagem, complementares entre si, bem como, reconhecemos a existência e validade de várias compreensões possíveis sobre o mesmo evento, objeto ou fenômeno.
357 « Une philosophie de l’approximation se refusera toujours ces subits passages à la limite; elle voudra
égaler la pensée à la recherche, en s’appuyant sur la conscience de sés méthodes discursives plutôt que sur une intuition unique. ». ( L’expérience de l’espace dans la physique contemporaine, pp. 20-21).
358 Marly Bulcão explica que “Com o intuito de mostrar em que consiste a mudança de perspectiva
instaurada pela arte contemporânea, Dagognet retoma diversos movimentos artísticos. Cada um, com sua especificidade, procura subverter a ideia que perpassava a tradição de que a arte deveria reproduzir o real e mostrar, nesse sentido, que a arte tem por fim reinventar e superar o mundo que nos rodeia. Para Dagognet, não é a arte que deve dizer o que a realidade é, mas, ao contrário, o que ela instaura é uma forma de realidade”. (BULCÃO, Marly. O gozo do conhecimento e da imaginação, p. 71.).
359 « Jamais l’imagination ne peut dire : ce n’est que cela. Il y a toujours plus que cela. Comme nous
l’avons dit plusieurs fois, l’image d’imagination n’est pas soumise à une vérification par la réalité ». (BACHELARD, Gaston. La poétique de l’espace, p. 89.).
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