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Hva er en fasade?

"A felicidade dos povos e a tranqüilidade dos Estados dependem da boa educação da juventude."

Emilio Castelar Especialistas da UNESCO, da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do Instituto de Pesquisas Aplicadas (Ipea) concordam que a juventude representa hoje a principal questão social do Brasil. Organismos internacionais, como a Organização Ibero Americana da Juventude e a Organização Internacional da Juventude (apud CASTRO e ABRAMOVAY, 2003:17) consideram como juventude a faixa etária de 15 a 24 anos. Texto do Ipea (2008:7) tece as seguintes considerações a esse respeito:

A juventude se inscreveu como questão social no mundo contemporâneo a partir de duas abordagens principais. De um lado, pela via dos “problemas” comumente associados aos jovens (como a delinqüência, o comportamento de risco e a drogadição, entre outros), que demandariam medidas de enfrentamento por parte da sociedade. (...) De outro lado, a juventude também foi tradicionalmente tematizada como fase transitória para a vida adulta, o que exigiria esforço coletivo – principalmente da família e da escola – no sentido de “preparar o jovem” para ser um adulto socialmente ajustado e produtivo.

De acordo com dados do IBGE75, em 2007, a população de 15 a 24 era de 34.710.000 milhões. Considerando a faixa de idade de 15 e 29 anos, os jovens somavam, em 2006, 51,1 milhões, ou 27,4% da população total (Ipea, 2008:10). A UNESCO ressalta que “observa-se um ritmo elevado de crescimento da população entre 15 e 24 anos no panorama demográfico brasileiro, chamando-se a atenção para o fato de que estaríamos vivendo um pico abrupto no número de adolescentes, cuja idade média gira em torno de 17 anos”. Este “pico abrupto” ou “onda jovem” na expressão do Ipea, que torna o jovem um ator estratégico do desenvolvimento, está envolto por um cenário dramático:

...é preocupante a falta de investimento na juventude evidenciada por fenômenos como as altas taxas de evasão escolar, as escassas oportunidades no mundo do trabalho, os índices alarmantes de vitimização letal juvenil ou a dinâmica de reprodução de desigualdades centenárias entre as novas gerações, sugerindo que o país não está tirando o melhor proveito do bônus demográfico que a sua “onda jovem” possibilita. Frente às várias questões que se apresentam para a sociedade brasileira, aquelas que afetam a juventude talvez se configurem como especialmente dramáticas. Afinal, embora vivam sob a promessa de auto-realização futura pela participação na vida adulta, os jovens herdam da sociedade um conjunto de instituições e processos que delimitam seu espaço social e suas trajetórias. (Ipea 2008:28)

Dados do Ipea mostram ainda que a defasagem escolar é um dos sérios problemas que afligem os jovens. “A freqüência ao ensino médio na idade adequada ainda não abrange metade dos jovens brasileiros de 15 a 17 anos e cerca de 34% ainda estão retidos no ensino fundamental” (Ipea, 2008:14). De acordo com esta mesma pesquisa, quando se trata do ensino superior, os dados são ainda piores: somente 12,7% dos jovens de 18 a 24 anos estão na universidade; e o pior: 17% na faixa de 15 a 17 anos e 66% na faixa de 18 a 24 anos estão fora da escola.

Com relação ao mundo do trabalho, os dados também são preocupantes. As taxas de desemprego entre os jovens são, segundo o Ipea (2008:17), “substancialmente maiores que as dos trabalhadores adultos”, observando-se índices de 22,6% entre os jovens de 15 a 17 anos, 16,7% entre 18 e 24 anos, contra 5% entre os adultos de 30 a 59 anos, por exemplo. O percentual de jovens entre 15 e 24 anos que não trabalham nem

estudam é de 20,8% para o sexo masculino e de 44% para o sexo feminino. E a tendência é que a taxa de desemprego juvenil cresça ainda mais.

Outro cenário alarmante é a vitimização dos jovens pela violência. Segundo o Ipea, “as vítimas, em geral, são jovens do sexo masculino, pobres e não-brancos, com poucos anos de escolaridade, que vivem nas áreas mais carentes das grandes cidades brasileiras”. Citando dados do Sistema Único de Saúde (SUS), o Ipea informa que as mortes por homicídios são responsáveis por 37,8% de todas as mortes na faixa etária de 15 a 29 anos.

Violência esta que geralmente é causada também pelos jovens. De acordo com o Ministério da Justiça (apud Ipea, 2008:20),

As pessoas com idade entre 18 e 24 anos foram as mais freqüentemente identificadas como infratores por homicídio doloso (17,56 ocorrências por 100 mil habitantes), lesões corporais dolosas (387,74), tentativas de homicídio (22,32), extorsão mediante seqüestro (0,34), roubo a transeunte (218,23), roubo de veículo (20,24), estupro (14,57) e posse e uso de drogas (41,96).

Quanto à renda, pelos dados apurados pelo Ipea, 31,3% dos jovens podem ser considerados pobres, pois vivem em famílias com renda domiciliar per capita de até 1/2 salário mínimo e, além disso, 33,6% dos jovens urbanos vivem em moradias fisicamente inadequadas. Na faixa etária de 15 a 29 anos, dois milhões moram em favelas. Segundo Castro e Abramovay (2003:26), 34 milhões dos jovens vivem em famílias em situação de pobreza extrema.

O estudo “Crianças no narcotráfico: um diagnóstico rápido”, coordenado por Jaílson de Souza e Silva e André Urani, publicado pela OIT e pelo Ministério do Trabalho e Emprego, mostra que:

As principais características das crianças envolvidas no narcotráfico são as seguintes: pertencem às famílias mais pobres das favelas; sua escolaridade está abaixo da média brasileira – hoje em torno de 6,4 anos; a grande maioria das crianças envolvidas é negra ou parda. (SILVA e URANI, 2002:19)

Uma vez que a criminalidade está associada à baixa escolaridade, pode-se concluir que a solução deste problema passa, necessariamente, pelo fortalecimento da escola. No entanto, sabe-se que a universalização do ensino fundamental não significou

a melhoria da qualidade de ensino, o que acaba desmotivando os jovens. O estudo supracitado mostra que os jovens entrevistados não gostam da escola.

Os principais pontos negativos da escola são informados como sendo a disciplina em excesso, ter que estudar e ficar parado por longos períodos de tempo e, de certa forma, a atitude dos diretores. A dificuldade no aprendizado e a falta de importância do que está sendo ensinado são dois outros pontos negativos mencionados pelos entrevistados. Fica claro que as normas de comportamento da escola não estão de acordo com os interesses das crianças. O narcotráfico exige ação, vigor e sintonia o tempo todo. A escola exige um tipo diferente de concentração para a realização de tarefas de forma ordenada e sistemática. Exige o uso de habilidades cognitivas que não são tradicionalmente exigidas. O principal ponto positivo mencionado pelos entrevistados sobre a escola é o fato de que ali eles adquirem conhecimento. Em contrapartida, entretanto, as disposições exigidas pelo narcotráfico tornam difícil o desenvolvimento sistemático do aprendizado. (...) Um aspecto peculiar da relação das crianças com a escola é sua percepção das atividades dos professores. O trabalho que os professores realizam é o segundo ponto positivo mencionado pelas crianças, mais do que sua relação com outras crianças. Não gostar dos professores, entretanto, foi a principal razão apresentada para abandonar a escola. A questão de gostar dos professores ou não depende claramente de indivíduos diferentes e revela o papel importante que estes profissionais desempenham, especialmente para crianças que estão sob risco social. (SILVA e URANI, 2002:50)

De acordo com a UNESCO, existe uma biblioteca e menos de quatro museus por 100 mil jovens no Rio de Janeiro. As pesquisas da UNESCO também destacam que “a pobreza de alternativas para ocupação do tempo livre entre os jovens, em particular, os pobres, que vivem em zonas chamadas ideologicamente de “periféricas” – 88% ocupa seu tempo livre principalmente vendo televisão” (CASTRO e ABRAMOVAY, 2003:34).

Do exposto, podemos concluir que o Brasil passa por um pico de crescimento da sua população jovem, sem, no entanto, estar preparado para o desenvolvimento de um “processo multidimensional de transformações estruturais” (Ipea, 2008:28), necessário para a inserção social, educacional, econômica, cultural e política deste jovem. A Unesco define este desenvolvimento nos seguintes termos:

Além de se falar de cidadania política, cidadania social e cidadania civil, há que ter claro o direito a uma cidadania cultural, ao acesso ao acervo de bem culturais. A cultura, a arte, o belo, a aprendizagem de

bom nível que ensine a pensar, ou que ensine a questionar, que contribua para a criação de uma massa crítica — essa seria uma cultura que pode vir a ser antídoto à violência. (...) A carência de lazer, trabalho e escola é explorada pelo tráfico que, em muitos lugares, torna-se referência para os jovens, ocupando um espaço deixado em aberto pelo poder público e pela comunidade. (CASTRO e ABRAMOVAY, 2003:32)

Para os autores do estudo “Crianças no narcotráfico: um diagnóstico rápido”, uma das soluções para mudar o cenário do jovem no Brasil seria a “realização de ação integrada em espaços populares, provisão de produtos educacionais, culturais e de lazer, urbanização e geração de renda e emprego” (SILVA e URANI, 2002:76).

A questão que se faz presente é saber se o esporte pode vir a ser utilizado para transformar este cenário no qual os jovens, em especial aqueles em vulnerabilidade social, estão inseridos. Há quem responda, rapidamente, que sim. Outros, com a mesma rapidez, respondem que não.

É senso comum atribuir ao esporte valores como disciplina, cooperação, trabalho em equipe, solidariedade, auto-estima, respeito a regras e vida saudável. Por outro lado, temas como violência das torcidas e violência no decorrer das competições, doping, corrupção de dirigentes, empresários e juízes, e mau exemplo de atletas também estão ligados ao esporte. Para o sociólogo Mauricio Murad, o esporte e, em especial, o futebol,

tem sentido educativo e de sociabilidade, mas (...) também é mercantilista na dominação do mercado, usado pela política dos poderosos, corrompido por dirigentes e que serve de bom e mau exemplo. Celebrado por artistas conhecidos e por anônimos, desejado por quase todos, com traços de violência e generosidade, excludente e igualitário, que denuncia realidades ou as dissimula, que conscientiza ou aliena. Democrático em suas raízes e história, autoritário em sua história e nas relações de trabalho, que experimenta e acumula. Prazer e sacrifício, amores e ódios; comemorado, brincado, reproduzido, reinventado, globalizado, localizado, usado, empresariado, rentabilizado, investigado, contraditório... humano. Um amplo, necessário e irrenunciável campo de estudo, de alta magnitude e crescente reputação. (MURAD, 2007:19)

Pode-se então conceber o esporte como um instrumento, passível de ser utilizado para diversos fins: ócio e negócio, inclusão e exclusão, alienação e emancipação. O esporte pode promover a educação no seu sentido amplo, que é a mudança de

comportamento, mas, como nos lembra Belbenoit (apud BETTI, 2003:26), o esporte não é educativo à priori; é necessário fazer dele “ao mesmo tempo objeto e um meio de educação”.

Sendo o esporte “um direito de todos os jovens, na sua infância e adolescência” (TUBINO, 2007:41), é necessário englobá-lo àquilo que Edgar Morin chama de “ensinar a condição humana”. No texto “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro”, Morin (apud NOLETO, 2004:23) defende que a educação do futuro exige que se ensine a condição humana, assim definida por ele:

o ser humano é a um só tempo físico, biológico, psíquico, cultural, social e histórico. Esta unidade complexa é tratada pela educação de forma desintegrada por intermédio das disciplinas. A educação deve fazer com que cada um tome conhecimento de sua identidade comum a todos os outros humanos. Assim, a condição humana deveria ser o objeto essencial de todo o ensino. É preciso reunir os conhecimentos dispersos nas ciências da natureza, nas ciências humanas, na literatura e na filosofia para se obter uma visão integrada da condição humana. (MORIN apud NOLETO, 2004:23)

A crença que move o trabalho do Instituto Bola Pra Frente é que o esporte, na sua dimensão educacional, pode contribuir de forma significativa para a transformação social de jovens em situação de vulnerabilidade. Esta transformação é o que o Instituto denomina de “placar social justo”.