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Hva er alternativ og supplerende kommunikasjon (ASK)?

Nos aspectos relacionados aos estudos da cidade, a ênfase do Sr. João Alves, membro da Academia Campo-maiorense de Letras (ACALE) a respeito da instalação das primeiras fazendas de gado no Piauí instigou a investigação sobre o contexto colonial. Dentre as fazendas mais antigas, o destaque foi a Fazenda Bitorocara (CARVALHO, 2009, p. 36), a partir da qual foi fundada a Freguesia de Santo Antônio do Surubim ainda no final do século XVII. A referência sobre o lugar exato da sua instalação se perdeu no tempo, especialmente quando a mesma foi paulatinamente cedendo o lugar para a criação da Vila de Campo Maior e sua posterior evolução como cidade no período republicano. A identificação do local onde foi erguida a sede dessa fazenda ainda está para ser realizada. Até o momento, os documentos escritos sinalizam o possível local na confluência dos rios Surubim, Jenipapo e Longá, entretanto essa evidência poderá ser mais bem elucidada a partir de sondagens arqueológicas no centro histórico da cidade, especialmente através da investigação dos seus marcos de fundação. No entanto, mesmo não sendo possível aprofundar a pesquisa nessa perspectiva, assinala-se o registro dessa importante e necessária investida, uma vez que a história dessa cidade está agregada aos primeiros núcleos urbanos do Piauí (MOTT, 2010, p. 57) e carecem de um olhar mais apurado dos historiadores e arqueólogos. A cidade de Campo Maior conserva na sua materialidade arquitetônica (SILVA FILHO, 2007, p. 67) 20 indícios da sua antiguidade colonial, que tem desaparecido constantemente com as mudanças contínuas da paisagem urbana. O espaço central da Praça Bona Primo, no centro, foi o palco onde ocorreram as inúmeras reuniões, os planejamentos, as primeiras ideias que arquitetaram o plano para impedir que o Major Fidié 21 atravessasse o Rio Jenipapo e marchasse até Oeiras 22 para conter o movimento pela independência que irrompia na capital. Desse modo, pode-se perceber como o espaço onde ocorreu a Batalha guarda uma relação com o espaço da cidade. Nessa investida, procurou-se identificar algumas pessoas interessadas, amantes e

20 A arquitetura da cidade de Campo Maior encontra-se detalhada no livro Casa de Pedra e barro, do arquiteto Olavo Pereira da Silva.

21 João José da Cunha Fidié foi um general do governo português que havia participado das guerras napoleônicas e era conhecido pela sua bravura. Ele chegou à Província de São José do Piauí em 08 de agosto de 1822 com a missão de conter o movimento separatista na região norte da colônia brasileira que, naquela época, correspondia especialmente aos contornos do antigo Estado do Maranhão (que incluía o Piauí, o Maranhão e o Grão-Pará). Em vista da iminência do movimento pela independência, o governo português pretendia manter essa região do Brasil anexada ao seu governo, razão pela qual se desencadeou a guerrilha interna na província do Piauí para se fazer independente de Portugal.

22 Oeiras constitui-se o primeiro núcleo urbano do Piauí e também a primeira capital da Província de São José do Piauí. Com a chegada dos colonizadores (NUNES, 2007, p. 98-106) no brejo da Mocha, é feita a bênção da capela e estabelecimento da Freguesia de Nossa Senhora da Vitória, que se tornou mais tarde Vila da Mocha. Em 1697, no Piauí, já se computavam 129 fazendas de gado.

investigadoras da história da cidade e, para tanto, lançou-se mão da metodologia da história oral com o objetivo de abrir trilhas investigativas, pois um competente historiador aprende que, com a História Oral, poderá captar bem mais do que dados; poderá captar experiência dos narradores, suas tradições, mitos, porventura narrativas de ficção que se encontravam no fundo da memória, assim como as crenças existentes no seu grupo (CONSTANTINO, 2004, p. 63-4).

E assim foi a experiência com os entrevistados. Cada entrevista constituiu-se em uma experiência particular e contribuiu de maneira bem específica. Umas reproduziram as histórias da Batalha do Jenipapo já conhecida nos livros, porém filtradas pelas vivências pessoais, e outras ainda recheadas de muitas leituras e pesquisas. Porém, os entrevistados se mostraram pessoas apaixonadas pela sua cidade e pela sua história ao tempo em que se sentiam como herdeiros e coadjuvantes dessa histórica batalha e responsáveis pela transmissão dessa memória às novas gerações, cada um ao seu modo, fosse através da oralidade, da escrita ou da arte. Dessa maneira, foi se reproduzindo uma memória por tabela, ou uma memória herdada (POLLAK, 1992, p. 5) a partir da qual o indivíduo se recorda ou se reporta à memória de acontecimentos dos seus antepassados dos quais ele não participou, mas herdou dos mais velhos, numa estreita relação entre memória individual e sentimento de identidade coletiva. A memória é constituída de maneira individual e social e também seletiva, de forma que o indivíduo lembra-se de determinados fatos com mais precisão e esquece-se de outros que para ele não foram tão significativos. De cada história, sobrevivem apenas fragmentos de um passado que atravessou vários crivos da história pessoal e socialmente construídos em contextos específicos.

O Senhor Francisco, jovem artista popular, manifestou o seu desejo de perpetuar a batalha por meio da sua arte em um mural do Monumento e ali deixá-lo exposto como um presente ao olhar do visitante, especialmente daquele que desconhece esse fato histórico. Entretanto, esse desejo não pode se concretizar porque não dispunha de financiamento nem de condições materiais suficientes para tal empreendimento. O seu esforço e os recursos adquiridos até o momento lhe garantiram a construção de um quadro em tamanho médio, exposto no memorial. Para a construção desse quadro, o autor se inspirou nas narrativas históricas que ele ouviu dos pesquisadores sobre a Batalha do Jenipapo, na observação da paisagem do rio, especialmente nos períodos de cheia, além dos filmes de faroeste e bangue- bangue a que assistiu quando criança e lhe forneceram elementos que o auxiliaram na elaboração das cenas de explosão e uso de canhões. Com esses elementos sob seu domínio e seguindo a sua intuição, põe-se a construir a sua obra. A partir desse contato com o artista e

ao perceber o seu empenho na elaboração da sua obra, avigorou-se ainda mais a possibilidade de se abordar na tese essas imagens construídas sobre a Batalha. Na sequência das entrevistas, José Omar, professor de matemática e biologia, pesquisador e autor de livros sobre a batalha, mesmo encontrando-se fragilizado por problemas de saúde, não hesitou em colaborar e revelou aspectos peculiares de histórias como aquela relacionada ao Cemitério do Boqueirão, local no qual se julga ter iniciado o povoamento a partir do enterramento de um escravo ferido que fugia da batalha. Existem várias versões dessa história. Em uma delas, se diz que o seu dono, ao saber do ocorrido, ordenou que o enterrassem em meio ao matagal, possivelmente para que aquele fato caísse no esquecimento. A outra diz que o homem ferido foi visto por pessoas que passavam pelo local e, ao ouvirem os gemidos à beira do caminho, ficaram sensibilizados e se comprometeram de voltar trazendo o socorro necessário. Todavia, ao retornarem ao local, aquele homem já havia falecido. E ali mesmo, à beira do caminho, foi enterrado como havia pedido a aqueles que o encontraram ainda com vida, pois supunha que não haveria de resistir. Entretanto, essas histórias se espalharam entre a população daqueles arredores e alguns fragmentos permanecem vivos na memória. Após a batalha, o sofrimento daqueles que perderam seus parentes perdurou ao longo da sua existência. O caos provocado pelos saques instalou-se na Vila de Campo Maior e em toda a porção norte da Província de São José do Piauí, e a população, sem esperanças de ser socorrida em suas necessidades pelos vivos, apegam-se àqueles que morreram injustamente, acreditando na intervenção e justiça divina para aliviar o sofrimento nas calamidades. O enfrentamento das calamidades exige, em certos casos, uma grande dose de transcendência para que as pessoas possam continuar a viver. O túmulo do escravo ferido representou e ainda representa para a população um socorro espiritual e psicológico seguro nas suas aflições e, a partir daquele episódio, a população passou a fazer promessas e peregrinação à sepultura. A cidade do Boqueirão nasceu a partir e vinculada à história do cemitério.

Outro episódio narrado pelo professor José Omar diz respeito a uma entrevista, gravada e realizada por ele com Cosme Borges da Silva, um negro que teria vivido por mais de cem anos de idade. Ele teria ocupado toda a sua vida com a lida do gado em fazendas da região, e sua profissão de vaqueiro herdara dos seus antepassados. Ele lhe contara as histórias narradas pelos seus pais sobre a participação dos seus antepassados na Batalha do Jenipapo. Infelizmente essa entrevista não havia sido transcrita, e a fita cassete foi extraviada. Fato lamentável. Esse foi um dos aspectos sobre os quais se havia levantado vários questionamentos: seria possível encontrar em Campo Maior algumas pessoas cujos antepassados lhes teriam deixado alguma histórica lembrança da sua participação nos

episódios da batalha? Como esse episódio pode ser silenciado totalmente pelos descendentes? Ele estaria na categoria dos acontecimentos trágicos que teriam causado culpa e vergonha àqueles envolvidos, justificando assim o seu silenciamento? Ou o tempo transcorrido de aproximadamente quase duzentos anos seria o argumento que melhor justificaria o silêncio sobre esse episódio? Poderia ter havido algum ato político de caráter privado que tenha imposto o silêncio a esses descendentes, especialmente aqueles que receberam alguma espécie de indenização? Houve alguma indenização? Todavia deve-se recordar que um número considerável daquelas pessoas que participaram daquele episódio não era apenas oriundo da Vila de Campo Maior e suas adjacências. Talvez investigar em outras cidades próximas como Piripiri, Jatobá, Castelo, Valença, Piracuruca, Parnaíba, Oeiras, assim como no Estado do Pernambuco, no Ceará, no Maranhão e até mesmo em Portugal fosse uma alternativa a se recorrer em procura de alguma história desses descendentes. Porém, essa possibilidade não está descartada de se realizar em um momento oportuno. A entrevista com o Sr. Miranda mostra um homem simples, sem grandes estudos e amante das histórias relacionadas à batalha, histórias essas que ele afirma tê-las compartilhado com o Monsenhor Chaves e o mesmo havia concordado e o estimulado a continuar a sua investigação e a sua escrita. Seu grande desejo seria publicar essas histórias e toda a sua investigação em livro, assim como refazer todo o percurso do comandante português, o Major Fidié. Contudo, lamenta que a sua idade, a saúde e as condições não permitam a concretização de tal desejo. O Sr. Miranda conta, com muita ênfase, várias histórias que ouviu de alguns descendentes dos que lutaram na batalha e de visitantes do Cemitério do Batalhão, quando foi presidente do mesmo e ali permanecia observando o movimento dos viandantes.

Ouvir essas histórias possibilitou compreender que a batalha teve um alcance e impacto sobre a vida das pessoas em uma intensidade muito maior do que se possa imaginar. O mais admirável foi perceber que o grande diferencial não estava apenas em alguns detalhes das histórias contadas, mas nas experiências vivenciadas por cada um dos entrevistados e perceber como as histórias da batalha permearam suas vidas.