1. Em que ano foi criado o gabinete de comunicação do CINTESIS?
Eu cheguei em 2016. A equipa como um todo começou a trabalhar em 2017, no início do ano. 2. Para que públicos estabelece o gabinete as suas estratégias de comunicação?
O CINTESIS como faz investigação na área da saúde tem um público extremamente alargado. Obviamente que temos aqueles públicos internos e públicos especializados, quer sejam os próprios investigadores e os médicos, nós produzimos muito conhecimento que é importante que os próprios médicos e outros profissionais de saúde como, por exemplo, os enfermeiros também venham a ter conhecimento para melhorarem as suas práticas. Também dirigimos a nossa comunicação a empresas, uma vez que criamos inovação ligada à área da saúde, mas precisamos de parcerias com empresas, portanto esse é também um público-alvo. Mas, essencialmente, no que nos estamos a focar, porque esses parâmetros já existiam, a comunicação com esses públicos especializados já existia, o que não existia e foi para isso que a equipa em que estou a coordenar foi criada, foi para comunicarmos com a sociedade em geral, ou seja, com o público em geral. Isto pode parecer um contrassenso numa altura em que se fala tanto em segmentação de públicos em termos de marketing, mas não é. Efetivamente nós fazemos estudos que interessam a largas franjas da população e tentamos fazê-lo da forma mais alargada possível, nomeadamente através dos meios de comunicação social. Obviamente que se fizermos um estudo que tem que ver com crianças usamos os órgãos de comunicação generalistas, e pensamos na população como um todo, mas depois também pensamos nas mães, nos pediatras, portanto, afunilamos essa comunicação. Mas estamos numa lógica, porque a saúde interessa a todos, de tentar disseminar essa informação o mais amplamente possível.
3. Quais são os públicos prioritários da instituição?
É a sociedade em geral. É essa a aposta que estamos a fazer, quer para nos darmos a conhecer enquanto unidade de investigação e para fortalecermos a nossa marca que ainda é jovem, quer porque acreditamos efetivamente que é isso que é preciso fazer. A saúde é um bem extremamente transversal e, ao contrário de outras áreas em que pode ser pouco eficiente estar a comunicar para a sociedade como um todo, aqui parece-nos que é muito importante comunicar para a sociedade como um todo, até porque há muitas questões cruzadas. Por exemplo, nós fazemos muita investigação à volta do conhecimento, que é realmente um fator essencial e que temos de trabalhar na sociedade
atual muito envelhecida. Mas quando comunicamos algum estudo sobre o envelhecimento não nos importa comunicar só para os idosos, interessa-nos comunicar para os filhos dos idosos, para os cuidadores dos idosos e, portanto, logo aí todo a população adulta quer porque envelhece quer porque é muito possível que seja cuidadora de um pai ou mãe nessa posição, torna-se parte interessada. Portanto, para dizer que há muitas comunicações assim, e digamos que claramente tirando projetos especiais só excluímos as crianças, de resto comunicamos para a população adulta como um todo. 4. Que estratégias desenvolve atualmente o departamento de comunicação para atingir
a comunidade não científica (media, público escolar, e público em geral)?
Nós adoramos assessoria de imprensa. Eu sou a responsável de comunicação e identifico-me muito com isso e ainda me apresento como assessora de imprensa, embora agora se diga assessora de comunicação. Efetivamente, nós exploramos a comunicação digital e percebemos o potencial das redes sociais, e conseguimos até umas dinâmicas interessantes, mas aquilo que nós usamos como base e alavanca para tudo tende a ser os órgãos de comunicação social. Portanto, fazemos press releases, dirigidos ou mais transversais dependendo do tema o que vai alternando as estratégias usadas, mas tentamos sempre na nossa ótica puxar o assunto de forma a ter interesse para os generalistas, para chegar à sociedade em geral. Mediante o resultado mediático é que nós trabalhamos as redes, trabalhamos esta lógica. Depois de termos notícias de televisão ou uma notícia via LUSA e que depois sai muitos recortes, nós aproveitamo-los as redes e tentamos a partir dessas notícias alavancar esse público normalmente mais jovem que nos segue nas redes sociais. Mas o cerne da questão são os media, porque acreditamos que sem eles não conseguimos chegar à sociedade em geral. Podemos dizer que é através das redes que chegamos à sociedade em geral mas não é assim, porque nós não temos um público tão amplo como um órgão de comunicação social. Por isso, usamos as redes sociais para potenciar esses resultados mediáticos, mas a nossa lógica é a relação com os jornalistas. Os jornalistas para nós são grandes parceiros e achamos que essa é a forma certa de criar mais impacto.
5. Com que frequência/regularidade são realizadas ações de comunicação e aproximação da ciência com os diferentes públicos?
Nas redes sociais publicamos todos os dias. O Facebook, agora em agosto fechamos, mas numa situação normal, agora a começar em setembro as redes sociais são atualizadas todos os dias. O Facebook e o Twitter são atualizados todos os dias, o Instagram e o Linkedin pelo menos 3/4 vezes por semana, pois são duas redes em que apostamos um bocadinho menos. O Facebook é realmente
aquela que nos cria mais engagement e que é amplamente atualizada todos os dias, no mínimo uma vez por dia, mas se for numa semana em que realmente até temos iniciativas interessantes, quer internas quer resultados mediáticos, fazemo-lo com mais frequência. Em termos de media, o nosso objetivo é que haja pelo menos duas informações por mês, obviamente que isso não depende só de nós, também há projetos que têm timings específicos para comunicar, e também há vezes em que nos focamos noutros projetos, por exemplo, participamos em eventos como a Mostra da Universidade do Porto ou outros eventos de ligação direta à sociedade, em que pomos os nossos investigadores e que estamos nós próprios em contacto direto com certos públicos. No caso da Mostra da Universidade do Porto, esta é dirigida a um público mais jovem e quando estamos com esses projetos eles mobilizam muitos recursos humanos e, portanto, passamos um mês em que temos menos disponibilidade para fazer o contacto regular com os órgãos de comunicação social, ou quando renovamos o site. Assim, temos momentos em que abrandamos o ritmo mas por força de outros projetos que surgem.
Agora, saindo desta ótica de comunicar com a sociedade em geral que é aquela que privilegiamos. Mas obviamente que desenvolvemos estratégias para comunicar com os públicos internos e aqueles que são mais próximos mesmo sendo externos, os públicos especializados. Nós promovemos vários workshops para investigadores e jovens investigadores, com temas diferentes. E temos ainda algumas iniciativas maiores de abertura à sociedade, como a Mostra da Universidade do Porto, um grande evento que organizamos há uns anos e que pretendemos fazer novas edições sobre ciência, saúde e comunicação, no qual tentamos juntar quer as pessoas de comunicação quer os cientistas, aproximá- los e tentar criar alguns pontos de contacto. Temos também colaborações com escolas, de forma a mostrar a nossa investigação aos miúdos e, de alguma forma incentivá-los a seguir a uma carreira nesta área. Isto também engloba as escolas de secundário e nesses casos fizemos uma iniciativa que eu achei muito engraçada por causa desta vaga de notícias de fake news na área da saúde e realmente esses públicos são os menos preparados para lidar com este tema. Então, nós criamos uma iniciativa em que ia eu ou outra colega da comunicação e uma cientista e investigadora do CINTESIS e apresentávamos notícias de saúde, umas efetivamente sólidas e outras claramente mal construídas ou mesmo fake news. E era assustador, porque os miúdos realmente não conseguiam distinguir entre elas. A cientista dava algumas dicas de pensamento científico, de como é que é os miúdos deviam ler essas notícias e a pessoa de comunicação também explicava os meandros da comunicação social para lhes dar depois a ótica crítica do ponto de vista jornalístico. Se nós conseguimos algum resultado efetivo isso não sei dizer, mas que pelo menos criamos algum
awareness sobre isso, eu espero bem que sim, e depois também é uma forma interessante de apresentar ciência, porque ao apresentar notícias estamos a apresentar ciência de uma forma mais fácil, mais simplificada. E algumas dessas notícias eram mesmo muito atuais e eles tinham-nas visto nos feeds e outros meios e isso criou maior envolvimento.
6. Qual é o impacto que essas estratégias/ações têm nos diferentes públicos?
Como o CINTESIS é uma unidade nova, nós começamos em força com várias estratégias para diferentes situações, mas ainda não apuramos tanto quanto gostaríamos as estratégias de avaliação de algumas dessas estratégias que implementamos, nomeadamente nessas das escolas. Neste momento fazemos essas participações e temos depois o feedback dos professores, mas por exemplo não estamos a implementar uma coisa que eu gostaria que era quase como testes diagnósticos aos estudantes. Contamos neste momento apenas com o feedback dos professores que tem sido positivo, pelo menos para lhes dar material para trabalhar durante outras aulas, e eles dizem sempre que o impacto de irem lá investigadores é muito interessante, pois às vezes os investigadores estão a dizer coisas que os professores de ciências até já disseram mas é diferente pois tem o cunho do investigador. O feedback dos professores tem sido muito interessante mas ainda não apuramos a avaliação ao ponto de perceber se o aluno se tornou mais capaz de identificar uma notícia falsa, neste caso. Mas, pelo menos, esperamos que a sementinha tenha lá ficado.
7. Como avalia o sucesso/insucesso dessas estratégias ou ações?
Sim, eu considero que são bem sucedidas, pelo feedback dos professores e pelo feedback dos nossos próprios investigadores. Uma coisa que é também muito interessante é criar esta proximidade do investigador com aquilo que é a realidade e fazê-los perceber qual é a dificuldade em comunicar com certos públicos, e quando são eles (os investigadores) na primeira pessoa a ter de o fazer, e não só a depender dos assessores de comunicação, tradutores e embaixadores, eles começam a perceber muito melhor porque é que nós temos de simplificar, porque é que temos de usar analogias, porque é que certas partes do projeto e questões institucionais de parceiros, entre outras, não vão interessar e vamos perder audiência. Portanto, eu acho que essas atividades são ótimas porque obviamente que não há nenhuma comunicação em termos de alcance nada como usar os media, mas em termos de envolvimento nada como o contacto cara-a-cara, e são momentos de aprendizagem para os estudantes, muitas vezes são momentos de aprendizagem para os professores que lá estão, mas também são momentos de aprendizagem para os investigadores. Um investigador que participe numa ação dessas, claramente muda a sua perspetiva da comunicação e começa a perceber melhor a
necessidade de simplificar e de sair desta bolha da ciência para chegar aos públicos, mesmo que não corra assim tão bem eles aprendem sempre, quer seja um sucesso quer seja um bocadinho mais difícil, aprendem sempre. E, na verdade, eu tenho que confessar que muitos deles resistem quando nós lhes propomos estas iniciativas por diversas razões, mas depois no final estão sempre satisfeitos e isso é muito bom. Por isto, estas iniciativas também são para melhorar e aumentar em número e depois aprofundar em termos de avaliação. Para que isso aconteça o que é que nós precisamos? Precisamos que estes canais estejam mais oleados e amadurecidos, de forma também a que as iniciativas dependam menos dos técnicos de comunicação, porque não podemos estar em todo o lado, mas temos muitos investigadores. Portanto, o que interessava era criarmos esta rede e ela estar de tal forma oleada que nós consigamos pôr os investigadores nas escolas sem termos de cada vez nós irmos também para fazer essa mediação.
8. Qual considera ser o papel dos gabinetes de comunicação na criação da notoriedade e imagem das organizações científicas junto da comunidade?
Eu acho que os gabinetes de comunicação são absolutamente essenciais. Acho que é um erro crasso quando as unidades ou centros de investigação não apostam devidamente nestes gabinetes de comunicação. Acho que este pessoal de comunicação deve ser pessoal da unidade de investigação, ou seja, deve ser pessoal interno, e isto pode ser polémico, mas eu pessoalmente não concordo muito com a subcontratação de empresas de assessoria, etc., pois há conflitos de interesses e não só. Um centro de investigação é uma entidade complexa, com informação muito complexa e que precisa de alguém que esteja lá sempre e que perceba todas as nuances e que possa prestar um bom serviço, e isso exige tempo. Não é algo que seja como vir um account de fora, ouvir umas coisas nas reuniões e ter um briefing e passar para fora. Isso não vai correr bem a longo prazo, até porque muitos setores de comunicação a trabalhar tem que estar tudo interligado, coerente e em sintonia, para além do trabalho que é preciso com os investigadores porque senão vamos aliená-los. Em suma, ter as equipas de comunicação é essencial, trabalhar na construção dessas marcas é essencial e conseguir pôr informação que está a ser produzida, passá-la para a sociedade como um todo é essencial também porque nós devemos isso à sociedade, pois somos financiados por verbas estatais ou europeias e, portanto, temos essa obrigação moral e isso é importante também dizer aos investigadores. Mas também para sermos efetivos em termos da comunicação com certos públicos especializados, porque os investigadores não têm que ter boas competências de comunicação, claro que é sempre uma mais valia em qualquer profissão, mas eles não têm de estar a par do último estado da arte na área da comunicação. E o que nós vemos é que as equipas quando não estão a ser apoiadas por profissionais
de comunicação tendem a replicar modelos que já usaram e que podem ser desadequados para outros projetos, tendem a copiar modelos que veem em outros projetos, por exemplo internacionais, mas o que acontece é que a nossa realidade é diferente e depois esses modelos cá não funcionam. Por isso, às vezes, para um profissional de comunicação treinado olhar para aquilo é de pôr as mãos à cabeça. Eu acho que a solução para um centro de investigação que neste momento não tenha pelo menos um assessor de comunicação internamente, está a prestar um mau serviço à sociedade, pois há certamente áreas da comunicação que estão a falhar. E é preciso ter esta visão, porque não se pode pôr um bolseiro de mestrado ou de doutoramento que é biólogo a fazer umas coisas no Facebook. Ele vai fazer umas coisas no Facebook mas certamente não o vai fazer como alguém que tem formação em comunicação. É como se metêssemos um profissional de comunicação à frente de um microscópio, ele também não ia fazer um bom trabalho. E normalmente, eles ficam sempre zangados com estas analogias porque, normalmente, há esta perceção de que todos nós sabemos usar as ferramentas de comunicação, mas isso não é verdade e para a comunicação ser efetiva e para a sociedade realmente conhecer os centros de investigação é necessário que sejam profissionais de comunicação e até especializados que comecem desde cedo a trabalhar esta área da ciência e da tecnologia e que consigam lidar com as inúmeras dificuldades que apresentam.