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5.2 Hva er effekter for brukere og ansatte?
Nesta secção, apresentaremos os aportes que recolhemos de um conjunto de estudos sobre o género picaresco na Europa. Referimo-nos a um conjunto de trabalhos que, segundo Cabo, constituem a secção da crítica ao género picaresco que adopta uma
perspectiva comparatista e se caracteriza por uma “enfasis en una concepción de la narrativa picaresca no limitada por el marco espacio-temporal de la España del Siglo de Oro” (Cabo 1992:16). Tal como iremos ver, a nossa leitura dos estudos sobre o romance picaresco na Europa parece conduzir-nos uma vez mais para as duas conclusões que havíamos retirado das fontes sobre o género literário e a literatura picaresca. Por um lado, o estudo da produção de obras picarescas autóctones numa determinada literatura deve ser precedida e conduzida pelo estudo da recepção dos romances picarescos espanhóis nessa mesma literatura. Por outro, o género picaresco conheceu diferentes configurações tendo a sua evolução sido determinada por factores contextuais. Estas duas conclusões são desenvolvidas em quatro argumentos.
Cronologicamente, parece-nos seguro afiançar que a orientação comparatista dos trabalhos críticos sobre o género picaresco se consolidou nos anos sessenta e setenta do século XX, mediante a publicação de um conjunto de trabalhos que tiveram como mote a obra precursora de Chandler, The Literature of Roguery ([1899] 2010). Estudos como os de Claudio Guillén (1954) Robert Alter (1964), Stuart Miller (1967), Alexander Parker (1967), Christine Whitbourn (1974), Frederick Monteser (1975), Harry Sieber (1977), Richard Bjornson (1977a e 1977b), Alexander Blackburn (1979), Howard Macing (1979), Hendrik Van Gorp (1985), entre outros (como Giddings 1967 ou Ritchie 1974 citados por Ardila 2010), vieram demonstrar que o género picaresco constituiu um fenómeno de recepção e produção à escala europeia. Portanto, as obras picarescas espanholas foram amplamente importadas via tradução pelos diferentes sistemas literários europeus e diferentes literaturas picarescas autóctones emergiram em diferentes contextos nacionais.
A exposição dos contributos retirados destes estudos organizar-se-á da seguinte forma: em primeiro lugar, apresentaremos um conjunto de fenómenos de recepção dos romances picarescos espanhóis, que, segundo estes autores, precederam a constituição das diferentes literaturas picarescas autóctones. Em segundo, esclareceremos, na senda destes autores, que, dentro do fenómeno europeu de produção de obras picarescas, se distinguem distintos géneros picarescos com características particulares a cada contexto nacional. Em terceiro, apresentaremos a cronologia do género picaresco na Europa que estes estudos delinearam. Nesta cronologia distinguiremos a cronologia da produção de obras do género picaresco, a cronologia da recepção das obras picarescas espanholas e a cronologia da reflexão crítica sobre o género picaresco no contexto europeu. Em quarto e último lugar, consideraremos quais as determinantes da cronologia do género picaresco na Europa. Tal como iremos ver, os fenómenos de recepção, produção e reflexão crítica sobre o género picaresco não devem ser analisados fora das relações de poder entre as diferentes literaturas nacionais.
Comecemos, então, pela exposição do argumento de que a constituição das diferentes literaturas picarescas autóctones foi precedida por um conjunto de fenómenos relacionados com a recepção dos romances picarescos espanhóis. Segundo alguns dos estudos analisados, foram observados quatro fenómenos literários, ocorridos em diferentes contextos europeus, no momento da apropriação do género picaresco. Estes fenómenos indicam que, nas diferentes literaturas europeias, a produção de obras picarescas traduzidas e a produção de obras picarescas não-traduzidas se desenvolveram em estreita relação. O primeiro fenómeno observado consiste numa intensa recepção via tradução das obras picarescas espanholas. Ou seja, a constituição de cada literatura picaresca autóctone foi ora precedida ora acompanhada por uma forte circulação de
obras picarescas espanholas em versão traduzida no mesmo sistema literário (Sieber 1977:37; Ardila 2010:21).
O segundo fenómeno consiste na publicação de pseudo-traduções. Como exemplo deste fenómeno, podemos relembrar o momento do aparecimento da primeira obra do género picaresco alemão. Em 1615, Aegidus Albertinus publicou a primeira tradução em língua alemã do Guzmán, composta por duas partes. Enquanto a primeira parte correspondia à tradução de Primera parte de Guzmán de Alfarache (1599), a segunda parte, ao invés de reproduzir a Segunda parte de la vida de Guzmán de
Alfarache (1604), continha uma continuação da obra picaresca espanhola originalmente
escrita por Albertinus (Sieber 1977:41). Esta segunda parte consiste, assim, numa pseudo-tradução, uma vez que se trata de um texto não-traduzido que circulou como uma tradução da obra espanhola de Alemán.
O terceiro fenómeno consiste na publicação de pseudo-originais. Como exemplo deste quarto fenómeno, podemos recorrer ao momento da constituição da literatura picaresca francesa. Alain-René Lesage publicou em 1715-1735 Histoire de Gil Blas de
Santillane apresentando-o como um romance picaresco da sua autoria. Cécile Cavillac
(1984) veio demostrar que esta obra é composta por um conjunto de episódios traduzidos de obras como Marcos de Obregón (1618), Estebanillo e Alonso, mozo de
muchos amos (1624-1626). Esta obra consiste, assim, num pseudo-original, uma vez
que se trata de um texto traduzido que circulou como um original de Lesage.
O quarto e último fenómeno consiste na publicação de “aproximações”. O conceito de “aproximação” é definido por Genette como uma obra não-traduzida que, tendo como modelo uma obra literária anterior proveniente de outro sistema literário,
cria uma versão nacional dessa obra. O autor dá como exemplo deste fenómeno as aproximações originadas pelo enorme sucesso do romance de Daniel Defoe Robinson
Crusoe, nomeadamente, Robinson allemand de Campe, publicado em 1779 e Robinson suisse de Wyss publicado em 1813 (Genette 1982:351). Nestas aproximações cria-se
uma versão nacional do protagonista Robinson Crusoe cujas novas aventuras têm lugar no território nacional. Passando para a observação deste fenómeno na história da produção europeia de obras do género picaresco, podemos invocar como exemplo o momento da constituição da literatura picaresca inglesa. Em 1622, foi publicada a primeira tradução em Inglês de Guzmán de Alfarache, intitulada The Rogue or the Life
of Guzman de Alfarache. Seguindo o grande sucesso editorial desta tradução6, foi publicada uma aproximação inglesa intitulada English Gusman (1652) de George Fidge (Sieber 1977:51). Esta obra consiste, assim, numa aproximação, uma vez que cria uma versão inglesa do protagonista Guzmán de Alfarache, cujas aventuras têm lugar em Inglaterra.
Os estudos sobre o romance picaresco na Europa demonstram não só que a produção de obras picarescas originais e a produção de obras picarescas traduzidas se desenvolveram em estreita ligação em diferentes contextos europeus, como o segundo argumento que apresentam é o de que as traduções europeias dos romances picarescos espanhóis constituem uma fonte valiosa para a análise das diferentes características do género picaresco espanhol e dos diferentes géneros picarescos europeus. Algumas das fontes consultadas esclarecem que, dentro do fenómeno europeu da produção de obras do género picaresco, existem diferentes géneros picarescos particulares a cada cultura de chegada. Utiliza Jean Marie-Schaeffer (1989:118) o exemplo do género picaresco
6 Publicada em 1622 e republicada no mesmo ano, em 1623, 1630, 1633, 1634, 1655 e 1656 (Sieber
para demonstrar como a recepção via tradução e a produção original de obras de um mesmo género literário são determinadas por diferentes contextos comunicativos. A cada literatura europeia corresponde um género picaresco próprio; assim as obras dos diferentes géneros picarescos europeus, não deixando de apresentar características textuais contidas nas obras picarescas espanholas, apresentam características textuais novas e particulares.
Outras fontes argumentam que as características textuais particulares a um dado género picaresco nacional estarão contidas não só nas obras picarescas originais, mas também, e primeiramente, nas traduções das obras picarescas espanholas. Cécile Cavillac (1984) e Hendrik van Gorp (1985) são autores de dois estudos fundamentais para a compreensão das particularidades do género picaresco francês. Tal como iremos discutir com maior detença no capítulo 2, os trabalhos de ambos estes autores vêm defender que a análise das traduções dos romances picarescos espanhóis publicados num determinado contexto cultural possibilita ora compreender as determinantes locais que terão reconfigurado o género picaresco, ora aceder às particularidades textuais desse género picaresco autóctone, o francês, que, posteriormente, estarão presentes nas obras picarescas originais.
Após terem apresentado o conjunto de fenómenos que participou no processo de apropriação do género picaresco nos diferentes contextos europeus e após terem esclarecido que existem diferentes géneros picarescos nacionais, estes trabalhos expõem um terceiro argumento: nas diferentes literaturas europeias, o género picaresco apresenta uma cronologia semelhante. Tal como dissemos no início da secção, nesta cronologia distinguiremos a cronologia da produção de obras picarescas, a cronologia
da reflexão crítica sobre o género picaresco e a cronologia da recepção via tradução dos romances picarescos espanhóis.
Começando pela cronologia da produção de obras do género picaresco na Europa, Guillén em Teorías de la historia literaria (1989) descreve-a de maneira bastante clara:
[L]a novela picaresca: esbozada durante el siglo XVI, española durante el XVII (con adiciones alemanas y neerlandesas) europea durante el XVIII, abandonada durante el XIX (con excepciones como Lizardi y ciertas huellas en Gogol. Dickens, Mark Twain, Galdós), rescatada más o menos irónicamente durante el siglo XX (…). (Guillén 1989:291).
Guillén considera a produção de obras do género picaresco um fenómeno de duração intermitente, porque a história deste género literário é feita de épocas de êxito, desaparecimento e resgate. Assim a produção de obras do género picaresco que nos séculos XVI e XVII consistia num fenómeno espanhol, alarga-se à escala europeia no século XVIII e, após este clímax, quase desaparece durante o século XIX7. Como neste trabalho se defende, a Literatura Portuguesa parece constituir uma excepção desta cronologia.
Outras fontes ainda distinguem, na cronologia da produção europeia de obras do género picaresco, dois momentos no interior do século XVIII. O primeiro momento tem
7
Relativamente ao quase desaparecimento de produção de obras do género picaresco na Europa do século XIX, devemos ressalvar que os trabalhos mais recentes desenvolvidos por Maria Fernanda de Abreu, no âmbito do projecto “Historia comparada de las literaturas de la península ibérica”, coordenado por Fernando Cabo, parece afinal vir relativizar ou mesmo contradizer a afirmação de Claudio Guillén. Deixando de parte a investigação desenvolvida por esta autora sobre a rica literatura do género picaresco publicada fora da Europa, concretamente, na Iberoamérica, Abreu nota um renovado interesse pelo género picaresco em Portugal e em França de Oitocentos. Por um lado, e recuperando os trabalhos de Ernesto Guerra da Cal (1971), Jacinto do Prado Coelho (1976) e João Gaspar Simões (1987), apresenta um conjunto de obras da Literatura Portuguesa, nomeadamente, Memórias de João Coradinho de Almeida Garrett, algumas novelas de Camilo Castelo Branco (1825-1890) e A Relíquia de Eça de Queirós que mostram algumas características do género picaresco. Por outro, argumenta que terá havido um renovado e popular interesse pela literatura picaresca em França, na esteira da publicação de uma tradução de Lazarillo de Tormes em folhetim, no ano de 1835.
lugar entre 1700 e 1753, período em que as obras picarescas europeias eram compostas segundo os modelos espanhóis. O segundo começa em 1753 e vai até ao final do século e constitui o período em que os modelos picarescos franceses substituíram os espanhóis. Com base nestes dois momentos, alguns estudos sobre o género picaresco na Europa estabelecem a priori o ano de 1753 como limite temporal do seu estudo8, por este constituir a data de publicação de The Adventures of Ferdinand Count Fathom, de Tobias Smollett (1753), considerada a última obra que teve o modelo picaresco espanhol na sua génese (Parker 1967:vi). A partir da segunda metade do século, o modelo preferido na produção de obras picarescas é o romance francês Gil Blas (1715- 1735) de Alain-René Lesage (1646-1747). Porque o género picaresco francês apresenta características próprias relativamente ao espanhol, alguns estudiosos preferem trabalhar exclusivamente a literatura picaresca europeia publicada no período da centralidade dos modelos espanhóis.
No que toca à cronologia da reflexão crítica, o século XIX constitui o momento do nascimento do conceito historiográfico de “género picaresco”. Os historiógrafos do Romantismo reclamaram os romances do Século de Ouro como elemento original e identificador da Literatura Espanhola. Assim, a historiografia do século XIX resgata a tradição picaresca e apresenta-a como um produto da originalidade do carácter da nação espanhola. Este argumento está presente numa das obras mais importantes da historiografia romântica da Literatura Espanhola, a obra de 1813 de Simone de Sismondi:
8 Literature and the Delinquent. The Picaresque Novel in Spain and Europe 1599-1753 (Parker 1967); Il
Lazarillo de Tormes e la sua ricezione en Europa (1554-1753) (Martino 1999); La novela picaresca en Europa 1554-1753 (Ardila 2010).
Cada nación tiene su gracejo, que le es propio y el de Lazarillo de Tormes es eminentemente español (…) Muchas novelas se han escrito, imitando a Lazarillo
de Tormes, a cuyo género han llamado los españoles el gusto picaresco (…) Guzmán de Alfarache, la Pícara Justina y otras muchas obras de esta clase.
(Sismondi [1813] 1842:I,214-215)
Portanto, no século XIX, o género picaresco ganha um lugar na História da Literatura Espanhola que o apresenta como um produto da originalidade espanhola, como um género literário animado pelo gracejo da nação espanhola.
Relativamente à cronologia da recepção via tradução das obras picarescas espanholas na Europa, esta foi delineada por Hendrik van Gorp no seu ensaio “Translation and Literary Genre: the European Picaresque Novel in the 17th
and 18th Centuries” (1985). Contudo, para se compreender a evolução das traduções europeias dos romances picarescos espanhóis, é necessário ter em mente o conceito de “normas” definido por Gideon Toury em Descriptive Translation Studies and Beyond (1995).
De acordo com Toury, a tradução, à semelhança de outras actividades sociais, é determinada por normas. As normas sociais asseguram a regularidade dos comportamentos dos diferentes indivíduos de uma sociedade, pois, por um lado, configuram um conjunto de comportamentos expectáveis e, por outro, supõem a existência de sanções para os comportamentos desviantes. Visto as normas se modificarem diacrónica e diatopicamente e porque o acto tradutório consiste na transferência de um texto produzido num determinado momento histórico e numa determinada cultura para um novo contexto histórico e cultural, o tradutor terá forçosamente de optar entre seguir as normas do contexto de partida, ou seguir as normas do contexto de chegada. Nos casos em que o tradutor segue as normas do
contexto de partida e, assim, produz um texto de chegada mais próximo ao texto de partida, considera-se que estamos perante uma tradução em adequação. Nos casos em que o tradutor segue as normas do contexto de chegada, produzindo um texto traduzido mais afastado do texto de partida, considera-se que estamos perante uma tradução em aceitabilidade (Toury 1995:53-69).
Não esquecendo o conceito de “normas” e a distinção entre traduções adequadas e traduções aceitáveis, conseguimos compreender as três fases da tradução de obras picarescas espanholas na Europa distinguidas por Hendrik van Gorp. A primeira fase começa em 1560 e termina em 16209 e é marcada por traduções europeias das obras picarescas espanholas muito adequadas aos textos e cultura de partida. Adicionalmente, as obras picarescas em tradução eram publicitadas, quer como obras cómicas quer como produtos através dos quais se poderia conhecer a realidade e os costumes espanhóis. Esta dupla publicitação está claramente presente no título da tradução francesa do
Lazarillo, publicada em 1561: L’Histoire plaisante et facétieuse du Lazare de Tormes
espagnol: en laquelle on peult recongnoistre bonne partie des moeurs, vie et conditions des Espagnols. A segunda fase começa em 1620 e termina no final do século XVII e é
marcada, por um lado, pela ascensão da França a contexto mediador; ou seja, as traduções das obras picarescas espanholas para Alemão, Inglês e Neerlandês começam a ser feitas indirectamente a partir das traduções francesas. Por outro lado, esta segunda fase é marcada por uma evolução das traduções de mais adequadas para cada vez mais aceitáveis, especialmente as traduções francesas. Os tradutores franceses adaptam as obras picarescas espanholas às regras estéticas do Classicismo, de acordo com a teoria da tradução francesa de Seiscentos e Setecentos, conhecida por Les Belles Infidèles, que
9 A primeira data corresponde ao ano de publicação da primeira tradução de Lazarillo de Tormes para
Francês. A segunda data corresponde ao ano de publicação da Segunda parte de Lazarillo de Tormes de Juan de Luna em Paris, obra publicada em edição bilingue Espanhol-Francês.
se caracteriza por textos de chegada muito aceitáveis10. A terceira e última fase da história da tradução europeia das obras picarescas espanholas compreende todo o século XVIII. Esta fase é marcada pelo sucesso europeu do autor francês Alain-René Lesage que, para além de publicar Gil Blas, o seu romance picaresco original, publica as suas traduções das obras picarescas espanholas. Durante todo o século XVIII, as traduções de Lesage das obras picarescas espanholas serão utilizadas como textos de partida nos demais sistemas literários europeus.
Por fim, para além de delinearem a cronologia do género picaresco na Europa, estes estudos argumentam que esta cronologia foi determinada pelas relações de poder que regem as trocas culturais entre diferentes literaturas. Por exemplo, em O Romance:
alguns aspectos da sua evolução na literatura europeia (1934), Alberto Xavier coloca a
cronologia da produção de obras picarescas na Europa em diálogo com outra cronologia, a das diferentes hegemonias literárias europeias. Nesta obra, defende-se que a produção romanesca nos países europeus foi sempre liderada por uma nação que ocupa o lugar hegemónico, uma vez que “uma nação, quando se ergue intelectualmente, desenvolve logo influência espiritual além fronteiras, suscitando um movimento geral de imitação” (17). A cronologia das diferentes hegemonias literárias europeias é delineada do seguinte modo:
[É] indubitável que a primeira hegemonia literária na Europa pertence, no século XII, à França, que a conserva no século XIII; que êsse papel proeminente é exercido pela Itália em meados do século XIV, prolongando-se no século imediato; que tal predomínio transita, a seguir, para a Espanha, no século XVI,
10 Myriam Salama-Carr apresenta mediante as seguintes palavras o fenómeno histórico de Les Belles
Infidèles: “The early part of the seventeenth century was the great age of French Classicism, but translations were increasingly expected to conform to the literary canons of the day. The free dynamic translations known as Les Belles Infidèles aimed to provide target texts which are pleasant to read, and this continued to be a dominant feature of translation into French well into the eighteenth century. Classical authors were reproduced in a form which was dictated by current French literary fashion and morality” (2006:411).
mantendo-se até meados dos século XVII, período em que a França reaparece robustecida e vigorosa impondo à Europa inteira o seu ideal moral, social e literário, ideal que era a expressão pura do seu génio. Depois, ao longo do século XIX, a hegemonia vai ser disputada entre a Inglaterra, a França e a Alemanha. (Xavier 1934:15-16)
Lendo esta cronologia, depressa se conclui que a produção do género picaresco na Europa foi determinada pela sucessão de hegemonias literárias europeias. Assim, até meados de XVII, época da hegemonia literária espanhola, os modelos espanhóis conduziram a produção das diferentes literaturas picarescas europeias. Posteriormente, a partir da segunda metade de XVII até finais de XVIII, aquando da hegemonia literária de França, os modelos franceses tomaram o lugar dos espanhóis.
No ensaio já citado de van Gorp, as três fases da recepção via tradução das obras picarescas espanholas na Europa são postas em relação com as diferentes fases que marcaram as relações de poder na Europa literária. Estas diferentes fases são descritas da seguinte forma:
During the sixteenth and early seventeenth centuries the international prestige of Habsburg Spain was very great, while on the cultural front the country could boast influential prose writers such as Montemayor, Montalvo (Amadís de Gaula, 1508), Cervantes and others. Spain‟s neighbor France was in a state of political and religious turmoil. Towards the middle of the seventeenth century, France