Para Antunes (1995), na década de 1980 presenciaram-se nos países capitalistas profundas transformações no mundo do trabalho, nas formas de inserção na estrutura produtiva, nas formas de representação sindical e política. Foram intensas modificações que, de acordo com o autor, é possível afirmar que a classe que vive do trabalho sofreu a mais aguda crise do século XX, que atingiu não só a materialidade do trabalho, mas também teve repercussões na sua subjetividade, que afetou a sua forma de ser.
Behring (2008) corrobora com Antunes (1995) e afirma que nesse período difundiu-se o modelo japonês, o ohnismo/toyotismo, fundado nas possibilidades abertas pela introdução de um novo padrão tecnológico: a revolução microeletrônica. É chamada de produção flexível, que altera o padrão rígido fordista. O novo padrão supunha a linha de montagem de base técnica eletromecânica, com a estrutura organizacional hierarquizada e uma relação salarial que apontava a produção em massa, para um consumo em massa, viabilizada por meio de acordos coletivos de trabalho que definiam certa distribuição de ganhos de produtividade do trabalho. Essa relação salarial também pressupunha um sistema de proteção social do Estado.
Por sua vez, a nova base técnica é caracterizada pela microeletrônica digital, miniaturizada. A introdução dessa tecnologia na produção parte das pesquisas do engenheiro John Persons da força aérea dos Estados Unidos, que vislumbrou a possibilidade de acoplar o computador à máquina-ferramenta universal, introduzindo o controle numérico. Criou-se, então, a máquina- ferramenta de controle numérico, que passa a ser progressivamente um novo núcleo de convergência tecnológica, até porque sua utilização é de importância estratégica no setor de bens de capital, aumentando a precisão na produção. Dessa forma, cria-se a possibilidade de automatizar a produção em pequena escala, quebrando ainda mais o saber/poder do trabalhador na operação das máquinas, pois o programador de controle numérico computadorizado passa a ser uma força de trabalho de importância estratégica nas empresas. Nessa nova forma produtiva, forja-se uma articulação de descentralização produtiva e avanço tecnológico por meio da rede microeletrônica de informações.
Contrapondo-se à verticalização fordista, a produção flexível é, em geral, horizontalizada/descentralizada. Trata-se de terceirizar e subcontratar uma rede de pequenas/médias empresas, muitas vezes até com perfil semi-artesanal e familiar (BEHRING, 2008).
De acordo com o autor, a produção é conduzida pela demanda e sustenta-se na existência do estoque mínimo. O just in time3 e o Kanban4
asseguram o controle de qualidade e o estoque. Um pequeno grupo de trabalhadores multifuncionais ou polivalentes opera a ilha de máquinas automatizadas, num processo de trabalho intensificado, que diminui ainda mais a porosidade no trabalho e o desperdício. Diminui também a hierarquia no chão da fábrica, o grupo assume o papel de controle e chefia. Acrescenta-se a pressão patronal pelo sindicalismo por empresa-sindicalismo de envolvimento e a pressão do desemprego, e tem-se o caldo de cultura para a adesão às novas regras (CORIAT,1994).
Desse modo, percebe-se que a concretização do trabalho docente no âmbito da Educação Básica segue o padrão de trabalho que é promovido para as outras categorias da classe trabalhadora. Observa-se que os professores da Educação Básica estão cada vez mais sendo cobrados a produzir e essa cobrança vem por meio dos instrumentos de avaliações padronizados. Monte (2010) ressalta que o professor não é diferente dos outros trabalhadores, pois o seu trabalho é afetado pelas mudanças que ocorreram e que ocorrem no mundo do trabalho, mudanças essas que são realizadas em períodos de instabilidade.
Ao retomar as discussões sobre as novas formas de organização do trabalho,Behring (2008) esclarece que o Toyotismo está apoiado em tecnologias capital-intensivas e poupadoras de mão-de-obra e que os efeitos sobre a força de trabalho têm sido devastadores, caracterizando um processo de heterogeneização, fragmentação e complexificação da classe trabalhadora.
3Just in time (JIT), que significa no momento exato, é uma abordagem empresarial que diz não
ao desperdício e ao retrabalho, e sim para qualidade perfeita e estoque zero, ou seja, produzir (bens e serviços) no exato momento em que são necessitados, evitando estoques parados ou clientes esperando; o que caracteriza um sistema puxado de produção.
4O Kanban, palavra japonesa que significa sinal, utiliza cartões para sinalizar que há
necessidade de se produzir mais. Na forma mais simples, seu funcionamento consiste no uso de cartões por um estágio de produção para avisar ao seu estágio de produção antecessor (também chamado como fornecedor) que está precisando de mais material. Cada estágio de produção mantém um contentor de estoque com a quantidade necessária de material para ser processados. Cada um desses contentores possui um cartão com a descrição do material, a quantidade e localização exata.
Observam-se os fenômenos do aprofundamento do desemprego estrutural, da rápida destruição e reconstrução de habilidades, da perda salarial e do retrocesso da luta sindical.
Rosso (2008) acrescenta que o modelo toyotista é um método que mais recorre à inteligência no trabalho industrial, não na perspectiva de promover autonomia ou liberdade, mas em usar a capacidade de controle de defeitos, eliminação de perdas, controle de diversas máquinas por um mesmo trabalhador em benefício da empresa, mediante a ativação das dimensões da socialização e do relacionamento cooperativo com os outros por meio do trabalho em equipes e dos círculos de controle e qualidade.
Para esse autor, o ramo automotivo concentra enormes volumes de capitais em um seleto grupo de oligopólio que opera mundialmente e participa de uma desvairada corrida por fatias do mercado, competição que conduz a uma procura frenética por maiores ganhos de produtividade. Diante disso, Rosso (2008) considera que o Fordismo e o Toyotismo foram gerados dentro do ramo automotivo e suas práticas intensificadoras se espalharam para todos os ramos econômicos em todos os quatro cantos do mundo. Também afirma que o ramo automotivo se converteu em paradigma pela expressão do segmento operário dentro da classe trabalhadora e pelas lutas memoráveis que os metalúrgicos conduziram e deixaram marcas indeléveis na história do trabalho.
Rosso (2008, p.31) considera um erro grosseiro achar que a intensificação ocorre apenas em atividades industriais, ao contrário, em todas as atividades que concentram volume de capital e que envolvem uma competição sem limites e fronteiras – tais como as atividades financeiras e bancárias, telecomunicação, transportes, saúde, educação, cultura, esporte e lazer e em outros serviços imateriais – o trabalho é cada vez mais cobrado por resultados e por maior envolvimento do trabalhador.
Para Harvey (1993,apud Behring, 2008), com a passagem para o modelo de produção flexível há uma radical reestruturação do mercado de trabalho, na intenção de regimes e contratos de trabalho mais flexíveis e da redução do emprego regular em favor do trabalho em tempo parcial, temporário ou subcontratado. O autor destaca que há um grupo de trabalhadores centrais, que tem maior estabilidade, perspectivas de promoção e reciclagem, bons salários diretos e indiretos, e se caracterizam por sua adaptabilidade, flexibilidade e
mobilidade e na periferia identifica outros dois grandes grupos de trabalhadores. No primeiro, há empregados em tempo integral com habilidades menos especializadas, que possuem alta taxa de rotatividade e menos oportunidades que os trabalhadores centrais. O segundo o autor ressalta que é grupo que mais tem crescido, nele tem os trabalhadores em tempo parcial, casuais, com contrato por tempo determinado e sem direitos assegurados.
Antunes (1999) afirma que a configuração que ocorreu no mercado de trabalho revela processualidade contraditória que combina a desproletarização do trabalho industrial fabril com a subproletarização (com aumento do assalariamento). Impõem-se, então, simultaneamente, uma tendência à qualificação e intelectualização dos trabalhadores centrais de maneira paralela à desespecialização e desqualificação da maioria deste “subproletariado moderno”, embora existam também formas de inserção “por conta própria” fortemente especializadas.
Assim, ainda segundo Antunes (1999), esses processos abalam as condições de vida e de trabalho da classe trabalhadora e vêm desencadeando mudanças nas formas de sua organização política. É possível perceber a queda de índices de sindicalização, bem como a dificuldade de organizar politicamente o subproletariado. Há um “bloqueio” em tecer alianças entre segmentos centrais e os precarizados/subcontratados e o que dizer dos definitivamente expulsos, inempregáveis, desfiliados e expostos à vulnerabilidade de massas, pois, no entendimento de Castel (1998), nesse contexto são impostas tendências neocorporativas e individualistas. Esses processos apontam para obstáculos na constituição da consciência de classe para si, minando a solidariedade de classes e enfraquecendo a resistência à restruturação produtiva.
Da Luz (2008) destaca que a lógica de produção da riqueza do sistema capitalista é a busca cada vez maior do lucro. E, ao mesmo tempo em que os trabalhadores avançavam em suas conquistas trabalhistas, eram incansáveis na busca por um aumento cada vez maior de direitos sociais.
Desse modo, conclui-se, com base em Da Luz (2008), que a nova forma de organizar o trabalho e de gerenciar a produção sugere uma estrutura de empresa enxuta, que prevê o mínimo de custo na produção com o máximo de produtividade. Dessa forma, é possível salientarmos que, no mundo do trabalho, não se caminha para um processo de eliminação da classe trabalhadora,
maspara a sua precarização, intensificação e diversificação, pois é fato quea sociedade do capital, na sua fase imperialista, está impondo mudanças de forma e conteúdo à classe trabalhadora na busca de maiores lucros, pois está fragmentada, passa por um processo de heterogeneização e de complexificação, de desqualificação e de precarização, polivalente e multifuncional.