4. EKSEMPELSTUDIE BUSKERUD
4.4 Hurum kommune
Um levantamento da bibliografia sobre a questão da auto-ajuda demonstra haver alguns estudos a respeito desse tipo de obras, nos EUA e no Brasil, estando a maioria (felizmente) voltada para perspectivas que não são as de um estudo de gênero como o aqui proposto. A tese de Oliveira e Silva (2000), por exemplo, tem como objetivo específico estudar o manejo da interação escritor-leitor através de escolhas pronominais. O trabalho traz dados de interesse na parte não-analítica, mas seu alcance é restrito, o que de resto é admitido em seu próprio bojo.
A tese de Pennino (1990) não tem caráter discursivo estrito, abordando discursos de auto-ajuda de mulheres americanas do século XIX, no âmbito dos chamados “estudos [culturais] americanos”. O destaque é demonstrar uma manifestação de um dos sentidos de auto-ajuda nos EUA: o questionamento da própria condição pelo sujeito-autor, de modo geral membro do que hoje recebe o contraditório nome de “minoria”. As manifestações modernas dessa vertente recebem hoje o nome de “inter-gênero”: a ficcionalização da própria vida (cf. RAJAN & WRIGHT, 1998). Foi a partir desse estudo que obtive indícios de que self-help não é propriamente auto-ajuda como se entende no cotidiano brasileiro.
O artigo de Fornari e De Souza (2001) aborda os discursos de auto-ajuda em termos narrativos e de estratégias de textualização a partir da centralidade do individualismo como característica, por eles alegada, dos textos considerados. Ainda que identifique a proposta dos livros estudados de propor ao leitor que este faça um percurso, e de apresentar na estrutura do livro esse percurso, o artigo insiste tanto numa análise centrada na narrativa que deixa de lado outros aspectos que por assim dizer ressaltam do material examinado.
Dois outros textos sobre o assunto, sob outras perspectivas, são o de Chagas (1999), de cunho psicológico/psicoterapêutico, e marcadamente contrário ao gênero, que vê os livros como danosos “mercadores de ilusões”; e o de Rüdiger (1996), obra de cunho sociológico/antropológico centrada na questão do individualismo como marca do gênero. O primeiro faz uma defesa intransigente da psicoterapia e, o segundo, faz um excelente levantamento de títulos, e os organiza em ordem não cronológica, destacando trechos em que se patenteia o individualismo procurado. A maioria dos livros examinados é da primeira fase de que falo ou anterior a ela.
Há ainda dois trabalhos, que julgo interessantes em termos de demonstrar como certos livros que não se dizem de auto-ajuda são “construídos” como sendo, o que terá implicações para o que apresento adiante: a monografia de TCC de Ruggiero (1999), no âmbito da psicologia, que traz um estudo de caso de leitor de auto-ajuda do ponto de vista do psiquismo e dos problemas psíquicos, e a dissertação de Mestrado em Ciências Sociais de Neiva (2000), que examina os livros de auto-ajuda e seus leitores do ponto de vista de uma antropologia da solidão.
Outra obra sobre o assunto é a de Starker (1989), cuja perspectiva é a da psicologia clínica e que examina a possível utilidade terapêutica dos livros ou seu uso como recurso auxiliar na psicoterapia. Há ainda a obra de SIMONDS (1992), que parte da teoria feminista e dos estudos culturais críticos e busca entender porque as mulheres lêem livros de auto-ajuda.
Há igualmente o estudo monográfico de Meurer (1998), em inglês, que estuda, de uma perspectiva sistêmico-funcional, os aspectos de linguagem de uma obra de auto-ajuda também em inglês. A perspectiva adotada vê “gênero” como “evento significativo dirigido a metas”, e o analisa do ponto de vista da textualização, de sua “estrutura esquemática, ou genérica” (MEURER, 1998, p. 118). O livro estudado é o que denominei livro de “aconselhamento” (e o estudo de Meurer fala de “self-help counselling”), que não constitui meu objeto. A perspectiva de gênero adotada permanece, de minha perspectiva, no nível da tipologia de estruturas textuais, não vendo pois gênero em termos de uma “ideologia criadora de formas”, dotado de flexibilidade em função de ter uma estabilidade relativa. Ou seja, trata-se de um estudo centrado antes no texto do que no discurso, nos termos em que, como
vou detalhar, entendo gênero. No nível da micro-análise textual o estudo de Meurer traz interessantes contribuições em termos de estratégias de organização.
O trabalho de doutorado de Brunelli (2004), defendido no IEL da Unicamp, concentra-se em investigar o discurso de auto-ajuda a partir de um levantamento de seus enunciados básicos, seguindo Maingueneau. É muito bem sucedido nessa intenção, e o que mais proximidade tem com minha abordagem, no que se refere à sua contribuição ao exame de certos aspectos relevantes do ponto de vista da textualização, da construção de enunciados típicos e, principalmente, da questão da construção do ethos (e do tipo de ethos) e das formas de interlocução criadas nos livros classificados pela autora como de auto-ajuda. Trata-se de uma feliz conjunção de uma perspectiva discursiva com a análise de modalidades e da captação de provérbios nos enunciados que oferecem “conselhos”. Os livros estudados são de vertentes que também não se situam no âmbito daquela de que me ocupo, o que parece demonstrar a grande popularidade de alguns livros “construídos” como de auto-ajuda a partir das representações sociais sobre auto-ajuda.
Rimke (2000) destaca a temática do poder, concentrando-se em livros que buscam promover o conformismo sob a capa da busca do sucesso pessoal, na linha de “como fazer amigos e influenciar pessoas” (cf. CARNEGIE, 1936; 1985).
O exame, naturalmente não exaustivo, de vários livros que constituíram o corpus dos vários autores citados revela que os sentidos de auto-ajuda, afora os que arrolei na cultura norte-americana, se ampliaram a ponto de incluir todo e qualquer texto que de alguma maneira aborde seu tema de uma perspectiva de conselhos, sugestões, regras do bem-viver etc. Isso a meu ver dá maior destaque a essa vertente psico-cósmica que identifiquei da perspectiva que assumo como brasileiro em contato com os leitores brasileiros e como tradutor de alguns livros de auto-ajuda (por motivos profissionais, não como “pesquisador participante”) como uma modalidade de oposição ao establishment das profissões de ajuda. Esses estudos tornam ainda mais relevante a aplicação de princípios bakhtinianos, associados a teses greimasianas e de Maingueneau, não só para tentar discernir novos elementos acerca dos livros como também para examinar sua natureza como gênero, tarefa ainda não realizada, e, mais do que isso, estudar algumas relações inter-genéricas, tema de extrema importância para ajudar a demonstrar o caráter de estabilidade
relativa dos gêneros, em vez de um cunho “camisa-de-força” que vai se ampliando a olhos vistos.
1. 2 Objetivos, perguntas de pesquisa, bases metodológicas
Tendo em vista a questão da formação do discurso segundo a partir do discurso primeiro (Maingueneau) bem como a questão da polêmica, da hibridização, da dialogização interna do discurso e partindo da proposta bakhtiniana de arquitetônica/composição, vinculadas com a atividade autoral, o projeto enunciativo, e de gênero/esfera, busco arrolar elementos acerca da maneira como os livros de auto-ajuda da vertente estudada busca constituir-se como gênero por direito próprio. A partir da consideração de que se trata de um gênero em formação, como o revela a meu ver sua falta de articulação e de autonomia “genérica”, sua totalidade ainda mecânica (Bakhtin), apesar de certas “regularidades” que se insinuam, levantei algumas marcas discursivo-genéricas das estratégias por meio das quais ele procura apropriar-se dos componentes dos gêneros com os quais entra em confronto e assimilar componentes daqueles que, por assim dizer, acata, transfigurando-os para seus próprios fins — em ambos os casos com vistas a ocupar o espaço discursivo (Maingueneau) destes.
Recorro a dados concretos acerca de autores e leitores na medida em que sirvam à compreensão do texto — fora do qual não há salvação — e na medida em que tenham sua presença autorizada na própria estrutura dele, ou seja, uma necessidade imposta por eles, buscando com isso (a) evitar cair no entendimento da enunciação em termos sociológicos redutores, como prática social, cuja implicação é ver o enunciado como mero conteúdo do que dizem sujeitos empíricos, e (b) fugir da armadilha da textualização autônoma, que parece ver o texto fora de sua inserção enunciativa, como “artefato”, ou exclusivamente como contendo funções textuais isomorficamente correspondentes a certas funções sociolingüísticas e/ou papéis dos sujeitos falantes, cuja implicação mais nefasta é perder de vista a esfera de produção, circulação e recepção e considerar o gênero ao estilo das caixas chinesas e das bonecas russas, multiplicando desnecessariamente definições de gêneros, subgêneros, hipergêneros e quejandos.
A (tentativa de) manutenção desse equilíbrio tem como fundamento a idéia de que p interdiscursivo e o extradiscursivo são elementos constitutivamente presentes nos discursos na forma da intradiscursividade, isto é, a idéia de que a estrutura geral do discurso advém de sua relação com outros discursos, nas várias esferas, nada tendo de isomórfico com as situações empíricas, indo pois além do formalismo dos atos de fala em sua concepção tradicional e das textualidades autárquicas. Nos termos de meus objetivos mais amplos, tem igualmente relevância a questão de como a “intergenericidade” e a “extra-genericidade” vêm a se tornar “intragenericidade”.
Trata-se de um equilíbrio sempre precário e contudo vital, uma necessidade para mim ainda mais reforçada pela participação no II Congresso de Gêneros Textuais (5-6 de agosto de 2004, quando apresentei a comunicação “A apropriação de gêneros por um gênero em formação”). Presenciei, ao lado de algumas excelentes propostas, fundadas em diferentes campos teóricos, o uso de “gênero” como termo-valise, que degenera (sem intenção de trocadilho) em análises exclusivamente cognitivas, de argumentação na língua etc. ou em estranhos híbridos analíticos, caindo por vezes na armadilha da análise pela análise e, o que é pior, na esquizofrenia da proposição de um dado compromisso teórico-metodológico na apresentação da proposta e do uso de outros princípios na análise. Em função disso, no III SIGET apresentei a comunicação “Gêneros textuais ou tipos de textualização?”, a fim de estabelecer uma distinção mais clara entre o conceito originário de “gênero discursivo” e o termo derivado “gênero textual”, que por vezes se confundem, quando não se sobrepõem.5
5 Este é mais uma vez o tema do histórico do conceito de gênero no Brasil, que não é objeto
específico deste estudo, ainda que não possa deixar de se fazer presente. Como bem disse SILVA (2004), no título de sua comunicação apresentada ao 14º InPLA, “Agora tem que ensinar gêneros!” – significativo enunciado sobre as vicissitudes da escolarização do conceito. Mas esta “briga”, ao menos, não “compro” aqui! Remeto quanto a isso ao levantamento realizado por ROJO (2000) sobre a questão dos estudos de gênero, bem como ao texto de BUNZEN (2004) e, mais uma vez, de ROJO (2005), que aborda a questão em termos de sua aplicabilidade escolar. Para uma perspectiva produtiva quanto à exploração da questão da arquitetônica e da autoria em sua associação com a questão do gênero, no caso específico, gêneros poéticos em livros didáticos, cf. a tese de doutorado de PADILHA (2005).
Pensando em termos do(s) tipo(s) de relação dialógica estabelecido(s) na vertente do gênero de auto-ajuda que qualifico como “psico-espiritual”, julgo útil examinar de que maneira o “contrato fiduciário” proposto busca atender às expectativas de “responsividade ativa” dos interlocutores e como explora o aspecto avaliativo-patêmico do projeto enunciativo apresentado, inclusive em termos da proposição de criação de uma dada “comunidade discursiva”, ou da incorporação a alguma que porventura exista, e, portanto, da redefinição ou criação de uma dada esfera de atividade.
Assim, levando em conta que disso pode advir, ou ser transformada ou criada, uma esfera de atividade, o rumo seguido é o de explorar o conflito intergenérico constitutivo da vertente em questão: ver o texto/discurso da perspectiva do gênero e, portanto, da esfera de atividade (primeira ou segunda). Testei esse caminho com sucesso ao examinar o processo de interconstituição de um gênero e uma esfera, a partir do estudo da publicidade de livros na Revista do Brasil, em comunicação apresentada ao 14º InPLA em 2004.