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4.4 qPCR

4.4.2 Statistical analysis of qPCR results

Foto realizada pela pesquisadora, 2003.

A história que a gente vê falar, que nós andamos perguntado, que ele vivia aqui, num acampamento aí em baixo (nas margens do Rio Mogi-Guaçu).

Acampamento era um rancho de primeiro. Era um rancho coberto de sapé, feito de madeira. Então saía daí, ia a cavalo, ia embora lá para cidade, aí eles iam até Cravinhos. [...] Tinha até a toca do Dioguinho, tinha a história lá. Eu não sei como é que era a história. Tem uma fazenda lá que tem as coisas dele ainda. (SEU JOSÉ, 56 anos)

O falecimento de Dioguinho, Diogo da Rocha Figueira ou Diogo da Silva Rocha, foi descrito em outro estudo, no qual a memória oficial, aquela apresentada em documentos foi trabalhada, analisados como monumentos, ou seja, como construções edificadas de acordo com os interesses da sociedade que outrora detinha o poder (CARVALHO, 1988).

Morreu em 1° de maio de 1897, aos 33 anos incompletos, baleado no peito e na cabeça pela escolta policial que lhe armou cilada, caiu na canoa em que se encontrava nas águas do Rio Mogi-Guaçu, num lugar denominado Pedrinhas, na fazenda Santa Eudóxia, propriedade do então senador Alfredo Ellis (hoje divisa entre os municípios de Luiz Antônio e São Carlos) a nordeste do Estado de São Paulo (CARVALHO, 1988, p. 2)

No dia em que Diogo sofreu essa tocaia, ele estava junto com seu irmão mais novo – João Dabney –, há dias escondido com o canoeiro em um rancho de sapé improvisado na beira do rio, armado e esperando a melhor oportunidade para fugir (CARVALHO, 1988, p. 3).

As estacas do rancho foram fincadas à margem do Rio Mogi-Guaçu, num lugar denominado Pedrinhas (hoje divisa entre os municípios de Luiz Antonio e São Carlos), próximo ao porto Escaramuça, da Linha Fluvial Paulista, na Fazenda Santa Eudóxia, também chamada Cunha Bueno, de propriedade daquele político. Era um rancho de sapé com duas camas, uma grande para Diogo e Joãozinho, amarrada de cipó, afofada com sapé, coberta com um mosqueteiro em cone, onde os dois rezavam ajoelhados todas as noites (CARVALHO, 1988, p. 72)

As lembranças de seu José sobre o bandoleiro representam o que Pollak (1992) denomina de “acontecimentos vividos por tabela”, que são os acontecimentos vividos pelo grupo ou pela coletividade à qual o indivíduo sente-se pertencer. Esses acontecimentos são aqueles que a pessoa pode não ter vivenciado, mas que, em seu imaginário, estão tão enraizados que ela acredita que viveu. Pode-se dizer que a esses acontecimentos somam-se todos aqueles eventos que não se encontram no espaço-tempo de uma pessoa ou de um

grupo (POLLAK, 1992, p.201). Pode haver, também, por meio da socialização política ou histórica, uma identificação tão intensa com determinado passado que é possível falar em uma “memória herdada”. Há acontecimentos regionais que marcam tanto uma região ou um grupo, que sua memória é transmitida ao longo dos séculos com um altíssimo grau de identificação. O mesmo acontece com pessoas, personagens freqüentadas por tabela, que se transformam quase que em conhecidas, até mesmo aquelas que não viveram no espaço- tempo do indivíduo (POLLAK, 1992, p. 202).

O bandoleiro Dioguinho é uma personagem cuja história foi transmitida, e continua sendo, por várias gerações. Na região dessa antiga fazenda, todos conhecem sua história. Alguns se referem a ele como um bandoleiro sanguinário, outros como uma pessoa que, apesar de matar, ajudava quem era necessitado (MAROTI & SANTOS, 2001, p. 213). Há aqueles que, como relatou seu José anteriormente, revivenciam a história do bandoleiro destacando que ela não é do seu tempo, elucidando a multiplicidade de tempos, que ela lhe foi contada, como também relataram seu João, outro narrador deste estudo, que trabalhou na Fazenda Jatahy como candeeiro de boi, tratador de porco e outras funções e que hoje vive na cidade de São Paulo, e seu Vitor, neto do Conde Joaquim Augusto Ribeiro do Valle.

Eu não conheci, meu pai conheceu. Eles falavam... Que tem um capão de mata na beira do rio, que eles falavam, puseram o nome de Capão das garrafas. Você ia lá estava cheio de caco de garrafa, que eram aqueles, eles acampavam lá! A turma do Dioguinho. Acampavam ali. Cheio de garrafa, até hoje eu acho que tem lá! Mas não é do meu tempo. E depois, tem uma cruz dele lá, mas não mataram ele, mataram o irmão dele! Ele não mataram. O irmão dele. Mas não é do meu tempo. Dioguinho, era amigo dos fazendeiros! [...] ele roubava terreno dos outros...ia tirar depois? Ele matava! [...] era liso, que era fogo! Era o Lampião, Lampião paulista! Mas não conhecia não. Já era outro tempo. [...] Os fazendeiros tudo gostavam dele! Ele se escondia na casa dos fazendeiros! (SEU JOÃO, 87 anos)

Ele [Conde] só falava do Capão das garrafas lá no Jataí, que era lugar onde o Dioguinho ficava. Deixava as garrafas lá. Também eu era criança! Ele [Conde] morreu eu tinha 11 anos, eu não me lembro. Mas os meus tios falavam do velho Luiz Antônio, que era o sogro dele [Conde], que era daqui, [...]que o Luiz Antônio ele fez um, uma espécie de trato que se o Dioguinho não mexesse com ele, ele não ia mexer com o Dioguinho. O velho Luiz Antônio, esse era violento! Ele deixava filho pelado no meio do mato, caçava a doidado, entrou pelado uma vez em Ribeirão Preto atrás de um veado (SEU VITOR, 76 anos).

Carvalho (1988) ressalta que o círculo de relações sociais de Diogo com homens, econômica e politicamente poderosos na escala social, era extenso e se organizava em uma corrente de elos que a ela Dioguinho ligava-se circunstancialmente, embora se caracterizassem em contatos oportunos como relação entre os que se serviam de seu trabalho (CARVALHO, 1988, p. 36).

Um dos contatos mais perenes é com o fazendeiro Antonio Fernandes Nogueira36, conhecido por Tatuca. Este próspero pecuarista, cafeicultor e produtor de madeira (vendida às ferrovias), era proprietário no fim do século de quase um quinto do atual município de São Simão e era em suas terras que Dioguinho tinha morada mais freqüente e fazia pastar suas cabeças de gado (CARVALHO, op. cit., p. 36).

Carvalho (1988) lista outros nomes de fazendeiros a quem Dioguinho servia, entre eles Luiz Antonio Junqueira (Coronel que deu nome à cidade de Luiz Antônio e que era sogro do Conde Joaquim Augusto Ribeiro do Valle, proprietário da Fazenda Jatahy), e Quinzinho Junqueira (provavelmente o Coronel Joaquim da Cunha Diniz Junqueira), além de outras famílias como os Nogueira, os Guedes, os Oliveira, os Santos, os Ribeiro etc. (CARVALHO, 1988, p. 42).

36

De acordo com o estudo de Carvalho (1988) e o comparando com a Ação de Divisão do Imóvel Cafundó de 1928, há indicativos de que este Antônio Fernandes Nogueira seja o pai de Manoel Augusto Fernandes Nogueira, condômino que solicitou a divisão do imóvel Cafundó apresentada no capítulo 1 desta dissertação.

Há, também, relatos de pessoas como seu Onofre, morador de Luiz Antônio que se conheceu durante a realização da pesquisa de campo e com quem se mantiveram algumas conversas informais preciosas pela memória compartilhada, que disse ter conhecido Dioguinho e que esse “não era muito grande não!”. Ou outro como seu Juvenal, narrador deste estudo, que disse, que era “molecote” quando Dioguinho vivia no rio Mogi-Guaçu e, ainda, há o relato de seu Antônio, também narrador, que não acredita que Dioguinho morreu pelo fato de não terem encontrado seu corpo. Tais relatos expressam um grau de identificação com a história desse bandoleiro tão grande que acreditam ter vivenciado e os fazem duvidar da morte do tão temeroso bandoleiro.

O Dioguinho, Deus que me livre! Eu era molecote, o Dioquinho morava aqui na beira do Mogi aí. Eu conheço tudo a aldeia deles lá, eu conheço tudo a aldeia deles. Tinha um irmão dele que morreu, não é? Tinha o Dioguinho e o João. Na delegacia de São Simão tem o álbum lá.[...] Porque o rio desce, depois o rio faz um remanso aqui e entrava no rio outra vez. Muitas águas. E ali era onde que o Dioguinho fazia aquela palestra. Ali tinha aquelas aldeias ali... E gengibre, gengibre nascia na beira do rio, onde que eles ponhavam pinga, misturava e ele fazia as ordens. E o irmão dele foi matado lá. Muita gente eu levei lá na cruz, uma cruz de madeira que era numa panela. Muita gente eu levei lá na cruz. [...] ele [Dioguinho] sumiu! Ele pintava aqui. Aqui tinha uma figueira

grande, naquela pracinha onde que tinha aquela fonte ali [centro da cidade], ali tinha uma figueira que tampava de rua a rua. E tinha um que

tocava Oito Baixo, e aí nego tocava Oito Baixo e o coro comia, tocava Oito Baixo e o coro comia. São Simão... Aqui tinha umas fazendas desse lado aqui... eu esqueci o nome delas, era a aldeia deles. É, foi muito ruim.

(SEU JUVENAL, 89 anos)

Antigamente o café era tudo transportado ali [Porto Jatahy].[...]E ali antigamente era o esconderijo do Dioguinho. Dioguinho e Tatuca. Tatuca era o nome do homem. Os dois valentões da nossa zona aqui eram eles. Eles falaram estava falado. Então era, o Dioguinho ficava escondido lá. E esse Tatuca ia lá para Ribeirão, as correspondências vinham de Ribeirão, vinham a cavalo! Então, quando ele chegava, ele dava um sinal, dava um tiro ou qualquer coisa para ver se podia chegar lá. Se o outro desse o sinal lá que podia ele chegava, senão não chegava. Porque o outro ia se

lá, mas eu não acredito não! Não, eu não acredito. Porque ele desapareceu que nem vivo, nem morto ninguém sabe onde é que está o Dioguinho. Então a gente fica indeciso,não sabe se morreu mesmo ou se caiu no rio. Ninguém sabe o que aconteceu. Mas ele foi atirado lá nesse porto velho lá. Ele estava na canoa, no fim a canoa rodou, parece que ela rodou de rio abaixo, e ele desapareceu. Agora ninguém sabe o que pode ter acontecido. Não sabe se ele morreu, se ele fugiu. Ninguém achou nada! Então é, a historia deles é essa. (SEU ANTÔNIO, 86 anos).

Foto 6. Cruz do Diogo localizada na Lagoa do Diogo na atual Estação Ecológica de Jataí,