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4.5 Statistiske modeller

4.5.3 Humler - Antall individer

Nietzsche expôs a fraqueza do discurso religioso, discurso que era a representação dos ideais supremos de nossa civilização, a partir de um contra- discurso escatológico.

Assim, por mais estranho que pareça, seu livro intitulado Assim Falava Zaratustra, apresenta uma “religião às avessas”. O estilo teológico e poético deste escrito parece ser um recurso retórico que visava, ao mesmo tempo, inverter tudo aquilo que era pelos homens considerado “sagrado” e, no âmbito desta profanação, instaurar um “novo sagrado” transvalorado.

O profeta plasmado ideativamente por Nietzsche, não celebrava em sua exteriorização mundana nenhum compromisso com o além, sua missão era exatamente modificar o lugar para onde os homens olhavam. Visava ensinar um novo olhar para as coisas terrenas, foi por isso que o próprio Nietzsche advertiu dizendo: “aqui não fala nenhum “profeta”, nenhum daqueles horrendos híbridos de doença e vontade de poder chamados fundadores de religiões” (Nietzsche, 1995, p19).

Paradoxalmente, a figura messiânica e profética elucubrada por Nietzsche, era uma antítese de tudo aquilo que o profetismo religioso considerava valioso. O profeta nietzschiano era o “anti-profeta” mais inspirado “por si mesmo” que já pisou na terra. Era a manifestação da vontade de poder sem a mediação de uma potência estranha ao homem.

O filósofo alemão considerou o seu “Zaratustra” a sua obra mais preciosa, ele acreditava que tal livro marcaria (se bem compreendido) um novo início para humanidade, daí confessar suas expectativas: “entre minhas obras ocupa o meu Zaratustra um lugar à parte. Com ele fiz à humanidade o maior presente que até agora lhe foi feito (Nietzsche, 1995, p. 19).

Ao escrever seu Zaratustra, Nietzsche vivenciou uma experiência extasiante, comparável a antiga noção de “revelação” vivida por alguns dos “aedos” e “profetas” do passado. Ele mesmo descreve isso da seguinte forma:

Alguém, no final do século XIX, tem nítida noção daquilo que os poetas de épocas fortes chamavam de inspiração? Se não, eu o descreverei. – havendo o menor resquício de superstição dentro de

si, dificilmente se saberia afastar a ideia de ser mera encarnação, mero porta-voz, mero médium de forças poderosíssimas. A noção de revelação, do sentido de que subitamente, com inefável certeza e sutileza, algo se torna visível, audível, algo que comove e transtorna no mais fundo, descreve simplesmente o estado de fato (Nietzsche, 1995, p. 85).

Escrever filosofia sob inspiração; eis aí a verdadeira face do Zaratustra nietzschiano. Diferente dos demais filósofos de seu tempo, Nietzsche rompe radicalmente com estilo acadêmico ao romancear seus pensamentos através da ação figurada de seu personagem profético.

Falando sobre a mudança estilística introduzida na filosofia por Nietzsche, por meio da singularidade alusiva do Zaratustra, o escrito Roberto Machado comenta o seguinte:

Esta singularidade estilística do Zaratustra se manifesta de duas maneiras principais: a) pelo deslocamento de uma linguagem conceitual a uma linguagem artística, ou, mais precisamente, a uma linguagem poética; b) pelo deslocamento de uma linguagem sistemática, argumentativa, que propõe uma teoria, característica da filosofia em quase sua totalidade, a uma linguagem construída de forma narrativa e dramática (Machado, 1999, pp. 20 - 21).

Utilizando-se do recurso poético, como disse Machado, Nietzsche desconstrói a própria maneira de se fazer filosofia, seu Zaratustra foge do estereótipo dos tradicionais tratados de filosofia e, inaugura um atrevido “estilo livre”. Com a sua genialidade, Nietzsche conseguiu escrever “boa filosofia” sem se prender ao estilo pouco criativo de seus contemporâneos.

Também, como seu Zaratustra era um “libertador”, e não um “doutrinador” ou mais um “criador de religiões”, Nietzsche faz seu personagem desfilar livre. Seu profeta não é um sistematizador de teorias filosóficas, mas como ele mesmo disse: “Zaratustra é um dançarino” (Nietzsche, 1995, p. 90).

Mas, afinal, por que escolheu Nietzsche a figura mítica de um profeta para anunciar o tempo da transvaloração? E ainda, porque justamente o profeta iraniano Zaratustra?

É o próprio Nietzsche em sua obra Ecce Homo, que oferece boas razões para essas questões tão intrigantes, ouçamos:

Não me foi perguntado, deveria me ter sido perguntando, o que precisamente em minha boca, na boca do primeiro imoralista, significa o nome Zaratustra: pois o que constitui a imensa singularidade deste pensa na história é precisamente o contrário

disso, Zaratustra foi o primeiro a ver na luta entre o bem e o mal a verdadeira roda motriz na engrenagem das coisas - a transposição da moral para o metafísico, como força, causa, fim em si, é obra sua. Mas essa questão já seria no fundo a resposta. Zaratustra criou este mais fatal dos erros, a moral: em conseqüência, deve ser também o primeiro a reconhecê-lo (Nietzsche, 1995, p.p 110, 111).

O Zaratustra de Nietzsche é, segundo suas próprias palavras, o oposto do profeta iraniano real. Nascido, de acordo com especialistas, próximo do ano 570 a.c (Brandon, 1945, p. 1493), o Zaratustra histórico era a própria materialização do viés interpretativo moral. Este profeta do antigo Irã teve sua visão inicial no trigésimo ano de sua vida e a partir de uma revelação de ahuramazda (o senhor sábio), entendeu que o universo é constituído de uma dualidade moral eterna, “bem” e “mal” são princípios imanentes à própria realidade cósmica. Depois desta revelação, seu nome real (espitama) foi substituído por Zaratustra (estrela de ouro) e, quando somava quarenta e dois anos de idade passou a pregar à verdade luminosa da dualidade de todas às coisas (Drioton, 1958, p. 119). Semelhante a outros profetas messiânicos, Zaratustra anunciava o advento de um novo mundo; segundo o que explicava, no final dos tempos haveria um grande julgamento que iria separar os partidários do bem e os do mal, os eleitos, a partir daí, seriam conduzidos a eterna habitação da luz (Drioton, 1958, p. 121).

Aquele que Nietzsche chama de Zaratustra, é simetricamente o oposto desse anunciador do “além”. Como o filósofo alemão explicou em seu Ecce Homo, seu “anti-profeta” vem inverter essa conjunção valorativa dualística, sua mensagem procura desmentir qualquer tipo de dualidade imanente, na verdade, semelhante o seu criador, o personagem nietzschiano era um “imoralista”.

Podemos dizer que o nome Zaratustra em Nietzsche nada mais era do que um sinônimo de “transvaloração”, assim, como transvalorar significa para Nietzsche o ato de superar os velhos valores e, ao mesmo tempo, ser capaz de estabelecer novos valores, Zaratustra é pensado como o profeta das novas “tábuas valorativas”. Sua postura inovadora é sintetizada no capítulo “das antigas e das novas tábuas”, na seguinte fala:

O criador é a quem ele mais odeiam: aquele que quebra as tábuas e os valores antigos; a esse destruidor chamam criminoso.

[...] crucificam aquele que grava novos valores em tábuas novas; sacrificam para si o futuro; e crucificam o futuro dos homens! (Nietzsche, 2008, p. 278).

Para Nietzsche, todo criador é antes um destruidor, portanto, seu Zaratustra não era apenas um mensageiro da “velha ordem estabelecida”, sua mensagem ao invés de consolo, inicialmente visava jogar por terra toda esperança falsa, por isso, gerava no ouvinte uma terrível sensação de vazio, porém, este vazio era uma das faces do futuro a ser criado pelos novos valores.

É lógico que essa metáfora das novas tábuas, lembra muito a imagem mítica dos criadores de religiões que, normalmente alegavam ter recebido dos deuses á mensagem a ser transmitida, no entanto, num tom de provocação, o profeta das “novas tábuas” não devia a ninguém sua perturbadora mensagem.

Semelhante ao Zaratustra histórico, a Zaratustra nietzschiano começa sua missão aos quarenta anos, entretanto, o mesmo não se achou iluminado por “ahuramazda”, ou qualquer outra divindade da luz, sua mensagem foi fruto da sua própria auto-reflexão, isso é dito da seguinte maneira por Nietzsche:

Quando Zaratustra completou trinta anos, abandonou sua pátria e foi para a montanha. Ali, durante dez anos, alimentou-se de seu espírito e de sua solidão, sem deles se fatigar.

Mas, um dia, finalmente, transmutou-se-lhe o seu coração – e, de manhã, ao levantar-se com a aurora, pôs-se ante o sol e assim falou: -grande astro! Que seria de tua felicidade se te faltassem aqueles a quem iluminas?

Há dez anos ascendes até a minha caverna e ter-te-ias cansado de tua luz e deste trajeto, se não estivéssemos lá, eu, minha água e minha serpente (Nietzsche, 2008, p. 13).

Ao contrário do Zaratustra histórico, que dizia ter sido iluminado por uma “luz divina”, o Zaratustra da transvaloração humaniza a “luz solar” como um dos aspectos especulares de seu longo trajeto consciencial, assim, a felicidade do astro rei torna-se dependente de um olhar que signifique tal ocorrência como um “espetáculo natural”.

Por dez anos Zaratustra se oculta dos homens; sua ascensão à montanha representa o isolamento necessário daqueles que, como a águia, querem enxergar um pouco além dos que estão no plano inferior da montanha. Porém, aqueles que ascendem não devem se apartar radicalmente das coisas terrenas, portanto, como a

cobra que “rasteja no chão”, Zaratustra é um profeta apegado às coisas da “terra”, o vôo largo da água, não o faz esquecer-se de sua natureza terrena. A companhia dos dois animais de Zaratustra é símbolo da unificação do “céu” e da “terra” promovida pela transvaloração, diferente do dualismo moral do profeta iraniano, o Zaratustra de Nietzsche, vem acabar com essa clivagem metafísica. Ainda no prólogo, Zaratustra depois de dez anos de isolamento explica retoricamente ao sol porque precisa novamente descer até aos homens, lemos:

Vê: estou enfastiado de minha sabedoria, como a abelha que acumulou demasiado mel. Necessito de mãos que se estendam para mim. [...]

Por isso devo descer ás profundidades, como tu durante a noite, astro exuberantemente rico, quando mergulhas abaixo do mar para levar a tua luz ao mundo inferior. [...]

Bendiz-me, portanto, olho tranqüilo, que podes ver sem inveja até o excesso de felicidade! [...] Bendiz o cálice que vai desbordar [...] olha! Este cálice deseja esvaziar-se outra vez quer tornar-se homem! Assim começou a descida de Zaratustra. (Nietzsche, 2008, p. 14).

Seu longo período de reflexão trouxe-lhe um super acumulo de sabedoria, daí o desejo de descer e compartilhar com os homens a “doçura” do seu auto- aprendizado.

É evidente que a metáfora da “descida” de Zaratustra é uma referência á descida mítica de “Jesus”, observando a similitude entre esse dois profetas, Maria Cristina e Franco Ferraz, na obra Nietzsche: o bufão dos deuses, sobre essa convergência imagética escreveram:

Para compreender de uma maneira mais matizada o papel e o sentido de Zaratustra, é necessário distinguir sua relação com o cristianismo de sua visão da figura de Cristo. Nesse sentido, algumas passagens de assim falou Zaratustra revelam que o personagem de Nietzsche chega a se identificar, sob certos aspectos, com Jesus (Cristina e Ferraz, 1994, pp. 91-92).

Quando no prólogo Zaratustra diz que quer novamente “tornar-se homem”, é lógico que aí temos uma referência à noção teológica da “encarnação”, porém, o profeta nietzschiano não é um subproduto de uma “união hipostática” sobre humana, é, sim, o representante de uma nova consciência terrena.

Ao descer de seu sossego solitário da montanha, Zaratustra encontra numa floresta um velho santo que, há dez anos havia presenciado a subida do profeta à montanha e, espantado com a repentina decisão de Zaratustra; exclamou: “mudado é Zaratustra; Zaratustra tornou-se criança, despertou Zaratustra. Que queres agora entre os que dormem? (Nietzsche, 2008, p.15).

O homem santo percebeu que a aparência transmutada de Zaratustra indicava sua elevada consciência. A aparência de criança neste contexto é uma referência ao grau mais elevado das três metamorfoses que o homem teria de processar antes de chegar a transvalorar seu antigo modo de existir: “três metamorfoses do espírito vos mencionei: de como o espírito se mudava em camelo, de camelo em leão, finalmente, em criança” (Nietzsche, 2008, p. 42).

Na figura do “camelo” temos o “Bicho Homem” carregando o pesado fardo da moral, nesta imagem Nietzsche sintetiza o tipo de homem moral criado por nossa civilização cristã.

O “leão” é imageticamente a representação do momento em que o espírito começa a se libertar, ao contrário de aceitar passivamente a imposição moral de um pesado “tu deves”, o espírito leonino afirma-se pelo rugido sonoro de um: “eu quero” (Nietzsche, 2008, p.40).

Entretanto, mesmo representando um avanço consciencial em relação ao nível camelo, o leão não é ainda aquele que pode criar novos valores, afinal, seu rugido afirmativo, deve ainda livra-se de todo ressentimento e, tal postura inocente e desprendida é prefigurada na imagem da criança, figura que sintetiza o “novo começar” da transvaloração de todos os valores (Nietzsche, 2008, p.42).

Assim, quando o velho santo viu em Zaratustra a imagem da criança, isso significa que o mesmo estava “desperto”, havia acordado em meio a um mundo ainda adormecido. Daí, a surpresa do velho santo; ele não entendia como alguém desperto podia querer habitar entre os dormentes.

Diferentes de Zaratustra que queria partilhar sua sabedoria com os homens, o santo achava-se profundamente decepcionado com os mesmos, por isso disse a Zaratustra: “Agora, “amo a Deus; não amo os Homens”. O homem é para mim uma coisa excessivamente incompleta. O amor ao homem matar-me-ia” (Nietzsche, 2008, p.17).

No fundo, o amor que o velho santo alegava sentir por Deus, era apenas uma defesa contra o “niilismo” de sua época. Aquele velho ermitão era a representação da “antiga consciência religiosa, consciência esta que não podia mais habitar entre os homens, pelo menos no sentido vigoroso de sua soberana habitação do passado.

A aparente desinformação do santo causou certa estranheza em Zaratustra e, quando já estava sozinho, após se despedir do velho, pensou consigo mesmo: “– será possível? Esse santo ancião não ouviu em sua floresta que Deus morreu?” (Nietzsche, 2008, p.18).

Este pequeno fragmento ajuda-nos situar em que momento Histórico Zaratustra desceu aos homens. Como a morte de Deus ocorre na segunda metade do século XlX, e, Zaratustra se refere a tal evento como já tendo acontecido, sua mensagem torna-se relevante no final deste século em questão.

Mas, visto que Zaratustra era um profeta “sem Deus”, o que de fato prenunciava com sua pregação?

Como o “João Batista” do cristianismo, o Zaratustra tinha como missão preparar o caminho de alguém maior do que ele próprio. No entanto, esse alguém não era um “homem-Deus” descido do céu, esse “outro” era um novo homem nascido da transvaloração de todos os valores, por isso temos: “vede: Eu sou o anunciador do raio, sou uma pesada gota caída da nuvem; mas esse raio chama-se o além- homem”. (Nietzsche, 2008, p.23).

O profeta criado por Nietzsche era o anunciador de um novo tipo de homem. O “além-homem” simbolizava alguém capaz de superar o vazio sentido como “niilismo” e, no âmbito do próprio niilismo, tornar-se ativo ao ponto de criar novos valores. Esse novo homem avalia o mundo a partir de novos critérios existenciais, inicialmente ele nega que qualquer valor tenha um fundamento metafísico fora do próprio homem, porém, essa afirmação da relatividade dos valores não o leva ao “ostracismo”. Ele não desiste do mundo como faz o niilista ressentido; seu niilismo ativo tem a leveza do “pensar da criança”, que vê no novo sempre uma oportunidade para se reinventar.

Assim, a vontade de ser criador é o princípio que torna possível a libertação do niilismo deletério que se montou reativamente pela percepção da morte de Deus

e, Zaratustra como anunciador deste tipo mais forte de avaliar, ensina que seus contemporâneos são “pontes” para esse tipo de homem do futuro.

Podemos perceber essa mensagem transitiva nas palavras do próprio Zaratustra:

O homem é uma corda estendida entre o animal e o Além-Homem: uma corda sobre um abismo. Perigoso passar um abismo, perigoso seguir esse caminho, perigoso olhar para trás, perigoso temer e parar. A grandeza do homem consiste em ser uma ponte e não uma meta; o que se pode amar no homem é ser ele uma ascensão e um declínio (Nietzsche, 2008, p.22).

Aquele que se constitui como “corda” desconsidera a profundidade do abismo, depois de sentir o imenso vazio causado pela morte de Deus, o que Zaratustra ama no homem é a coragem de continuar seu destino, mesmo sabendo que agora nenhum consolo metafísico lhe será mais suficiente.

Infelizmente, segundo a interpretação do profeta Zaratustra, não seriam todos os homens que aceitariam essa ultrapassagem na imagem do além-homem, a grande maioria ficaria presa no niilismo reativo. Isso foi observado da seguinte maneira:

Eu vos digo: é necessário ter um caos em si para poder dar à luz uma estrela bailarina. Eu vos digo: tendes ainda um caos dentro de vós.

Ah! Aproxima-se o tempo em que o homem será incapaz de dar à luz uma estrela bailarina. O que vem é a época do homem mais desprezível entre todos, que nem poderá mais desprezar a si mesmo.

Vede! Eu vos mostro o último homem. “Que é o amor”? “que é o criar”? “que é o anelar”? “que é a estrela”? Assim perguntará o último homem, piscando os olhos.

A terra tornar-se-á exígua, e, sobre ela,veremos saltitar o último homem que tudo amesquinhará. Sua espécie é indestrutível como a da pulga; o último homem é o que viverá por mais tempo. (Nietzsche, 2008, p.27).

É impossível desconsiderar o forte teor “messiânico” deste trecho do Zaratustra. Da mesma forma que o “anticristo”, que se opõe ao novo reino do “cristo”, o “último homem” é o contra-tipo do que representa o “além-homem” na tese Nietzschiana.

Ambos os personagens escatológicos Nietzschianos, “último homem” e “além-homem”, são filhos do caos instaurado com o evento da morte de Deus, no entanto suas posturas frente ao enorme vazio moral da modernidade são muito distintas.

O último homem é mesquinho por se acomodar diante da quebra de sentido dos dias escuros da modernidade. Como um niilista passivo ele é incapaz de pensar novos valores, bem ao contrário até deste ímpeto criativo, essa espécie “pequena e resistente” como à “pulga”, visa zombar de todo aquele que cultiva uma “estrela bailarina”, ou seja, de todo aquele que traz dentro de si à semente luminosa de novos valores.

Quando Zaratustra diz que a grandeza do homem consiste em ser uma ponte e não uma meta, o personagem Nietzschiano passa-nos a idéia de que o futuro está aberto, podemos escolher o caminho íngreme do criador de novos valores, ou acovardar-nos diante de tal grandiosa tarefa e, com isso, escolhermos “não escolher” o nosso próprio destino. É esta forma inautêntica de vida que Nietzsche, por meio de seu Zaratustra sintetizou na imagem desprezível do “último-homem”.

Comentado esse período de transição inaugurado pela morte de Deus, Machado teceu o seguinte argumento explicativo:

Essa metáfora da ponte para a outra margem coexiste com outra metáfora espacial talvez ainda mais expressiva: a da subida e da descida. Segundo essa imagem, o homem pode seguir o caminho para o alto, para o super-homem. E o caminho para o alto, para o super-homem, ou para baixo, em direção ao último homem. E o caminho para o alto, caminho da auto superação de auto- ultrapassagem, é o antídoto que Zaratustra oferece à falta de sentido ou à ausência de valor decorrentes da morte de Deus (Machado, 1999, p.75).

Assim, como diz machado, a mensagem do Zaratustra Nietizschiano contém o antídoto para o niilismo corrosivo de nossos dias, embora Zaratustra tenha se mostrado um profeta sem Deus, o mesmo não pode ser acusado de ter sido um profeta sem “esperança”. Em sua “metafísica às avessas” demonstrava um forte otimismo quando ao futuro, tinha “fé” de que o homem caminharia em direção ao “além-homem”.

É lógico que como Zaratustra não era “inspirado” por nenhuma divindade, sua mensagem não era nenhuma leitura infalível do futuro, o que tentava era apenas

oferecer “possibilidades” calçadas nas novas condições existenciais da modernidade; os homens deveriam enfrentar de frente o desencanto que o mundo sofreu com a morte de Deus e, estribados em novas tábuas valorativas, geradas por eles próprios, deveriam eles mesmos se tornarem deuses de seus destinos.

Mas, tão distantes do “sobrenatural”, seriam eles capazes de levar a termo tal epopéia vitoriosa só às expensas de suas forças? A idéia de homens tão decididos em se tornarem “criadores”, não seria uma espécie de crença metafísica?

De fato, a mensagem do Zaratustra de Nietzsche tem muitos elementos que podem em sua essência serem considerados “metafísicos”, desde que entendamos esse termo dentro de uma conotação ampliada.