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Human Security Events and Publications 1. Research and Analysis – Senlis Council

In document Human Security Bulletin (sider 24-29)

Os registros sobre a história da infância na Idade Média são advindos de um período, em que a criança, tão logo não necessitasse mais dos cuidados fundamentais da mãe ou da ama-de-leite, era inserida precocemente no mundo do adulto, auxiliando os pais, trabalhando em situação de escravo ou desenvolvendo o aprendizado de um ofício. Era natural na Idade Média encaminhar as crianças, após os sete anos de idade, para serem aprendizes em casas de outras famílias desconhecidas. Cabe frisar que essa dinâmica social em relação à criança não pode ser vista como falta de afeto, mas como uma maneira de socialização, considerada normal para os parâmetros da época.

Dessa forma, os serviços domésticos eram compreendidos como “forma comum de educação”, por meio dos quais o filho do outrem aprendia sobre o valor humano e um ofício através da experiência prática. Heywood (2004) destaca que o fato de as crianças serem inseridas gradualmente no universo do adulto não significa dizer que essa sociedade fosse indiferente às fases de desenvolvimento dos mais novos. Para o autor, “havia um óbvio nivelamento de responsabilidades que as de menos idade podiam assumir: desde trabalhos menores na casa até o pastoreio e, eventualmente, um aprendizado de ofício ou um trabalho formal no campo” (HEYWOOD, 2004, p.30).

As crianças estavam integradas às atividades da comunidade, como festas, ritos e jogos. Não existia lugar exclusivo para as crianças; elas conviviam, trabalhavam, assistiam a nascimentos, mortes, comemorações e guerras juntamente com os adultos. Os pais até poderiam ter afeição pelas crianças, o que seria uma demonstração natural, entretanto não se dedicavam por longo tempo às crianças ou despendiam atenção exclusiva a elas. A afeição por parte dos pais não significava necessariamente que os mesmos tivessem consciência das etapas, necessidades e características infantis, o que dificultava a distinção entre crianças e adultos.

Se a criança viesse a falecer, o que era comum para época, logo era substituída por outra, “as pessoas não se podiam apegar a algo que era considerado uma perda eventual” (ARIÈS, 2006, p.22).

A pesquisa histórica pioneira sobre a infância foi realizada por Ariès no livro Centuries of Childhood, intitulado no Brasil como História Social da Criança e da Família, obra na qual o autor aborda questões demográficas e culturais da infância na Idade Média e Moderna. Esse material estimulou inúmeras discussões4 sobre a existência de um sentimento de infância, a instituição escolar e as imagens da família no período medieval e moderno. Para o autor, a sociedade medieval não percebeu a infância, ou seja, “[...] a infância era apenas uma fase sem importância, que não fazia sentido fixar na lembrança” (ARIÈS, 2006, p.21); dessa forma, a criança era um adulto em miniatura, a única diferença estava relacionada ao seu tamanho em comparação com os adultos..

A utilização de uma disciplina rigorosa, ainda segundo Stearns (2006), foi outro fator de destaque nos estudos de historiadores e especialistas, como o caso de Martin Lutero que era surrado rotineiramente pelo pai.

Outras práticas ocidentais apontadas por Stearns (2006) estão relacionadas ao método de atar bebês - eram enrolados apertadamente em panos para evitar que se machucassem ao engatinhar ou ao se contorcer. Eram deixados dependurados num gancho na parede, para que os pais pudessem afastar-se com garantia para trabalhar no campo. O que o autor mostra é que a prática, apesar de demonstrar cuidado para com as crianças, manifesta também a vontade de lhe prestar a menor atenção possível.

4 Apesar do trabalho de Ariès ser considerado como um dos primeiros a explorar historicamente o tema da

infância e apresentar inúmeras percepções em relação a essa categoria, muitas críticas foram direcionadas a essa tese. Dentre elas, destacam-se duas que estão registradas e reconhecidas pelo próprio Ariès em seu prefácio da edição Brasileira de 1981. O próprio Ariès reconhece a crítica de Jean Louis Flandrin ao seu trabalho, quando tenta encontrar a origem absoluta da infância, ou seja, o “ponto de partida”. Outra crítica que Ariès reconhece é a de Davis, em que o conceito de juventude é ignorado, bem como os ritos de passagens nas sociedades rurais e urbanas.

Outro debate diz respeito à disciplina física, que era largamente admitida e incentivada, tanto na família, quanto na escola. Benjamim Franklin, aprendiz de seu irmão mais velho, era surrado com frequência, o que gerou sua fuga de Boston para Filadélfia. Entretanto, as punições extremadas, mesmo na Idade Média, não eram bem aceitas, embora as comunidades acompanhassem a conduta dos pais que utilizavam esses métodos como disciplina.

O surgimento da escola na Idade Média

De acordo com Gauthier (2010), fundamentado na obra de Durkheim, L’evolution pédagogique en France, a escola surgiu na Idade Média em virtude de um projeto moral com características de concentração e organização. Os gregos são considerados os grandes educadores, mas não instituíram a escola, pois o aparecimento da mesma necessitava de condições que, provavelmente, só o cristianismo poderia oferecer. Ainda, para Gauthier (2010), a instituição educacional da Idade Média passou a ser intitulada de ‘escola’, porque além de ensinar os rudimentos, constituía-se em um “meio moral organizado”, ou seja, “[...] a escola cristã da Idade Média [...] é doravante mais do que um lugar onde se transmite conhecimentos; é primeiro e, principalmente, um meio de educação, de formação” (GAUTHIER, 2010, p.74).

O que a escola da Idade Média traz de diferente em relação ao ensino na Antiguidade é que integra “educação cristã” e “instrução”, ou seja, “desenvolvimento das virtudes religiosas” e “formação literária”.

No contexto da escola, o principal ato era a leitura acompanhada pelo ato de copiar e aprender decorando. Não existia ainda uma pedagogia ou reflexão organizada sobre a forma de ensinar, pois os processos em sala de aula eram improvisados, sem relação a uma organização por parte dos professores ou da instituição.

É por meio da ascensão do cristianismo que se depara com a insistência na criação e desenvolvimento da escola, por conta da necessidade de se compreender as Escrituras Sagradas e, consequentemente, da necessidade de se preparar um público letrado. O cristianismo depende das “letras” e, para isso, vale-se dos ensinamentos das escolas clássicas grega e romana.

As escolas “cristãs” criadas durante o período da Idade Média possuíam um público bem restrito, destinado ao clero e a um número reduzido da população leiga. Ou seja, as

escolas cristãs não tinham como objetivo alcançar o público infantil, “eram uma espécie de escola técnica destinada à instrução dos clérigos, jovens ou velhos” (ARIÈS, 2006, p.124).

A forma como os mestres trabalhavam com seus alunos na Idade Média diferia da prática da antiguidade grega ou romana. Enquanto os mestres da antiguidade trabalhavam isoladamente, de maneira própria e a partir da sua especialização, os mestres da Idade Média, apesar de ensinarem conteúdos diferentes, tinham em comum o mesmo objetivo: converter o aluno à mensagem de Cristo.

Em relação à formação dos mestres, são evidenciadas grandes diferenças entre a Antiguidade e a Idade Média. De acordo com Tardif (2010), os sofistas são considerados como os primeiros professores. A educação que antes era um investimento familiar e do ambiente cotidiano passou a ser , a partir dos sofistas, um investimento em que o aluno deixava a família e pagava para realizar cursos. Na realidade da Idade Média, bastava conhecer a matéria para tornar-se um mestre. Ainda no século XII, qualquer clérigo ou monge, mesmo com precário letramento, poderia transformar-se em mestre.

Ariès (2006), ao tratar sobre o regime disciplinar nas escolas, registra que antes do século XV, o educando não era subjugado a uma autoridade disciplinar, pois estava “entregue a si mesmo.” O menino poderia morar perto da escola com a própria família ou residir com uma outra família que era responsável por ele o que acontecia com maior frequência. Ele deveria frequentar uma escola que fosse obrigatoriamente latina.

Outra possibilidade era esse menino acompanhar um mais velho, que em troca poderia ser surrado ou explorado por ele. Esse estudante, segundo Ariès (2006),

[...] pertencia a uma sociedade ou bando de companheiros, em que uma camaradagem às vezes brutal, porém real regulava a sua vida quotidiana, muito mais do que a escola e seu mestre, e, porque essa camaradagem era reconhecida pelo senso comum, tinha valor moral (ARIÈS, 2006, p.116).

Entretanto, essa realidade – vista como uma maneira de desordem e anarquia – sofreu grandes mudanças, ao final da Idade Média. As novas normas de comando estavam relacionadas a uma hierarquia autoritária que se estendeu não só à infância, mas a toda sociedade. Consequentemente, surgiu uma mudança de ideias em relação à infância – a “noção de fraqueza” e o “sentimento de responsabilidade moral”. Esses dois conceitos, posteriormente, influenciaram a disciplina na escola no período moderno. É importante destacar que o sistema de disciplina não abarcou a antiga escola medieval.

Dessa forma, a partir do século XV e XVI, a escola tornou-se uma ferramenta singular de vigilância e de utilização de disciplina humilhante, fundamentada em castigos físicos severos, empregados com o objetivo de corrigir a “má índole” de crianças e jovens que frequentavam esse ambiente.

A partir do final século XVIII e inicio do século XIX, surge uma nova racionalidade educativa ligada à ideia de liberdade, natureza e educação. Essas ideias foram contempladas no Emílio de Jean Jacques-Rousseau, que apresentou diferentes nuances na forma de ver a criança e sua educação. Para Rousseau, a criança é vista como o centro da educação e não mais o adulto. A crença de Rousseau está baseada no bom caráter dos indivíduos que necessitam ser bem condicionados, com métodos educativos menos rígidos, sem a utilização de castigos físicos ou de intimidação. A ideia central é de que a criança, assim como os adultos, deva ser respeitada.

É a partir de Rousseau que a criança torna-se o modelo educativo em contrapartida aos humanistas que consideravam o homem como esse modelo. Por isso, Rousseau ao ser denominado o “descobridor da infância” preconizava essa infância como um estado essencial da vida, estado distinto do adulto, o que lhe coube “o mérito de instituir os princípios básicos de uma psicologia da criança verdadeiramente cientifica” (MARTINEAU, 2010, p.167).

Ao considerar a relação entre docente e discente, Rousseau enfatizava que esta não pode ser resumida a mera interação pedagógica; ele vai além, afirmando que essa relação deverá apresentar uma intensa dimensão afetiva. Por isso, os escritos de Rousseau são considerados como os primeiros vestígios de mudança na visão ocidental em relação à infância.

Para Rousseau, existem etapas evolutivas na infância que surgem naturalmente. Assim, as atividades que envolvem esse público necessitam ser projetadas com embasamento na idade, no sexo e no caráter da criança. Esses critérios, unicamente voltados para a individualidade infantil, são essenciais para o desenvolvimento de uma educação de sucesso. É na obra de Rousseau, mais especificamente, em Émile, que a pedagogia moderna se formula em relação à descrição infantil e à sua educabilidade, a partir da capacidade natural da criança de ser formada. Por meio de Émile, a infância é descoberta, sobretudo, no sentido de que precisa ser estudada, considerada e respeitada. Não se trata somente de um assunto filosófico, mas considera-se também a importância de uma boa alimentação, da lactação, das maneiras de ferver a água, bem como da necessidade do banho (DORNELLES, 2011).

Com os avanços advindos das contribuições de Rousseau ao pensar a infância como uma fase que necessitava de educação e que precisava ser estudada e respeitada, em Émile, a

noção de liberdade é “mais do que um ideal ou elaboração teórica, é uma estratégia para governo de si e dos outros” (FERREIRA 2013, p.45). Nesse contexto, a educação da infância passa por modificações nas estratégias de ensino bem como nas formas de controle. “Os ideais de progresso e de ordem da nação necessitavam de uma gestão populacional mais refinada e sub-reptícia, baseada nos conclames da ciência, mas também em um governo econômico, em termos de uso mínimo da força e da imposição” (Ibidem, p.45).

A obra Émile, apesar de apresentar grandes avanços na área da educação da infância ao orientar métodos menos rígidos de ensino, a não utilização de castigos, o respeito à criança, a exaltação da infância como uma fase essencial na vida do ser humano, sem esquecer-se de detalhes mais básicos com a higiene e alimentação, tem como painel de fundo o controle e o governo da infância. Apesar de a criança ser exaltada nessa obra, ela continuará a ser considerada como indivíduo de “segunda” categoria, de inferior em relação ao adulto. Dessa forma, a obra de Rousseau é considerada como a base para educação e controle da infância na modernidade.

In document Human Security Bulletin (sider 24-29)