PART II: The Means of Criminalization
CHAPTER 4: Primary Means of Criminalization
4.2 Immigration Detention
4.2.2 Human Rights Violations
A estrutura básica das tomadas alimentares dos quilombolas é simples. A merenda é, normalmente, composta por café, broa e biscoitos - rosquinhas, biscoito de polvilho - sempre de produção caseira. Alguma variação é feita, quando há visitas em casa. Nestas ocasiões serve-se mingau de milho verde, cuscuz, um doce ou alguma outra iguaria que se tenha em casa.
Quanto ao almoço, ele é basicamente composto de arroz, feijão, couve e angu. As variações na chamada comida de todo dia relacionam- se ao que se tem na horta.
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Desta forma, a moranga, a mandioca, o quiabo, a alface, o tomate, a beterraba, a cenoura e outras leguminosas podem incrementar o cardápio.
O milho representa, dentre todos
os alimentos cultivados na localidade, o alimento emblemático. Ele é a base da sustentabilidade quilombola. Diariamente presente nas refeições, o milho comporta representações sociais que marcam traços de distinção dessas comunidades.
Vale ressaltar que, em todo município, pelas condições climáticas e do solo, são fartas as plantações de milho. Entretanto, o alimento possui um valor diferenciado nas comunidades quilombolas, dada a relação que os grupos mantêm com esse alimento, desde a formação dos quilombos.
Nos anos pós-abolição, o milho era o “ouro do quilombo”. Se a gente chegava em casa com milho, é porque o dia tinha sido bom; diz Sr. Tadeu, morador de Bordões.
Como afirmado nos registros históricos, apresentado no capítulo quatro deste trabalho, a abolição da escravatura não foi um projeto social. Com a abertura das senzalas, juntamente com a liberdade, os negros não ganharam o não lugar para ir, nem para trabalhar e sustentar suas famílias, como deveria acontecer com qualquer homem livre. Por outro lado, os donos de fazendas se viram sem mão de obra para a realização dos trabalhos em sua propriedade.
O resultado desta desordem social foi uma escravidão velada, na qual os fazendeiros pagavam os negros com alimentos, uma quantidade
Figura 13: Merenda servida em visita de campo. Bordões.
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suficiente para deixar-lhes sempre na condição de dependência. E o trabalho, sempre árduo, para que ficassem em constante estado de exaustão física. Sr Tadeu e sua irmã, D. Celita se lembram da época em que eram jovens e dizem:
Sr. Tadeu: A gente tinha que trabalhar o dia inteiro pro fazendeiro.
Quando chegava lá, ele dizia que já tava tarde, que ia ter que trabalhar até tarde. Quando tava terminando a roça, ele falava que podia continua. No final do dia, quando dava pra trazê um saco de milho pra casa tava bom demais
Pesquisador: Mas porque vocês não plantavam seu milho em
casa?
D. Celita: Como que nós ia plantá? Oh, fia! Coitada!Trabalhava o
dia todo pra traze milho pra casa. Fazia tanto pros patrão que não sobrava nada de tempo pra plantá roça em casa, não.
Os moradores, ao compararem o momento sobre o qual relatam o fato, e os dias atuais, dizem, em suas singelas casas que hoje os jovens de Bordões não sabem o que é sofrer não, hoje eles têm de tudo. A vida hoje ta muito boa, tem comida no prato todo dia.
Dona Celita afirma que, nem sempre, era possível alimentar os filhos:
D. Celita: Tinha dia que não dava pra trazer nada pra casa. Aí tinha
que comer folha de batata na água, ou então não comer nada. Ficar quietinho pra não dar fome.
Pesquisador: E quando dava para trazer o milho, o que vocês faziam?
D. Celita Moía a farinha e fazia o angu. Se tinha rapadura, comia
com rapadura. Se não tinha comia só angu mesmo Pesquisador: Angu com sal?
125 quando. Não botava sal na comida não35.
A tradição de se comer o angu sem sal perdura até os dias de hoje, embora o condimento não seja mais escasso. O angu dos quilombolas é uma mistura de farinha fina de fubá com água, cozido por muito tempo. Comido tanto no almoço, quanto no café, o angu é comida e também merenda.
Quando se faz um convite para o almoço, é a ele, que se refere. Vamos almoçar, o angu ta quase pronto, convida Dona Inês, moradora de Castro, apontando para a panela que a nora mexia no fogo.
Em Santo Antônio de Pinheiros Altos a relação com o milho não é diferente. Presente em todas as hortas e pratos, o milho representava, no passado, a símbolo da fartura.
Terezinha Nicácio afirma que, quando seu pai não conseguia trazer o milho para casa, sua mãe lhes dava feijão com banana para saciar a fome. Ela diz que hoje ninguém mais come banana no feijão, mas que o gosto era bom.
Pesquisador: Se o gosto era bom, por que você não cozinha mais banana no feijão.
Terezinha: Ah não, hoje ninguém precisa mais disso. A gente tem comida pra todo mundo.
Pesquisador: E hoje, Terezinha, como você faz o feijão? Terezinha: Hoje eu faço com sazonª.
Pesquisador: Por que você usa sazonª? Terezinha: Pro feijão ficar mais gostoso.
Pesquisador: E o que mais você faz de gostoso?
Terezinha Ah, eu faço macarronada, farofa, bacalhau, um fraguinho...
Pesquisador: Das coisas que você comia quando era pequena, o quê você faz?
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Entrevistas com D. Celita e Sr. Tadeu, realizada em Bordões,no dia 07 de Janeiro de 2009.
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Terezinha: Não faço mais nada não.
Pesquisado: E o que mais você lembra que comia quando era pequena?
Terezinha : Não lembro de mais nada não36.
Naquele momento percebeu-se ter atingido o limite do espaço social que Terezinha havia permitido que o outro penetrasse. Não houve, entretanto, nenhuma espécie de rejeição após esse momento, possivelmente pelo fato de as perguntas terem ido até o ponto em que a informante determinou.
Naquele instante, a anfitriã fez um convite para conhecer sua horta e, novamente confiante, mostrou a fartura que tinha na porta de sua casa. Além de milho, couve, beterraba, banana, quiabo, cenoura, jiló e uma variedade infinita de plantas medicinais, as quais ela, criteriosamente ensinou o uso de cada uma.
Esse convívio revelou que o milho, hoje, representa a mudança de ocupação de espaços marcados econômica e etnicamente. O que antes era a comida dos brancos, ou dada pelos brancos, em troca de mão de obra, hoje,os quilombolas têm em sua mesa todos os dias.
É preciso, ainda, salientar que, juntamente com o milho, o moinho acompanha a trajetória da ascensão desses sujeitos. O instrumento responsável pelo processo de transformação do alimento em comida
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Entrevista realizada em Santo Antônio de Pinheiros Altos, no dia 23 de novembro de 2008
Fotografia 14: Terezinha e sua neta, na horta, colhendo
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também representa a independência dos quilombolas.
Os moinhos são fundamentais na lógica organizacional das comunidades. Pode-se dizer que os quilombolas estão ligados pelos laços parentesco, e pela utilização do moinho, um bem comum.
A relação que estabelecem com o milho é, a todo momento, interpelada pela presença do moinho. Da mesma forma que não precisam trabalhar para alguém para ter sua saca de milho, não precisam depender de ninguém para a produção de sua farinha.
Se o milho simboliza a independência no sistema produção, o moinho a representa no processo transformador.
Esta dupla, milho e moinho, fazem parte de um universo d=que liga o ontem o e hoje, e estão presente nos mais variados momentos do cotidiano dos quilombolas.
Figura 15: Beneficiamento do milho realizado
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