No oitavo capítulo da sua obra Criar capacidades, Nussabum projeta o seu foco em problemas que verifica nas sociedades atuais. Este capítulo está dividido em secções e cada uma delas trata de assuntos diversos, mas que se podem verificar em qualquer sociedade, tais como: “a descapacitação, o envelhecimento e a importância da assistência”, “a educação”, “os direitos dos animais”, “o direito constitucional e a estrutura política”, entre outros. Nesse capítulo verifica-se que os problemas de uma sociedade são a maior parte das vezes problemas que existem em muitas outras sociedades e por isso a união de forças entre os países é essencial para a resolução desses problemas.
Na respetiva secção “a descapacitação, o envelhecimento e a importância da assistência”, que especialmente me serviu de base para esta secção, Nussbaum aborda problemas de pessoas que têm certas limitações físicas e psíquicas (pessoas com deficiência) que condicionam a sua vida. Quando fala das limitações de pessoas com alguma deficiência, também se foca no envelhecimento de pessoas ditas “normais” que também ao longo do tempo vão sofrendo certas limitações que as vão condicionando. Para que haja alguma solução para estas situações, Nussbaum refere que é essencial olhar para o problema colocando todas as questões necessárias ao tema, ou seja, é necessário perceber quais as necessidades dessas pessoas, de que forma se podem desenvolver as capacitações dessas pessoas, que apoio é que as pessoas mais idosas
necessitam ter por parte do Estado e por parte das pessoas que fazem parte da sociedade, e uma pergunta central – o é que preciso para que essas pessoas sejam respeitadas e tratadas como iguais?
Para Nussbaum é muito importante tratar todas as pessoas como iguais. Inicialmente, a sociedade tem como função tratar as pessoas com respeito, e em pé de igualdade, tem que existir uma união em torno da solidariedade entre todas as pessoas. Eis como ela própria formula o assunto:
únicamente podremos hacer justicia a las reivindicaciones de las personas con discapacidades si ponemos en entredicho una idea muy fundamental del liberalismo clásico, como es la de que el fin y la razón de ser de la cooperación social es la ventaja mutua o recíproca de los individuos. (Nussbaum, 2012, p. 178)
As pessoas idosas, a maior parte dos casos, necessitam de um apoio e atenção redobrados por parte da sociedade. Estas pessoas passam por alterações muito repentinas que os limitam de exercer muitas das atividades que eram consideradas banais quando eram mais jovens. Esta atenção por parte da sociedade tem que passar pela ajuda de todos (pessoas que fazem parta das sociedades, instituições, estado), tendo em conta o altruísmo, a solidariedade e a benevolência. Todas estas características têm que ser adaptadas a todas as sociedades teoricamente, mas principalmente praticamente, tem que haver uma aposta concreta na educação das pessoas (desde que cada criança nasce) para num futuro próximo todos tenhamos a consciência de que viver requer apoiar os outros, ajudando-os nas suas dificuldades e no desenvolvimento das capacitações humanas que se mostram centrais na vida de cada ser humano.
As pessoas idosas necessitam de cuidados que, muitas vezes, a própria família dá. Nussbaum refere que esse apoio é dado principalmente por mulheres, pois existe forte preconceito no facto de um homem prestar, por exemplo, cuidados de higiene aos próprios pais. É preciso proceder à alteração das mentalidades, adaptando essas mudanças com certas normas por parte do estado que apoiem as pessoas que ajudam os seus familiares mais necessitados. Um exemplo por ela dado dessas normas, foi o seguinte:
Los empleadores tienen que admitir más flexibilidad en el lugar de trabajo y reconocer las obligaciones que tanto a mujeres como a hombres se les plantean en sus propias casas: hay que abordar sin miedos posibilidades como los horarios flexibles, el teletrabajo y otras formas de ajuste. (Idem, p. 180)
A autora acredita que a necessidade de apoiar as pessoas mais idosas (mais dependentes) é urgente, que tanto os membros da família dessas pessoas como o Estado as instituições que constituem a sociedade são essenciais na criação de apoios a essas pessoas. Estes têm que se focar nas necessidades em torno da saúde – nas dificuldades que muitos idosos enfrentam como as limitações físicas que fazem com que os mais velhos não consigam fazer certas atividades básicas da própria vida (tal como tomar banho sem ajuda, comer sozinhas, entre outras). O Estado deve proporcionar assistência social a essas pessoas, ou seja, deve promover assistência doméstica, tal como apostar na qualidade e na rapidez de respostas por parte das instituições que promovem a saúde. Como salientou a já citada Sara (2009), a continuação das atividades diárias é muito importante para a vida dos idosos, porquanto:
Estudos realizados nos anos 70 do século XX mostram que as pessoas envelhecem melhor quando participam em muitas atividades (…). Daí que teorias mais recentes defendam que deverá haver uma continuidade nos hábitos, preferências e estilos de vida do idoso. (p.21)
Outro aspeto que é necessário ter em atenção quando falamos de idosos é o apoio tanto nas instituições em que alguns idosos vivem como também dentro do seio familiar. Em relação às instituições, os lares, o Estado tem a obrigação de os supervisionar e promover neles a qualidade, a segurança, o apoio e cuidado, e o amor parte da justiça. Como já referi anteriormente, é muito comum as pessoas mais idosas sofrerem de violência tanto física como psicológica. Essa violência tem que ser travada através do Estado que terá que garantir a segurança dessas pessoas. Mas nem sempre se verifica isso. A dependência dos idosos é muito grande nessas instituições e por isso o risco de sofrer maus tratos pode ser superior. O medo de denunciar essa violência é grande porque podem sofrer devido a essa denúncia, pois muitas vezes é difícil provar que esse tipo de violência acontece dentro de instituições. Dias (2005), em linha com Daniel Pollack, defende que é necessário criar formas de recolher informação e uma
análise cuidada do que se passa em cada instituição onde os idosos podem ser vítimas de vários abusos, entre eles: «(...) a existência de restrições excessivas, a sub ou sobre medicação, a agressão verbal e o abuso material ou financeiro», «(...) processos de infantilização (são tratados como crianças irresponsáveis), de despersonalização (não existe consideração pelas necessidades individuais), de desumanização (são ignorados e não respeitam a sua privacidade) e de vitimização (são agredidos na sua integridade física e moral)» (p. 266).
Tal como já referi anteriormente a preocupação pelos mais velhos iniciou-se na época das Luzes e no séc. XIX surgiram «novas instituições com vista a reincorporação dos idosos na sociedade (e.g. asilos) o seu isolamento passou a ser institucionalizado e a velhice começou a ser encarada como uma doença social.» (Idem, p. 251).
Movimentos que se focam na pessoa idosa para que viva com toda a dignidade possível foram surgindo ao longo dos tempos. Esses movimentos tentam garantir cuidados de saúde e de bem-estar para os idosos, defendem os direitos e desejos dos mais velhos ajudando-os na concretização de metas (tais como formação, incentivo em fazer coisas que querem), «associações e movimentos políticos de defesa e promoção dos direitos da pessoa idosa» (Idem, p.252).