Em 1721, antes que a abundância do ouro chegasse aos mineiros e os levasse à exigência da educação de seus filhos, D. João V, rei de Portugal, manifestou, por meio de sua Carta Régia, ao governador Lourenço de Almeida, seu desejo de abrir escolas na recém-criada Capitania de Minas:
(...) sou informado de que nessas terras há muitos rapazes, os quais se criam sem doutrina alguma, que como são ilegítimos se descuidam os pais deles, nem as mães são capazes de lhe darem doutrina: vos encomendo trateis com os oficiais das Minas desse Povo, sejam obrigados em cada Va. ter um Mestre que ensine a ler, e escrever, contar, que ensine Latim, e os pais mandem seus filhos a estas escolas (...).58
Conforme CARRATO (1968, p.96) , não se sabe exatamente o motivo do supracitado desejo do monarca: se foi sua convicção de que a criação de escolas fosse a solução para submeter os indivíduos à Coroa portuguesa, e não as medidas violentas, colocadas em ação, pelo Conde de Assumar, antecessor de D. Lourenço de Almeida59; ou se era a paixão, por parte de D. João V, pelas letras e ciências; ou se ainda foi sugestão de alguns eruditos da Corte, tal como o ministro Marquês de Abrantes, o qual inspirou a criação, pelo referido rei, da Academia Real de História Portuguesa. Mas, independente do motivo, tal carta foi assinada e enviada por D. João V a D. Lourenço de Almeida, nomeado governador de uma Capitania
57TRINDADE, Raimundo. Arquidiocese de Mariana. Subsídios para sua história. Belo Horizonte: Imprensa
Oficial, 1953, v.1, p. 119.
58Carta de D. João V a D. Lourenço de Almeida (1721). CARVALHO, Teófilo Feu de. Instrução Pública.
Primeiras aulas e escolas de Minas Gerais (1721-1860). In: Revista do Arquivo Público Mineiro. Ano XXIV. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1933, p. 347.
59A exemplo da violência desencadeada pelo Conde de Assumar, sob a justificativa de desbaratar movimentos
sediciosos, destaca-se a Revolta de Vila Rica, em 1720, que culminou com a execução de seu suposto chefe, Felipe dos Santos, e a destruição, por ordem do referido governador, das casas de alguns dos implicados nesse movimento. Para um estudo detalhado do assunto consultar CARVALHO, Teófilo Feu de. Felipe dos Santos
composta de arraiais miseráveis e povoada de aventureiros, proscritos e escravos. Daí para esse governador, não tinha cabimento a criação de escolas ali, destinadas aos filhos de negras. E, em carta escrita naquele mesmo ano, D. Lourenço de Almeida responde a D. João V:
(...) Logo que esta frota partir chamarei os procuradores e falarei com eles que paguem mestres para ensinar os muito rapazes, que há; porém receio muito que estes tomem pouca doutrina por serem todos filhos de negras que não é possível, que lhes aproveite as luzes, conforme a experiência, que há em todo este Brasil, mas sempre se há de obedecer a V. Mge. como é justo e somos obrigados (...)”.60
Pode-se observar, então, como afirma CARRATO (1968, p.97), a má vontade, por parte do governador, em cumprir a ordem do monarca. E, não há indício do cumprimento dessa ordem: “(...) Se executada, poderia antecipar de quase uma geração a preparação de muitos ' filhos de negras', mestiços ou filhos naturais, que iriam ser alguma coisa na vida61 (...)”.62 Mas, CARVALHO (1933, p.349), questiona a respeito de quem freqüentaria tais escolas, supondo que estas tivessem sido criadas por D. Lourenço de Almeida. Nesse compasso, esse mesmo autor aponta alguns obstáculos para a criação e funcionamento dessas escolas: os escravos e o fato de que a população das Minas era, em 1721, toda adventícia.Ao longo da primeira metade do século XVIII, aumentava cada vez mais, no território mineiro, o número de escravos, os quais eram: “(...) considerados como se fossem gados, não podiam frequental-os (sic) (as escolas) por muitos motivos que seria fácil porém fastidioso expor; limitaremos apenas, a citar a nossa legislação que se opunha (...)”.63
De acordo com CARVALHO (1933, p.349) na época em que D. Lourenço de Almeida recebera a ordem de D. João V, para que criasse escolas nas Minas, a família ainda não havia se estabelecido no território mineiro, então povoado de aventureiros que, apenas preocupados com a busca do ouro, não se fixavam em lugar algum. Somente em 1731, é que os mineiros se
60Carta de D. Lourenço de Almeida a D. João V (1721). CARVALHO, Teófilo Feu de. Instrução Pública.
Primeiras aulas e escolas de Minas Gerais (1721-1860). In: Revista do Arquivo Público Mineiro. Ano XXIV. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1933, pp. 347-348.
61Entre eles são citados José de Santa Rita Durão e Manuel Inácio da Silva Alvarenga, figuras de destaque na
literatura brasileira e que estudaram na Universidade de Coimbra. CARRATO, José Ferreira. Igreja, iluminismo
e escolas mineiras coloniais. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1968, pp. 97-98.
62CARRATO, José Ferreira. Igreja, iluminismo e escolas mineiras coloniais. São Paulo: Companhia Editora
Nacional, 1968, p. 97.
63CARVALHO, Teófilo Feu de. Instrução Pública. Primeiras aulas e escolas de Minas Gerais (1721-1860). In:
fixariam ao solo.Entretanto, conforme CARRATO (1968, p.15), a partir de 1710, o homem que chegara na região mineradora, em busca do ouro, já revelava preocupação com a estabilidade, com o conforto doméstico, que se verifica pela grande quantidade de procurações de vendas de casas, terras e lavras: “ (...) Ontem, a única preocupação era a data do ouro, as águas minerais, o escravo e a ‘farramenta’ para a cata (...) a pilhagem (...) agora, o cuidado, é o lar, a ‘morada de casas’ (...).”64 Nessa mesma década, no quadro do ordenamento da administração pública, com a criação das primeiras vilas, e câmaras municipais, a população mineira vai se estabilizando. Mas, na década seguinte, por intermédio de uma carta a D. Lourenço de Almeida, D. João V, revelou sua preocupação com a estabilidade dos habitantes das Minas. Destarte, ordenou ao supracitado governador que:
(...) procureis (...) para que as pessoas (...) tomem o estado de casados e se estabeleçam com suas famílias (...) e me informeis se será convenientes mandar eu que os casados possam entrar na governança das câmaras das vilas, e se haverá suficiente número de casados para se poder praticar esta ordem (...)”.65
E, por meio da resposta de D. Lourenço de Almeida à ordem do referido monarca português, tem-se a impressão de que as mancebias, as uniões ilícitas faziam parte do cotidiano da população mineira dos setecentos:
(...) vejo o gde.(sic) serviço que se fazia Dos (sic) nosso Senr. conseguindo-se que estes moradores destas minas (sic) casassem, porque só assim se livrariam do mau estado em que andam quase todos (...) em todas as minas (sic) não há mulheres que que (sic) hajão de casar, e quando há alguma que viessem em companhia de seus pais (que são raras) são tantos casamentos que lhe saem que vê o pai da noiva em grande embaraço sobre a escolha que há de fazer de genro, como há esta impossibilidade para haver casados me parece, que V. Mage. (sic) proiba que entre na governança das câmaras, os solteiros, porque os homes (sic), casados são muito poucos, e pela maior parte vivem em fazendas distantes das vilas”.66
Todavia, apesar dos referidos obstáculos, existem, conforme BOSCHI (1991, p.4), entre a documentação referente à década de 30 do século XVIII, requerimentos de solicitação de pagamento por serviços prestados às câmaras por professores contratados por elas, para
64CARRATO, José Ferreira. Igreja, iluminismo e escolas mineiras coloniais. São Paulo: Companhia Editora
Nacional, 1968, p. 43.
65Carta de D. João V a D. Lourenço de Almeida. CARVALHO, Teófilo Feu de. Instrução Pública. Primeiras
aulas e escolas de Minas Gerais (1721-1860). In: Revista do Arquivo Público Mineiro. Ano XXIV. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1933, pp. 350-351.
66Carta de D. Lourenço de Almeida a D. João V. CARVALHO, Teófilo Feu de. Instrução Pública. Primeiras
aulas e escolas de Minas Gerais (1721-1860). In: Revista do Arquivo Público Mineiro. Ano XXIV. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1933, pp. 350-351.
ministrar disciplinas básicas, entre as quais, Gramática e Latim. Daí verifica-se que, os encargos educacionais nas Minas foram assumidos pelas câmaras municipais, ao contrário das áreas litorâneas, onde as ordens religiosas estavam encarregadas da instrução. Mas, além das câmaras, as famílias e o capelães também tiveram importante papel na instrução, ao longo da primeira metade do século XVIII. De modo geral, as primeiras escolas seriam os próprios lares mineiros, no interior dos quais as mães assumiriam o papel de mestras. Também existiam as escolas de capelães, as quais consistiam em uma: “(...) espécie de schola catedralis da Idade Média, em que o mestre era sempre o padre-cura, capelão da casa, da família ou da fazenda (...)”.67 Dessas escolas, onde as crianças aprendiam as primeiras letras e talvez Latim, teriam saído os jovens mineiros que partiram para completar seus estudos nos colégios jesuítas da Bahia ou do Rio de Janeiro, e depois para as universidades européias, especialmente a Universidade de Coimbra. Nesse quadro, pode-se destacar as influências, tanto da figura materna, quanto das escolas de capelães, no despertar da vocação para a vida sacerdotal. No lar, a mãe é, geralmente, mais sensível e religiosa. E, descobrindo em seu filhinho, uma disposição para o sacerdócio, pode incentivá-la, principalmente por meio da prece familiar: “(...) Longas preces, onde há invariavelmente a exaltação da figura do padre, se tornam elementos de inculcação da vocação no filho pequeno que acompanha a reza, e se sente interpelado (...).”68Também em suas escolas, é provável que, os capelães, revestidos de suposta autoridade espiritual, tenham descoberto, em alguns alunos, a vocação para a carreira eclesiástica. Talvez, ainda houvesse a figura do tio padre, de modo geral, ativo e cortejado, que procurava atrair, para tal carreira, seu sobrinho, o qual deseja ser igual ao tio. Deste modo, verifica-se o desejo de imitação, considerado como vocação.
Pelo que foi exposto, pode se observar a preocupação, por parte das famílias ou dos
67CARRATO, José Ferreira. Igreja, iluminismo e escolas mineiras coloniais. São Paulo: Companhia Editora
Nacional, 1968, p. 99.
68TAGLIAVINI, João Virgílio. Garotos no túnel. Um estudo sobre a imposição da vocação sacerdotal e o
processo de condicionamento nos seminários. Campinas/UNICAMP/ Departamento de Ciências Sociais, 1990. Dissertação de Mestrado, p. 21.
responsáveis, de dar aos filhos ou afilhados uma educação melhor, fora das Minas. Tal fato tem, segundo CARRATO (1968, p.101), pode ser explicado de duas maneiras: o desejo de oferecer aos seus, um futuro brilhante ou tranqüilo, destinando-os à carreira eclesiástica ou à das leis; ou, o empenho, por parte dos ricos proprietários e mineradores (geralmente portugueses), isolados no sertão, em enviar seus filhos aos centros de cultura e de civilização.
À medida em que o fastígio do ouro chegava aos mineiros, estes exigiam cada vez mais das autoridades, melhor educação para seus filhos. Assim, às vésperas da segunda metade do século XVIII, não mais se contentando com as escolas domésticas ou de padres, as famílias mineiras, enriquecidas por meio da atividade mineradora, pediam a D. Frei Manuel da Cruz, primeiro bispo da então recém-criada diocese de Mariana, escolas para seus filhos. Nesse contexto é fundado, nessa diocese, o Seminário de Nossa Senhora da Boa Morte.