Os dados referentes às regulações motivacionais estão apresentados de acordo com os construtos verificados após a análise fatorial das duas versões do QRCE, a reduzida (24 itens) e a ampliada (32 itens). Trata-se da primeira utilização do QRCE enquanto instrumento de avaliação da motivação. Os resultados são apresentados de forma geral e comparando-se homens e mulheres quanto às formas de regulação do comportamento para a prática de esportes.
Os atletas se mostraram autodeterminados para a prática de esportes. Enquanto a amotivação, a regulação externa e a regulação introjetada apresentaram menores
83 índices, a regulação identificada, a regulação integrada e as motivações intrínsecas são as regulações motivacionais que mais influenciam para a prática, fatores que contribuem para um elevado índice de autodeterminação (tabela 9).
Tabela 9: Regulações motivacionais [x(±)] dos atletas do estudo.
Reg. Motivacionais Geral
(n = 167) Homens (n = 130) Mulheres (n = 37) Amotivação 2,31 (1,47) 2,21 (1,40) 2,65 (1,65) Reg. Externa 2,07 (1,35) 2,03 (1,29) 2,23 (1,56) Reg. Introjetada 2,45 (1,92) 2,44 (1,95) 2,53 (1,80) Reg. Identificada 5,76 (1,02) 5,70 (1,07) 6,00 (0,79) Reg. Integrada-5 5,51 (1,09) 5,46 (1,11) 5,66 (1,03) Reg. Integrada-6 5,07 (1,35) 5,02 (1,39) 5,21 (1,18) Mot. Intrínseca 5,58 (1,43) 5,56 (1,56) 5,66 (0,84) MI Exp. Estimulantes 6,04 (0,96) 5,97 (0,99) 6,26 (0,83) *Não foram observadas diferenças significativas entre homens e mulheres.
Os valores apresentados pelas mulheres para as formas controladas da motivação (regulação externa e regulação introjetada) são mais elevados em relação aos homens. Da mesma forma, as mulheres apresentaram valores mais elevados, quando comparadas aos homens, para as formas autônomas da motivação (regulação identificada e integrada) e motivações intrínsecas (motivação intrínseca geral e motivação intrínseca para experiências estimulantes). Não foram encontradas diferenças significativas entre homens e mulheres para as regulações motivacionais e índice de autodeterminação.
A Teoria da Autodeterminação (TAD) assume a existência de quatro níveis de motivação extrínseca, que está presente quando o comportamento não acontece
84 exclusivamente para satisfação pessoal, mas visto como um meio para atingir um determinado fim (BOICHÉ e SARRAZIN, 2007). Podemos observar nesse estudo que homens e mulheres não se diferenciaram para nenhuma das formas de regulação motivacional.
Confirmando os pressupostos da TAD, a regulação identificada e a integrada apresentaram valores mais elevados em relação às regulações externa e introjetada, embora os resultados não tenham sido significativos comparando homens e mulheres. Na regulação identificada, o indivíduo considera o esporte importante e aprecia os resultados e benefícios da participação na atividade, enquanto na regulação integrada o indivíduo visa algum tipo de resultado além do prazer da prática. Essas duas regulações estão mais ligadas à motivação intrínseca, embora sejam consideradas extrínsecas (RYAN e DECI, 2000), sendo responsáveis por elevar o índice de autodeterminação, juntamente com a motivação intrínseca.
O estudo de Lonsdale, Hodge e Rose (2009) verificou a mesma situação em atletas neozelandeses de diversas modalidades, onde a regulação identificada e integrada são tão ou mais influentes sobre essas práticas que a própria motivação intrínseca. Resultado que foi encontrado também no estudo de Sarmento (2008) com atletas amadores e profissionais, sendo a motivação extrínseca de regulação identificada mais elevada em atletas profissionais.
Considerando as diferenças entre homens e mulheres quanto às regulações motivacionais e variáveis relacionadas com a rotina de treinamento, as análises estatísticas foram realizadas separando os grupos em função do sexo (tabela 10).
85 Tabela 10: Correlação entre regulações motivacionais† [x(±)] para a prática de esportes
e variáveis de caracterização esportiva e idade dos participantes do estudo.
AM EX IJ ID IG-5 IG-6 MI MIEE
Homens
Idade -,322** -,234** ,005 -,036 ,166 ,135 ,117 ,232**
Tempo de prática -,206* -,128 -,112 ,031 ,203* ,182* ,038 ,156
Treinos por semana -,111 -,007 -,058 -,079 ,098 ,107 ,052 ,022
Horas de treino -,109 -,139 -,038 -,104 ,094 ,072 ,160 ,119 Competições por ano ,076 ,167 ,134 ,128 ,134 ,142 ,062 ,179* Mulheres Idade ,319 -,151 -,139 -,133 -,163 -,116 -,231 -,132 Tempo de prática ,426** ,174 -,084 ,041 ,148 ,205 ,021 ,166
Treinos por semana -.083 ,096 -,055 ,042 -,014 ,020 -,016 ,143
Horas de treino -,151 -,074 -,195 -,250 -,051 ,006 -,093 -,100
Competições por ano
-,298 -,178 -,134 -,082 ,140 ,163 -,216 ,059
† Amotivação (AM); Reg. Externa (EX); Reg. Introjetada (IJ); Regulação Identificada (ID); Regulação Integrada (IG);
Motivação Intrínseca (MI); Motivação Intrínseca para Experiências Estimulantes (MIEE). * Correlações significativas ao nível de p<0,05** Correlações significativas ao nível de p<0,01.
As análises das correlações entre as regulações motivacionais e variáveis de caracterização dos atletas estão apresentadas em função do sexo. Entre as mulheres foi verificada correlação significativa somente entre amotivação e tempo de prática esportiva (r= 0,429; p= 0,009), ou seja, quanto maior o tempo de prática na modalidade maior a influência da amotivação na regulação do comportamento das atletas.
Para os homens o tempo de prática esportiva esteve inversamente relacionado a amotivação (r= -0,206; p= 0,019) e diretamente relacionado com a regulação integrada, tanto no caso da versão reduzida (r= 0,203; p= 0,021) como na versão ampliada (r= 0,182; p= 0,039). Ou seja, entre os homens, o tempo de experiência na modalidade parece levar a comportamentos regulados deforma mais autônoma.
86 Os resultados indicam que os atletas mais velhos tendem a ser mais autodeterminados para a prática esportiva que os mais jovens, sendo menos influenciados pela amotivação e regulação externa. Estes resultados confirmam que as regulações mais intrínsecas estão de fato associadas ao engajamento e permanência na atividade esportiva. Neste caso, foram observadas correlações inversas entre a idade e a amotivação (r= -0,322; p< 0,001) e regulação externa (r= -0,234; p= 0,007) e direta com a motivação intrínseca para experiências estimulantes (r= 0,232; p= 0,008).
Por outro lado, o número de competições por ano apresentou relação positiva com a motivação intrínseca para experiências estimulantes (r= 0,179; p= 0,045), o que significa dizer que quanto mais os atletas participam de competições maior a influência de fatores internos na regulação do comportamento. As competições são o produto final de todo um processo de treinamento pelo qual todo atleta se submete, e busca nesse produto mostrar ou colocara à prova suas habilidades treinadas até o momento, não sendo estranho compreender que a competição exerça tal influencia sobre a motivação de atletas, sobretudo de alto rendimento.
Analisando as regulações motivacionais, percebe-se que os atletas se mostram autodeterminados para a prática esportiva. Além disso, todos os atletas, independente do sexo, demonstraram maior tendência para fatores internos (formas autônomas) e motivação intrínseca. Ainda foi verificado que, embora não significativamente, existe uma tendência de que a com o passar do tempo diminua a motivação intrínseca nas mulheres.
A motivação autodeterminada depende de outros fatores além da persistência em determinada tarefa, como a influencia de amigos, família e do treinador (WEISS e
87 CHAUMETON, 1992). A pesquisa de GANGÉ (2003) confirma este efeito, de que influências externas podem motivar de forma elevada os atletas, devido aos atrativos do esporte competitivo.
Diferenças são encontradas entre atletas amadores, que relatam como principal motivo para praticar sua modalidade o prazer (fator intrínseco), e profissionais, que se sentem motivados pelos sentimentos de pressão e obrigação de mostrar resultados (fatores extrínsecos). Para Weinberg e Gould (2008), a motivação é considerada uma variável fundamental na adesão e aprendizagem e desempenho em contextos esportivos e de exercício físico. Segundo Ryan et al. (1997), a motivação extrínseca está mais relacionada com a adesão à prática, porém num curto prazo de tempo, enquanto a motivação intrínseca relaciona-se com o envolvimento num tempo mais prolongado. Nesse estudo os resultados corroboram com os acima citados, uma vez que a idade e o tempo de prática na modalidade estiveram inversamente relacionados com a amotivação e a regulação externa e diretamente relacionados coma a regulação integrada e a motivação intrínseca.
Esses achados confrontam os do estudo de Vissoci et al. (2008), que encontrou que atletas juvenis de voleibol percebem-se menos amotivados para a prática esportiva quando comparados a atletas adultos. Murcia et al. (2007) encontrou elevados níveis de motivação extrínseca e intrínseca e baixos níveis de amotivação ao analisar a idade, sexo e modalidade em atletas de rendimento. Esses resultados denotam a diferença entre esses dois construtos (amotivação e regulação externa) e mostram que atletas que estão iniciando no esporte de alto rendimento apresentam maior ativação, e por conseqüência menor amotivação, que se caracteriza como ausência de motivos para
88 participar de determinada tarefa (DECI e RYAN, 1985), em relação à atletas com mais tempo de experiência. Da mesma forma, atletas que praticam uma modalidade há algum tempo são menos motivados intrinsecamente quanto comparados a atletas em inicio de carreira.
Podem-se refletir ainda questões referentes ao tempo que o atleta treina por dia. Mesmo não sendo um resultado significativo para esta variável (horas por dia), a motivação intrínseca, que representa um comportamento independente, próprio do indivíduo (RYAN e DECI, 2000), parece não ser afetada pelo número de horas treinadas em um dia.
Foi observada uma correlação de mesma direção entre o nível de motivação intrínseca para experiências estimulantes e a quantidade de competições durante o ano, o que significa dizer que os mais motivados intrinsecamente são os atletas que participam de mais competições. Esse resultado confirma o papel positivo que a competição exerce sobre a motivação em atletas de alto rendimento (GASTON, 2003), dando ênfase á esta variável ser de fato uma experiência estimulante para atletas de alto rendimento, confirmando os achados de Ulseth (2008) de que são os homens que mais se envolvem na pratica esportiva motivados geralmente pela competição e reconhecimento social quando comparados às mulheres.
Feita a validação do QRCE, optou-se por avaliar o perfil de motivação de atletas adolescentes e jovens adultos brasileiros com o intuito de aprofundar o conhecimento e detalhamento da Teoria da Autodeterminação (TAD) no contexto esportivo nacional.
89 Como sugestões de aplicações do QRCE, destacamos a importância do estudo da motivação no processo de intervenção para a aderência e permanência na prática esportiva, observadas as especificidades da teoria que dá suporte ao instrumento.
Os resultados provenientes destas análises possibilitam aos técnicos e demais envolvidos no processo (pais, treinadores, patrocinadores, e os próprios atletas) uma melhor aproximação e estabelecimento de estratégias adequadas no envolvimento do atleta com seu esporte.
De outra forma, esta variável também como base para detecção de possíveis antecedentes ao abandono da prática, uma vez que atletas com baixa autodeterminação (resultante, sobretudo, de elevada amotivação e baixa motivação intrínseca) são considerados potenciais sujeitos a este efeito.
90
CONCLUSÕES E SUGESTÕES
Com base nos objetivos propostos, na revisão da literatura investigada, nos resultados e análises desenvolvidas, podemos concluir que:
1. Questionário de Regulação do Comportamento no Esporte (QRCE) apresentou resultados satisfatórios após ser testado empiricamente em atletas brasileiros com idade variando de 14 a 40 anos, sendo considerado um instrumento válido para aplicações em pesquisas no Brasil;
2. O QRCE apresentou boa confiabilidade e validade de construto, evidenciado pelo coeficiente de consistência interna encontrado e pelas cargas fatoriais. 3. Quanto ao perfil motivacional de atletas adolescentes e jovens adultos
brasileiros o presente estudou indicou a existência de relações entre aspectos da rotina de treinamento e as regulações motivacionais. Homens e mulheres não se diferenciaram significativamente quanto a rotina de treinamento. Da mesma forma, não foram encontradas diferenças significativas para as regulações motivacionais desses grupos. Separando as análises por sexo, as principais diferenças entre homens e mulheres foram: a) para os homens a idade esteve positivamente relacionada com motivação intrínseca para experiências estimulantes e inversamente relacionada à amotivação e à regulação externa; b) ainda para os homens, o tempo de prática na modalidade esteve relacionado de forma direta com a regulação integrada e de forma inversa com a amotivação e o número de competições por ano
91 apresentou relação positiva com a motivação intrínseca para experiências estimulantes. Por fim, não foram observadas relações entre aspectos do treinamento e regulações motivacionais para as mulheres.
4. Dessa forma, tem-se que as diferenças na rotina de treinamento entre homens e mulheres apresentam influência direta na motivação de atletas de alto rendimento e que a motivação, tanto de homens quanto mulheres, é mais orientada por fatores internos, resultando elevada autodeterminação para a prática esportiva.
5. Por tratar-se da primeira validação do BRSQ além de seu país de origem, desde sua elaboração, resultados ainda superiores aos bons resultados aqui observados podem ser encontrados, haja vista que a teoria que suporta o instrumento encontra-se em fase inicial de estudos no Brasil, sobretudo no contexto esportivo competitivo.
6. Embora com a opção pela manutenção dos itens na forma como se encontram no BRSQ original, sugere-se que outros estudos sejam realizados com um número maior de participantes e com amostras mais homogêneas, de forma a continuar a o processo de confirmação da escala enquanto ferramenta de pesquisa.
92
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