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Lacan começou sua obra apontando a ambiguidade e o equívoco significante, o que manteve, insistindo e persistindo até o final de suas reflexões e de seu ensino. O mal- entendido fundamental, se é o mal-estar na civilização, é também e por isto mesmo, a causa do desejo para o sujeito neurótico:

Por isso podemos dizer que, no fundo, todos procuram um analista, mesmo quando não se dirigem a um. Buscam um Outro que responda, na esperança de que lhe seja devolvida sua certeza de ser, na singularidade própria de seu sintoma. Albert Camus (1994, p.26), numa passagem que só os escritores criativos produzem, diz muito bem do que se trata:

‘Ele não era nada senão esse coração angustiado, ávido de viver, revoltado contra essa ordem mortal do mundo que o tinha acompanhado durante quarenta anos, esse coração que batia sempre com a mesma força contra o muro que o separava de toda e qualquer vida, querendo ir mais longe, ir além, e, sobretudo, saber, saber antes de morrer, saber finalmente para ser, uma só vez, um só segundo, mas para sempre.’ (Camus apud LIMA, 2011, p. 133, grifo nosso).

Para introduzir a função social do sintoma, reporte-se à literatura:

- There is only one remedy! One thing alone can cure us from being ourselves!...

Yes; strictly speaking, the question is not how to get cured, but how to live. (Joseph Conrad, “Lord Jim”, p. 226, apud: GIDE, 2009, p.189)

Este texto faz lembrar o “To be or not to be, that’s the question!” de Shakespeare, quando o sujeito se interroga – enquanto seu próprio sintoma – de o quê ser, para ele mesmo. Muito embora, ao se fazer uma reflexão um pouco mais aprofundada, possa remeter ainda a um mais além: a uma questão ética ou moral de um como viver, em um conflito do sujeito consigo mesmo e/ou com a sociedade. Esta é apenas uma possibilidade, ou uma das hipóteses, para interpretação. É um exemplo do deslizamento metonímico da significação, propiciado pelo significante.

Na vertente de uma significação que cria um “ser de saber”, Celso Rennó Lima resume brilhantemente a função social do sintoma:

É ao instalar-se como ‘ser de verdade’ que o sintoma promove a construção de uma suposição de saber no campo do Outro. Partindo da premissa estrutural de que não há relação entre o sujeito e o Outro, o sujeito está, desde sempre, afastado de sua verdade. O laço possível entre o sujeito e o Outro se faz pelo sintoma e com a criação de um ‘ser de saber’ ali onde a verdade lhe está vetada. (LIMA, 2011, p. 159, grifo nosso)

E, ao “retomar a perspectiva do sintoma como sendo uma tentativa de restabelecer o laço entre o sujeito e o Outro”, aquele autor destaca que este certo mal-estar vai gerar uma busca incessante, que é “a repetição da impossibilidade na cadeia significante”. E conclui: “Contudo, todo esse movimento só se sustenta porque há pontos de encontro que, pelo fato de

serem sempre faltosos, acenam com a possibilidade de certa realização” (LIMA, 2011, p. 157, grifo nosso).

É por aí que se pode procurar um caminho para algum laço social possível – que sempre escapa: evasivo, evanescente e fugaz, porque será diferente em cada momento para cada sujeito e para cada interlocutor. Quando Lacan diz que “a relação sexual não existe”, é por isto que cada um vai construindo o seu “jeito de ser”, em diferentes tempos, e cada qual a sua maneira “se arranja como pode” (MILLER, 2008, 18ª. Lição, p. 9).

O sujeito tem que se haver com o seu sintoma para aprender a fazer “aí” - neste lugar de falta-a-ser - com este sintoma que vem para recobrir ou velar a falta de identidade simbólica possível. A vertente do gozo do sintoma, que tem a ver com um saber sobre a pretensa e pretendida verdade de cada um, apoia e tende a se estender, contaminando toda a visão-de-mundo (“weltanshauung”) de cada sujeito em particular.

Porém, isto não implica necessariamente que o sintoma de cada um – único e particular – abarque toda a amplitude ou extensão da relação de cada sujeito singular com o grande Outro, tomado na acepção de uma alteridade social e que seríamos todos “autistas”, não fazendo um movimento de procura através do significante. Os acontecimentos, mesmo que propositalmente programados – como em uma experiência de ensino –, são sempre contingentes. Mas podem se descobrir alguns pontos de contato que funcionariam se poderia dizer como uma espécie de dobradiça ou de tangenciamento entre as polissemias significantes.

Para que se pudesse fazer uma equivalência unívoca entre loucura e Foraclusão, haveria que se ressaltar que, muito embora em última análise se possa afirmar, com Russell, que um ponto de “loucura” seja o denominador comum do paradoxo logico-estrutural da ordem simbólica que seria pretensamente “comum a todos” – e, portanto, seria indiscriminado e generalizável -, este ponto não é universalmente compartilhável.

Este ponto de abertura permite que se faça uma releitura sobre a estrutura da Psicose (que teria sido aparentemente ultrapassada pelo próprio Lacan), enquanto uma categoria fundada naquela estrutura da Foraclusão que ele havia proposto desde seu primeiro ensino, como sendo apenas uma versão estrutural diferente de uma loucura mais genérica no sentido de homogênea ou universal.

É a repetição do sintoma que retorna como uma diferença, na prática, entre as estruturas clínicas: cada um “se arranja como pode” (MILLER, 2008). Isto é, em se tratando desta dialética, o sujeito se rearranja em função de seu modo de gozo (que é a vertente inabordável do sintoma), mas também em sua relação com o saber, segundo o que lhe

possibilita sua estrutura – o que pode eventualmente ser tangenciado, à condição de que ao sujeito seja proporcionada uma oportunidade para falar.

Falando sobre a falta de universalidade na comunicação, Miller sugere uma tentativa parcial de compartilhamento:

... o termo de discurso analítico, fantasma, sonho, delírio, loucura, sintoma, todos esses termos entram em colapso para comunicar esse fechamento de cada um em seu mundo e daí a impossibilidade do mundo em comum. Diante disso a gente se arranja, todo mundo está em seu próprio mundo, isto é, naquilo que fomenta seu sintoma, diante disso a gente se arranja como pode para se compreender e tentar caminhar junto. (MILLER, 2008, 18ª. Lição, p. 9, grifo nosso)

Mas essa tentativa de estabelecimento de um laço social pode ser vista, ou escutada, ao mesmo tempo, sob a perspectiva de duas dialéticas diferentes: com o pequeno outro semelhante, numa relação dual imaginarizada, e com o grande Outro da linguagem, através do não-saber - permanecendo sob o estatuto de um semblante que procura, mas que também vela, o real.

A psicanálise lacaniana situa o sujeito no intervalo entre os significantes – “O significante é o que representa o sujeito para outro significante” (LACAN, Seminário 7, “A Ética da psicanálise”, 1991) - como sendo o resultado do paradoxo lógico entre o dentro e o fora, o mundo interno e o externo, como em uma banda de Moebius (LACAN, Semimário 10, 2005). Para Lacan, esta divisão não ocorre em uma separação de absoluta radicalidade entre o sujeito e o objeto, mas no que ele denomina de “ex-timidade” do objeto. A operação de separação, promovida pela lógica do significante, opera como uma disjunção-conjunção.

Pode-se referir ao sujeito enquanto dividido, de uma forma mais ampla e genericamente indeterminada, por ser dividido pela linguagem, ou pelo não-saber, em sua relação estrutural sintomática com o Saber. Poderia ser considerada uma escolha apenas semântica, se não tivesse consequências práticas no real, operando epistemologicamente como divisora de águas que por sua vez incidem sobre o pensamento e formatam o conhecimento.

Esta concepção traz uma nova abertura para discussões relativas à dimensão da responsabilidade do sujeito em sua relação com o Outro da linguagem que o habita, de acordo com a sua estrutura. Em sua relação com o saber e a verdade a sua fala pode ter, ou não, a estrutura de um discurso. Mas “o que se procura, é achado nas vias do significante.” (LACAN, 1988, Sem.7, p. 104)

V.6. LAÇOS SOCIAIS PODEM OCORRER ENTRE SUJEITOS DE DIFERENTES