Maria Luiza de Almeida Cunha nasceu em 19 de agosto de 1895, na cidade de Barra Mansa, no Rio de Janeiro. Filha de Maria Campos de Aguiar Neves (Marieta) e do comerciante José da Rocha Neves. Teve dois irmãos, Luiz e Cecília. O pai de Maria Luiza era comerciante, uma espécie de caixeiro viajante, e em uma de suas viagens não voltou para casa, sendo dado como morto pela família. Por esse motivo, se vendo obrigada a trabalhar para cuidar dos filhos, Marieta, mãe de Maria Luiza, foi morar na casa dos pais.
Depois de um tempo (não foi possível precisar a data), seus avós maternos foram morar na cidade do Rio de Janeiro. Na ocasião, tornaram-se vizinhos da família Jacobina Lacombe. Na época, as irmãs Isabel e Chiquinha Jacobina decidiram criar uma escola para educar suas filhas. Isabel tinha uma filha na idade de Maria Luiza e pediu aos seus avós que a deixassem estudar no colégio. Maria Luiza tinha entre 6 e 7 anos. Tendo sido autorizada, ela e mais 5 meninas foram as primeiras alunas do colégio.
A escola estava localizada na Rua Almirante Tamandaré, no bairro do Flamengo, uma rua grande e larga, que abrigava poucos moradores, de modo que todos se conheciam. Com o tempo a escola cresceu e passou a atender os filhos dos moradores dos arredores e rapidamente tornou-se um importante colégio no cenário educacional carioca, quiçá brasileiro, frequentado por um público diverso, oriundo de vários lugares da cidade do Rio e de grande aceitação pela elite.
No projeto do colégio estava presente a busca de despertar nas alunas o amor e a caridade, a sinceridade, a pureza, o ato de ser mãe e educadora, propondo uma educação renovadora, mas embasada nos preceitos católicos.239 As idealizadoras da instituição, as
irmãs Isabel e Chiquinha, procuraram aplicar no colégio a experiência educacional vivenciada por elas. Isabel estudou no Colégio Progresso, fundado no Rio de Janeiro em 1887, por uma professora americana e protestante. O colégio era destinado ao público feminino e foi uma das primeiras instituições a utilizar as concepções educacionais americanas no Brasil. Chiquinha, por sua vez, teve uma orientação educacional francesa.
Essa preocupação com a educação foi herdada de seu pai, D. Antônio Jacobina. Em uma carta enviada a Isabel Jacobina, no ano de 1889, D. Antônio manifesta sua compreensão sobre o que considerava uma condição adequada para mulher,
Se conheces o que não podes fazer, deves compreender como é triste a condição da mulher a quem Deus deu inteligência igual a do homem, mas,
239 ALVES, Luciana Pazzito. O curso Jacobina: uma experiência de modernização em uma
instituição católica (anos 1920 e 1930). Faculdade de Educação. Universidade Federal Fluminense, Niterói, 1997.
que um sistema acanhado de educação esteve a ponto de não conhecer seus próprios interesses aguardando o marido, podendo firmar-lhe o passo e discernir o verdadeiro caminho. Vês, pous que a mulher se ocupando de futilidades perde sua importância como membro da sociedade, para só forma-se um objeto de divertimento para ricos e (?) para os remediados se a mulher pudesse ser o braço direito do marido, assegurava-o seu futuro e o da sua família. Mas isso é inútil pregar: a moda e a falta de senso têm mais valor.240
Como podemos ver, as filhas Lacombe foram educadas para não serem mulheres fúteis e submissas ao marido. Ao contrário, foram incentivadas a crescerem intelectualmente, formarem uma boa família e atuarem na sociedade. Certamente criaram a escola para que suas filhas tivessem uma educação dentro desses moldes. Podemos ressaltar isso como uma novidade, pois no período a educação feminina baseava-se quase exclusivamente na formação de boas mães, esposas e donas de casa.
Conta Maria Amélia, que na casa dos Lacombe, Maria Luiza conviveu com três diferentes gerações de mulheres. Era um meio bastante culto e lá se organizavam saraus literários sofisticados. Além das mulheres, a casa era habitada por homens ligados à política e à literatura. O “tio Américo”, por exemplo, foi diretor da Casa Ruy Barbosa e membro da Academia Brasileira de Letras241. É nesse ambiente que Maria Luiza de Almeida Cunha se
formou. Inclusive, supomos que o entendimento do papel da mulher para ela, sua formação católica e o espírito caridoso são frutos da educação recebida no colégio e da convivência com a família Jacobina Lacombe.
240 LACOMBE 1962 apud. PRAZERES, Talitha dos. As minhas meninas: um estudo sobre os
discursos se Laura Jacobina Lacombe dirigido à alunas. Artigo Apresentando nos Anais do Congresso da Sociedade Brasileira de História da Educação. p. 65.
241 ALMEIDA CUNHA, Maria Amélia. O presente das coisas passadas. Coletânea de Textos:
FIGURA 2– Maria Luiza de Almeida Cunha, Isabel Lacombe e Roberto de Almeida Cunha (s/d).
Fonte: Arquivo Pessoal da Família Almeida Cunha
Pouco tempo depois, os avós de Maria Luiza decidem voltar para Barra Mansa. Isabel Lacombe Jacobina pediu à família que deixasse Maria Luiza sobre os cuidados dela. Segundo relatos da família, Isabel julgava Maria Luiza uma menina muito talentosa e seria um desperdício de seu talento se ela voltasse para o interior. Assim, Maria Luiza ficou no Rio de Janeiro e foi criada como uma filha por Isabel. Ela fez todo o curso de Humanidades no Colégio Jacobina, durante o qual teve aulas com professores renomados como João Kopke, José Oiticica e Alberto Nepomuceno. Após se formar, atuou como professora e se preparava para ser diretora do colégio. No entanto, Maria Luiza não chegou a assumir a direção da escola. Seu irmão, Luiz, estava com tuberculose e, em decorrência do problema de saúde do irmão, Maria Luiza, aos 21 anos, juntamente com sua avó Marieta, mudou-se para Belo Horizonte, para que Luiz tivesse condições mais adequadas de tratamento.242
242 Como vimos no capítulo anterior, Belo Horizonte recebia muitas pessoas acometidas por doenças