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4. INNHOLDSMANGFOLD

4.1 Ø KONOMISK TEORI

4.1.2 Hotelling i radiomarkedet

O século XIX foi marcado por grandes transformações e a crença na capacidade humana de intervir na natureza e modificá-la por meio do conhecimento era uma idéia mais ou menos generalizada naquele contexto. Como afirma Eric Hobsbawm (1977), o progresso material e intelectual aparece como algo dado e caracterizava sobremaneira a visão de mundo das pessoas. Nesse sentido, a ciência torna-se um símbolo preponderante na sociedade burguesa, subordinando outras formas de conhecimento, inclusive a filosofia. O positivismo de Auguste Comte (1791-1857) tem a convicção de que o progresso da humanidade segue a determinação de leis naturais, passando por estágios sucessivos de desenvolvimento: teológico, metafísico e científico. Assim, apresenta uma visão privilegiada da ciência, posto que se opõe à sociedade tradicional e enfatiza a supremacia das atividades científicas e industriais.

Entretanto, o imaginário social deste contexto, marcado pela primazia das ciências, não é explicável apenas pelos avanços científicos e tecnológicos do período. Para entendermos a importância da ciência é necessário percebê-la em relação ao modo de vida burguês, envolvendo o discurso liberal de igualdade entre os homens e da livre competição, mesmo que, na prática, haja a exploração do trabalho, a manutenção da desigualdade de gênero e o domínio econômico e cultural sobre os países considerados “atrasados”, por meio do imperialismo.

A importância do imaginário social torna-se patente quando notamos que o desenvolvimento da biologia, relativamente menor que o das ciências físicas, não tenha uma correspondência significativa com o estudo físico e químico da natureza, mas por sua relação com a própria sociedade. Eric Hobsbawm (1977, p. 267) chama a atenção para a importância do conceito de evolução dentro das ciências naturais e para o papel que ocupou Charles Darwin (1809-1882) nesse momento. A publicação de A origem das espécies (1859) é um marco, pois a novidade da teoria de Darwin não está no conceito de evolução em si, uma vez que já era familiar, mas por explicar satisfatoriamente “a origem das décadas”, utilizando conceitos amplamente difundidos, como a idéia de competição, por exemplo. Com isso, percebemos como a ciência dialoga com seu contexto histórico e social mais amplo, pois é parte de um imaginário social, permeado por idéias e símbolos que muitas vezes determinam o próprio fazer científico.

Ainda de acordo com Eric Hobsbawm (1977), a teoria da evolução, através da seleção natural, transpôs os limites da biologia e apresentou a idéia de progresso, entendido como

“história” naquele contexto, acima de todas as ciências. Ademais, com a seleção natural pretendia-se explicar todos os seres, inclusive o homem. O autor assinala também os usos políticos da ciência, enfatizando a importância da conjuntura política e ideológica do momento em que as idéias são produzidas. Assim, o darwinismo foi amplamente aceito não tanto por seus méritos em convencer a comunidade científica, mas por ter divulgado suas idéias num momento em que se deu o rápido avanço da burguesia liberal, adepta do progresso, e sem revoluções, ou seja, um contexto de transformações e rupturas com a tradição, sobretudo religiosa, mas longe de levar a mudanças sociais efetivas.

Segundo Lilia M. Schwarcz (1993), o termo “raça” passa a ser usado em relação a grupos humanos a partir do início do século XIX, representando uma mudança na visão das diferenças entre os grupos humanos. Se antes, a literatura de cunho humanista falaria em estágios distintos de desenvolvimento, e nunca em diferenças raciais de origem, a ciência do século XIX, em franco desenvolvimento, irá naturalizar as diferenças, rompendo com as teorias do século XVIII sobre a igualdade essencial, opondo-se, assim, a uma idéia oriunda da Revolução Francesa, o ideal de cidadania. Com isso, a “raça”, o biológico serão postos acima do indivíduo. Nesse processo, segundo a autora, fica em causa o acirramento das discussões em torno da origem da humanidade. A visão monogenista, preponderante até meados do século XIX, afeita às escrituras bíblicas, defendia a idéia de uma origem única da humanidade. Contudo, nesse mesmo contexto, uma outra visão, pautada nas ciências biológicas e, principalmente, em oposição à Igreja, ganha força e postula a idéia não de um único, mas de vários focos de origem. Assim, a visão poligenista descreve a humanidade como fruto de diferenças raciais. “A versão poligenista permitiria, por outro lado, o fortalecimento de uma interpretação biológica na análise dos comportamentos humanos, que passam a ser crescentemente encarados como resultado imediato de leis biológicas e naturais.”(SCHWARCZ, 1993, p. 48).

Assim, as idéias de Darwin influenciaram uma disputa antiga sobre a origem da humanidade e foram utilizadas pelas duas principais correntes que marcaram o desenvolvimento das ciências humanas, sobretudo da antropologia. Na disputa entre monogenistas e poligenistas, os postulados de Charles Darwin a respeito da evolução das espécies foram utilizados de maneira original pelas duas vertentes. Os primeiros puderam continuar afirmando a origem única da humanidade, pautando-se no pressuposto evolutivo, que hierarquizava raças e povos, vistos não como raças distintas, mas apenas em estágios de desenvolvimento diferenciados. Já os poligenistas, embora admitissem a origem comum da humanidade, afirmavam que esta havia se separado há tempo bastante para formar raças

diferentes, com heranças e aptidões diversas. Por conseguinte, conforme Lilia M. Schwarcz (1993, p. 55), “A novidade estava, dessa forma, não só no fato de as duas interpretações assumirem o modelo evolucionista como em atribuírem ao conceito de raça uma conotação bastante original, que escapa da biologia para adentrar questões de cunho político e cultural”.

O evolucionismo preconizava a “unidade original da espécie humana”, considerando que as raças estavam em estágios diferentes de desenvolvimento. Portanto, a idéia central estava no progresso evolutivo que, tendo em vista o método comparativo, avaliava os estágios em que os diferentes povos estavam em relação ao modelo de sociedade ideal, a ocidental. Assim, “Pela ‘lei da repetição abreviada da história’, todos os povos passariam pelos mesmos estádios evolutivos, o que obrigaria as ex-colônias a reproduzir a evolução das metrópoles, sem qualquer possibilidade de autonomia e originalidade.” (VENTURA, 1991, p. 51).

Por outro lado, o darwinismo social, desdobramento da corrente poligenista, não acreditava na unidade dos seres humanos98, mas acabou por adaptar as idéias de Darwin, que postulava o processo de evolução da humanidade a partir de uma única espécie. Com isso, para os darwinistas sociais, as raças haviam sido inexoravelmente separadas por conta do processo de evolução, resultado da “sobrevivência do mais apto” e, portanto, as raças “inferiores” estariam predestinadas ao desaparecimento, sendo que o cruzamento era visto como algo pernicioso, levando à degeneração tanto racial quanto social (SKIDMORE, 1976, p. 68).

Portanto, a idéia de hierarquia das raças era uma concepção conveniente naquele contexto, tanto para explicar e justificar diferenças internas, como a que existia entre ricos e pobres; homens e mulheres, bem como externas, pelo “atraso” tecnológico, científico etc. dos povos considerados “inferiores”, justificando a política do imperialismo e o domínio ocidental (HOBSBAWM, 1977).

De acordo com Nancy Stepan (1994, p. 90), as analogias dentro da ciência não são neutras. Ao relacionarem diferenças de raça, classe e gênero, as analogias têm conseqüências sociais e políticas para a manutenção da ordem social e fizeram sentido no contexto em que foram produzidas por terem tido um ambiente propício para aceitá-las. Assim, a autora mostra como os cientistas do século XIX representavam as “raças inferiores” como o feminino das espécies humanas e as mulheres como a “raça inferior” do gênero. Classificando os povos

98

Interessante notar que as idéias de Darwin puderam ser utilizadas também pelos poligenistas com a condição de modificá-las. Assim, percebemos que as “descobertas” científicas são adaptadas à realidade social também onde são produzidas, o que torna mais evidente a questão dos usos políticos dessas idéias, pois não só em contextos completamente diferentes, como o brasileiro, os intelectuais são obrigados a fazer malabarismos complicados para poder utilizá-las, mas mesmo no locus privilegiado em que são produzidas, as adaptações são necessárias.

com base nas medições cerebrais, levando em conta tamanho e peso, associavam o cérebro dos homens das “raças inferiores” ao das mulheres das “raças superiores”. No entanto, essas analogias eram utilizadas também para compreender as desigualdades internas representando os trabalhadores pobres como os “selvagens” da Europa e o criminoso como um “negro”. Nesse sentido, fica patente a relação entre o imaginário social e a ciência, pois por mais isenta que esta pretenda parecer, as analogias são provas de que a ciência faz parte de um ambiente político e social do qual retira significados. Portanto, a autora ressalta que a crítica da metáfora dentro das ciências não deve estar empenhada em mostrar os “equívocos” destas analogias, mas em compreendê-las, tendo como base o contexto em que foram concebidas, especialmente por serem extremamente poderosas, pois são acionadas por um discurso que se quer verdadeiro e neutro. É nesse sentido que podemos pensar a ciência como um importante meio de justificar desigualdades sociais, justamente porque naturaliza a dominação.

Esse breve panorama da ciência no século XIX, que influenciou de forma direta não só o pensamento social brasileiro, mas também nossa literatura, faz-se necessário para entendermos – não apenas pela situação de país “atrasado” economicamente, mas por ser considerada uma nação degenerada devido à mestiçagem e ao clima tropical – como nossas elites importaram as ciências européias e as adaptaram à realidade local, levantando questões outras e usos diversos que, para além da originalidade dessa adequação, representam interesses políticos específicos e com conseqüências duradouras .