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Chomsky, de forma a dar conta das relações referenciais que se estabelecem entre constituintes nominais em domínios sintáticos, propõe a existência de três princípios que captem o comportamento de anáforas, pronominais e expressões referenciais.

De acordo com o autor, anáforas são NPs que não têm capacidade de referência inerente (“inherent reference”, Chomsky 1981: 188), e, por isso, devem ser ligados; os pronominais são nominais que podem ter referência dependente ou independente e dividem-se entre aqueles que são realizados foneticamente e aqueles que não o são22. Os pronominais realizados ocorrem de forma livre onde as anáforas seriam ligadas; e, as expressões-R, que são constituídas por elementos nominais devem ser sempre livres.

22 PRO, em Chomsky (1981, 1982, 1986) é caracterizado como simultaneamente pronominal e anáfora, e

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Na sequência da caracterização das categorias nominais, considerando os três tipos de elementos referidos e a noção de categoria regente, Chomsky propõe um princípio para cada categoria:

(71) Binding Theory

(A) An anaphor is bound in its governing category. (B) A pronominal is free in its governing category. (C) An R-expression is free.

Chomsky (1981: 188)

Recorrendo ao conceito de regência, Chomsky (1981: 187) refere que a teoria da ligação será desenvolvida tendo em conta a noção de “categoria regente”:

(72) β is a governing category for α if and only if β is the minimal category containing α, a governor of α, and a SUBJECT23 accessible to α.

Chomsky (1981: 220)

De acordo com Chomsky (1981: 52), os elementos regentes (governors) são núcleos do tipo X0 no sistema da Teoria X-barra: “[…] the only governors are categories

of the form X0, in the X-bar system (where X = [±N, ±V])”.

Associados a estes constituintes, e às relações que se estabelecem entre eles, estão os conceitos de ligação e c-comando. Assume-se que ligação implica coindexação, que marca partilha de referência e c-comando.

O conceito de c-comando, necessário para estabelecer ligações entre constituintes, apresenta-se, de seguida, tal como proposto por Reinhart (1976):

(73) A c-comanda B se: O primeiro nó ramificante que domina A ou domina B ou é dominado por um nó X2 que domina B e X2 é do mesmo tipo de categoria de X1.

Tendo em conta os conceitos apresentados e também o que é estipulado pelo princípio A, referente às anáforas, assume-se que estas, por não terem autonomia

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referencial, terão sempre de ser ligadas por outro constituinte na sua categoria regente para que se estabeleça a sua referência.

(74) A Mariai levanta-sei muito cedo.

No exemplo (74), acima apresentado, o pronome reflexo –se estabelece a sua referência, ao estar ligado ao constituinte [A Maria]. Desta forma, por o constituinte [A Maria] e o pronome reflexo possuírem a mesma referência, estabelece-se entre ambos uma relação de correferência.

Em relação aos elementos pronominais realizados, Chomsky assume que apresentam um comportamento em espelho, face às anáforas; assim, em contextos em que uma anáfora é ligada, um pronominal será livre. O autor considera, por isso, que anáforas e pronominais estão em distribuição complementar (Chomsky 1981: 190)24. Tendo por base esta propriedade, o autor refere que os pronominais podem ter uma leitura de disjunção, ou, se numa frase o sujeito é omitido, a leitura preferencial é de correferência. Vejam-se os seguintes exemplos:

(75) a. A Maria estuda língua portuguesa quando ela ouve música. b. A Maria estuda língua portuguesa quando [-] ouve música.

Diferentemente das anáforas e dos pronominais, que de acordo com Chomsky se encontram em distribuição complementar, as expressões referenciais (expressões-R, doravante) apresentam um comportamento distinto. O autor considera que as expressões- R não podem ser ligadas e, por esse motivo, estabelece o princípio C, segundo o qual constituintes deste tipo devem ser livres (i.e., não ligados).

(76) a. A Mariai penteia-sei.

b. A Mariai diz que elai/j só ouve música portuguesa.

(77) a. #A Mariai penteia a Mariai.

b. *A Mariai diz que a Mariai/j só ouve música portuguesa.

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A leitura de correferência em (76) é possível, porém em (77), de acordo com Chomsky, é impossível, uma vez que estes constituintes não podem ser ligados25.

Os princípios formalizados nesta teoria foram alargados a outros constituintes sem realização lexical, permitindo, dessa forma, dar conta do comportamento referencial de categorias vazias, tais como pro, PRO, vestígios de movimento-A ou vestígios de movimento-A’.

Chomsky propõe que as categorias nominais realizadas e nulas sejam caracterizadas pelos traços [± anafórico], [± pronominal]: as anáforas seriam [+ anafóricas, - pronominais], os pronominais [- anafóricos, + pronominais] e as expressões- R [- anafóricas, - pronominais] (cf. Chomsky 1982).

Black (1999), assumindo esta mesma perspetiva, apresenta um quadro que pretende resumir as propriedades e os traços de cada categoria:

Features Binding Principle Overt Nominals Empty Categories

[-pro/+ana] A e.g. himself trace of A-

movement

[+pro/-ana] B e.g. him pro

[-pro/-ana] C e.g. John trace of Ā-

movement

[+pro/+ana] A and B PRO

Black (1999: 45)

No que diz respeito aos pronominais não realizados, pro e PRO, pro é tratado por Chomsky (1982) como um pronominal, sendo, por isso, o seu comportamento referencial justificado em termos do Princípio B da Teoria da Ligação. Desta forma, pro pode ter, ou não, um antecedente no seu domínio local e, de acordo com vários autores, a alternância entre o pronominal realizado e omitido é possível sem que haja alteração no significado da frase:

(78) a. O João lê uma revista quando ele ouve música. b. O João lê uma revista quando pro ouve música.

25 Porém, a estrutura (77) não é assinalada como agramatical por alguns autores, visto que um contexto

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Chomsky, contudo, assume que casos como (78) devem ser tratados recorrendo a um outro princípio, no caso, de economia, o Princípio Evitar Pronome. De acordo com este princípio, no exemplo acima apresentado em que o pronome está realizado no segundo termo coordenado, a leitura preferencial deve ser de disjunção, uma vez que a omissão do pronome deve ocorrer apenas em casos em que se pretende induzir correferência.

PRO, uma vez que contraditoriamente obedeceria simultaneamente aos princípios A e B, não está sujeito à Teoria da Ligação. O comportamento é, de acordo com Chomsky, captado pela Teoria do Controlo, que será apresentada em 2.1.2.1..