5. RESULTS & DISCUSSION
5.1 HOS-NWT O UTPUT
VOLTA AO CAMPO
"O que há de grande, no homem, é ser ponte, e não meta: o que pode amar-se, no homem, é ser uma transição e um
ocaso" (Nietzsche, 2000, p. 38).
Esta afirmação nietzscheniana traduz de maneira precisa o que gostaríamos de partilhar: o espírito de ser uma ponte para os movimentos, para as paisagens e as afetações que encontramos diante do percurso desse estudo. Procurando deixar que o acaso também estivesse presente no ofício de pesquisar, no modo como compomos nossas estratégias metodológicas, no modo como utilizamos as ferramentas e inventamos outras durante a pesquisa.
Para tanto, diante das questões levantadas na sessão anterior, buscando compreender os processos de trabalho, isto é, os modos de operar no cotidiano de uma equipe de saúde da família com os usuários portadores de transtornos mentais percebemos que seria necessário uma estratégia metodológica que nos deixasse livre para acompanhar os fluxos de intensidades que estavam por vir. Sendo assim, elegemos trabalhar com a cartografia por nos possibilitar adentrar no mundo dos processos de produção de subjetivação e nos possibilitar sermos mais criativo na produção de conhecimento.
Em linhas gerais, o método cartográfico foi “criado” para ser utilizado em pesquisas de campo, no estudo da produção de subjetividade. Um método idealizado por Deleuze e Guattari (1995a), tendo por objetivo acompanhar um processo, e não representar um objeto. Trata-se de investigar um processo de produção. Particularmente
em nosso estudo, o método cartográfico possibilita-nos mergulhar nas intensidades dos afetos e das relações de poderes e saberes, que circundam os processos de trabalho em saúde e ainda permite, enquanto pesquisador, inserir-me e me comprometer com o objeto de estudo e seu território. Portanto, a missão do cartógrafo é:
Dar língua para afetos que pedem passagem, dele se espera basicamente que esteja mergulhado nas intensidades de seu tempo e que, atento às linguagens que encontra, devora as que lhe parecem elementos possíveis para a composição das cartografias que se fazem necessárias (Rolnik, 1989, p. 16).
Nosso território de pesquisa, por sua vez, compõe-se no estado nordestino, Piauí, mais precisamente na zona urbana da capital, Teresina. Contudo, peço licença a você leitor para contextualizar o município de Teresina, com o objetivo deixar mais claro onde está situado nosso território em estudo.
Teresina é a única capital nordestina que não se localiza no litoral, tendo um clima com temperaturas bastante elevadas. O município faz fronteira com Timon, uma cidade do estado do Maranhão, sendo divididos apenas, pelo maior rio propriamente nordestino, o Rio Parnaíba. Juntos, estes dois municípios somam cerca de 1 milhão e 40 mil habitantes.
Especificamente, o município teresinense localiza-se na mesorregião do centro- norte piauiense, composto por uma população com 878.314 mil habitantes, numa dimensão territorial de 1.680 km² (IBGE, 2007).
No que se refere à economia, o setor terciário, especificamente o setor da saúde privada, apresenta um relevante destaque na economia do estado, devido à grande circulação de pessoas das cidades e estados vizinhos, como Ceará, Maranhão, Pára e Tocantins gerando cerca quinze mil empregos diretos em Teresina.
Com relação aos estabelecimentos de saúde, Teresina apresenta: Tabela 01
Estabelecimentos de saúde em Teresina.
Tipo de estabelecimento N % Estabelecimentos de Saúde públicos 85 30,9 Estabelecimentos de Saúde público Federal
2 0,7
Estabelecimentos de Saúde público estadual
2 0,7 Estabelecimentos de Saúde públicos municipal 81 29,4 Estabelecimentos de Saúde privado. 190 69,0 Total 275 100
Fonte: IBGE, Assistência Médica Sanitária 2005.
No tocante às condições de moradia/habitação e saneamento básico, o município apresentou uma reforma e ampliação no sistema de saneamento básico, o “Projeto Sanear”. De acordo com o Censo de Vilas e Favelas de Teresina (Santana, 2001), realizado no ano de 1999, indicou que o município possui 117 vilas, 24 favelas e nove parques e residenciais, onde moram 38.852 famílias com uma população de 133.857 habitantes, ocupando 37.820 domicílios. Salientamos que não apresentamos dados mais atuais, porque não foi realizado um novo censo de vilas e favelas no município.
No que se refere ao cuidado em saúde mental, Passamani (2005), médico- psiquiatra, ressalta que, “(...) apesar de várias ações e dos fatos ocorridos durante as últimas três décadas, a qualidade do atendimento na saúde mental pouco melhorou no Piauí (p. 09)”. O autor ainda salienta que a Lei nº. 10.216, sancionada em 06 de abril de 2001, provocou em vários estados da federação a antecipação e aprovação de leis que
tratam da assistência psiquiátrica, referida como Leis da Reforma Psiquiátrica. No entanto, no Piauí, o projeto de lei que versa sobre o tema, desde 1997 ainda tramita na Assembléia Legislativa.
Dessa forma leitor, para entendermos o porquê desta situação da saúde mental em Teresina, convidamos você para uma breve viagem ao início do século XX, quando tem início a assistência psiquiátrica em Teresina. Pois, desde 1907, com a criação do Asilo de Alienados Areolino de Abreu, 55 anos após a criação do Hospício Pedro II no estado do Rio de Janeiro (primeira organização desta forma no Brasil), o estado tem suas ações centradas no modelo hospitalocêntrico. Através dessa análise histórica, buscaremos entender a atual relação dos gestores, técnicos e da própria cidade com a experiência da loucura, com o louco e como isso pode nos indicar limites e entraves para um efetivo trabalho com usuários PTM’s na atenção básica.