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Toda celebração litúrgica supõe a existência de ritos, que não são algo oposto à vida, como às vezes se pensa e se diz. A celebração do Ofício, portanto, também supõe ritos, pois, sendo uma ação litúrgica, tem um caráter comunitário e celebrativo, como já dissemos

49 Cf. Didaqué: Catecismo dos primeiros cristãos, 8. p. 31.

50 Cf. ODC p.14; VELOSO, Reginaldo. Ofício da Mãe do Senhor, p.20. 51 Cf. ODC p.14.

anteriormente. É importante recordar que, de um lado, os ritos estabelecem uma intercomunicação ou intercâmbio de comunhão entre os membros da assembléia ou comunidade e, de outro, possibilitam e refletem a comunicação e a comunhão entre Deus e seu povo.

A celebração do Ofício, cuja finalidade é o louvor de Deus, acontece no intercâmbio de comunhão entre irmãos e irmãs, através da Palavra e dos ritos, gestos e ações simbólicas. Ao percorrer o ODC, percebe-se a preocupação de que os ritos sejam autênticos, isto é, que correspondam à maneira de ser, à cultura da comunidade ou grupo que celebra – grupo numeroso ou pequena equipe; adultos ou jovens; homens ou mulheres; leigos, religiosos e religiosas ou clero... - e ao momento do dia, ao local da celebração, às circunstâncias da vida – dia ou noite; igreja, casa ou ao ar livre, momento de tristeza ou de alegria; festa ou cotidiano... Do contrário, tais ritos seriam puro automatismo, formalidade ou mais precisamente, um ritualismo. Não é, portanto, sem razão que os aspectos funcionais, estéticos e formais da ação

ritual, como o espaço, as cores, o visual, a gestualidade, que são suporte do rito, enquanto ação

simbólica, mereçam atenção e cuidado. Estes elementos são levados em consideração no ODC porque se tem em vista o envolvimento da pessoa em sua inteireza52, busca-se a harmonia, que é o fruto do trabalho do Espírito (o pneuma), entre o gesto externo (fazer), o sentido teológico (o pensar) e a atitude afetiva (sentir)53.

No ODC se estabelece nitidamente a distinção entre a oração diária e os ritos festivos. Na oração diária, supõe-se que os ritos sejam simples e claros, revestindo-se, deste modo, de autenticidade, e impregnando de novidade o que se repete cotidianamente. A repetição dos mesmos ritos, dos mesmos gestos, confere segurança às pessoas em cada momento da oração; tais ritos e gestos repetidos exigem atenção, exigem ser realizados de coração, o que evitará que se transformem em algo rotineiro, mecânico e sem vida. Na oração diária do ODC, a acolhida poderá ser mais simples ou mais desenvolvida e o espaço será organizado de maneira que ninguém se sinta discriminado; o círculo, por exemplo, é um bom modo de organizar o espaço, pois é sinal da comunhão realizada pelo Senhor na comunidade.

Na introdução ao ODC, encontram-se sugestões de ritos e gestos para a abertura, como o acendimento da vela, o sinal da cruz, ou o levantar as mãos, ou a inclinação... e um gesto afetuoso de olhar uns para os outros ou de saudação, no convite final da abertura (aleluia,

irmãs, aleluia, irmãos).

52 Cf. ODC p. 14 –15; SOUZA, Marcelo de Barros. Gestos e símbolos no Ofício Divino das Comunidades,Revista de Liturgia, São

Paulo, v. 16, n.93, mai./jun. 1989, p. 90-93.

É salientada a importância de todo o corpo na oração, levando-se em consideração o costume do lugar ou a cultura:54 as palavras são importantes na oração; mas, são elas,

juntamente com os gestos, os elementos que compõem os ritos. O equilíbrio interno e externo depende da integração do corpo na oração e da incorporação do gesto à liturgia55.

Encontramos, por fim, nos comentários do ODC ao “como rezar cada dia”, ou seja, à oração cotidiana, uma menção ao silêncio: na celebração do Ofício, é importante que se una à palavra e ao gesto ou à expressão corporal, o silêncio56, que é “um espaço espiritual para a interiorização e a contemplação e para a oração pessoal que vai integrar-se na oração litúrgica e eclesial” 57.

No ODC, são propostos os ritos festivos para as vigílias dos domingos e festas. Com certeza, existe um forte contraste entre a festa e a vida de cada dia, e isto deve ser percebido na celebração litúrgica. “A festa tem sempre um motivo e é ele que dá lugar à celebração” 58. E há maior motivo para se festejar e celebrar do que a certeza da presença do

Senhor Ressuscitado no meio dos seus? E esta presença do Senhor entre os seus é mais sentida na vigília dos domingos e festas, de modo especial no Natal e na Páscoa, quando há ainda mais razão para uma maior festividade da celebração.

Na celebração das vigílias dos domingos e festas, proposta pelo ODC, sugere-se que haja um candelabro próprio para o círio pascal no qual toda a comunidade acende as suas velas para a proclamação do Evangelho. Há o louvor da luz e do incenso ou ervas cheirosas, integrando tradições bíblicas e costumes afro-brasileiros e indígenas. Pode haver também o abraço da paz e, no final da vigília, segundo um antigo costume, algumas comunidades cantam o Salve Rainha ou outro canto mariano 59.

Vimos como a celebração comunitária do ODC supõe ritos, gestos e ações

simbólicas. A seguir, veremos a Música, que é um dos elementos que mais favorecem a participação da assembléia na celebração.

54 Cf. ODC p.15-16.

55 Cf. MARTÍN, Julián López. No espírito e na verdade: introdução antropológica à Liturgia, p. 198-199. 56 Cf. ODC p.17.

57 MARTÍN, Julián López. No espírito e na verdade: introdução antropológica à Liturgia, p. 113. 58 Ibid. p.228.