• No results found

Hope som predikant, en innledende analyse av Mot Maalet

In document Master_Frafjord_v11.pdf (644.5Kb) (sider 35-45)

Após termos percorrido alguns textos de Freud sobre a transferência, adentraremos agora na leitura de outros autores sobre este fenômeno. Com um foco sintético, é Maurano quem oferece a descrição mais abrangente. Diz a autora:

O fenômeno da transferência é a chave da invenção desse novo método de tratamento. A Überträgung, termo alemão que além de transferência significa também transmissão, contágio, tradução, versão, e até audição, ganhará, enquanto conceito psicanalítico, o sentido de estabelecimento de um laço afetivo intenso, que se instaura de forma quase automática e independente da realidade, na relação com o médico, revelando o pivô em torno do qual gira a organização subjetiva do paciente (2006, pp. 15-16).

Pouco depois, anunciará sua relevância decisiva no tratamento analítico:

A transferência ganha tal importância que será condição preliminar para o estabelecimento do tratamento psicanalítico. Se, por alguma razão, ela não se estabelece, se o paciente não é capaz de fazer um investimento no analista, sustentado sobretudo em supor-lhe um saber, e viver os efeitos disso, também em sua dimensão afetiva, a utilização desse método fica inviabilizada (pp. 16-17)

Diríamos que este é o cenário ideal, talvez um guia norteador do campo que qualquer tratamento analítico visaria. Não significa que haja um caminho natural, tampouco linear, que se apresente para qualquer atendimento, pois se trata sempre de um desafio a cada novo caso.

À medida que a transferência, a dinâmica pela qual um sujeito investe um objeto de amor, pode ser elaborada, reconhecida, o tratamento avançaria. Para que a lógica particular de enamoramento de um paciente possa ser vislumbrada, portanto, o fenômeno precisa ser fabricado em laboratório, e este laboratório é o próprio tratamento.

Passemos, pois, à leitura que Lacan faz deste fenômeno. O autor sublinhará uma das afirmações centrais de Freud a este respeito, a de que é a partir da transferência que o analista pode intervir na repetição e nas resistências. O analista deverá, através do manejo deste cruzamento, possibilitar que se revele ao paciente que o interlocutor ao qual este se dirige, é outro, que não o analista. Voltamos, aqui, a um texto seu já abordado neste trabalho, Para-além do ‘princípio de realidade’.

Prossigamos na decomposição da experiência. O ouvinte entra nela, portanto, na situação de interlocutor. Esse papel, o sujeito lhe solicita que o sustente (. . .). Silencioso, porém, e furtando-se até mesmo às reações de seu rosto, além de pouco discernido em sua pessoa, o psicanalista recusa-se pacientemente a isso. Não haverá um limite em que essa atitude deva fazer cessar o monólogo? Se o sujeito prossegue nele, é em virtude da lei da experiência; mas, acaso continua ele a se dirigir ao ouvinte realmente presente, ou antes, agora, a algum outro, imaginário porém mais real: ao fantasma da lembrança, à testemunha da solidão, à estátua do dever, ao mensageiro do destino? (1936, p. 87). Podemos compartilhar o que entendemos desta leitura: o paciente se dirige ao analista transferindo a ele suas fantasias e suposições. O analista evita mostrar suas reações pessoais para que o sujeito siga revelando parte de sua dinâmica inconsciente e supondo um outro destinatário em seu lugar. Em algum momento do tratamento, e dependendo do tato do analista, o paciente deverá ir se apropriando do fato de que está se dirigindo não exatamente à pessoa do analista, mas a uma outra figura de sua fantasia, a tal “testemunha da solidão, mensageiro do destino”. Cabe ao analista não atrapalhar esta tendência. O que Lacan aponta com sua construção é um posicionamento tático com relação à ideia de transferência:

Essa imagem que o sujeito presentifica por sua conduta e que nela se reproduz sem cessar, ele a ignora, nos dois sentidos da palavra, ou seja: ignora aquilo que ele repete em sua conduta, quer o tome ou não por seu, ele não sabe que essa imagem o explica; e ignora que desconhece essa importância da imagem quando evoca a lembrança que ela representa.

Pois bem, enquanto o analista acaba de reconhecer essa imagem, o sujeito, pelo debate que conduz, acaba de lhe impor o papel dela. É dessa posição que o analista extrai o poder que irá dispor para sua ação sobre o sujeito (p. 88, grifo nosso)

Com isto, Lacan acompanha a mesma conclusão a que chegara Freud anos antes: o analista precisa intervir a partir da transferência, estando sua conduta subordinada à transferência. Dirá textualmente no seu Seminário 11 (1963-1964): “O analista deve esperar a transferência para começar a dar interpretação” (p. 130). Quanto ao manejo técnico desta situação, Lacan deixa pistas ao falar sobre a operação do analista:

Ele [o analista] opera em dois registros, o da elucidação intelectual, pela interpretação, e o da manobra afetiva, pela transferência; mas fixar os tempos dela é uma questão de técnica, que as define em função das reações do sujeito; ajustar sua velocidade é uma questão de tato, pelo qual o analista é alertado sobre o ritmo dessas reações (1936, p.88). Elucidação intelectual, por um lado, manobra afetiva, por outro! O analista é alertado, tal como disse Freud anos antes, ao afirmar que terá indícios mínimos para trabalhar a transferência. Campo do obscuro e do enigmático, já que o paciente transfere algo que está para além de suas palavras, para além de sua consciência e para além de sua disposição em saber disso. O analista deve poder escutar este papel para o qual é convidado a ocupar, e tal escuta se realiza de forma invisível. Curiosa prática!

Dirá Lacan: “o que é, então, interpretar a transferência? Nada além de preencher com um engodo o vazio desse ponto morto. Mas esse engodo é útil, pois, mesmo enganador, reativa o processo” (1951, p. 225). E de que engodo se trata? Do fato de que o analista sabe que o papel que o paciente lhe oferece a ocupar é um dos objetos sexuais de sua história íntima, mas que só poderá se fazer revelar aos poucos, com a disposição de escuta do próprio paciente.

“A transferência tem sempre o mesmo sentido, de indicar os momentos de errância e também de orientação do analista, o mesmo valor de nos convocar à ordem de nosso papel: um não-agir positivo, com vistas à ortodramatização da subjetividade do paciente” (p. 225). Ou seja, a resposta do analista está remetida à finalidade central de abrir o inconsciente. Não importa tanto o que necessariamente o analista diga, desde que esta fala esteja alinhada com algo que permita ao paciente seguir em continuidade à sua lógica transferencial. Não escutar a transferência traz o ônus de acirrar as resistências e de afastar- se das possibilidades do que o saber inconsciente tem a dizer. Uma leitura equivocada da transferência ou fixada a um ponto-cego transferencial do próprio analista (que pode também ser chamado de contratransferência), pode vir a fechar tal possibilidade de avanço.

Em A direção do tratamento e os princípios de seu poder (1958), Lacan afirmará: “é como proveniente do Outro da transferência que a fala do analista continua a ser ouvida” (p. 597). Este Outro, referência para a qual faltam palavras ao sujeito, ele transferirá as pistas sobre sua localização: “É, pois, pelo que o sujeito imputa ao analista ser (ser que está alhures) que é possível uma interpretação voltar ao lugar de onde pode ter peso na distribuição de respostas” (p. 597). Estas afirmações estão intimamente ligadas à noção de influência e carisma, abordados através de Freud.

Lacan dirá ainda que “para confirmar a pertinência de uma interpretação, o que importa não é a convicção que ela acarreta, já que melhor se reconhecerá seu critério no material que vier a surgir depois dela” (p. 601). A intervenção que recortamos em nosso caso clínico dialoga com este trecho. A pertinência ou acerto de uma interpretação não se justifica à priori, mas a partir dos efeitos que é capaz de produzir na cadeia associativa do paciente, pelo que o paciente dirá que fez a partir dela, ou do lugar de onde ele escutou a fala do analista. Não sabemos dizer o que Beatriz pensou da fala do clínico ou o que precisamente a levou a se implicar em algumas questões, mas recortamos a fala que nos veio à mente como emblemática de um momento de impasse anterior a esta mudança.

Este saber sobre a transferência, Lacan o denominará Sujeito Suposto Saber, que está atrelado à instância do Outro da transferência. Até o final de sua obra, tal leitura da transferência permaneceu balizada por tais orientações, ratificando as impressões que Freud apontou desde o caso Dora:

O sujeito suposto saber, com o qual defini a transferência é suposto saber o que? Como operar? Seria demasiado excessivo dizer que o analista sabe como operar. O que se esperaria é que ele saiba operar convenientemente, isto é, que se dê conta do alcance das palavras para seu analisante, o que incontestavelmente ele ignora (1977-1978, p.1).

Sob tal perspectiva, o analista não sabe como operar, isto é, não tem como saber, à priori, o lugar que lhe será imputado na transferência. Suas falas em sessão teriam valor de sondagem, de investigação das pistas sobre os efeitos que produzem no paciente. O analista trabalha a partir de um estado de ignorância sobre o caminho que ativa ou cativa as associações do paciente. Sua bússola é a capacidade de ler a abertura do inconsciente.

O analista deve, então, dar-se conta do alcance de suas palavras para seu paciente e, a partir da assimilação deste poder de influência, calcular, avaliar o melhor momento para oferecer suas colocações. Do contrário, se um analista ousar falar a partir de um lugar o qual o paciente não lhe outorgou, o rumo associativo se afastaria deste núcleo, do bojo desde onde o paciente traz pistas de forma truncada.

“A transferência (. . .) torna-se a segurança do analista (. . .). A interpretação, adiada até a consolidação da transferência, fica desde então subordinada à redução desta”, diz Lacan (1958, p. 602), situando que a interpretação depende de algo do qual o analista deve estar prevenido. E qual a posição que o analista ocupa até que a transferência se consolide? Ou seja, que pode um analista fazer para contribuir para que a transferência se instale dentro da análise? É justamente este o campo que investigaremos a seguir.

Parece legítimo afirmar que Beatriz, de alguma forma, tivesse acesso a um saber desta ordem, sobre este jogo transferencial. Sustentamos duas hipóteses a este respeito: (i) ao não revelar ao clínico as reações que vivia no espaço analítico, evitava que ele pudesse ter maior domínio ou poder de influência; (ii) ao sonegar ao clínico tais pistas, não seria abusivo supor que ela possa ter percebido que tal comportamento causasse efeitos nele, podendo esta descoberta ter lhe servido como gozo suplementar.

In document Master_Frafjord_v11.pdf (644.5Kb) (sider 35-45)