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Ao considerarmos a intertextualidade como um grande e sucessivo diálogo entre obras literárias, julgamos importante uma reflexão, mesmo que breve, sobre o leitor como um dos pilares da comunicação literária, visto que nossa proposta é investigar de que forma a literatura provoca a reflexão e estimula a criação na obra de Renato Russo que usa a intertextualidade como um dos procedimentos constitutivos em seu processo de criação.

“O objeto literário – escrevia Sartre – é um estranho pião que só existe em movimento. Para fazê-lo surgir é preciso um ato concreto que se chama leitura e ele só dura enquanto essa leitura puder durar” (COMPAGNON, 2010, p.145-146). Logo, a obra não estará completa se não atingir o público; o literário não se concretizará sem o leitor.

Em O tempo redescoberto, Proust argumenta em favor da leitura, dando um lugar especial ao leitor, conforme aponta Compagnon (2010, p.141)

Aquilo de que nos lembramos, aquilo que marcou nossas leituras da infância, dizia Proust, afastando-se do moralismo ruskiano, não é o próprio livro, mas o cenário no qual nós o lemos, as impressões que acompanharam nossa leitura. A leitura tem a ver com empatia, projeção, identificação. Ela maltrata, obrigatoriamente o livro, adapta- o às preocupações do leitor. Como Proust repetirá em O tempo

redescoberto, o leitor aplica o que ele lê à sua própria situação, por

exemplo, a seus amores, e ‘o escritor não deve se ofender se o travesti der às suas heroínas um rosto masculino’.

Para Proust, o livro torna-se uma espécie de instrumento de ótica oferecido ao leitor, permitindo-lhe ver coisas em si mesmo que talvez sem o livro, o leitor não conseguisse. “Na realidade, cada leitor é, quando lê, o próprio leitor de si mesmo.” Dessa forma, é restrito o controle exercido por autor e livro sobre o leitor. Ainda sob a tese proustiana, o leitor é livre, independente e seu objetivo, compreender a si mesmo através do livro, é condição sine qua non para a compreensão do próprio livro.

A Estética da Recepção, identificada com a escola de Constance propõe abordagens teóricas que revalorizam a leitura, na esteira de Proust, ou seja, propõe a figura do leitor (e o ato da leitura) como elementos fundamentais para a caracterização do fato literário.

Para Iser, o texto só existe efetivamente no momento da leitura e os efeitos dessa leitura são cruciais para se pensar no sentido do texto. Ao analisar o processo de leitura em O leitor implícito e em O ato de leitura, Iser argumenta que é no processo de leitura que o texto representa um efeito potencial, baseado na interação do leitor. A obra literária apresenta dois pólos: o artístico e o estético. Aquele é o texto do autor, este a realização efetuada pelo leitor. No entanto, a obra literária não pode se reduzir apenas à realidade do texto nem mesmo à subjetividade do leitor; uma vez que o texto oferece diversos pontos de vista, o leitor relaciona a eles suas diferentes visões e esquemas. É exatamente nisto que se dá a realização dinâmica da obra, no movimento entre texto e leitor, ou seja, é por meio do diálogo que ocorre a comunicação entre o texto e o leitor. “O texto ficcional deve ser visto principalmente como comunicação, enquanto a leitura se apresenta em primeiro lugar como uma relação dialógica” (ISER, 1996, p. 123). Dessa forma, o sentido não está pré-definido no texto, mas será um efeito testado pelo leitor, a quem R. Barthes compara, em S/Z, a um detetive ou caçador que deve desvendar o texto, gerado como um programa – a que ele chama de código hermenêutico – ao qual o leitor é submetido. Sem essa investigação do leitor, o livro torna-se apático. (COMPAGNON, 2010).

Os estudos recentes da recepção interessam-se pelo modo como a obra afeta o leitor, que efeitos ela produz no leitor e qual é a resposta desse leitor, ao mesmo tempo passivo (apaixonado pelo livro) e ativo (uma vez que ler o livro implica uma ação). Os estudos da recepção remontam a Roman Ingarden, fundador da estética fenomenológica no entre guerras. Esse estudioso, “via no texto uma estrutura potencial concretizada pelo leitor, na leitura, um processo que põe o texto em relação com normas e valores extraliterários, por intermédio dos quais o leitor dá sentido à sua experiência do texto.” (COMPAGNON, 2010, p.146)

Encontra-se aí a noção de pré-compreensão como condição preliminar a toda compreensão. Não há leitura inocente, transparente, uma vez que o leitor vai para o texto com seus próprios valores, nas palavras de Iser, repertório, isto é, o conjunto de normas sociais, históricas, culturais trazidas pelo leitor como bagagem necessária à sua leitura. (COMPAGNON, 2010, p.150) Assim, a leitura caminha ao mesmo tempo para frente e para trás, pois as obras são vistas e revistas na relação com outras obras já lidas que obrigam o leitor a reformular suas expectativas e reinterpretar o que já leu.

Portanto, como vimos, o autor não é o dono do sentido do texto e o texto não diz tudo, logo, o leitor está sendo considerado peça fundamental no processo de leitura, instância responsável por atribuir sentido àquilo que lê.

Conforme aponta Sartre em O que é literatura? “a operação de escrever implica a de ler como seu correlativo dialético e estes dois atos conexos necessitam de dois agentes distintos” (COMPAGNON, 2010, p.143). Logo, todo autor é sempre um leitor que se apodera de textos para compor um novo texto formado por interrupções e desvios, derivado de movimentos de leitura, interpretação, e, portanto, fragmentação e deslocamento.

Não se trata, portanto, de uma recepção passiva do leitor-autor, uma vez que a obra literária não se apresenta como fato consumado, imóvel, mas como algo a ser completado, em movimento. No entanto, o que garante a unidade do texto re-construído pelo leitor-autor? Para Gregolin (2001, p.65), é: “Vestígio de uma presença e, simultaneamente, rasgo deliberado de uma ausência, o autor-leitor se movimenta nos vazios e nos preenchimentos de sentidos, na recuperação de traços discursivos que o precedem”.

Desta forma, podemos considerar a relação entre os textos responsável pela reprodução e/ou formação do sentido no processo de produção e recepção textual.

todo texto deve ‘dizer pela primeira vez aquilo que, entretanto, já havia sido dito e repetir incansavelmente aquilo que, no entanto, não havia jamais sido dito’. Essa máscara da repetição nos indica que ‘o novo não está no que é dito, mas no acontecimento de sua volta’. (FOUCAULT apud GREGOLIN, 2001, p.64).

Assim, entendemos que ao estudarmos a obra de Renato Russo, sob o recorte da intertextualidade, devemos considerar em nossas análises suas leituras, que o estimularam à criação de novos textos que agora nos convidam a outras leituras, provocando movimentos e recuperação de traços discursivos que os precederam.

6 DIÁLOGOS

Cabe aqui questionar se, quando se tem um novo texto, com o mesmo título, trata-se de intertextualidade explícita, garantida pelo título, embora sem a menção do autor. Nesse caso, o título garantirá o acessamento do intertexto, desde que esteja presente na memória discursiva (repertório) do interlocutor, o que nos leva a optar por considerá-lo como exemplo de intertextualidade explícita, quer em termos de captação, quer de subversão (KOCH et al, 2007, p.55).