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A própria ideia de transformação tecnológica só faz sentido se contextualizada dentro de uma lógica de mudança do perfil econômico do país e do mundo. Embora os cenários não possam ser dissociados, a análise no presente trabalho fará essa divisão,

para que se entenda não apenas de onde vem, mas como a transformação tecnológica do rádio reflete na construção histórica.

Antes do atual momento, o contexto onde o presente estudo se dá, com consumo de novas tecnologias, incertezas sobre emissores e receptores e dúvidas sobre o papel do jornalismo, as próprias inovações romperam paradigmas estabelecidos até então, pelo menos em alguns momentos.

Ferraretto (2012) defende, com amparo metodológico em Agnes Heller (1997, p. 130) que se pode propor pontos de ruptura para periodizar o rádio. Com essa proposta, passa-se a entender períodos distintos através da influência de tecnologias, que moldam a oferta de conteúdos e o próprio consumo deles. Ferraretto (2012) explica que são levados em conta a relação do rádio com outros tipos de mídia, os hábitos de consumo, os conteúdos que predominam em determinado período, a tecnologia, as estratégias das empresas e os movimentos sócio-políticos dentro do setor.

A partir dessa lógica, o autor entende que é importante analisar especialmente como ponto de partida a transição das rádios de associações para o rádio como empresa voltada ao lucro. Isso é feito sem desconsiderar o surgimento das emissoras brasileiras ou outros fatos adjacentes ao desenvolvimento do rádio comercial.

Importante constatar que, durante a década de 30, quando o Brasil começou a experimentar rádio como mídia popular e o desenvolvimento do que tornaria o rádio comercialmente vendável, o Brasil vivia o momento pós-crise de 29, que caracterizou para a nossa economia um momento de ruptura com o chamado modelo primário-exportador para um modelo de desenvolvimento do mercado interno. Foi o período de início, ainda que muito gradual, de desenvolvimento de uma indústria, com as cidades começando uma etapa de desenvolvimento o que aumentaria posteriormente o potencial para consumo de rádio. A oligarquia do café, grande detentora de poder até então, passa a perder referência.

Há, no entanto, uma diferença entre difusão e segmentação que merece ressalva dentro da ideia de divisão histórica. Citando Richers (1991), Ferraretto lembra que a difusão se dá como a ação de espalhar produtos sem a devida preocupação sobre as peculiaridades de cada consumidor, e são a difusão e comércio desses produtos que asseguram o sucesso de uma empresa. Por outro lado, a segmentação parte do pressuposto da demanda heterogênea, obrigando esforços em marketing para fatias

específicas de mercado.

O termo convergência, nessa análise, se dá na proximidade entre comunicação de massa, informática e telecomunicações. No caso do rádio, trata-se da disposição de conteúdo fora das ondas hertzianas (FERRARETTO, 2012). Essa convergência ocorre em diferentes eixos: tecnologia, empresas, profissões e conteúdos. De acordo com Brittos (1999 apud FERRARETTO, 2012), que se debruça na análise sobre o mercado de televisão, a multiplicidade de oferta é um ponto importante a ser abordado na análise histórica. Ferraretto (2012) lembra que Valério Brittos transpôs essa analogia posteriormente para o meio radiofônico. Entre os tópicos abordados estão a transformação de uma lógica de oferta para uma lógica de demanda (com a disponibilização de conteúdos customizáveis), a transição do modelo de comunicação ponto-massa para ponto-ponto (com o podcasting), as ações empresariais para oferecer conteúdo radiofônico em diferentes suportes (celulares, tablets) e a sinergia do rádio com outros meios de um mesmo grupo (TV e Rádio).

Com isso, o autor propõe a delimitação das fases de implantação, difusão, segmentação e convergência, tendo como marcos a introdução de novos meios, suportes e ou tecnologias de comunicação.

Tabela 1: Transição das estratégias na radiofonia Rádios como entidades associativas – Implantação

(primeiro corte) – regulamentação da publicidade Rádio como negócio – Difusão

(segundo corte) - televisão aberta, transistorização e frequência modulada Estratégia empresarial dominante Segmentação

(terceiro corte) - telefonia móvel, internet e tecnologias derivadas Estratégia empresarial dominante Convergência

Fonte: Ferraretto, 2012.

Com o desenvolvimento da tecnologia, iniciou-se a organização em sociedades e clubes dedicados à escuta e transmissão, que passaram a ganhar conotação educativo-

cultural dentro de uma ideia de associativismo elitista potencializado por entusiasmo tecnológico. Romperam com essa lógica, a Rádio Clube de Pernambuco e a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, organizada no ano de 1923 por Edgard Roquette Pinto.

A partir da introdução da televisão, e das consequentes transformações no acesso à informação, entretenimento e conteúdo, e, por conseguinte, da migração das verbas publicitárias, as emissoras de rádio passam a enfrentar uma crise identitária e estrutural. Iniciou-se, então, a se fazer questionamentos sobre o papel do veículo. Isso ocorreu porque a TV passou a reunir em sua programação os programas de auditório, humorísticos e novelas, antes inerentes à plataforma radiofônica. “A televisão, definitivamente, ocupou o primeiro plano entre os meios de comunicação levando consigo as verbas publicitárias, os profissionais e a audiência. No período noturno, ela passa a ser a grande estrela”. (ORTRIWANO, 1990, p. 82).

Esse cenário se dá em meio a industrialização efetiva do país, com os governos de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, que permitiram a abertura ao capital externo para investimento e construção de uma infraestrutura para vias, aeroportos e indústria de base, pilares para produção nacional. As bases para o capitalismo financeiro estavam constituídas. Com isso, a ascensão do protagonismo das cidades, o crescente acesso à tecnologia – incluindo ao próprio aparelho de televisão – conduziu uma ideia de progresso. Nesse contexto é que o rádio passa a desenvolver a figura do comunicador, estimulando a criação de uma relação de maior proximidade com o ouvinte, “em uma conversa constante – e imaginária – com a audiência, um bate-papo mais exclusivo ainda a partir da disseminação dos receptores transistorizados (FERRARETTO, 2012)”.

Com a perda de publicidade e público para a TV, o rádio passa, gradualmente e de forma quase orgânica, a apostar em jornalismo, comunicação direta, transmissão ao vivo. O autor chama atenção para um contexto posterior, já na ditadura militar, com a revogação do ato institucional número 5, permitindo a redemocratização como relevante para entender o nosso cenário onde o rádio está inserido. É aí que passa a se perceber uma estratégia econômica das emissoras: a segmentação. Sobressaem-se especialmente as rádios populares, as musicais, as jovens e as de radiojornalismo.

A segmentação se deu a partir da década de 70, que teve, entre outros contextos, a difusão em FM como alavanca. Já nas décadas de 90 em diante, tem-se a fase da convergência, que abarca uma série de transformações tecnológicas, econômicas e

técnicas na produção e difusão radiofônica. Além da própria segmentação, que aumenta, muda a perspectiva de abordagem, antes direcionada de forma única através da plataforma original do veículo (rádio, TV, jornal). Com esse novo paradigma, a ideia de rádio, ligada exclusivamente à transmissão de ondas sonoras passa por uma rápida alteração, como observa Cunha (2008, p. 2)

Oralidade permanece sempre sendo oralidade, mas existindo por intermédio de diversas formas de transmissão da palavra criadas pelo homem. Neste ponto, a oralidade começa a ser cruzada com as plataformas tecnológicas que lhe dão suporte para produção dos conteúdos radiofônicos. Permanecem, na essência, regras cuja origem vem de uma lógica milenar da narrativa, de uma forma simbólica que constitui as pessoas antes de seu nascimento, conforme pensa Barthes. … E, se essas regras integram a cultura, estruturam-se pela linguagem e pelas formas de narrar, definindo também os meios tecnológicos e seus conteúdos.

Essa nova configuração, onde a produção já não está exclusivamente atrelada à plataforma rádio hertziano também muda o papel dos profissionais à frente do veículo. Essa situação muda o paradigma, sobretudo do jornalismo. Nas décadas de 90 e 2000, no jornalismo, ganham força as rádios de rede (CBN, Bandeirantes, Jovem Pan) e já se começam a desenhar ensaios de funções “multiplataforma”, quando profissionais faziam coberturas únicas para diferentes mídias.

Dentro dessa lógica, a indústria da radiodifusão incorpora o regime de acumulação que caracteriza o sistema capitalista. Esse regime, lembra Ferraretto (2012) é compatível com a acumulação flexível, que está suportado na flexibilidade dos processos de trabalho, produtos e consumo, com novas maneiras de fornecer e criar serviços, mercados e inovação em diferentes frentes.

Com o veloz crescimento do acesso à internet e o desenvolvimento dos dispositivos móveis, a ideia de rádio se transformou também no aspecto econômico, já que além de ter que se integrar com as novas plataformas disponíveis para desenvolver sua função social, passou a competir com as mesmas – e outras – pela atenção do público e por uma reconfiguração do veículo enquanto emissor de informações e notícias. O mercado publicitário ganhou opções para alcançar os públicos, segmentando informações e compartimentando oferta de produtos e serviços. Embora muitas emissoras de rádio tradicionais já contem com anúncios em plataformas diferentes da emissão

sonora hertziana, como nos sites, essas não chegam sequer a um quarto do total existente no país10, segundo a associação do setor. Enquanto isso, a sustentabilidade econômica do rádio, antes ligada a mera venda de anúncios em formatos convencionais, como spots e jingles, se coloca em xeque dentro de uma conjuntura que está cada vez mais complexa.

A capacidade das empresas de comunicação de gerar lucros passa hoje, portanto, não apenas pelos milhares de ouvintes por minuto de uma emissora de rádio, mas também pela sua capacidade de geração de fluxos comunicacionais entre participantes de redes sociais. Esta reconfiguração se evidencia na esfera da indústria da radiodifusão com a emergência do podcasting, modalidade de rádio sob demanda, em que o internauta pode baixar os arquivos de áudio para seu computador e/ ou para seu tocador multimídia. (FERRARETTO; KISCHINHEVSKY; 2010, p. 172).

E é dentro desse cenário que se inserem as rádios on-line, que, como veremos aqui, ainda se apropriam de uma série de características do rádio tradicional embora se proponham, muitas vezes, como plataformas distintas. Se o próprio rádio hertziano encontra um momento de dificuldades para adequação, tanto às novas estratégias para alcançar e manter seus públicos quanto à lógica da publicidade como sustentáculo, o cenário para as rádios on-line parece requerer uma nova dinâmica, ainda em descoberta ou construção.

10 Disponível em: http://www.abert.org.br/web/index.php/notmenu/item/18480-radio-aposta-na- internet-e-na-convergencia-para-crescer. Acesso em: 12 dez. 2015.

3 O RADIOJORNALISMO NO BRASIL E NO MUNDO – TRANSFORMAÇÕES

As rotinas do jornalismo se transformam a partir das tecnologias de informação e comunicação, mas seguem com a proposta original. Cada suporte, meio, tecnologia afeta de alguma forma o cotidiano do jornalista e os caminhos que ele segue para chegar à informação, transformá-la em notícia e transmitir ao seu público.