No início do século XX, a literatura regionalista segue linha bastante semelhante àquela do século XIX, em que se sobressaía a admiração face à natureza bravia, a confrontação do homem com a força envolvente do meio físico, a pequenez humana diante das amplas dimensões telúricas. O programa de "independência literária" dos românticos encontrou continuidade na posição dos escritores surgidos na segunda década do século XX, isto é, a partir do romance Los de abajo (1916), de Mariano Azuela (1873-1952), que enfoca a Revolução Mexicana. Esses escritores adotaram também uma atitude essencialmente ética e se propuseram, como os românticos, a expressar a identidade latino-americana por meio do destaque dado ao cenário local e suas particularidades. A analogia termina aí, porque, obviamente, os tempos mudaram e as ideologias sofreram transformações. A maior parte dessa literatura foi decididamente política, denunciadora, reivindicatória. Para Rubén Bareiro
Saguier no artigo "Encontro de culturas" (1979), escritores como Rômulo Gallegos, Alcides Arguedas, José Eustasio Rivera e Mariano Azuela são nomes representativos desta fase. No entanto, mudara a situação histórica desde os tempos da geração romântica. Se se analisa a época em que surge a "geração dos problemas sociais" sob um enfoque socioeconômico, é possível comprovar que esta fase coincidiu com um momento agudo de percepção das desigualdades econômicas e das intervenções armadas na América Latina. Escreveu-se literatura antiimperialista para denunciar as invasões e as condições miseráveis em que viviam os explorados nas minas, nos bananais, nas jazidas petrolíferas, nas terras áridas.
Com exceção de poucos nomes, a procura da identidade da literatura latino- americana expressava-se pelo cultivo de um romance voltado às causas sociais. Pode-se afirmar que a composição literária, nesta época, pautou-se mais pelo critério da imitação que da recriação de situações, uma vez que o comprometimento com questões socioeconômicas levou ao estreitamento da área do exercício pessoal do autor. O compromisso com temas sociais fez com que a obra literária tivesse por referência outro conteúdo que não ela mesma. No caso, um conteúdo que a antecedia, a envolvia e a influenciava. O espaço interno-íntimo do mundo explorado no Romantismo foi substituído por um tipo de narrativa que lançou seu olhar para fora, de modo a tratar da matéria sociopolítica do mundo ao redor. Para o escritor interessado nas estruturas sociais, o mundo e o sentimento são domínios que podem ser descritos e definidos de maneira bastante precisa, podendo, em conseqüência, ser apreendidos satisfatoriamente pela objetividade. O desejo de enfocar as condições sociais problemáticas era perpassado por uma intenção ideológica que pressupunha a alteração de um estado econômico opressivo. Por isso, o mundo recriado pela obra deveria assemelhar-se o mais possível ao mundo da realidade exterior, o que fez com que a literatura dessa época se reduzisse à parcela que mais interessasse ao escritor, como aponta Bareiro Saguier: "Mas foi uma busca em certa medida falaz. Em si mesmo o critério de 'veracidade documental' adotado
representou um engano, porque apresentava uma superfície deformada pela intenção reducionista que cada autor aplicou" (1979, p. 22). Na visão de Bareiro Saguier, a busca de "veracidade documental" falhou porque não houve a neutralidade pretendida. A escolha desta ou daquela situação atendeu aos interesses do romancista e este procurava selecionar os temas de acordo com sua intenção política.
Esta literatura não pretendeu apenas "documentar" a situação de atraso social e pouco empenho político, mas levantar os problemas que desencadeavam o atraso econômico nas localidades regionais. Antonio Candido, no artigo "Literatura e subdesenvolvimento" (1979) situa em Alcides Arguedas e Mariano Azuela uma mudança de enfoque na expressão dos elementos autóctones da América Latina o que, segundo o crítico, caracteriza a fase de "pré- consciência" do subdesenvolvimento social dos países latino-americanos em relação aos países europeus. Esta fase pautou-se pela concepção da realidade regionalista como uma instância opressora e motivou o surgimento de textos marcados por certo tom documentário, cuja intenção era promover ações políticas em áreas de subdesenvolvimento econômico. Na visão de Candido, esta produção, entretanto, seguiu ainda certo "esquematismo humanitário" para compreender o homem e combinou traços da literatura de denúncia social da fase realista com a construção de cenários pitorescos. Para Candido, os escritores dessa época produziram um tipo de romance em que se percebe a exposição de técnicas arcaicas de lavoura, da miséria regional e do conseqüente destino opressor do homem. A degradação humana seria, então, o resultado de uma política social excludente. O romance desta fase antecederia a consciência do subdesenvolvimento veiculada pelos romances regionais a partir da década de quarenta.
Assim, a literatura com fundo regional no começo no século XX focalizou o espaço externo como o agente opressor do homem. Considerando tanto a intenção de veracidade quanto a proposta de expor o homem inserido num ambiente socioeconômico que o esmaga e do qual não pode fugir, pode-se afirmar que, para a construção dos cenários, os escritores
pretenderam maior objetividade, focalizando-os como meio em que o homem se move e que, em última instância, não participa ontologicamente para sua constituição. O homem é um ser inserido num ambiente que apenas pode manipular como um elemento sólido, ou seja, as coordenadas regionais compõem um cenário que existe independentemente da atuação humana sobre ele. Tem-se, portanto, uma concepção substantivista, na qual o palco do universo em que todos os fenômenos físicos acontecem é o espaço tridimensional da geometria clássica. Trata-se de um espaço absoluto, um recipiente vazio, que continua a existir independentemente dos fenômenos que nele ocorrem. Este espaço, que contraria a concepção leibniziana, é proposto por Isaac Newton (1642-1727), cujos seguidores promoveram consistente embate com Leibniz. Segundo Newton "o espaço absoluto, em sua própria natureza, sem relação com qualquer coisa externa, permanece sempre similar e imóvel" (1990, p. 7). Na visão de Newton há a existência de um espaço vazio que não poderá ser alterado porque não depende da existência de objetos e seres. Tal espaço é auto-suficiente, sem relação com as coisas exteriores.
A perspectiva cartesiana segundo a qual os fenômenos naturais podem ser entendidos por meio de um sistema de princípios separados de seu todo é perfeitamente mantida. A concepção de Leibniz de que a interação entre os seres é responsável pela existência e alteração do espaço é substituída pela concepção de espaço como elemento estático, formado por objetos que de modo algum se alteram, pois, para Newton, "todas as coisas materiais parecem ter sido compostas das partículas duras e sólidas, variadamente associadas na primeira criação pelo conselho de um agente inteligente. Pois convinha Àquele que as criou colocá-las em ordem" (1990, p. 21). O espaço não é a ordem dos elementos, mas um campo inalterável que contém os corpos. O homem é concebido como elemento inserido no universo ao estabelecer com ele uma relação objetiva e substantiva. Neste sentido, o homem é parte componente do espaço como o é uma cadeira. A saída de um ou de outro elemento em nada
modificaria a existência do espaço absoluto. À retirada dos dois elementos seguir-se-ia a existência do "espaço vazio". Se o espaço fosse apenas uma "ordem de coexistências" e não uma "propriedade" dos objetos, Deus poderia remover e alterar todas as coisas, mas, ainda assim, necessitaria de um lugar imóvel para promover a alteração, por isso, a formulação de Leibniz não é aceita por Samuel Clarke (1675-1729), principal defensor da idéias de Newton, como se constata na passagem seguinte:
Se o espaço fosse a ordem das coisas que coexistem, seguir-se-ia que, se Deus fizesse o mundo inteiro mover-se em linha reta, com qualquer grau de velocidade, este não deixaria de estar sempre no mesmo lugar, e que nada sofreria algum choque, ainda que esse movimento fosse sustado de repente. (1983, p. 180).
Para Clarke, o espaço não exclui a possibilidade de movimentação dos seres, mas não pode ser pensado apenas como uma ordem de coexistências, pois para "conter" o movimento e a alteração é necessária uma propriedade que subsista aos seres. Nessa linha de pensamento, Clarke declara que "o espaço não é uma substância, mas um atributo; e, se é um atributo de um ser necessário, deve (como todos os outros atributos de um ser necessário) existir mais necessariamente que as próprias substâncias, que não são necessárias" (1983, p. 189). A dificuldade de imaginação de um espaço que não seja substantivo foi duramente criticado por Leibniz que, em relação ao espaço newtoniano declarou: "Eis porque houve os que acreditaram ser ele o próprio Deus" (1983, p. 177). De fato, um atributo não-substantivo que não pudesse ser destruído ainda que todas as coisas fossem aniquiladas faz pensar na onipotência divina. Clarke contesta o pensamento leibniziano de que a necessidade de alteração e movimentação dos corpos seria um fenômeno necessário para a manifestação da bondade de Deus. Para ele, um estado de coisas estável pode ser, ele mesmo, a determinação de Deus, conforme se pode depreender do excerto seguinte:
Suponho que a quantidade determinada de matéria que existe atualmente no mundo é a mais conveniente ao estado presente das coisas, e que uma quantidade maior (bem como uma menor) teria sido menos conveniente ao
estado atual do mundo, e, por conseguinte, não teria sido um maior objeto da bondade de Deus. (CLARKE, 1983, p. 181).
O pensador refuta a afirmação de Leibniz ao alegar que a bondade divina se manifesta justamente na quantidade de matéria que se apresenta. Portanto, o fato de Deus não poder alterar um espaço absoluto não seria limitação para o Seu poder. O movimento entre as coisas, que é a base do pensamento de Leibniz, é substituído pela estaticidade. Para Clarke, a concepção estática da natureza está intimamente relacionada com um rigoroso determinismo, em que a gigantesca máquina cósmica é completamente causal e determinada. Tudo o que aconteceu teria tido uma causa definida e o futuro de qualquer parte do sistema podia ser previsto com absoluta certeza, desde que seu estado, em qualquer momento dado, fosse conhecido em todos os seus detalhes. Acreditava-se que o mundo era um sistema suscetível de ser descrito objetivamente, sem menção alguma ao observador humano.
A literatura regionalista do começo do século XX colocou o homem ao lado das coisas exteriores, encerrado e envolto num mundo sensível, mundo fundado não mais na interioridade humana, mas na auto-suficiência da coisa "em-si". Los de abajo, de Mariano Azuela, é uma narrativa que ilustra a concepção objetiva do espaço e que expõe a confrontação do homem com a força envolvente do meio físico. A escolha pela obra se explica com base na gênese criadora do escritor que, na opinião de Bella Jozef "colocou-se diante das convulsões de sua terra como ante um fenômeno revelador da essência e da vivência de um povo" (1986, p. 37). Nesta obra, os cenários naturais não permitem o mesmo tipo de interação entre homem e paisagem, ou seja, o espaço não é criado por meio da relação entre os estados emocionais do homem e os seres naturais. As "convulsões" da terra, de que fala Jozef, referem-se ao ambiente regional hostil enfocado nos romances de Azuela desde o período anterior à Revolução Mexicana.
Em Los de abajo, o cenário pré-existe ao homem e, com ou sem ele, não é afetado em sua natureza constitutiva. Na obra, os objetos exteriores circunstanciais têm sua razão de
ser em si mesmos, fora da subjetividade humana. O romance narra os combates da Revolução Mexicana vistos e vividos pelos camponeses da parte baixa do estado de Jalisco, opostos geograficamente a "los alteños", oriundos de "los altos" do estado. Este romance enfoca a realidade da massa ignorante de agricultores que participa da Revolução sem entender as motivações sociopolíticas que engendraram o levante. A narrativa está centrada em Demetrio Macías, um camponês que vive nas cercanias de Juchipila, um povoado localizado no sul de Zacatecas. Demetrio está envolvido na Revolução não por seus ideais, mas por um conflito com um déspota local. Por meio de um acordo com os federais, o déspota atacou Demetrio, o que provocou a reação deste e deu início a uma série de lutas entre camponeses e militares. Isto fez Demetrio acumular seguidores, mas eles nunca entenderam o verdadeiro motivo da luta e nem analisaram a razão do que faziam. No final serão derrotados e mortos e restará apenas o espaço que possibilitou o movimento humano em sua vã tentativa de mudar seu destino. Uma das personagens, Alberto Solís, resume o propósito do camponês rebelado: "Me
preguntará que por qué sigo entonces en la revolución. La revolución es el huracán, y el hombre que se entrega a ella no es ya el hombre, es la miserable hoja seca arrebatada por el vendaval..."35 (AZUELA, 1989, p. 63). Nesta declaração encontram-se os elementos indicadores do processo de criação do espaço que permeia a obra ― o homem é enfocado como a miserável folha seca arrebatada pelo vendaval. Trata-se de um destino trágico, qual seja, o de ser aniquilado em suas propriedades humanas e reduzido à qualidade de coisa deteriorada ― folha seca. O homem "está" no cenário da Revolução como uma folha está no vendaval.
A proposta temática de enfocar o homem lutando contra os cenários opressivos segue modelos de reprodução do mundo físico que tomam os cenários exteriores em sua
35
"Me perguntará por que continuo então na revolução. A revolução é o furacão e o homem que se entrega a ela já não é o homem, é a miserável folha seca arrebatada pelo vendaval". (A tradução de Los de abajo é de autoria da pesquisadora)
materialidade bruta e estática. Nestes cenários, o homem não é senão um componente de um espaço que, com ou sem ele, permaneceria inalterável. O espaço é constituído por um sistema de referências materiais e objetivas que pode ser delimitado e permanece inalterável, mesmo que desapareçam os corpos nele inseridos. A intenção do autor em fazer do seu romance um tipo de literatura voltada para questões sociais resultou na construção de cenários materiais, distanciados da subjetividade humana. Isto porque o que interessa é o homem em contato com o ambiente físico que se impõe em sua concretude, ambiente definido por seus próprios limites. Assim, o mundo em que o homem se move e com o qual mantém comércio é um ente de consistência material que prescinde da consciência humana para existir. O cenário regional é visto como uma moldura material que, dentre outros elementos, comporta "também" o homem.
O espaço é, desta forma, uma representação a priori que subjaz às ações externas. Segundo Newton (1990) não é possível fazer uma representação de seres ou objetos sem que haja espaço algum, embora se possa muito bem pensar que nada se encontre em dado espaço. O espaço é, portanto, considerado uma determinação independente dos corpos materiais. As sensações e sentimentos não mais colaboram para a constituição do espaço, pois este passa a ser apreendido por si mesmo, o que fica claro por meio da definição de "espaço relativo", de Newton:
Espaço relativo é alguma dimensão ou medida móvel dos espaços absolutos, a qual nossos sentidos determinam por sua posição com relação aos corpos, e é comumente tomado por espaço imóvel; assim é a dimensão de um espaço subterrâneo, aéreo ou celeste, determinado pela sua posição com relação à Terra.. (1990, p. 7).
Da proposição de Newton se depreende que o espaço relativo é uma parte do espaço absoluto ocupado por um corpo que aparentemente permanece imóvel. Sendo, no entanto, o espaço relativo uma parte do espaço absoluto, segue-se que a supressão dos seus limites (as paredes de um abrigo subterrâneo, por exemplo) eliminaria o espaço relativo, mas não afetaria
o espaço absoluto. O espaço é, portanto, o continente onde a matéria está contida e, à sua retirada, seguir-se-ia o espaço vazio. Clarke corrobora a concepção de Newton quando afirma que
o espaço vazio não é um atributo sem sujeito, porque por esse espaço não entendemos um espaço onde não há nada, mas um espaço sem seus corpos. Deus está certamente presente em todo espaço vazio, e talvez existam também nesse espaço muitas outras substâncias, que não são materiais, não podendo por conseguinte ser tangíveis ou percebidas por nenhum de nossos sentidos. (1983, p. 188).
A formulação de que o "espaço vazio" é um espaço onde nada existe de reconhecível torna sua apreensão mental um exercício difícil. Leibniz objeta que a idéia de um espaço vazio que não estivesse relacionado com a matéria seria impensável. Para ele, no entanto, os objetos materiais "em si" não constituiriam o espaço e sim a "relação" entre eles. A formulação de Clarke é esclarecedora de que entende o "vazio" não como ausência de todas as coisas, mas como possibilidade de existência de outras substâncias que não sejam a matéria. Seja como for, para Clarke, os elementos compostos por matéria estão ausentes do espaço vazio. Espaço não é, como queria Leibniz, uma ordem de coexistências das coisas. Na visão de Clarke espaço é "quantidade" e, como tal, não depende de outros seres e objetos para existir, pois "o espaço sem corpos é uma propriedade de uma substância imaterial. O espaço não é limitado pelos corpos, mas existe igualmente neles e fora deles" (1983, p. 188). Tal pensamento leva à conclusão que o espaço não se encontra encerrado entre os seres porque há um espaço imensurável e absoluto que nada contém do mundo tal como o conhecemos.
Vejamos, em Los de abajo, a maneira como se dá a relação eu-cenário num momento que é apontado por Jozef como exemplo de imagem de "plasticidade escultória, que lhe dá relevo de ritmo, riqueza de léxico, lirismo, emoção" (1986, p. 36). Trata-se do instante em que Demetrio encontra-se ainda em Limón, lugar do conflito inicial, preparando-se para enfrentar os federais:
Demetrio despertó sobresaltado, vadeó el río y tomó la vertiente opuesta del cañón. Como hormiga arriera ascendió la crestería, crispadas las manos en las peñas y ramazones, crispadas las plantas sobre las guijas de la vereda.
Cuando escaló la cumbre, el sol bañaba la altiplanicie en un lago de oro. Hacia la barranca se veían rocas enormes rebanadas; prominencias erizadas como fantásticas cabezas africanas; los pitahayos como dedos anquilosados de coloso; árboles tendidos hacia el fondo del abismo. Y en la aridez de las peñas y de las ramas secas, albeaban las frescas rosas de San Juan como una blanca ofrenda al astro que comenzaba a deslizar sus hilos de oro de roca en roca.
Demetrio se detuvo en la cumbre; echó su diestra hacia atrás, tiró del cuerno que pendía a su espalda, lo llevó a sus labios gruesos, y por tres veces, inflando los carrillos, sopló en él. Tres silbidos contestaron la señal,
más allá de la crestería frontera.36 (AZUELA, 1989, p. 9-10).
No excerto em destaque, a natureza se expõe à personagem como um cenário que se abre à participação do homem, mas que não necessita dele para existir. O ato de vadear o rio, subir o monte, escalar o cume, ao mesmo tempo em que mostra o homem em sua função ativa de dominar um ambiente inóspito, também denota a realidade humana imersa numa extensão homogênea de entidades físicas e naturais que não permite uma interação com a consciência humana. Tem-se, aqui, um processo em que o homem e os cenários componentes do mundo físico encontram-se constitutivamente distanciados e assim se mantém. As imagens possuem valores plásticos e líricos, como apontou Jozef, mas, para construção do espaço, o homem não colabora com sua subjetividade. Este mundo dado possibilita, ainda, a própria compreensão de si como um elemento autônomo. Trata-se de um campo de objetividades do qual o homem participa quando atua nos seres e objetos, usando-os de acordo com suas possibilidades naturais e predeterminadas.
36
Demetrio acordou sobressaltado, vadeou o rio e tomou a vertente oposta do desfiladeiro. Como formiga arrieira subiu o monte, as mãos crispadas nas penhas e ramalhadas, crispando as plantas sobre os seixos da vereda.
Quando escalou o cume, o sol banhava o altiplano em um lago de ouro. Em direção ao barranco viam-se rochas imensas partidas; proeminências encrespadas como fantásticas cabeças africanas, cactos pitahayos como dedos rijos de uma estátua colossal, árvores inclinadas até o fundo do abismo. E na aridez das penhas e dos