6. Resultater og diskusjon
6.4 Holdninger til energi fra husholdningsavfall
O Ilê Axé Xangô Agodô cultua as entidades da jurema e os orixás. A prática do culto à jurema deriva do catimbó, cuja principal referência é o município de Alhandra, Paraíba. Pai Beto explica que:
A jurema é uma evolução do catimbó. É tanto que em Alhandra tem os catimbozeiros, né? É o pessoal que trabalha mais com reza, com incorporação, com cura, com o poder das folhas, tal e tal... os catimbozeiros, né? Que evolui. Evoluiu, hoje é religião, é jurema, culto à jurema sagrada, a árvore da jurema se torna sagrada, né?
Durante uma sessão de jurema de chão, Pai Beto resumiu da seguinte forma a evolução do médium dentro da doutrina da jurema:
A primeira patente é o médium apontado. É como assim? você nunca foi num terreiro, mas você vem. Você foi apontado, se chama médium de
apontamento, médium apontado. Quando você tá dentro do terreiro e
importante na vida de juremeiro – é o médium consagrado. Você fez a
obrigação, você se consagrou-se juremeiro. Daí, do médium consagrado,
você passa a evoluir [...] já tá mais seguro, já tá firmado, tem assentamento, tem tudo. Então você vai ser um mestre. Seu grau na jurema é o grau
mestre, por que você passa a consultar através dos seus mestres. Quando
você começa a consultar e atender, e passar firmeza pra pessoas, confiança, automaticamente, [...] algumas pessoas começam a sentir confiança em você, com seu guia, no que você consultou, no socorro que você prestou, começa a lhe seguir, ser seu discípulo, discípulo de jurema. Aí, você faz a pessoa. Daí já tem seus sete anos, já fez sua jurema toda, você faz a pessoa rápido. Em jurema não tem pai. Passou a ser chamado de pai num encontro de juremeiros, que era uma perseguição muito grande com os juremeiros, e eu acho que a jurema existe independente de santo, você pode ser pai de
jurema, sim. Então você passa a ser pai juremeiro ou padrinho. Né? Que a
gente chama muito Maria do Peixe ‘ madrinha, madrinha, madrinha,
madrinha’, por que ela tem uma vivência muito grande dentro da jurema e a
gente não tinha esse conhecimento, e por isso que hoje ainda tem o hábito de chamar madrinha, madrinha, que quer dizer mãe. Quando você faz um filho, que o filho faz outro filho, aí você é padrinho mestre. Você é avô. Então você já deve estar bem apurado por que você aprendeu, já ensinou a um filho, ele já fez outro, ele já vai abri casa. Então daí, você passa. Então, tem que passar por esses degraus na jurema.
Os deuses africanos são cultuados de acordo com os preceitos do ritual de “nação” Nagô, mas, de acordo com Pai Beto, essa doutrina está fundida com a doutrina de umbanda. Vejamos a explicação sobre a junção das duas doutrinas, dada pelo dirigente da casa:
Umbanda é uma linha. É um mundo espiritual. Então, dentro da doutrina de umbanda, dentro da doutrina do seguimento de umbanda; quem é praticante da umbanda; dentro da doutrina da umbanda, você pode cultuar orixá, só que ele tem muita assimilação com o sincretismo católico, os orixás. [...] Eu, meu orixá é Xangô Agodô, ele é de nação Nagô; ele é rei de Oiô; ele é o rei do candomblé; ele é o rei do Nagô. Então, eu não posso fugir dessa realidade. Então, minha casa é umbanda com Nagô. [...] Que a umbanda quando foi fundada, foi fundada por um caboclo, Sete Encruzilhada, e de lá pra cá já vem mestre, já vem preto-velho, já vem a linha toda [...] É tanto que se eu tirar um ponto: São Jorge, Ogum, venceu demanda eu também quero vencer... as pessoas já dizem: isso é umbanda, por que tem o traço da nossa língua, né? do nosso português, e traçado com o dialeto ioruba da África, que é o Nagô, então é umbanda com Nagô e fica mesmo a cultura, a doutrina, ela sente esse traçado umbanda e Nagô juntos, e os orixás respeitam e vêm na linha e trabalham. Então a linha é vero, a linha existe, a linha é boa de trabalhar.
O pai de santo justifica a junção do ritual Nagô com a umbanda da seguinte forma:
Eu trabalho Nagô e umbanda. Por que que eu trabalho Nagô e umbanda? Eu sou filho de Xangô Agodô, meu Orixá é de nação africana. [...] Então o que é que eu cultuo hoje na minha casa depois de cem anos, duzentos anos? eu trabalho umbanda com Nagô, por que antes de entrar o Nagô, entrou a umbanda, e ela se expandiu muito. E a umbanda é uma religião pra mim que ajudou muito por que ela fez essa interligação. Ela quebrou mais o
preconceito naquele momento. Ela teve seu papel, tem o seu papel, né? Então, o que é que acontece? Eu trabalho meu orixá na linha Nagô e a
doutrina na minha casa é umbanda (grifo meu). Então eu sou Nagô com
umbanda. Pode não? Pode, posso. Por que, o que é ser puro hoje? Tem nada puro não. A gente depende do dialeto do outro pra poder viver, a gente depende da cultura do outro pra poder viver [...] então, se começou lá na Bahia [o candomblé], mas foi há cem anos, não tem ninguém vivo hoje pra cultuar. Então, já morreram todos os negros que eram dominadores do dialeto ioruba [...] Então a gente depende dessa diversidade de cultura. Eu acho que chegou o momento, eu acho que meus amigos não compreenderam, que deve-se é se respeitar [...]
Essa perspectiva evidencia a aproximação do culto aos orixás com a umbanda no campo doutrinário, formando um conjunto de práticas rituais. A partir das falas do pai de santo, observa-se que o culto dos orixás e o culto da jurema coexistem na casa e se complementam, mas seguem preceitos independentes, mas que coexistem devido à doutrina de umbanda. Porém, os cultos da jurema e dos orixás são celebrados em cerimônias e dias separados. O indivíduo desenvolve sua mediunidade para incorporar os guias de jurema e os orixás, mas seus objetos sagrados são guardados em cômodos diferentes, onde também ocorrem as iniciações ritualísticas, independentes.
A explicação para as diferenças entre os dois cultos pode ser observada no discurso dos participantes, onde há uma ênfase de que a jurema e o orixá são entidades de naturezas diferentes, o que reflete na separação dos objetos, cerimônias, camarinhas e outros elementos do culto. O Ogã Netinho, ao me explicar as diferenças entre as iniciações de jurema e orixá, específicas para ogã, deu a seguinte explicação sobre a diferença entre a jurema e os orixás:
O santo vive sem a jurema, e a jurema vive sem o santo, que é tudo diferente. Um é céu outro é terra. Os orixás são acima da cabeça da gente, e jurema, foram pessoas que já viveram aqui nessa terra onde a gente vive, que já passaram por isso que a gente passa, já tocou , já mexeu, já gargalhou, já bebeu, já fumou. É terra. É gente vivida no mundo. E os guia de jurema é mensageiro dos orixás.
De acordo com essa explicação, também percebe-se que os guias de jurema lidam com os assuntos mais próximos dos assuntos humanos, à cura, manipulação de erva, e encantos de todos os tipos, e os orixás estão acima dos guias, eles regem todos os aspectos da vida do homem, mas não estão ligados aos assuntos materiais.
No capítulo anterior foi dito que a influência da umbanda transformou o culto dos antigos catimbozeiros, o que justifica a visão de “evolução” do culto, observada na fala de Pai Beto. Dentre as mudanças ocorridas, pode-se observar que, o culto deixou de ser praticado nas
em pé, fazendo um grande círculo, dançando, girando e cantando. O consumo do vinho de jurema diminuiu, a planta passou a ser mais valorizada como símbolo sagrado, como indica Vandezande (1975).
O Exu, no Ilê Axé Xangô Agodô, é cultuado como guia, nas cerimônias de jurema e como orixá, nos cultos aos deuses africanos. Pai Beto explica a diferença entre a natureza das entidades da seguinte forma: “A jurema é outra linha, outro caminho, então seria outro Exu
para trilhar esse outro caminho”. Dentro da doutrina de jurema o a linha de Exu também se divide em Exu-batizado e Exu-pagão. Sobre a diferença entre as entidades Pai Beto explica que:
Exu batizado seria o Exu consciente e o Exu pagão seria aquele Exu livre,
aquele Exu sem consciência que pode até – sem consciência – fazer algum... não vamos chamar de mal, mas ele não tem consciência do que faz, ele não é o Exu batizado. Seriam os Exus que precisam de doutrinação e desenvolvimento. Por que o Exu no Brasil é visto de duas formas: o Exu orixá, esse é orixá, tem tanta força quanto Xangô, Iemanjá, Oxalá, e tem o
Exu, esse Exu da terra, esse Exu terreno. E esses sim são pessoas que
morreram que voltaram nesse plano, né? e outras histórias mais que vão acontecendo: Tranca Rua, Exu Caveira, Seu Marabô são nomes completamente brasileiros: Exu Caveira, Tranca Rua, Exu Pimenta, Exu do
Fogo.
A separação entre os cultos se desfaz no Ilê Axé Xangô Agodô. Exu-batizado e Exu-
pagão pertencem ao culto da jurema, mas apresentam graus de esclarecimento espiritual
diferentes. Os Exus cultuados nas cerimônias de orixás são deuses africanos, responsáveis pela comunicação direta entre o filho e o seu orixá de cabeça, por isso não guardam relação com os Exus cultuados na jurema.
A música é outro elemento que sofreu mudanças, no contexto atual da jurema. Nas sessões de catimbó, descritos por Andrade (1963), Cascudo (1978) e Bastide (1945), por exemplo, o único instrumento que acompanhava o cântico era o maracá (marca mestra). Vandezende (1975) também descreve alguns rituais com essa característica, mas ele registra que o “Catimbó Umbandista” utilizava “o ‘ilu’ e dois maracás nas mãos de um rapaz, há também outro que segura duas campainhas de tonalidades diferentes” (ibid., p. 110). Esse formato de sessão, “festiva exclusivamente, pelo menos na opinião dos seus protagonistas” (ibid., p. 183), prevalece hoje no culto do Ilê Axé Xangô Agodô como forma de desenvolvimento da espiritualidade e mediunidade dos juremeiros.