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Nesta seção, apresentamos e justificamos os instrumentos utilizados na coleta de dados desta pesquisa: observação participante, diário de campo, registros de áudio, entrevista semiestruturada. Cabe destacar que estes foram escolhidos após a definição do problema a ser investigado, já que tal escolha é decorrência da problemática em estudo.

2.3.1 Observação participante

Segundo Bogdan e Biklen (1994), na observação participante, o pesquisador insere-se no contexto das pessoas que são investigadas e “tenta conhecê-las, dar-se a conhecer e ganhar a sua confiança, elaborando um registo escrito e sistemático de tudo aquilo que ouve e observa” (p. 16). De acordo com Alves-Mazzotti (1999), o pesquisador é um instrumento de coleta de dados e faz parte da situação observada, contudo, apesar de a observação participante estar associada à inserção em um determinado contexto ao ponto do pesquisador se tornar membro do grupo, o nível de participação é variável.

Em nossa pesquisa, buscamos descrever e compreender, principalmente, situações observadas em que os gêneros discursivos multimodais foram valorizados em sala de aula, em um nível de participação moderado. Na sala de aula, tal participação, geralmente, ocorreu quando a professora solicitou que o pesquisador verificasse se os alunos realizaram certa atividade ou recolhesse algum material que deveria ser entregue pelos discentes, por exemplo. Para além dessas participações solicitadas pela professora, entendemos, como é apontado por Bogdan e Biklen (1994), que nunca é possível eliminar algum efeito causado devido à presença do observador. Por essa razão, seguimos a sugestão de tais autores para minimizar esta questão ao tentar, de algum modo, refletir sobre o papel do investigador no contexto.

Segundo Lüdke e André (1986), a observação ocupa um lugar privilegiado nas novas abordagens de pesquisa educacional por possibilitar o contato direto do observador com o fenômeno estudado; descobrir novos aspectos de um problema; recorrer a experiências e conhecimentos pessoais na compreensão do problema investigado; e coletar informações em que não é possível outra forma de comunicação ou mesmo quando a pessoa não quer fornecê-las. Para Vianna (2003), a observação em pesquisas educacionais é, praticamente, a única abordagem disponível para se estudar temas complexos como a interação professor-aluno. Desse modo, tal técnica é muita empregada, em pesquisas qualitativas, quando se pretende estudar comportamentos ou fatos que acontecem em certos contextos ou instituições. Nesse sentido, em nossa pesquisa, a observação foi uma preciosa fonte de dados, pois nosso foco foi prática docente que, embora a educadora pudesse explicitá-la, interessou-nos também observar como ela aconteceu na materialidade da sala de aula.

Além disso, como a observação tem a finalidade de coletar dados que sejam confiáveis e válidos para a pesquisa, ela demandou de nossa parte delimitação do grau

de influência do pesquisador no contexto pesquisado, fundamentação teórica consistente, bem como capacidade de concentração, paciência, sensibilidade, espírito alerta e bastante energia física (VIANNA, 2003). Fica evidente, portanto, que a atividade científica através da observação precisa ter bastante cautela quanto ao papel e às características do pesquisador, pois a presença dele pode alterar a situação que se observa e, consequentemente, gerar um falseamento quanto às atitudes de professores e alunos. Para atenuar isso, baseamo-nos nas orientações de Vianna (2003), nas quais há a sugestão de que é possível minimizar essas possíveis mudanças quando o pesquisador está sempre presente na sala de aula, para que os sujeitos investigados se familiarizem com essa presença e se comportem de modo mais natural.

Soma-se a isso a necessidade do pesquisador se amparar em bases teóricas consistentes, a partir de uma revisão bibliográfica ampla, disciplinada e crítica, antes da imersão no campo (VIANNA, 2003). Por essa razão, além de ampliar e sistematizar a revisão da literatura, realizamos o levantamento bibliográfico no portal da CAPES, como aparece no primeiro capítulo, a fim de conhecer a produção do conhecimento já publicado na área na qual incide a investigação.

Embora diversas vantagens de se utilizar a observação tenham sido expostas, é preciso ter atenção, pois, como toda técnica, esta também apresenta algumas desvantagens, como o envolvimento pessoal do pesquisador que pode levar a visões distorcidas do fenômeno ou a uma visão parcial da realidade (LÜDKE; ANDRÉ, 1986). Essa subjetividade do observador que pode gerar o falseamento dos dados também pode ser influenciada pelas preocupações, preconceitos, cansaço e tantas outras emoções e/ou crenças que fazem parte de sua personalidade. A respeito disso, Vianna (2003) trata do que ele chama “viés do observador”: o pesquisador observador pode estar tão engajado intelectual e emocionalmente com sua pesquisa que chega a influenciar suas percepções, a ver situações concretas que colaboram na confirmação da hipótese levantada e a deixar de perceber episódios que a contrariam.

Esse autor sugere que a solução para evitar isso é: pedir a alguém que não conheça muito suas hipóteses e seus objetivos de pesquisa para assistir aos vídeos gravados, por exemplo, a fim de analisar o material e contribuir para discussão do que é observável. Almejamos minimizar esse “viés do observador”, principalmente, através do diálogo contínuo entre pesquisador e orientador.

Juntamente desses “perigos” da atividade científica através da observação, há ainda uma questão que também pode ser uma desvantagem dessa técnica na visão de

Vianna (2003) e que também foi alvo de nossa atenção: o registro de milhares de dados coletados, através do caderno de campo e de áudios/vídeos gravados, que precisarão ser analisados e categorizados. Quanto a esse aspecto, de fato, temos milhares de registros, mas, como fomos ao campo já com a problemática de pesquisa selecionada, estivemos sempre conscientes de quais dados eram mais relevantes à nossa investigação e, dessa maneira, seriam nosso foco de atenção.

2.3.2 Diário de campo e registros de áudio

De acordo com Bogdan e Biklen (1994), as notas do diário de campo devem incluir uma parte descritiva e uma reflexiva. Na descritiva, devem constar os seguintes tópicos: descrição dos sujeitos, reconstrução de diálogos, descrição de locais, descrição de eventos especiais, descrição das atividades e dos comportamentos do observador. Já na reflexiva, devem aparecer: reflexões analíticas, reflexões metodológicas, dilemas éticos e conflitos, mudanças na perspectiva do observador e esclarecimentos necessários. Ainda a respeito dos registros, Vianna (2003) reforça o imediatismo dos registros ao afirmar que agindo assim é possível evitar lapsos de memória, embora existam situações que não permitirão esse registro imediato, uma vez que isso geraria, em uma dada situação, a perda da naturalidade ou a perturbação dos indivíduos pesquisados.

Diante disso, no diário de campo, seguimos tais considerações e anotamos aquilo que ocorreu, quando aconteceu, em relação a que ou a quem ocorreu, quem disse, o que foi falado e que mudanças aconteceram no contexto. Em outras palavras, as datas, os horários correspondentes ao trabalho desenvolvido em cada uma das turmas, os espaços ocupados (sala de aula, sala de informática, sala de vídeo etc), os recursos didático- pedagógicos utilizados pela professora, as falas dos participantes, a indicação dos anexos mediante coleta de artefatos recebidos ou produzidos pelas turmas, além de uma detalhada caracterização das atividades que aconteceram na sala de aula, acompanhadas das nossas impressões e participações sobre estas. Parte desses registros foi feito na própria sala de aula, mas outra, principalmente relativa às reflexões do pesquisador, era escrita em casa, para se evitar o registro incessante na sala de aula (o que poderia causar certo constrangimento para os participantes) e para também ser um momento de se repensar o que havia acontecido em cada um dos dias observados.

Além desses registros, no caderno de campo, incluímos os materiais que circularam entre os participantes da pesquisa, como folhas com conteúdos ou exercícios

entregues pela professora e textos produzidos pelos alunos. Também compuseram o diário de campo as partes do livro didático que foram utilizadas em sala de aula e outros materiais disponibilizados pela professora como planejamento das aulas.

Com o encerramento da coleta de dados em 2015, constatamos que, muitas vezes, o registro do pesquisador através do caderno de campo era insuficiente para anotar as informações, pois as interações em sala de aula ocorriam de forma bastante dinâmica e nem sempre conseguíamos registrá-las por completo. Vianna (2003) faz um alerta sobre isso ao afirmar que, no ato de registrar, sempre pode haver perdas de aspectos significativos que poderão não ser reconhecidos pelo pesquisador, já que nem todas as pessoas conseguem ler e escrever simultaneamente. Por essa razão, em 2016, com a anuência da professora, também passamos a fazer gravações de áudios que, segundo este mesmo autor, podem ser uma estratégia eficaz para solucionar a dificuldade de se observar e se registrar por escrito ao mesmo tempo. Desse modo, através de um aplicativo gravador de voz, disponível no celular do pesquisador, algumas aulas cuja discussão girava em torno do nosso objeto de estudo foram gravadas e, com isso, passamos a ter mais uma forma de registrar os dados coletados.

2.3.3 Entrevista semiestruturada

Segundo Bogdan e Biklen (1994, p. 134), “a entrevista é utilizada para recolher dados descritivos na linguagem do próprio sujeito, permitindo ao investigador desenvolver intuitivamente uma ideia sobre a maneira como os sujeitos interpretam aspectos do mundo”. Nesse sentido, ao realizar a entrevista face a face com a professora, interessou-nos ouvir as interpretações e concepções desta com relação à prática por ela exercida enquanto professora de Língua Portuguesa.

Bogdan e Biklen (1994) salientam que, quando se realiza a observação de um grupo de pessoas e, portanto, já se conhece os indivíduos participantes da pesquisa, a entrevista se parece com uma conversa entre amigos. Como já tínhamos uma relação construída com a docente, já que a entrevista foi realizada após meses de observação, buscamos fazer com que aquele momento fosse mais uma oportunidade de conversa na qual, conforme sugerem os autores citados, a entrevistada estivesse à vontade para explicitar suas opiniões de forma livre.

Optamos pela entrevista semiestruturada caracterizada por um roteiro com questões básicas (cf. Apêndice A, p. 149) usadas pelo entrevistador, para se atingir os objetivos da investigação (TRIVINÕS, 1987). Dessa forma, fundamentados em Bogdan

e Biklen (1994), fizemos perguntas mais abrangentes ou mais específicas sobre a formação e, principalmente, sobre a prática da docente em sala de aula, tendo em vista possíveis respostas que poderiam trazer detalhes a ser explorados na pesquisa. Além disso, as perguntas não foram feitas obrigatoriamente em uma ordem pré-estabelecida, pois antecipamos, por exemplo, algumas questões cujo tópico de discussão apareceu em uma resposta anterior, a fim de conectar a interação. Outras questões que não estavam no roteiro foram feitas, no intuito de clarear alguma discussão em pauta. Durante toda a entrevista, gravada com o consentimento da entrevistada, ouvimos cuidadosamente o que foi dito pela docente e tentamos ser flexíveis e respeitosos na compreensão do ponto de vista por ela apresentado.

A entrevista, cuja duração foi de aproximadamente 1 hora e 20 minutos, ocorreu em uma sala de reuniões na Universidade Federal de Ouro Preto às 17 horas do dia 04 de maio de 2016. Tal horário e data foram escolhidos pela professora, assim como o espaço utilizado. A entrevista foi gravada em áudio e transcrita segundo a norma padrão da língua portuguesa, uma vez que nosso objetivo não foi observar as entonações, as pausas, os gestos e outras pistas extralinguísticas. Como apontam Almeida et al. (2004), em um possível texto referência a partir da transcrição de uma entrevista, pode-se retirar vícios de linguagem e transgressões da norma culta da língua, contudo sem realizar trocas de palavras. Ao reviver e refletir o momento da entrevista na análise dos dados, foram incluídas “impressões, percepções e sentimentos” (ALMEIDA et al., 2004, p. 74) do pesquisador sobre aquele momento em que a visão pessoal da entrevistada foi privilegiada.