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Holde tråden – språk, agenda. ”Spread the rumor”

4. Resultater og drøfting

4.1 Hvordan ble idéen LØFT en del av organisasjonens virkelighet?

4.1.2 Holde tråden – språk, agenda. ”Spread the rumor”

Uma leitura crítica de toda e qualquer historiografia oficial revela que a trajetória de muitos grupos sociais minoritários tende a ser contada de forma equivocada e/ou mal intencionada (Chakrabarty, 1992). Esse parece ser o caso da história das minorias negras e indígenas no Brasil. Versões sobre a preguiça do índio e da adaptabilidade e docilidade do negro ao trabalho escravo escondem de forma perversa a natureza das lutas por igualdade e justiça que caracterizou, por exemplo, a resistência negra ao longo dos séculos.

No século XVI quando houve a primeira fuga em massa de quarenta escravos no sul de Pernambuco, resultando na formação dos primeiros quilombos e revivendo a organização social dos antigos povos africanos, tem-se ali um marco na resistência negra organizada no Brasil. Desde então, aconteceriam uma série de outros movimentos de resistência, tais como, a Revolta dos Alfaiates em 1789; a Revolta dos Malês em 1835; a Balaiada em 1838, entre outros. Todos com a participação decisiva da comunidade negra engajada nas mudanças na estrutura de poder da sociedade brasileira (Munanga & Gomes, 2006).

Segundo Fernandes (1989), até a tardia assinatura da Lei Áurea, a resistência negra se engajava na luta pela abolição da escravidão no Brasil. No entanto, mesmo depois de 1888, devido às condições sociais deploráveis que se encontrava a comunidade negra, lançada à própria sorte e despreparada para competir com os imigrantes brancos, a luta pela abolição continuava sob o entendimento de que havia uma dívida histórica junto à comunidade negra. Assim, o fio condutor das lutas seguintes tem sido a cobrança dessa dívida motivando outros movimentos de resistência durante toda a república. Entre os quais se destacam: a Revolta da Chibata em 1910 (cf. Carvalho, 1995); a criação de Associações, Grêmios e Clubes para negros entre os anos 1910-20 (cf. Domingues, 2007); a Frente Negra Brasileira em 1931 (cf. Barbosa, 1998); a União dos Homens de Cor em 1943 (cf. Silva, 2003); o Teatro Experimental Negro em 1944 (cf. Nascimento, 2004) e o Movimento Negro Unificado em 1978 (cf. Covin, 2006), que atualmente representa a principal organização do movimento negro engajada na luta anti-racista.

Este conjunto de lutas, durante todo o período republicano, pode ser compreendido a partir de três fases, conforme o Quadro 4.1.

Movimento Negro Brasileiro Primeira Fase (1889-1937) Segunda Fase (1945-1964) Terceira Fase (1978-2000) Tipo de discurso racial

predominante

Moderado Moderado Contundente

Estratégia cultural de “inclusão”

Assimilacionista Integracionista Diferencialista (igualdade na diferença)

Principais princípios ideológicos e posições políticas

Nacionalismo e defesa das forças políticas de “direita”, nos anos 1930

Nacionalismo e defesa das forças políticas de “centro” e de “direita”, nos anos 1930 e 1940

Internacionalismo e defesa das forças políticas da esquerda marxista, nos anos 1970 e 1980 Conjuntura internacional Movimento nazifascista e pan-africanista Movimento da negritude e de descolonização da África Afrocentrismo,

movimento dos direitos civis nos Estados Unidos e de descolonização da África

Principais termos de auto-identificação

Homem de cor, negro e preto

Homem de cor, negro e preto

Adoção “oficial” do termo “negro”. Posteriormente usa-se, também, o “afro- brasileiro” e “afro- descendente” Causa da marginalização do negro A escravidão e o despreparo moral/educacional A escravidão e o despreparo moral/educacional A escravidão e o sistema capitalista

Solução para o racismo Pela via educacional e moral, nos marcos do capitalismo ou da sociedade burguesa

Pela via educacional e cultural, eliminando o complexo de inferioridade do negro e reeducando racialmente o branco, nos marcos do capitalismo ou da sociedade burguesa

Pela via política (“negro no poder!”), nos marcos de uma sociedade socialista, a única que seria capaz de eliminar com todas as formas de opressão, inclusive a racial

Métodos de lutas Criação de agremiações negras, palestras, atos públicos “cívicos” e publicação de jornais Teatro, imprensa, eventos “acadêmicos” e ações visando à sensibilização da elite branca para o problema do negro no país Manifestações públicas, imprensa, formação de comitês de base, formação de um movimento nacional

Relação com o “mito” da democracia racial Denúncia assistemática do “mito” da democracia racial Denúncia assistemática do “mito” da democracia racial Denúncia sistemática do “mito” da democracia racial Capacidade de mobilização

Movimento social que chegou a ter um caráter de massa

Movimento social de vanguarda

Movimento social de vanguarda

Relação com a “cultura negra”

Distanciamento frente alguns símbolos associados à cultura negra (capoeira, samba, religiões de matriz africana) Ambigüidade valorativa diante de alguns símbolos associados à cultura negra

Valorização dos símbolos associados à cultura negra (capoeira, samba, religiões de matriz africana, sobretudo o candomblé) Como concebiam o fenômeno da mestiçagem De maneira positiva (discurso pró- mestiçagem) De maneira positiva (discurso pró- mestiçagem) De maneira negativa (discurso contra a mestiçagem)

Dia de reflexão e/ou protesto

13 de maio (dia da assinatura da Lei Áurea, 1888)

13 de maio (dia da assinatura da Lei Áurea, 1888)

20 de novembro (dia de rememoração da Morte de Zumbi dos Palmares)

Principais lideranças Vicente Ferreira, José Correia Leite, Arlindo Veiga dos Santos

José Bernardo da Silva, Abdias do Nascimento

Hamilton Cardoso, Lélia Gonzales

Quadro 4.1 - Trajetória do movimento negro na república Fonte: adaptado de Domingues (2007, p.122-123).

Quando analisamos a evolução do movimento negro ao longo dos períodos assinalados por Domingues (2007), podemos observar um amadurecimento do movimento no sentido de definir melhor sua identidade e, principalmente, de assumir uma postura mais radical diante do racismo e do discurso da mestiçagem. Durante o período de 1978 a 2000, após a criação do MNU, tem-se uma série de rupturas com as fases anteriores do movimento negro. Segundo o Quadro 4.1, além da radicalização do discurso racial, há também: (1) um deslocamento na posição política do movimento, da direita para a esquerda marxista em 1970 e 1980, nos primeiros momentos do MNU; (2) maior permeabilidade do movimento em relação as influências internacionais, com destaque para o afrocentrismo e o movimento dos direitos civis norte-americanos; (3) o uso do termo “afro-descendente” como auto- identificação dos negros brasileiros, aos moldes dos sujeitos “hifenizados” típicos do contexto norte-americano40; (4) a busca pelas causas da marginalização negra, agora como o resultado da escravidão e também do sistema capitalista; (5) a busca pela solução do racismo, agora pela via educacional e nos marcos de uma sociedade socialista; (6) denúncia sistemática do mito da democracia racial e uma postura radical contra a mestiçagem, encarando-a como uma estratégia de diluição da identidade negra; e (7) uma aproximação cada vez maior com os símbolos associados à cultura negra, com destaque para a mudança do dia 13 de maio pelo dia 20 de novembro como data de reflexão sobre a resistência negra no Brasil.

Embora Domingues (2007) identifique a terceira fase do movimento como indo de 1978 até o ano 2000 e, ainda, sugira uma possível quarta fase, após o ano 2000, com a hipótese de ascensão do movimento hip-hop41, os eventos listados por ele acabam representando apenas as mudanças ocorridas até o início dos anos 1990. Ou seja, um pouco depois dos protestos que culminaram na redemocratização

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Sujeitos “hifenizados” é um termo discutido por Hall (1999) para representar os sujeitos diaspóricos. Nesta condição, o autor argumenta que as identidades se tornam múltiplas, pois operam uma junção de elos simultâneos entre o lugar de assentamento, o “ser britânico”, e o lugar de origem, o “ser caribenho”. Ambos se impõem sobre o sujeito que na busca por reconciliá-los, hibridiza suas matizes por meio de uma operação semântica que tende a ressignificá-los num único termo.

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Segundo Domingues (2007, p.119), o movimento hip hop “trata-se de um movimento cultural inovador, o qual vem adquirindo uma crescente dimensão nacional; é um movimento popular, que fala a linguagem da periferia, rompendo com o discurso vanguardista das entidades negras tradicionais”. Para Zeni (2004, p.230), “o hip hop se constitui de quatro elementos: o break (a dança de passos robóticos, quebrados e, quando realizada em equipe, sincronizados), o grafite (a pintura, normalmente feita com spray, aplicada nos muros da cidade), o DJ (o disc-jóquei) e o rapper (ou MC, mestre de cerimônias, aquele que canta ou declama as letras sobre as bases eletrônicas criadas e executadas ao vivo pelo DJ). A junção dos dois últimos elementos resulta na parte musical do hip hop: o rap (abreviação de rythym and poetry, ritmo e poesia, em inglês). Alguns integrantes do movimento consideram também um quinto elemento, a conscientização, que compreende principalmente a valorização da ascendência étnica negra, o conhecimento histórico da luta dos negros, o combate ao preconceito racial, a recusa em aparecer na grande mídia e o menosprezo por valores como a ganância, a fama e o sucesso fácil”.

do país e na promulgação da Constituição de 1988. Eventos como a criação de órgãos dentro do Estado brasileiro para a discussão de políticas de igualdade racial, a criação de fundações de amparo a cultura e a luta antirracista, bem como a preparação do Brasil para os fóruns internacionais de discussão sobre o racismo, a aprovação de leis de cotas em universidades públicas, a criação de outras organizações negras, são alguns dos eventos que ocorreram dentro do recortes proposto pelo autor, mas que não constam da sua análise.

Este conjunto de eventos gerou um novo perfil para o movimento negro, com novos deslocamentos nos frames de ação coletiva, alterando suas propostas e posições políticas que marcaram as fases anteriores da luta antirracista. Além disso, conforme discuti no capítulo anterior, boa parte destas mudanças tem relação estreita com a formação do framing global a partir dos contatos direto e indireto com os conteúdos difundidos no âmbito do Atlântico Negro. Estas aproximações são possíveis quando fazemos uma leitura justaposta entre as duas dinâmicas.

4.2 Dos eventos contemporâneos ao transnacionalismo: novo movimento