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2. Que coisa me deleitava senão amar e ser amado? Mas, nas relações de alma para alma, não me continha a moderação, conforme o limite luminoso da amizade, visto que, da lodosa concupiscência da minha carne e do borbulhar da juventude, exalavam-se vapores que me enevoavam e ofuscavam o coração, a ponto de não se distinguir o amor sereno do prazer tenebroso. Um e outro ardiam confusamente em mim. Arrebatavam a minha débil idade despenhadeiros das paixões e submergiam-se num abismo de vícios. Sem eu saber, a vossa ira tinha-se robustecido sobre mim. Ensurdeci com o ruído da cadeia da minha mortalidade, em castigo da soberba de minha alma.
65Nesta altura da narrativa, Agostinho era estudante em Madaura, onde seus olhos ávidos de adolescente contemplaram estátuas romanas e templos de pórticos coríntios. Desta cidade era natural Apuleio. orador, taumaturgo e filósofo, a quem os concidadãos ergueram uma estátua. (N. do T.)
Afastava-me para mais longe de Vós, e permitíeis-mo66. Arrojava-me, derramava- me, espalhava-me e fervia em minhas devassidões, e Vós em silêncio! O alegria que tão tarde encontrei! Vós calado, e eu a afastar-me cada vez mais de Vós, buscando, constantemente, estéreis sementes de dores, com aviltante soberba e desinquieto cansaço!
3. Quem poderia refrear a minha miséria e fazer com que usasse bem da formosura transitória de cada objeto? Quem me fixaria um limite às suas delícias, de tal maneira que as ondas da minha idade se agitassem de encontro à praia do matrimônio — já que doutro modo não era possível a tranqüilidade — e encontrassem o fim natural na geração de filhos, como prescreve a vossa lei, ó Senhor, que criais a descendência da nossa raça mortal e podeis suavizar, com mão bondosa, os espinhos desconhecidos no paraíso? A vossa onipotência está perto de nós, ainda quando erramos longe de Vós.
Certamente, deveria com mais diligência prestar ouvidos ao som vindo de vossas nuvens: "Sofrerão as tribulações da carne. Eu, porém, quisera poupar-Vos67". Ou ainda: "E bom para o homem não tocar em mulher alguma68"; "o que não tem esposa pensa nas coisas de Deus e em como lhe há de agradar; o que está unido em matrimônio pensa nas coisas do mundo e em como há de agradar à esposa69". Oxalá tivesse ouvido mais atentamente essas palavras! Se tivesse vivido eunuco "por amor do reino dos céus70" esperaria agora, mais feliz, os vossos abraços.
4. Miserável de mim! Fervia em cachões, seguindo o ímpeto da minha torrente, abandonando-Vos, e transgredia todos os mandamentos sem escapar aos vossos açoites. E que mortal haverá que os evite? Sim, estáveis sempre a meu lado, irritando-Vos misericordiosamente e aspergindo com amargosíssimos desgostos todos os meus deleites ilícitos, para que buscasse a alegria sem Vos ofender, e nada pudesse encontrar em parte alguma senão a Vós, Senhor, a Vós, que "nos dais a dor como preceito71", que "feris para curar72" e nos tirais a vida para não morrermos longe de Vós.
Onde me encontrava eu? Como me tinha exilado para longe das delícias da vossa casa, aos dezesseis anos de idade, segundo a carne, quando a loucura deste prazer, que a
66A crise da adolescência em Agostinho, como em todos os jovens, revela um ofuscamento da razão e dos valores espirituais, substituídos pelo despertar impetuoso dos instintos. A energia vital vai preferentemente para o corpo. A vontade e a inteligência ficam enfraquecidas. (N. doT.) 671 Cor 7, 28. 681 Cor 7, 1. 691 Cor 7, 32, 33. 70Mt 19, 12. 71Sl 93, 20. 72Dt 32, 39.
nossa degradação liberta de todo o freio, e que é proibido pela vossa lei, me fez aceitar o cetro que empunhei com ambas as mãos! Nenhum dos meus teve o cuidado de me suster na queda, pelo matrimônio, porque de mim só tinham uma preocupação: que aprendesse a compor discursos o mais belamente possível e a persuadir por meio da oratória.
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"Nas praças de Babilônia"
5. Nesse mesmo ano73, interrompi os estudos porque fui chamado de Madaura74, cidade vizinha, aonde tinha ido assistir às aulas de literatura e oratória. Meu pai, cidadão muito modesto de Tagaste, levado mais pela ambição que pelos seus recursos, preparava- me os meios necessários para uma viagem mais longínqua, para Cartago.
Mas a quem narro eu estes fatos? Não é a Vós, meu Deus. Na vossa presença dirijo-me ao gênero humano, àquele a que eu pertenço, ainda que estas páginas possam chegar apenas a uma minoria. Então, para que escrevo isto? Para que eu e todos os que lerem estas palavras pensemos de que abismo profundo se deve chamar por Vós. Que coisa mais próxima de vossos ouvidos do que um coração arrependido e uma vida de fé?
Quem não cumulava, então, de louvores a meu pai, por ultrapassar até os recursos do patrimônio, só para conceder tudo o que era necessário ao filho que tinha viajado para longe por causa dos estudos? Numerosos cidadãos muitíssimo mais opulentos nem de longe mostravam tal cuidado pelos filhos. No entanto, meu pai não se preocupava com saber se eu crescia para Vós, isto é, se vivia castamente. Contanto que fosse diserto!. . . Mas eu era antes um deserto75 quanto à vossa cultura, ó meu Deus, único, verdadeiro e bondoso Senhor do vosso campo — o meu coração.
6. Ora, nesta idade dos dezesseis anos, sucedendo-se um intermédio de ociosidade por me ver livre de todas as aulas devido a dificuldades domésticas, comecei a viver com meus pais76. Foi então que os espinhos das paixões me sobrepujaram a cabeça, sem haver mão que os arrancasse. Bem pelo contrário: meu pai, durante o banho, vendo-me entrar já na puberdade e revestido da adolescência inquieta, contou-o todo alegre, a minha mãe, como se tal verificação o fizesse saltar de prazer com a idéia de ter netos. Era uma alegria,
73Em 370. (N. do T.)
74Madaura, na Numídia (atual Argélia), aproximadamente a vinte e quatro quilômetros de Tagaste. que foi a terra natal de Santo Agostinho. Naquela cidade concluiu ele o curso de humanidades, ministrado por gramáticos oficiais. (N. do T.)
75Jogo de palavras: disertus e desertus. É freqüente em Santo Agostinho. Vejam-se também sartago (sertã) e Cartago (Livro III, cap. I). (N. do T.)
aliás, proveniente da embriaguez produzida pelo vinho invisível da sua vontade perversa e inclinada às coisas baixas — embriaguez com que este mundo esquece o Criador, para, em vez de Vós, Senhor, amar as criaturas. Porém, já tínheis começado a edificar em minha mãe o vosso templo e os fundamentos da vossa santa habitação. Meu pai era simples catecúmeno, recente ainda. Por isso, minha mãe, com tal nova, agitou-se, levada de piedosa perturbação e temor. Apesar de eu ainda não ser batizado, receou que enveredasse por caminhos tortuosos, por onde andam "os que Vos voltam as costas e não o rosto77".
7. Ai de mim! Como me atrevo a dizer que estáveis calado, quando continuamente me ia afastando de Vós! Guardáveis, porventura, silêncio diante de mim? De quem eram, senão de Vós, aquelas palavras que, por meio de minha mãe, vossa fiel serva, pronunciastes aos meus ouvidos? Nenhuma delas, porém, desceu ao meu coração, para cumprir o que ela me aconselhava. Lembro-me que, um dia, querendo que me abstivesse da luxúria e sobretudo não cometesse adultérios, avisou-me em particular e com grande solicitude.
Envergonhava-me de seguir tais conselhos, por me parecerem só próprios de mulheres. Porém eram vossos, e eu sem o saber! Julgava que nada me dizíeis, que só ela me falava; mas Vós dirigíeis-Vos a mim, por sua boca. Éreis desprezado na sua pessoa por mim, sim, por mim, pelo filho da vossa escrava, pelo vosso servo. Mas eu não sabia! Ignorante, precipitava-me tão cegamente que, entre os companheiros da minha idade, me envergonhava de ser menos infame do que eles. Ouvia-os jactarem-se de suas ignomínias, e tanto mais se gloriavam quanto mais depravados eram. Assim, praticava o mal não só pelo deleite da ação, mas ainda para ser louvado.
Que haverá mais digno de vitupério do que o vício? E eu, para não ser vituperado, fazia-me cada vez mais vicioso ! Se não cometesse pecado com que igualasse os mais corrompidos, fingia ter cometido o que não praticara, para que não parecesse mais abjeto quanto mais inocente, e mais vil quanto mais casto.
8. Eis os companheiros com quem andava pelas praças de Babilônia, revolvendo- me na lama, como em cinamomo e ungüentos preciosos. Para que mais tenazmente me agarrasse no meio desse lodo, o inimigo invisível calcava-me aos pés e seduzia-me, porque
era fácil de seduzir. A mãe da minha carne, que já "tinha fugido do meio de Babilônia78", mas que noutras faltas caminhava mais devagar, refletiu no que ouvira dizer a meu pai, e aconselhou-me a castidade.
Mas, apesar de não poder cortar de raiz esta paixão pestífera que mais tarde, como ela pressentia, me havia de ser perigosa, não procurou contê-la pelo afeto conjugai. Temia que o vínculo do matrimônio servisse de empecilho à esperança que de mim acalentava. Não temia que ele me impedisse a outra vida, pois esta colocava-a minha mãe unicamente em Vós. Receava que me prejudicasse no estudo das letras, com que, tanto ela como meu pai, desejavam ardentemente a minha celebridade: este, por não pensar quase nada em Vós e alimentar de mim vãs ambições; e minha mãe por julgar que estes tradicionais estudos literários não me causariam dano, antes ajudariam a aproximar-me de Vós. Assim era, julgo eu, segundo a lembrança, quanto possível exata, que faço do caráter de meus pais.
Ultrapassando até a medida da severidade, afrouxaram-me as rédeas no jogo e na dissolução de várias paixões. De toda essa miséria, ó meu Deus, elevava-se uma escuridão que me ocultava a luz serena da vossa Verdade. "A maldade como que brotava da minha substância79."