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A entrevista narrativa é considerada uma forma de entrevista não-estruturada, de profundidade, com características específicas, sendo particularmente útil no caso de projetos que investiguem acontecimentos específicos. Conceitualmente, a idéia da entrevista narrativa é motivada por uma crítica de entrevistas do tipo pergunta- resposta, nas quais o entrevistador impõe estruturas através da seleção de tema e tópicos, do estabelecimento da ordem das perguntas e da verbalização destas com sua própria linguagem (BAUER E GASKELL, 2002). Desta forma, a entrevista narrativa é vista como o meio através do qual se pode chegar a uma versão menos imposta e mais válida da perspectiva do informante. Nela, as regras de execução se restringem ao pesquisador, que deve ter influência mínima.

A entrevista narrativa é utilizada estimulando o entrevistado a contar a história sobre algum acontecimento importante de sua vida e do contexto social. O objetivo desta

técnica é reconstruir acontecimentos sociais a partir da perspectiva dos informantes, tão diretamente quanto possível (SCHÜTZE, 1977, apud BAUER E GASKELL, 2002).

Segundo Schütze (1977, apud BAUER E GASKELL), a narrativa segue um esquema auto- gerador, com três características principais:

a) Textura Detalhada: O narrador tende a fornecer tantos detalhes dos acontecimentos quanto forem necessários para tornar plausível a transição entre eles, dependendo do ouvinte (quanto menos o ouvinte conhece o assunto contado, mas detalhes serão fornecidos). A textura detalhada também se refere à proximidade da narrativa aos acontecimentos: dá conta do tempo, do lugar, dos motivos, dos pontos de orientação, dos planos, das estratégias e das habilidades.

b) Fixação da Relevância: De acordo com a sua perspectiva de mundo, o contador narra os aspectos do acontecimento que considera relevante. A explicação dos acontecimentos é seletiva e se desdobra em torno de centros temáticos que refletem o que o narrador considera importante.

c) Fechamento da Gestalt: um acontecimento central mencionado na narrativa tem de ser contado em sua totalidade, com começo, meio e fim.

O pressuposto da entrevista narrativa é que a perspectiva do entrevistado se revela melhor nas histórias onde o informante está usando sua própria linguagem. Contudo, é importante lembrar que a narração segue um esquema autogerador, estando formalmente estruturada em 5 fases: Preparação, Iniciação, Narrativa Central, Questionamento e Fala Conclusiva.

A Preparação corresponde à fase inicial na aplicação de entrevistas narrativas, na qual o pesquisador deve buscar uma compreensão preliminar do acontecimento principal, criando familiaridade com o campo de estudo. Para tanto, a preparação pode implicar em investigações preliminares, leitura de documentos e anotações de boatos e relatos informais sobre algum acontecimento específico. A partir deste conhecimento inicial, o pesquisador monta uma lista de perguntas exmanentes, que refletem seus interesses, formulações e linguagem. Essas perguntas devem ser traduzidas em questões imanentes (linguagem do pesquisado) e ancoradas à narração (BAUER E GASKELL, 2002).

No arranjo metodológico, esta aproximação é feita nas Visitas 1 e 2, que antecedem a aplicação da entrevista narrativa, e nas quais são firmados os contatos iniciais entre pesquisador e pesquisado, e realizadas as leituras espaciais, permitindo o conhecimento inicial do campo de investigação e uma aproximação com o objeto de estudo e com o pesquisado. As questões exmanentes devem ser elaboradas a partir da análise dos dados coletados na fase de preparação (Visitas 1 e 2), enfatizando os pontos relevantes para a pesquisa e aqueles que demandem uma melhor compreensão.

Ainda na etapa de preparação, elabora-se o tópico inicial da entrevista narrativa, que deve fazer parte da experiência do informante, ser de significância pessoal e social ou comunitária, ser suficientemente amplo para permitir ao informante desenvolver uma história longa que, a partir de situações iniciais, passando por acontecimentos passados, levem à situação atual, e não deve referir datas, nomes ou lugares, deixando que tais pontos sejam mencionados pelo informante, como parte de sua estrutura relevante (BAUER E GASKELL, 2002).

No caso desta pesquisa, o tópico inicial se refere à história da construção da casa, com o intuito de obter uma narrativa deste processo, através da qual possam ser percebidas as práticas utilizadas, as dificuldades enfrentadas e os aspectos relevantes da produção da moradia, a partir da perspectiva dos autoconstrutores.

A Iniciação é uma espécie de acordo que corresponde à explicação, em termos amplos, sobre o contexto da investigação; à solicitação de gravação da entrevista; e à explicação breve sobre os procedimentos da entrevista narrativa (narração sem interrupções, fase de questionamento, etc.). Em seguida, o tópico inicial é introduzido, a partir do qual deve ser desenvolvida a narração (BAUER E GASKELL, 2002). No entanto, no arranjo metodológico, alguns dos tópicos da iniciação são abordados já na Confirmação Inicial de Acordo V3. Assim, esta etapa é composta apenas pelas explicações referentes ao próprio instrumento da entrevista, sendo seguida pela introdução do tópico inicial.

A Narração Central se inicia a partir da introdução do tópico inicial, e corresponde à narrativa propriamente dita. Quando começa, não deve ser interrompida até que haja uma clara indicação de que a história terminou. Durante a narração, o entrevistador deve se abster de qualquer comentário, emitindo apenas sinais não verbais de escuta atenta e encorajamento explícito para continuar a narração hmm , sim , sei .

Durante a escuta, o entrevistador pode tomar notas para perguntas posteriores, se isso não interferir na narração. Quando o informante indicar o fim da história, pode-se investigar por algo mais: É tudo que você gostaria de me contar? ; (averia ainda alguma coisa que você gostaria de dizer? BAUER E GASKELL, .

Com o intuito de possibilitar ao pesquisador o máximo de concentração na narrativa desenvolvida pelo pesquisado, recomenda-se, no arranjo metodológico proposto, que não sejam tomadas notas nesta fase da entrevista. Isso é possível tendo em vista a realização, na visita posterior, de uma entrevista semi-estruturada. Desta forma, durante a transcrição da narrativa, o pesquisador pode apontar questões que necessitem um maior aprofundamento, e incluí-las no roteiro da entrevista semi-estruturada.

Os Questionamentos são iniciados quando a narração chega a um fim natural. É o momento em que as questões exmanentes, elaboradas na etapa de preparação, são traduzidas em questões imanentes, com o emprego da linguagem do informante, para completar lacunas da história. Os dados são registrados, além da gravação, em notas tomadas pelo pesquisador.

Para a realização dos questionamentos, Bauer e Gaskell (2002) indicam três regras básicas: não fazer perguntas do tipo por quê? , fazendo apenas perguntas que se refiram aos acontecimentos, como: O que aconteceu antes/depois/então? ; perguntar apenas questões imanentes, empregando somente as palavras do informante, podendo se referir tanto aos acontecimentos narrados quanto a tópicos do projeto de pesquisa; não apontar contradições na narrativa, evitando a investigação da racionalização.

Após a elaboração das questões, cria-se a ficha de entrevista narrativa com os tópicos dos dados que se deseja obter. Durante a narrativa, o pesquisador deve marcar na ficha os tópicos que são abordados ao longo da fala do pesquisado. Desta forma, a realização dos questionamentos poderá focar naqueles tópicos que não tenham sido abordados pelo participante. A ficha elaborada para esta pesquisa encontra-se no Apêndice A.

A Fala Conclusiva corresponde a uma conversa informal e descontraída no final da entrevista, após desligamento do gravador. De acordo com Bauer e Gaskell (2002), as informações aqui obtidas podem ser muito importantes para a análise dos dados e interpretação contextual da narrativa. Durante esta fase, o pesquisador pode fazer

perguntas do tipo por quê? e avaliar o nível de des confiança percebido no informante para interpretação da narração no seu contexto. As informações são registradas em um diário de campo, sintetizando os conteúdos dos comentários informais, imediatamente após a entrevista.

As narrativas devem ser analisadas a partir do esquema autogerador apontado por Schütze (1977, apud BAUER E GASKELL), por meio da identificação da textura detalhada, da fixação da relevância e do fechamento da gestalt. Cada um destes tópicos produz uma categorização, conforme apresentado no Quadro 03.

Quadro 03 – Categorização dos tópicos do esquema autogerador da narrativa.

Fixação da Relevância Identificação dos aspectos e fatos presentes na narrativa, que correspondem ao que o pesquisado considera relevante.

Textura Detalhada

Hierarquização dos fatos narrados pelo maior ou menor detalhamento. Identificação de tempos, lugares, motivos, pontos de orientação, planos, estratégias e habilidades.

Fechamento da Gestalt Identificação do começo, do meio e do fim da narrativa.

Fonte: Produzido pela autora.

Além da análise pelo esquema autogerador, devem ser observadas as dimensões cronológica e não-cronológica da entrevista narrativa, apontadas por Bauer e Gaskell (2002). A primeira se refere à sequência dos episódios contados, e a segunda corresponde à configuração de um enredo , sendo este crucial para a constituição de uma estrutura narrativa, pois é através dele que pequenas histórias, dentro de uma história maior, adquirem sentido. Desta forma, a análise da dimensão cronológica informa a ordem seqüencial dos acontecimentos do processo de produção da moradia, enquanto que a partir da dimensão não-cronológica são percebidas as inter-relações entre os acontecimentos seqüenciados anteriormente. O roteiro para a aplicação da entrevista narrativa encontra-se no Apêndice A.