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6. Simulation of the Panabaj lahar with the program RAMMS

6.2 Program characteristics

A princípio eles têm preguiça, assim, eles começam com aquela preguiça de não gostar de ler. Aí eles começam a gostar. É por isso que eu gostei de trabalhar com esses livrinhos, mesmo nas séries mais avançadas, porque são linguagens simples. Como são adaptações, então eles começam a gostar. (...) Olha, tem alunos que, por exemplo, assim, eles vêm, e eles não têm, quase que não têm pré-requisito nenhum. Eles lêem muito pouco, são semi- alfabetizados. (P5pb)

A professora da escola pública identifica os alunos como preguiçosos, afirmando que “eles começam com aquela preguiça de não gostar de ler”. Com essa expressão, ela faz uma dupla negação do lugar leitor do aluno. A sintaxe mais usualmente comum dessa oração poderia ser: “aquela preguiça de ler” – o que seria a primeira negação da leitura; mas a professora usou “preguiça de não gostar de ler” – negando a leitura pela segunda vez, o que pela lógica a transformaria em afirmação, mas que nessa formação discursiva pode funcionar como elemento fortalecedor da negação.

Na seqüência, a professora revela que a chave transformadora da não-leitura dos alunos é a sua atuação. Ela conseguiu êxito ao escolher livros com “linguagem fácil”, versões adaptadas de livros clássicos, uma vez que, em sua concepção, os

alunos “não têm pré-requisito nenhum, eles lêem muito pouco, são semi- alfabetizados”.

Configura-se, mais uma vez, o quadro de inépcia do aluno e eficiência do professor. Somente a facilitação da tarefa de ler é capaz de propiciar a prática da leitura. Antes dela, não há leitor, não há leitura.

Vejamos agora um excerto do depoimento da outra professora:

Alguns alunos têm alguma resistência, ou porque têm dificuldade de ler, ou por que têm essa cultura: “ah, eu não gosto de ler, eu não leio”. (P5pv)

A professora da quinta série identifica o contraponto da leitura (como prática instituída) ao admitir que “alguns alunos têm alguma resistência” à atividade. Ao dizer que são “alguns alunos”, ela remete à idéia de que para os outros a leitura é um hábito – ou seja, sua tarefa está cumprida porque desenvolve essa prática. Ela assume que há resistência, entretanto, o faz de modo eufêmico, adjetivando a expressão com o substantivo “alguma”.

No próprio sentido de resistência está formulado o jogo de oposições. Vejamos as acepções do termo segundo o dicionário Houaiss (2001, p. 2438):

Ato ou efeito de resistir; 1. qualidade de um corpo que reage contra a ação de outro corpo; 2. o que se opõe ao movimento de um corpo, forçando-o à imobilidade; 3. capacidade de suportar a fadiga, a fome, o esforço; 4. recusa de submissão à vontade de outrem; oposição, reação; 5. luta que se mantém como ação de defender-se; defesa contra um ataque; 6. reação a uma força opressora; 7. qualidade de quem demonstra firmeza, persistência; 8. aquilo que causa embaraço, que se opõe; 9. força que anula os efeitos de uma ação destruidora.

Destaquemos dentre as acepções, a de número 4: “recusa de submissão à vontade de outrem”. Se há resistência, há uma força em direção contrária. Dessa maneira, a professora reforça a idéia de leitura como prática instituída, pois reconhece

seu contraponto. Para ela, a resistência justifica-se pela dificuldade dos alunos ou pelo hábito de não ler. Essa idéia se fortalece na medida em que ela diz que “não ler” é uma “cultura”. Para fundamentar sua afirmação, corrobora-a com a citação direta da fala de um dos alunos, incorporando-a para seu discurso: “ah, eu não gosto de ler, eu não leio”, oferecendo, assim, um intercâmbio de vozes bastante instigante sobre os mecanismos da leitura.

Iniciemos nosso raciocínio pela acepção do termo “cultura” encontrada no dicionário32:

1. o cabedal de conhecimentos, a ilustração, o saber de uma pessoa ou grupo social; 2. Rubrica: antropologia. conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes etc. que distinguem um grupo social; 3. forma ou etapa evolutiva das tradições e valores intelectuais, morais, espirituais (de um lugar ou período específico); civilização; 4. complexo de atividades, instituições, padrões sociais ligados à criação e difusão das belas-artes, ciências humanas e afins33.

Ao afirmar a “cultura do não ler”, a professora nos remete à primeira acepção do termo: cabedal de conhecimentos. Na atualidade, principalmente considerando a escolarização, âmbito em que foi realizada nossa pesquisa, o cabedal de conhecimentos de uma pessoa relaciona-se ao seu desempenho em leitura. Dessa maneira, a expressão da professora gera um certo estranhamento, pois liga pólos antagônicos: “ter cultura” e “não ler”. Na seqüência dessa definição, na rubrica antropologia, reconhece-se no significado de “cultura” a idéia de grupo social, a qual revelaria a existência de um determinado clã daqueles que não lêem.

Por último, destaca-se a voz do próprio aluno, enunciada como discurso indireto livre pela professora “ah, eu não gosto de ler, eu não leio”. A ênfase na negação do aluno, duplicada na expressão da professora, é mais um elemento a ratificar tanto a

32 Transcrevemos apenas as acepções gerais ou com rubrica da antropologia por entendermos que acepções ligadas à agricultura e outras rubricas não contribuiriam para nossa análise.

ação da professora, pois dessa frase deriva a idéia de que se os alunos que não lêem, não se trata de inabilidade dela, mas de algo intrínseco a eles, próprio da cultura deles. Quanto à eficiência da leitura como prática instituída, ratifica-se a sobrepujança da leitura, uma vez que só há sentido em negar algo que seja palpável.

Assim, por esse excerto conclui-se que a estratégia de construir o lugar alheio acaba por definir o próprio lugar e o lugar da leitura. O professor se define como promotor da leitura; o aluno é aquele que, mesmo pelo avesso, revitaliza a leitura como instituição; sendo esta a grande beneficiada, por mostrar-se vívida.