1. Introduction
1.4 The Evaluation Object – Norway’s International Climate and Forest Initiative (NICFI)
1.4.6 History of NICFI in Indonesia
A originalidade de João de São Tomás está em ter, pela primeira vez, encarado a semiótica como uma problemática autónoma da qual todos os outros tipos de conhecimento dependem. Mesmo as modelizações e recolecções ordenadas de dados experienciais mais básicas dependem de processos de semiose que não são exclusiva- mente humanos. No caso da organização e modelização de exper- iências sensório-motoras, são os signos formais que proporcionam a sua possibilidade mesma, enquanto o domínio da intersubjectivi- dade e comunicação vital para as experiências humanas gregárias, e para a constituição de domínios que nos são tão caros quanto a história, ciência e arte, se rege pela utilização de signos instrumen- tais que o sujeito descodifica e formaliza de forma mais ou menos adequada.
Nos fenómenos semióticos radica assim a possibilidade de in- teragir com o mundo de forma bem sucedida e, já num patamar su- perior de percepção, de confrontar esses modelos com os de outros sujeitos, constituindo redes semióticas que, ao revelarem-se ade- quadas e formalmente constituídas dentro dos mesmos princípios, permitem a comunicação e a abertura do indivíduo para o exte- rior e para uma intersubjectividade que se escora em modelizações objectificadas que retiram a sua existência de processos ‘semiósi- cos’ conscientes e inconscientes, realizados com vista a uma inter- acção que não tem, primariamente, por fim, comunicar, mas antes um sentido muito mais vital de sobrevivência e adaptabilidade. O primeiro patamar onde os processos semióticos funcionam é o da
interacção com o mundo e o real, sendo que os fenómenos comu- nicativos podem até ser encarados como uma mera consequência destas estratégias adaptativas, comuns a toda a vida.
O rasgo de génio que alimenta todo o Tratado dos Signos de João de São Tomás foi ter compreendido que a Lógica precisava recuar para um ponto anterior ao que era o tratamento habitual dado a esta ciência, análise dos termos e proposições, das cate- gorias e tipos de raciocínio que estão acessíveis ao humano. Este recuo a um primitivo grau zero do saber, espécie de Génesis das estratégias organizativas do mundo que – defendem-no alguns au- tores13– desembocaram concomitantemente ou acidentalmente nas formas elaboradas de comunicação que caracterizam a interacção humana é o que de mais precioso e novo o Tratado dos Signos tem para oferecer. Daí que a frase "et in universum omnia instru- menta quibus ad cognoscendum et loquendum utimur, signa sunt, ideo, ut logicus exacte cognoscat instrumenta sua, oportet quod etiam cognoscat quid sit signum" constitua o cerne do ambicioso programa de estudos que orienta a minuciosa exploração das reali- dades sígnicas do Tratado , ao mesmo tempo que funda a tomada de consciência do carácter propedêutico da semiótica relativamente a todas as outras ciências.
O facto de um trabalho de ambição e fôlego tão vastos se ter iniciado no século XVII pela mão de um português, tendo depois esta constatação do carácter originário e fundador da semiótica sido ciclicamente retomada por outros autores14, levanta questões de al- cance epistemológico que transcendem largamente os limites do próprio De Signis e das descobertas que João de São Tomás aí faz.
A dar corpo hoje aos princípios epistemológicos que regulavam, intrinsecamente e de forma não explicitada, o trabalho dos autores
13Nomeadamente Thomas Sebeok, que se notabilizou pelos seus trabalhos de Zoosemiótica, onde explora precisamente estas vertentes dos processos semióti- cos.
14 É o caso, por exemplo, de Locke, Peirce e Saussure, como pode ser con- statado no presente trabalho.
medievais, obter-se-iam modelos de enormes potencialidades. A Revelação – e este ponto é claríssimo no trabalho de João de São Tomás – funciona como uma axiomática que oferece parte do con- junto de princípios dos quais podem ser deduzidos os elementos que compõem um sistema, seja filosófico, teológico ou metafísico.
Os axiomas têm portanto capacidade para funcionar como ar- gumento de demonstração, e pode recorrer-se a eles, sem temer o vício de circularidade, para justificar um raciocínio ou, simples- mente, solucionar um problema, que poderá conhecer qualquer resposta, excepto uma que contrarie os axiomas inicialmente da- dos. Este tipo de raciocínios, a assunção inconsciente de uma ax- iomática, ocorre frequentemente em João de São Tomás quando, por exemplo, propõe um argumento, provando-o em seguida sim- plesmente por o aplicar às pessoas divinas, ao demonstrar que qual- quer outro tipo de conclusão seria herética15 ("Hac ratione utitur saepe D. Thomas aliamque indicat [...] petitam ex relationibus divi- nis, quae in quantum distinguuntur inter se realiter, a parte rei dan- tur, alioquin non distinguerentur realiter personae relativae, quod esset haereticum".).
Incarnando Deus a Verdade e o Bem, este tipo de modelos, a que João de São Tomás chama "mais conformes à verdade"16
e que gozam das condições para se encontrarem mais próximos dela constituem-se como uma tímida prefiguração do relativismo
15 Tal sucede, por exemplo, na p. 109 do Tratado dos Signos, quando João de São Tomás explica que é impossível falar apenas de relações secundum dici, porque isso seria antinómico com o que sucede em Deus – a crença na existência de relações divinas leva à sua assunção no real: "Esta razão é muitas vezes usada por S. Tomás, e indica outra [...] retirada da crença na existência de relações divinas, que enquanto se distinguem entre si, são dadas realmente da parte das coisas; de outro modo, as pessoas relativas não se distinguiriam realmente, o que seria herético".
16Tomás, João de São, "O tomismo indefectível de Frei João de São Tomás", in Gonçalves, António Manuel, in Antologia de Estudos sobre João de Santo Tomás, p. 88, org. de Gomes, Pinharanda, Edição do Instituto Amaro da Costa, 1985, Lisboa.
epistemológico defendido por Popper e Kuhn e transposto até aos seus limites mais improváveis por Pierre Lévy, para quem
"[Actualmente...] as teorias cedem terreno aos modelos. Na maior parte dos casos, um modelo não é verdadeiro nem falso, nem mesmo testável. Revela-se apenas mais ou menos útil, mais ou menos eficaz ou pertinente. O declínio da verdade crítica não significa portanto que a partir de agora se aceitará seja o que for sem análise, mas que nos encontraremos perante modelos mais ou menos pertinentes[...]"17.
A peculiaridade de um modelo desta ordem é, abrindo-se à refutação, orientar-se em direcção às verdades eternas incarnadas por Deus, no caso de João de São Tomás, ou, para um positivista laico, em relação a configurações que capturem e exprimam de forma mais adequada a estrutura ontológica do real. Os paradig- mas e a mundividência com que tais modelos se encontram com- prometidos estão, necessariamente, vinculados a uma diversidade que tem a sua origem nos pressupostos básicos de cada um, sendo a razão comum que os une uma questão de percurso – via ad veri- tatem.
Claro que assim constituído o conhecimento tem o seu calcan- har de Aquiles, mas também a sua pujança e fecundidade, na plas- ticidade e fragilidade intrínseca que o caracterizam.
A relativização da noção de progresso é a consequência natu- ral do jogo de forças estabelecido entre estes factores, que se ali- mentam da tensão mútua e obrigam a questionar a oportunidade e eficácia de cada nova teoria.
O De Signis terá sido, muito provavelmente, a primeira abor- dagem sistemática da problemática semiológica, onde toma corpo uma tentativa fundamentada de estabelecer uma topologia das di- versas espécies e qualidades de signos, clarificando o seu funciona- mento nas vertentes sintáctica, semântica e pragmática.
Que tão ambicioso projecto tenha sido, durante séculos, votado ao esquecimento, e para mais, sendo a sua temática objecto de
sucessivas redescobertas por parte de outros pensadores, só vem colocar de novo com mais acuidade a questão da fragilidade do conhecimento humano e a noção de progresso em Filosofia.