4. Green Resources
4.1 History, investors and business profile
Praia Grande é uma das comunidades de remanescentes quilombolas do Vale do Ribeira, dentre outras dezessete reconhecidas até hoje. Situa-se a sudoeste de Iporanga (uma das cidades do Vale no extremo sul do estado de São Paulo). Antes de ser titulada, Praia Grande já era conhecida por esse nome, como um dos bairros rurais de Iporanga que margeiam o Rio Ribeira do Iguape.
Vale do Ribeira, segundo o documento Olhares Cruzados – visões e versões sobre a vida, o trabalho e o meio ambiente do Vale do Ribeira, produzido pelo Instituto Sócio-ambiental (ISA), é um nome metafórico para uma grande região que inclui vários municípios em áreas interioranas e litorâneas. A antropóloga do Instituto de Terras do Estado de São Paulo (ITESP) responsável pelo Relatório Técnico- científico (RTC) sobre a comunidade escreve: “[...] razões históricas, dificuldades de acesso e condições naturais adversas às atividades econômicas garantiram até hoje um relativo isolamento do Vale e a preservação dos recursos naturais.” (ITESP, 2002: 13)
A formação da cidade de Iporanga e do bairro de Praia Grande tem um cruzamento histórico que remete a uma face de um holograma da formação histórica de diversas cidades brasileiras: a invasão dos colonizadores destrói e assimila a cultura indígena, segue trazendo os negros africanos para a escravidão pelo trabalho. Os negros, fugidos ou libertos, encontram resquícios de populações indígenas, trocando também padrões de sua cultura. Em meio a tal processo conturbado, europeus, indígenas e negros geram, juntos, um terceiro elemento, uma cultura entrelaçada e contraditória, que é o substrato da formação cultural brasileira. Pequenas vilas que mais tarde se transformam em cidades são fundadas a partir desse “encontro”, talvez melhor descrito como encruzilhada, como elabora Leda Maria Martins:
Na tentativa de melhor apreender a variedade dinâmica desses processos de trânsito sígnico, interações e interseções, utilizo-me do termo encruzilhada como uma clave teórica que nos permite clivar as formas híbridas que daí emergem (cf. Martins, 1995). A noção de encruzilhada, utilizada como operador conceitual, oferece-nos a possibilidade de interpretação do trânsito sistêmico e epistêmico que emerge dos processos
inter e transculturais, nos quais se confrontam e se entrecruzam, nem sempre amistosamente, práticas performáticas, concepções e cosmovisões, princípios filosóficos e metafísicos, saberes diversos, enfim. (MARTINS, 2003: 70).
Segundo o RTC do ITESP, a ocupação da região de Iporanga teria se iniciado por volta de 1531, dizimando territórios indígenas. Os primeiros registros da exploração de ouro nesses territórios são de 1576, quando se forma o Garimpo de Santo Antônio. Até o declínio do ciclo do ouro paulista (pela descoberta das Minas Gerais), a proibição do tráfico negreiro (1850) e a Leia Áurea, sucessivas fugas de negros e compras de liberdade teriam ocorrido. Dizem esses documentos e os depoimentos dos moradores que tais negros fizeram muitas incursões para o sertão – “rio-acima” ou mata adentro. O termo sertão é muito utilizado na literatura sobre o assunto, mas, além disso, é palavra corrente ainda hoje entre os moradores da comunidade, referindo-se, sobretudo, a bairros ou “capuavas”, “matos”, para os quais não há acesso por estradas, mas somente por rio ou trilhas. A região de Praia Grande, naqueles tempos, era considerada sertão, visto que só poderia ser alcançada a pé, por matas ainda mais fechadas do que as de hoje, ou por canoas de madeira, a remo. Hoje o trajeto ainda é realizado por algumas canoas, mas também pelos barcos a motor, facilitando o percurso; mesmo assim, são recorrentes as histórias de acidentes e mortes no rio.
A ocupação legal do território hoje pertencente à Praia Grande teria ocorrido por volta de 1860, quando também se deu a compra das terras após o fim da escravidão. “A presença indígena se tornou referência para as comunidades do Vale, principalmente para as populações negras que se apropriaram dos conhecimentos indígenas sobre relevo, técnicas de pesca e agricultura itinerante.” (ITESP, 2002: 15). As primeiras famílias a ocuparem o território, os Corimba e os Moura, iniciaram lavouras domésticas, pequenas manufaturas de arroz, feijão, farinha, rapadura e cerâmica (esta última só possui vestígios atualmente), além de criações de animais, que até hoje são a base da subsistência da maioria das famílias no bairro. Nos tempos antigos, já havia o escoamento do excedente de produção do bairro para a cidade de Iporanga e localidades no Paraná, cuja fronteira está bem próxima. Atualmente, tal escoamento ainda ocorre, mas com dificuldade muito maior do que a documentada historicamente no RTC, provavelmente pelo
relativo crescimento, facilidade da comunicação e comércio de Iporanga com outras cidades da região sul do estado.
Pessoalmente, cheguei às comunidades quilombolas do Vale do Ribeira por meio de um cartão de visitas da Secretaria de Turismo de Iporanga. Visitando a feira de artesanatos do evento “Revelando São Paulo” em 2003, conheci algumas mulheres da comunidade de Ivapurunduva (Eldorado) e, naquela ocasião, guardei o cartão, curiosa pela possibilidade de conhecer essa região e entender o que seriam exatamente tais “comunidades de remanescentes quilombolas”. Em 2006, com o projeto de pesquisa aprovado, usei aquele mesmo cartão para tentar o contato com a Prefeitura de Iporanga e pedir autorização e auxílio para conhecê-las. Funcionários da prefeitura, bem como alguns moradores da Praia Grande, viram na parceria de pesquisa um braço a mais para a elaboração de projetos e busca de recursos materiais para a implementação de ações de “desenvolvimento” para a comunidade ou para a região, considerada a mais pobre do estado de São Paulo. Nesse eixo, cuja reflexão poderia gerar outra pesquisa de igual profundidade, se constituiu um dos acordos da relação: eu os ajudaria na escrita de projetos enquanto realizasse o estudo para o mestrado, cujo tema, ainda hoje, parece soar um pouco abstrato para o grupo. Com a convivência, o aspecto que mais se esclareceu para o grupo foi o fato de eu estar investigando aspectos da cultura e da tradição em Praia Grande e menos especificamente o conceito de cultura corporal.
A primeira visita ao Vale do Ribeira enche os olhos de qualquer viajante. Os recortes do relevo desvelam a presença exuberante da Mata Atlântica, rara no Brasil devastado da atualidade. Evoco o assombro, de deleite e espanto, que tais paragens devem ter causado aos primeiros europeus que dele se aproximaram. Somado a isso, minha primeira visita a Praia Grande, que motivou fortemente minha escolha, foi regalada pela coincidente realização de uma romaria. Uma família pagava uma promessa pelo retorno da saúde de seu neto, com uma novena e uma noite de danças para São Gonçalo – esse conjunto de atividades é que é denominado romaria.
Alguns moradores e seus parentes já estiveram ou estão em cidades maiores do estado de São Paulo ou do Paraná, em busca de outras formas de sobrevivência. A saída do bairro é uma das oportunidades marcantes, observo, para que haja um movimento de ressignificação de sua própria história e de seus territórios. Assim fala
Dona Clotilde (Tia Tide), uma das anciãs da comunidade, sobre sua experiência de mais de dez anos em São Paulo:
Eu gostei de morar em São Paulo... Eles queria que eu ficasse, eu que não quis. Não quis ficá por causa que... (...) porque achei que na casa da gente é a coisa mais mior, né; não tem nada que na casa da gente... Pode tê a maior beleza, né, na casa dos outro, porque, tudo mundo dizia: “Ah! Você não vai acostumá... Onde é que já se viu... acostumá naquele sitião de vocês, naquele matão lá, nessa casa chique que você véve...”, né. Casa chique, mas não é nada meu... ih (risos). Eu falava preles, né, casa chique, mas não é nada meu... Eu vim embora mesmo. Me acostumei fácil... Trabalhava na roça bem mesmo. (Tia Tide)2
Um dos filhos de Dona Dejair, empregado numa cidade próxima, em uma visita a Praia Grande me contou que conhece amigos que saíram da comunidade para encontrar o alcoolismo e a morte em outras cidades, nessa busca por trabalho e por experiências diferentes da vida rural do sítio. Em qualquer caso, as idas e vindas ao bairro ou uma saída definitiva são movimentos que engendram a formulação de outras percepções dos moradores sobre sua própria história, na comunidade e fora dela. Como afirma C. Greiner (2005), os elementos que estão à margem, que são desconhecidos, são o fundamento para o movimento, para a reorganização do sistema já constituído (corporal, cultural, histórico). Este será um aspecto relevante para a reflexão sobre o próprio conceito de educação corporal que estou buscando formular e será abordado mais adiante no trabalho.
O relativo isolamento do Vale, citado há pouco, se agrega ao relativo isolamento do próprio bairro de Praia Grande, pelos cinqüenta minutos de barco que o separa de Iporanga. Um modo de vida rural e de séculos passados, as casas de pau-a- pique ou de madeira, os tráfegos de farinha, as cozinhas de teipa3 separadas da casa, os animais de terreiro soltos nos quintais e, por vezes, nas cozinhas, convivem sistematicamente com os rádios a pilha ou elétricos (alimentados por poucas placas solares), os fogões a gás, as imagens de cantores atuais nas paredes e outros objetos da sociedade de consumo contemporânea. Eles atualizam a interação e apropriação, que sempre ocorreu, entre o bairro e a cidade. O contexto ambíguo se torna oportuno para o historiador benjaminiano – passado e presente estão tramados pelos moradores num complexo tecido; a observadora “externa” é
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Transcrição de entrevista realizada em 03-07-07.
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convidada cotidianamente a fazer o movimento proposto por Benjamin: explodir o continuum da história para repensar e ressignificar o presente (BENJAMIN, 1994).
A convivência, gradativa e esparsa, com Praia Grande foi um dos aspectos mais desafiantes da pesquisa, pois ela se soma à ocupação esparsa que o grupo faz do território, o que gerou uma sensação constante de dispersão. Cada viagem era como um recomeço, ainda que alguns laços tenham se estreitado a cada reencontro. Também chamam a atenção nesse contexto as possibilidades e impossibilidades da sobrevivência de um senso de grupo ou de comunidade no bairro. Além da complexidade teórica envolvida nesse debate (antropológica e sociológica, por exemplo), há essa dimensão concreta, da geografia territorial e humana da Praia Grande.
Conheci o bairro após a titulação como remanescentes quilombolas. A palavra comunidade, com seus desdobramentos, circula nas bocas de alguns moradores, sem que eu tenha conseguido nesse tempo perceber os limites entre um linguajar local e a fabricação de um discurso introduzido e relido ou conveniente para ser utilizado na atualidade. Ainda assim, é interessante destacar, independentemente da utilização feita pelo grupo dessa palavra, que há uma rede de laços de parentesco, trocas simbólicas, de bens e serviços que transpõe a distância e dispersão dos moradores, por vezes mergulhados durante semanas nos trabalhos agrícolas familiares, e os reúne física e culturalmente, construindo o espaço propício para que eu os veja como uma comunidade – no sentido de um grupo que partilha de certos entendimentos sobre o mundo, de reciprocidades e vínculos que são o ponto de partida de sua experiência (BAUMAN, 2003).