José Alberto Moraes e sua esposa Antonina Linhares Moraes, juntamente com quatro de seus filhos, resolvem criar a LIBEL LINHARES DISTRIBUIDORA DE BEBIDAS LTDA, na cidade de Rosário, à Rua General Lott, s/n, Centro, no Estado do Maranhão, em 23 de outubro de 1991.
Sob a gerência de seus fundadores, a LIBEL assina um contrato de fidelidade com a cervejaria BRAHMA, uma das melhores cervejas do mercado.
Como o marido possuía muitas atividades comerciais, além da distribuidora, quem tomou a frente dos negócios foi sua esposa, Dona Antonina, que durante 13 (treze) anos gerenciou o empreendimento e, nesse período, conquistou muitos clientes dentro e fora da cidade de Rosário.
A comerciante gostava de manter tudo sobre sua própria liderança e considerava sua capacidade de atrair clientes como uma de suas principais armas para combater seus concorrentes. A sua integração com a empresa da qual seria distribuidora já era antiga, pois já comercializava seu produto há muito tempo.
Essa característica da fundadora é comum a grande parte de empreendedores, que pensam em crescer e aumentar o patrimônio familiar. Para Junior e Vasconcelos, em artigo da Revista Portuguesa e Brasileira de Gestão (julho/2004), o empreendedor é uma pessoa que vê oportunidades onde ninguém mais vê, que tem muita força de vontade de realização, é persistente, perseverante, procura sempre se auto-superar e sempre está inserido na sociedade em que atua, como forma de legitimar sua posição social e sua reputação.
Mesmo com os filhos já adultos, preferiu gerenciar o empreendimento sozinha, visto que via, em si, as melhores qualidades para administrar o negócio; e assim foi a administração da LIBEL, durante os 13 anos, datados de sua fundação.
Verifica-se, aí, que a flexibilidade da organização nesses treze anos, foi muito restrita ou quase nula, visto que todas as decisões eram tomadas por uma única pessoa e sem a participação de outros membros da família ou mesmo de funcionários da empresa. Segundo Adizes (1998), as organizações manifestam-se na inter-relação entre dois fatores: a flexibilidade e o controle. Na LIBEL, durante essa fase, a fundadora exerceu um rígido controle, que se sobrepôs à flexibilidade, na maior parte de sua trajetória.
Apesar de muitos não acreditarem na gestão da matriarca da família, pois pensavam que o negócio não poderia tomar grande vulto devido a curta escolaridade da empresária, que possuía apenas a 4ª série do primeiro grau, o passar dos anos provou o contrário e, a cada período, a empresa crescia mais no
mercado rosariense e cidades adjacentes, como Bacabeira, Morros , Axixá, Presidente Juscelino, Humberto de Campos, Icatu, Primeira Cruz, Cachoeira Grande e Santo Amaro.
Essa dúvida, em relação à capacidade de gerenciar uma empresa, devido ao grau de escolaridade, é resultado de algumas pesquisas, como a do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro (24/11/2005) que aponta, como problema do empreendedorismo, no Brasil, a formação educacional dos empreendedores, pois apenas 14% têm formação superior e 30% sequer concluíram o ensino fundamental, enquanto que, nos países desenvolvidos, 58% dos empreendedores possuem formação superior. Quanto mais alto for o nível de escolaridade de um país, maior será a proporção de empreendedorismo por oportunidade.
Isso, no entanto, não significa dizer que uma empresa administrada por alguém, com baixo grau de instrução, não possa sobreviver, visto que se tem que considerar que a experiência é uma ferramenta essencial para o gestor. Sabe-se, por outro lado, que utilizar dispositivos disponíveis no mercado, como estratégias e inovações, podem dinamizar, ainda mais, o processo de desenvolvimento organizacional.
No início, a Srª. Antonina contava com um pequeno número de funcionários, divididos em funções como: ajudantes, estoquistas e motoristas e com um sistema de transportes um pouco deficiente. Com o crescimento das vendas, passou a contar com um número maior de empregados e com crescimento da frota de transportes.
O crescimento das vendas e o aumento do número de empregados, oriundos do crescimento da empresa, levavam na um estágio mais estável, porém a administradora preferiu continuar sozinha, à frente da empresa, o que vai contra o proposto por Adizes (1998), o que enfatiza que com o alcance do equilíbrio após as fases da infância e do toca-toca, pelas quais a LIBEL havia passado, o gestor precisa compreender que a empresa é maior que ele, devendo submeter-se à empresa e não ela a ele, além disso, deve seguir normas que possam trazer à
organização um caráter profissional, segundo o autor ,a fase da delegação de autoridade.
A partir de entrevistas com funcionários fundadores, pôde-se verificar que muitos foram os funcionários, que se afastaram da LIBEL, por falta de espaço e chances de crescimento na empresa. Na verdade, o aumento de funcionários não acarretou o surgimento de novas funções, como mostrado anteriormente. Essa falta de oportunidade de crescimento, durante a gestão da fundadora, talvez tenha sido um dos principais motivos responsáveis pela presença de apenas dois funcionários, da época da fundação empresa.
Essa postura da empresária, em relação às oportunidades que oferece a seus funcionários, é comum a grande parte de empreendedores. Conforme LODI (1989), tal situação acontece, pois, no início, os donos abrem e fecham as portas da firma, conversando com cada cliente e fornecedor. Mesmo quando a empresa inicia seu crescimento e as tarefas começam a ser divididas com os filhos, conservam a idéia de que continuam, são responsáveis por tudo e desejam que seus filhos sejam iguais a eles. Isso dificulta a participação de profissionais, de fora da família, na administração do grupo.
De origem simples e com a atividade comercial nas veias, a empresária acreditava muito na sobrevivência do empreendimento, através da utilização de técnicas utilizadas durante seus anos de comércio. Uma das técnicas mais antigas era propaganda “boca-a-boca”. Julgava que, pelos anos de comércio e com a clientela que possuía, poderia sobreviver.
Talvez, segundo suas filhas, acreditasse que já havia alcançado resultados máximos na Distribuidora de Bebidas Linhares e não apostava muito na inserção de um marketing mais ofensivo para que esses resultados pudessem aumentar.
A tecnologia era algo do qual a distribuidora não fazia uso, pois a entrada de novas técnicas, com certeza, exigiria a entrada de novos empregados e a
delegação de poderes a eles, já que a proprietária não possuía as habilidades necessárias para utilização desses métodos.
O período em que Dona Antonina esteve presente, no comando da empresa, foi de extrema importância para a sobrevivência do negócio, como se poderá verificar no decorrer deste estudo.
Segundo as filhas da proprietária, a Srtª Iellen Linhares Moraes e a Srª Hulda Linhares Moraes, Dona Antonina nunca admitiu que seus filhos ou marido estivessem diretamente ligados à empresa, ou seja, não houve uma preocupação, por parte da fundadora, em orientar seus herdeiros na realização das atividades da empresa , em busca de identificar um melhor sucessor para os negócios.
Muitos autores tentam explicar o porquê de a maioria dos fundadores não tratarem do assunto da sucessão. Segundo Levinson (apud ÁLVARES, 2003), para o empreendedor, os negócios são como uma parte própria deles, um meio de realização e satisfação pessoal, indo mais além do que a empresa, em seu sentido formal.
Segundo SEBRAE/ES (2006), preservar o patrimônio construído ao longo da vida e, ao mesmo tempo, manter a unidade familiar na hipótese de sucessão, não é uma tarefa impossível. Depende muito da postura do empresário, chefe da família. Não são raras às vezes em que o assunto "sucessão" é propositalmente evitado ou protelado pelo empresário, deixando que a definição sobre o controle dos negócios seja tomada pelos próprios herdeiros, no decorrer do processo de inventário.
Acometida por uma grave doença, a fundadora da empresa precisou se deslocar para São Luís, capital do Estado, onde foi assistida no Hospital Aldenora Bello, referência no tratamento do câncer na região. Nesse período, precisou da presença constante de suas filhas Hulda e Iellen, que a acompanharam durante todo o período da doença.
Com a saída da fundadora, uma de suas filhas, a Srª. Ana Maria, precisou assumir a empresa, visto que a continuidade dos negócios era fundamental.
Mesmo sem a menor intimidade com os negócios da empresa, a nova gestora conseguiu manter a empresa equilibrada durante os 8 (oito) meses em que sua mãe encontrava-se em tratamento.
Essa entrada repentina nos negócios da família, sem prévio conhecimento do funcionamento da empresa, é dos mais apontados erros observados nas empresas familiares, como defende Moreira Júnior, em artigo da Revista View Magazine (julho/2004), onde enfatiza que se em algum momento da empresa, algum membro mostrar-se interessado em assumir o cargo do fundador e contar com o apoio dos demais, deverá passar por um período de experiência, dentro da empresa e, ainda, que o ideal seria que o primeiro contato desse sucessor com a empresa acontecesse com a presença do sucedido, que seria uma espécie de conselheiro para o futuro gestor.
Em agosto de 2004, morre Antonina Linhares Moraes, aos 68 anos de idade.