2.2.1- Osteocalcina
A osteocalcina ou proteína ácido carboxiglutâmico óssea é uma pequena proteína de 46 a 52 aminoácidos arranjados em uma simples cadeia peptídica na matriz extracelular mineralizada do tecido ósseo, dentina e cementum (POSER et al. ,1980; GUNDBERG et al., 1984; MENDE et al., 1984; HAUSCHKA, WIANS, 1989). Sua função no tecido ósseo ainda não está elucidada, embora sua estreita associação com a fase mineral, indica algum papel no processo de mineralização (NICODEMO, 1997).
A osteocalcina é a mais abundante proteína não colagenosa do corpo e é um específico marcador de atividade osteoblástica; trabalhos realizados indicaram que o aumento da osteocalcina estava relacionada com uma nova síntese óssea, o que foi relatado por WILKENS et al. (1996) em trabalho realizado em cães.
Os valores publicados para níveis de osteocalcina no soro ou plasma mostraram ampla variação dentro e entre espécies; NIELSEN (1994) cita valores de 1 a 100 ng/ml no plasma de seres humanos, dependendo da idade e teste. Altos níveis foram relatados em ratos jovens, 120 a 620 ng/ml no soro (PRICE et al., 1980a; PRICE, WILLIAMSON, 1981), enquanto em ovelhas adultas os valores
médios foram 20 a 26,9 ng/ml (MELICK et al., 1988; FORTUNE et al., 1989). NICODEMO (1997) relatou que os valores de osteocalcina sérica em cordeiros jovens eram elevados, e posteriormente, mostraram um declínio na concentração com o aumento da idade; os valores médios foram : 340 ηg/ml em recém-
nascidos, 260 ηg/ml a 2 semanas de idade, 200ηg/ml aos 3 meses, 100ηg/ml aos 12 meses, 30ηg/ml aos 4 a 5 anos e 40 ηg/ml acima de 10 anos de idade. Observou também, que a maior concentração de osteocalcina ocorre na cortical do tecido ósseo , valores médios encontrados em ovinos: 1,53 mg/g de osso em recém-nascidos, 1,85 mg/g em animais com 8 meses de idade, 1,17 mg/g de 4 a 5 anos de idade e 1,39 mg/g em animais acima de 10 anos.
NAITO et al. (1990) relataram os níveis séricos de osteocalcina em cinco vacas da raça Holandesa Preta e Branca, no pré-parto, com idade entre 3 e 5 anos, correlacionaram com os níveis séricos de vitamina D, cálcio e fósforo inorgânico; a concentração (média e desvio-padrão) da osteocalcina diminuiu rapidamente no dia anterior ao parto até o dia posterior, no nível de 8,0 ± 3,0 ng/ml e elevou gradualmente para 17,8 ± 3,8 ng/ml aos 15 dias pós-parto. Os autores observaram que as concentrações de osteocalcina foram significativamente proporcionais às de cálcio e de fósforo inorgânico.
2.2.2- Síntese da Osteocalcina
A osteocalcina é secretada pelos osteoblastos maduros (HAUSCHKA, REID, 1978; NISHIMOTO, PRICE, 1980) no estágio final de diferenciação dos osteoblastos durante o período da mineralização da matriz extracelular (STEIN et al., 1990).
A quantidade de osteocalcina que entra na circulação sangüínea depende da taxa de secreção individual e do número de osteoblastos que secretam a
proteína (NIELSEN, 1994), portanto, o nível de osteocalcina sérica está correlacionado com o número de osteoblastos no osso (MALLUCHE et al., 1984).
2.2.3- Elementos Minerais 2.2.3.1- Cálcio e fósforo
O cálcio (Ca) desempenha importantes funções nos processos biológicos, incluindo contração muscular, coagulação sangüínea, ativação enzimática, excitabilidade nervosa, liberação hormonal, permeabilidade de membranas e componente estrutural dos ossos. Aproximadamente 99% do Ca é encontrado na matriz inorgânica do tecido ósseo (hidroxiapatita), 0,9% como intracelular (membrana plasmática, mitocôndria e retículo endoplasmático) e 0,1% no líquido extracelular. No sangue, cerca de 50% do Ca se encontra na forma ionizada (Ca2+), 5% na forma Ca-complexado (citrato, lactato, bicarbonato e fosfato) e 45%
ligado à proteínas séricas (maior nas albuminas que nas globulinas). Somente o Ca filtrável (ionizável + complexado) pode ser reabsorvido ou excretado pelos rins. Segundo ROSOL et al. (1995), o Ca ionizado é a fração mais importante para ativar todos os processos intracelulares.
Em bovinos, a maior absorção do Ca ocorre no intestino delgado e em menor expressão no retículo, rúmen e omaso (YANO et al., 1989), é feita pelos sistemas ativo (saturável) e passivo (paracelular). Segundo CAPEN et al. (1989), a calbindina (proteína ligante de Ca estimulada pela vitamina D ativa) capta o Ca no lúmen intestinal e o transfere de dentro da célula para o sangue via Na ATPase, ou Ca Mg ATPase (HORST et al., 1994). Quando a concentração de Ca for alta e o pH estiver acima de 6,1 ocorre a formação de complexos de Ca, tais como
fosfatos, fitatos, oxalatos e ácidos graxos, tornando-o indisponível para absorção. É crítico para a célula manter baixo o nível de Ca intracelular. Se houver anóxia, deficiência energética ou alteração de integridade de membrana, haverá a entrada descontrolada de Ca no citoplasma, colocando em risco a viabilidade da célula devido aos efeitos tóxicos do Ca (ROSOL et al., 1995).
A excreção do Ca é feita pela urina, leite e em menores quantidades pelo suor e secreções intestinais. Os rins têm capacidade de reabsorver tanto quanto 98% do Ca filtrável ou de excretá-lo em grandes quantidades.
A manutenção dos níveis séricos de Ca é feita por três hormônios: paratohormônio (PTH), calcitonina (CT) e metabólito da vitamina D, ou seja 1,25 (OH)2D ou 1,25 diidroxicolecalciferol ou calcitriol. O PTH é o principal hormônio
envolvido na regulação fina, minuto a minuto do Ca sangüíneo (CAPEN et al., 1989). Exerce sua ação biológica diretamente sobre células alvos nos ossos e rins e indiretamente no intestino pela estimulação do metabólito ativo da vitamina D. O PTH é acionado quando os níveis de Ca sangüíneo tornam-se reduzidos, agindo para elevá-los. No tecido ósseo vai aumentar a osteólise osteocítica e o número de osteoclastos e a atividade das enzimas lisossômicas, resultando em quebra das fases orgânicas e inorgânicas do osso e sua liberação ao compartimento fluido ósseo e daí ao sangue (reabsorção óssea). Nos rins irá ativar a 1αhidroxilase (transforma o 25 hidroxicolecalciferol hepático em 1,25 (OH)2 D,
aumentando a síntese do metabólito ativo da vitamina D que amplifica a ação do PTH. Também haverá maior reabsorção renal de Ca e excreção de P. ROSOL et al. (1995) apresentaram uma relação sigmóide inversa entre os níveis de Ca e
PTH séricos, de tal modo que quando o Ca atingia um valor crítico, disparava a secreção de PTH. A ação do PTH é rápida na reabsorção renal de Ca e na síntese de vitamina D ativa; porém, VAN MOSEL (1991) demonstrou que o efeito sobre as reservas ósseas é mais demorado, envolvendo horas e até dias. Intensificando a reabsorção, ocorrerá maior excreção de hidroxiprolina proveniente da matriz orgânica óssea. A calcitonina é um polipeptídeo composto de trinta e dois aminoácidos produzido pelas células C da tireóide. Tem ação independente do PTH. A estrutura molecular, segundo ROSOL et al. (1995) difere entre as espécies. A síntese é estimulada pelos elevados níveis séricos de Ca, após a ingestão de alimentos com o conseqüente aumento de gastrina, pancreozimina. Age primariamente nos ossos e rins. No osso tem ação antagônica ao PTH, ou seja, inibe a reabsorção óssea, estimulando a deposição de sais de Ca na matriz orgânica. Nos rins, a presença de seus receptores na alça de Henle e túbulos contornados distais promoverão maior excreção de P, Na, Cl e Ca. Segundo LITTLEDIKE et al. (1987), a calcitonina aumenta a excreção de Ca, P e Mg na urina; seus efeitos hipocalcêmicos se fazem sob bloqueio imediato da reabsorção, protegendo o organismo das perdas ósseas e prevenindo a hipercalcemia no período pós prandial.
A vitamina D metabolicamente ativa é formada nos rins. No animal, o 7- dehidrocolesterol subcutâneo sob reação fotoquímica se transforma em colecalciferol, sendo então transportado ao fígado, ligado a uma proteína (HORST et al., 1994). O ergosterol irradiado, esteróide vegetal, também é absorvido e transportado ao fígado. Neste órgão vão se transformar em 25 (OH) colecalciferol e 25 (OH) ergosterol, sendo novamente lançados na circulação sangüínea ligados
à proteína. Nos rins, sob a ação da colesterol 1αhidroxilase vão se transformar nos metabólitos mais ativos 1,25(OH)2D3 e 1,25(OH)2D2 contribuindo no
metabolismo do Ca e P. Entretanto, poderão formar diferentes metabólitos, tais como 1,24(OH)2D3 e 24,25(OH)2D3, que possuem menor potência biológica.
Segundo HORST et al. (1994), no fígado o 24(OH) ergosterol e 25(OH) colecalciferol podem ser metabolizados em lactonas. As células alvo da vitamina D estão na mucosa do intestino delgado e de outros tecidos exigentes em Ca. Quando absorvida, estimula a produção de calbindinas, as quais vão aumentar a absorção de Ca e ou P. HORST et al. (1994) afirmaram que 95% dos metabólitos circulam no sangue ligados a proteína e 5% sob forma livre e se acumularão em células possuidoras de receptores específicos, como no tecido ósseo; evidenciaram também que o ácido 9 cisretinóico (metabólito ativo da vitamina A) é necessário para potencializar a ação do calcitriol. O controle da produção de metabólitos ativos se faz pelo PTH circulante e pelos receptores intracelulares da vitamina D na tireóide, pelo “feed back” negativo (VAN MOSEL, 1991; ROSOL et al., 1995). HORST et al (1994) afirmaram que a resposta biológica da vitamina D depende diretamente do número de receptores no intestino, osso e rim, e que eles reduzem com a idade, predispondo vacas a partir da terceiro parto, responder mais lentamente ao tratamento nos casos mais sérios de hipocalcemia. No entanto, os hormônios de crescimento, estrógenos e prolactina estimulam sua síntese, auxiliando na manutenção do Ca no crescimento, gestação e lactação. Dentre as doenças metabólicas envolvendo anormalidades de Ca e P se destacam hiperparatireoidismo primário (origem renal), secundário (origem
nutricional) que se traduzem em alterações anatomopatológicas ósseas específicas. Entre os ruminantes sob pastejo, as síndromes clínicas associadas com hipocalcemia são mais comuns que a hipercalcemia. A mais conhecida doença é a denominada Febre do Leite ou paresia da parturiente e a síndrome da vaca “caída” (SCHULTZ et al., 1993). Observa-se que a hipocalcemia se traduz em sintomas clínicos diferentes (KENT LLOID et al., 1993), resultando em paresia nos bovinos e em tetania nas outras espécies (SCOTT-MONCRIEF, 1995).
A quantidade de Ca no organismo é conseqüência do total de entrada e saída. Se a quantidade de Ca que sai é maior que a que entra, indica falhas na homeostase que resulta em hipocalcemia; se entrada e saída se equivalem, há homeostase e conseqüente normocalcemia. Quando a demanda metabólica de Ca aumenta, o nível de Ca se manterá normal, somente se a reabsorção óssea for ativa, pois a absorção intestinal tem limitações (não resolve aumentar o Ca dietético exageradamente, pois não haverá máxima absorção) (CAPEN et al., 1989).
O fósforo constitui cerca de 15% do peso vivo (PV) de um bovino adulto, sendo que 80-85% está concentrado nos ossos, na forma de hidroxiapatita, com relação molar de aproximadamente 2,1 Ca/1P. O restante, 15 a 20%, fica disponível aos tecidos moles desempenhando funções essenciais tais como: reações envolvendo o metabolismo energético celular (AMPc, ADP e ATP), síntese de proteínas (fosfoproteínas, nucleoproteínas) e fosfolipídios, conferindo estrutura e integridade às células. Ocorre como lecitinas em várias células, cefalinas e esfingomielinas no cérebro, fosfolipídios no sangue e como constituinte do DNA e RNA, sendo também importantíssimo para a fermentação e ação dos
microrganismos ruminais, especialmente os celulolíticos (REIS, 1993; McDOWELL, 1992; TERNOUGH 1990). Apesar de muitos trabalhos envolvendo o equilíbrio de P e ou Ca com carneiros e bezerros, a homeostase do P no ruminante é controvertida. O P não possui mecanismos diretos e específicos como o Ca. Em sua homeostase estão envolvidos a reabsorção óssea, secreção salivar, absorção intestinal e excreção fecal, urinária e láctea. Quem atua de forma direta, quando os níveis de P sangüíneo diminuem é o calcitriol. A hipófise sinaliza aos rins para aumentar a síntese de 1αhidroxilase e consequentemente mais calcitriol, e maior absorção intestinal somente de P. Ao mesmo tempo, o metabólito ativo estimula a reabsorção de P nos túbulos contornados proximais, cujos efeitos vão aumentar os níveis séricos somente de P, restabelecendo a normofosfatemia. Se no entanto, a razão Ca/P se estreitar ou instalar uma hipocalcemia, o PTH é liberado, e a hiperfosfatemia não se instala, haverá adição de Ca e P provenientes da reabsorção óssea, porém, o P será excretado pelos rins.
Os sinais de deficiência subclínica de P não são facilmente reconhecidos. A redução no consumo alimentar é a principal conseqüência da deficiência de P em ruminantes segundo McDOWELL (1992), que apresentou os possíveis mecanismos para explicá-los, tais como: 1- baixo P ruminal reduzindo a digestão da fibra, 2- baixo P ruminal reduzindo a síntese de proteína microbiana e absorção de aminoácidos, 3- baixo P nos tecidos reduzindo o metabolismo intermediário e 4- baixo P nos tecidos metabolicamente ativos reduzindo a síntese de RNA e portanto a atividade metabólica das células.
TERNOUGH (1990), em revisão acerca do P para bovinos de corte, apresentou os seguintes fatores como importantes: 1- no osso, a proporção molar de Ca/P é de 1,67/1 e a razão peso/peso é de 2/1; 2- os níveis de P no rúmen- retículo são de 50-80 mg/l e que mesmo em dietas deficientes, os níveis são mantidos adequados, não prejudicando a atividade microbiana e portanto a digestão de celulose e hemicelulose; 3- existe grande variação na disponibilidade de P entre forragens e entre estágios de maturidade na mesma forrageira; 4- o coeficiente de absorção do P é inversamente proporcional ao consumo e que o parasitismo e interações minerais (Al e Fe) reduzem a sua absorção, indicando um valor médio de 0,70; o Ca dietético tem pouco efeito sobre a absorção do P, quando está em nível adequado; no entanto, o excesso de Ca em baixos níveis de P, pode reduzir a absorção do P, precipitando-o no intestino sob pH mais elevado ou devido aos mecanismos homeostáticos de regulação do Ca (calcitonina) que reduz a absorção de ambos; 5- o efeito primário da deficiência de P é a redução no consumo, sendo mais evidente nas dietas elevadas em Ca; 6- alta ingestão de solo (período chuvoso) concorre para elevados consumos de Al e Fe, reduzindo a absorção de P e ingestão de forragens; 7- níveis séricos normais de P necessitam de criteriosa interpretação e podem ser associados ao consumo e também à proteína bruta da dieta.
Os trabalhos envolvendo a avaliação da situação nutricional do Ca e P abrangem dosagens dos níveis séricos, níveis dietéticos, PTH, calcitriol, retinol, hidroxiprolina, osteocalcina, biópsias de osso, estudos histopatológicos e radiográficos (McDOWELL, 1992; CAPEN et al., 1989; VAN MOSEL, 1991; NAITO et al., 1990; NICODEMO, 1988). O critério adotado pelos pesquisadores para o Ca
sérico denota que quando os níveis estão abaixo da faixa normal, realmente os animais estão deficientes e a dosagem tem valor diagnóstico; e quando o nível estiver normal, pode indicar suficiência ou deficiência, pois os mecanismos homeostáticos estão agindo para manter os níveis normais.
2.2.3.2- Magnésio
O Mg é o quarto cátion mais prevalecente no corpo animal, sendo ultrapassado por Ca, Na e K. O corpo contém 0,05% de Mg e 60% está contido no esqueleto, 38% nos tecidos moles e 1 a 2% no líquido extracelular; 30 a 60% do Mg ósseo, no animal jovem é disponível pela reabsorção, mas o animal adulto é menos capaz de mobilizar o Mg, estando mais predispostos à deficiência. A concentração intracelular é em média 36 mg/dl e a extracelular 2,4 mg/dl. No meio intracelular, o Mg existe na forma ionizada e ligada (proteína ou ATP) e no extracelular é ionizada. Como o Mg sérico representa somente 1% do peso vivo, é difícil de detectar sua deficiência (CAPEN et al. 1989). O Mg intracelular age como um ativador ou catalisador de mais de 300 enzimas, incluindo fosfatases e produção de ATP, estendendo para maioria dos processos metabólicos e anabólicos. Tem função importantíssima na contração muscular, metabolismo de proteínas, gorduras e carboidratos, na fosforilação oxidativa, estabilização de membranas, divisão celular e resposta imune (CAPEN et al., 1989; McDOWELL, 1992; UNDERWOOD, 1981). Os ruminantes perdem grandes quantidades de Mg provenientes das secreções digestivas (0,5 a 5,1 mg/kg PV/dia), induzindo a grandes variações nos ensaios de digestibilidade aparente. Devido a essas grandes perdas, os ruminantes são mais susceptíveis à deficiência de Mg. Em
animais jovens, a digestibilidade do Mg cai de 70% (5 semanas de idade) para 20 % (5 meses) e em média, os valores em bovinos, situam-se na faixa de 17 a 25% (McDOWELL, 1992). As vias de excreção de Mg são as do trato gastrointestinal, renal, da glândula mamária em lactação e por via placentária. As perdas urinárias são reduzidas em casos de deficiência de Mg. DUA et al. (1995) afirmaram que as perdas são consideráveis, pois mesmo em deficiência, a excreção pelo leite é constante e nas fezes as perdas fecais endógenas continuam. O meio diagnóstico mais prático para detectar a deficiência de Mg é a sua dosagem no soro sangüíneo. Por existir em pequena quantidade, a sua diminuição demora mais tempo para ser detectada e se observa animais com níveis baixos sem manifestar sintomatologia clínica. McDOWELL (1992) afirmou que somente quando o Mg diminui no líquido cefaloraquidiano é que se desenvolvem os sinais clínicos, assim, propôs a dosagem no líquor (valor crítico de 16 mg/ml) como meio mais seguro de diagnóstico.
A literatura é escassa com relação aos achados anatomopatológicos no sentido de auxiliar o diagnóstico de deficiência de Mg. No entanto, CAPEN et al (1989) referiram a presença de mineralização de vasos ou tecidos moles. Naturalmente, tais alterações necessitam de tempo para serem detectadas, subentendendo casos que evoluem para estágios mais crônicos que agudos. Contudo, detectaram plaquetas superativas e lesões vasculares. Tais achados foram relatados por RAYSSIGUIER (1988), em ratos, demonstrando que a deficiência de Mg produz hipertrigliceridemia em decorrência da fluidez de membrana, tornando as plaquetas mais sensíveis à trombina e conseqüente
formação de trombos. Tais achados evidenciam que a deficiência de Mg induz a patogênese de doenças vasculares.
2.2.3.3- Manganês
O Mn atua como ativador de enzimas e como estrutural nas Mn- metaloenzimas. Ele age ligando a enzima ao substrato ou à proteína. Entre as enzimas ativadas pelo Mn, destacam-se as hidrolases, quinases, descarboxilases e transferases, as quais podem ser também ativadas pelo Mg, quando ocorre redução do Mn (McDOWELL, 1992) e vice-versa, exceto as glicosiltransferases. As enzimas contendo Mn, incluem a arginase, piruvato carboxilase e glutamina sintase. Segundo STALEY et al. (1994), o Mn ativa as glicosiltransferases que irão produzir os mucoplossacarídeos da cartilagem, principalmente sulfato de condroitina. A absorção de Mn ocorre no intestino delgado e não parece ser aumentada sob condições dietéticas deficientes. Em nível celular, embora não definido, o Mn se une a ligantes de baixo peso molecular (histidina e citrato), facilitando sua entrada na célula intestinal. Após esta fase, entra na circulação portal de forma livre ou ligado (α2- macroglobulina) e é removido quase
integralmente pelo fígado. O que permanece na circulação oxida-se para Mn3+ e
liga-se à transferrina, que é a principal transportadora de Mn. No fígado, distribui- se para os lisosomas (principal via de excreção para a bile), mitocôndrias, núcleo, para proteínas contendo Mn recém sintetizadas e sob forma livre intracelular. Os coeficientes de absorção do Mn situam-se em torno de 1% do ingerido em
animais adultos. Níveis de Ca, P e Fe influem na absorção de Mn, sendo que teores elevados diminuem sua absorção.
A avaliação das concentrações de Mn compreende dosagens no sangue e séricas. As séricas tem que ser interpretadas com cautela, pois refletem uma situação recente ao invés do que um estado de longa duração. As concentrações hepáticas são usadas para diagnosticar deficiências e não intoxicação (KEEN, GRAHAM, 1989). Sob condições práticas, é mais freqüente encontrar deficiência do que intoxicação (McDOWELL, 1992).
2.2.3.4- Zinco
O elemento Zn é essencial para o desenvolvimento, crescimento e diferenciação de tecidos de todas as espécies; é co-fator de várias enzimas, incluindo as peptidases, anidrase carbônica, álcool desidrogenase, carboxipeptidase pancreática, deoxitimidinaquinase, fosfatase alcalina e outras enzimas envolvidas no metabolismo dos ácidos nucléicos, como a timidinaquinase, ribonuclease, DNA polimerase, RNA polimerase e transcriptase reversa (PRASAD, 1979; CUNNINGHAM-RUNDLES, 1982; VALLES, GALDES, 1984). As enzimas DNA polimerase e a transcriptase reversa também são enzimas dependentes do zinco e a proliferação epitelial e fibroblástica necessitam desse elemento para a sua ação. Níveis insuficientes de Zn para as células epiteliais e fibroblastos prejudicam a mitose, não ocorrendo a epitelização e a síntese de colágeno, causando uma inadequada cicatrização (PROBST, 1999). O Zn está presente em todos elementos constituintes do sangue. A distribuição do Zn no sangue é de 75 a 88% nos eritrócitos, 12 a 22% no plasma e
3% nos leucócitos. Esse mineral é encontrado também, em altas concentrações, na queratina, próstata, pele, fígado, pâncreas e ossos (FISHER, 1975).
Uma dieta com baixa concentração de Zn em ruminantes causa um declínio imediato desse elemento no plasma, no intervalo de 24 a 36 horas (McDOWEL, 1992).
A função do Zn no sistema imunológico está relacionada com a produção de energia, síntese protéica, estabilização das membranas contra endotoxinas bacterianas, produção de enzimas antioxidantes e manutenção da replicação dos linfócitos e produção de anticorpos (NOCKELS, 1994).
O Zn via oral foi empregado na prevenção e tratamento das pododermatites em bovinos, com bons resultados (DEMERTZIS, MILLS, 1973; HIDIROGLOU, 1980). É um elemento químico de grande importância, devido a sua relação com a integridade do tecido lesado no casco e o sistema imunológico (NOCEK, 1993). O Zn usado, diariamente, na ração para bovinos tem efeitos benéficos nos cascos, favorece o aumento da resistência da pele, e em conseqüência, impede a penetração dos agentes infecciosos (RAVEN, 1989). A deficiência de Zn foi associada à pododermatite em bovinos (DEMERTZIS, MILLS, 1973; HIDIROGLOU, 1980); com isto, suplementos terapêuticos foram usados no controle da necrobacilose interdigital de bovinos. A reparação das lesões da pele interdigital nas pododermatites foi rápida e completa, após a administração oral de Zn (DEMERTZIS & MILLS, 1973). O Zn favorece a integridade dos cascos ao acelerar a cicatrização das feridas e reparação do tecido epitelial e mantém a integridade celular (SMART, CYMBALUK, 1997). Os baixos níveis de macro e microelementos (cobre, ferro e
zinco) no casco e no plasma estão associados à redução da resistência do tecido córneo e, consequentemente, à ocorrência de doenças digitais (LUKUANOVSKII & FILIPPOVIY, 1991).
2.2.4- Química Clínica
O objetivo desta seção não é apresentar uma revisão detalhada da química clínica, mas fornecer subsídios para a interpretação dos resultados.