Para responder às questões da presente pesquisa, buscou-se captar as expressões dos alunos e verificar as relações estabelecidas com sua vivencia,
identificar o fenômeno vivenciado, entendendo-o como tudo o que se revela, que se declara ou se manifesta por si mesmo. Para tanto, a fenomenologia foi escolhida para que se pudesse buscar percepções expressas nas observações verbais dos sujeitos, obtidos através de gravações em áudio e posterior transcrição, atentando- se para o fato de fazer uma transcrição detalhada, pois a fala é não gramatical e está repleta de fenômenos (GIBBS, 2009).
As transcrições foram feitas na íntegra, mantendo-se a fidelidade à linguagem dos alunos e da professora. Após as transcrições, as aulas foram ouvidas, lidas e relidas quantas vezes se fizeram necessárias, buscando a compreensão, mergulhando em suas falas, em uma tentativa de sentir o que eles sentiram ao vivenciar o fenômeno.
A linguagem expressa a relação do indivíduo com o mundo ao seu redor. É através dela que as pessoas captam e dão significado àquilo que as rodeia. Ela é capaz de transmitir maneiras de ser, sentir e relacionar-se e, desse modo, moldam a vida dos indivíduos (ESPITIA, 2000 apud ZULIANI, 2005).
Além das gravações em áudio, as anotações de um diário de bordo da pesquisadora também foram usadas para a análise de dados.
A própria pesquisadora realizou as transcrições, pois, para Gibbs (2009), esta já é uma forma de se começar a analisar os dados, além de fazer a familiarização do conteúdo e ser a pessoa que conhece bem o tema e tem menos probabilidade de cometer erros.
Como a pesquisa fenomenológica está dirigida para significados, o pesquisador não está preocupado com os fatos e sim com o que os eventos significam para os sujeitos da pesquisa (Martins e Bicudo, 2005). Dessa maneira, buscou-se a percepção dos sujeitos no processo de aprendizagem, além das relações entre eles e o professor e a influência da proposta e ensino por investigação no processo de aprendizagem.
As aulas do Módulo foram planejadas, organizadas e aplicadas de modo a buscar a impressão primeira dos sujeitos, objeto central da fenomenologia. O modelo sob o qual foi concebida a atividade da aula proposta para a obtenção dos dados desta pesquisa abre espaço para o diálogo, deixando os alunos livres para interagir entre si e com a atividade, o que de certa forma corrompeu uma possível inibição imposta pela presença de um gravador.
Na proposta de ensino por investigação, abordagem escolhida para o Módulo, percebe-se uma estruturação semelhante ao método científico (ZULIANI, 2006). Numa atividade investigativa encontram-se: o desenvolvimento de experiências partindo de situações problema, a delimitação do problema e a construção de hipóteses, a coleta de dados ou a realização de experimentos, a reelaboração das hipóteses e consequentemente a aplicação e comprovação das idéias elaboradas (ZULIANI, 2006).
Segundo Zuliani (2006, p. 44):
Além disso, há necessidade que a proposta encaminhe os alunos à busca de novas informações. O aprendiz deve ser capaz de interpretar não somente estas informações, mas os resultados obtidos durante o trabalho, experimentando a confirmação ou rejeição de hipóteses, o replanejamento experimental e a formulação de novos problemas.
Dentro desta proposta (ZULIANI, 2006), os dois últimos passos (replanejamento experimental e a formulação de novos problemas) são importantes na reflexão dos alunos quanto à prática, o que elucida não só os conceitos envolvidos, mas também o processo em si (Suart Júnior, 2010), encaminhando à aprendizagem significativa.
Segundo Almeida e Fontanini (2010), a aprendizagem significativa implica na construção do significado, que é algo pessoal, uma questão individual, embora seja favorecida por questões sociais. Dessa forma, a transcrição, a leitura e a categorização das tentativas dos alunos em solucionar as questões propostas nas aulas do Módulo, surgem como possíveis meios para facilitar e avaliar a apreensão dos conteúdos científicos de cada aluno, com vistas à aprendizagem significativa. Além disso, nesta proposta existe uma valorização do trabalho em grupo, compartilhado, o que contribui com o processo de construção conceitual para o indivíduo.
Assim, em uma perspectiva sócio-histórica, Vygotsky discute sobre os modelos que privilegiam ora a mente e os aspectos internos do indivíduo, ora o comportamento externo, construindo uma nova psicologia, assim chamada por ele, que deve refletir o indivíduo em sua totalidade, unindo dialeticamente os aspectos externos com os internos, considerando a relação do sujeito com a sociedade à qual pertence (FREITAS, 2002), ou seja, embora a construção de significados seja algo
pessoal, é importante o trabalho em grupo para que o sujeito chegue à construção do conceito pretendido.
6 ANÁLISE DOS DADOS E DISCUSSÃO
Na tentativa de apreender os significados presentes nas manifestações de cada aluno, através das leituras das transcrições e do áudio, que foram realizadas logo após o término dos módulos, buscou-se rememorar cada aprendiz, lembrando o momento dos Módulos de Ensino por Investigação, as fisionomias e as emoções de cada um deles, com a finalidade de desvelar os significados por eles atribuídos ao fenômeno.
Assim, pouco a pouco, construíram-se as unidades de significação, que trazem as percepções semelhantes e divergentes, atribuídos pelos sujeitos, além da construção dos significados, algo íntimo e pessoal de cada um deles. No decorrer desse capítulo, descrevo todas as unidades de significados selecionadas para análise.
Para discutir como os alunos sob estudo percebem e concebem o aprender nas atividades investigativas no ensino de química, apresento fragmentos da transcrição das aulas do Módulo. As transcrições das falas encontram-se em anexo (Anexo 2) e os fragmentos são exemplos que foram elencados nesta pesquisa a partir da análise das aulas. Saliento também que classificar uma fala em uma determinada unidade de significado não a impede de ser classificada em outras unidades ou outras que possam surgir em novas leituras sobre a temática pesquisada.
Através das observações em sala de aula e da leitura das transcrições pode- se avaliar o conhecimento do aluno observando como ele organiza, hierarquiza, relaciona e diferencia os conceitos dentro dos temas abordados. Pode-se, também, verificar os conhecimentos prévios, a ausência de conceitos, bem como a mudança na estrutura cognitiva de cada aluno envolvido.
Porém, pretende-se considerar também, se o conjunto das relações construídas pelo aluno durante as aulas correspondeu às expectativas do professor quando ele desenvolveu as atividades seguindo o modelo de ensino por investigação e se a atividade proposta pelo professor foi realmente investigativa.
Deste modo, inicia-se a análise atentando-se para o fato se as atividades abordadas no Módulo “Ensino por Investigação” foram, de fato, investigativas.