Não há dúvidas de que os territórios “mais flexíveis” estão enraizados em inúmeros elementos culturais, éticos e simbólicos. Na prática, a ideia globalizante do “modeloúnico”– utilitarista,estático, determinista e monocultural – não foi capaz de eliminarasdiversidadesdassociedadeslocais.Ao contrário, a globalização produziu mais desigualdades e mais diversidades entre as sociedadeslocais (Zaoual, 2006, p. 35-36).Emoutraspalavras,osterritórios“mais flexíveis”passaram a ser cada vez mais diferentes, revelando a importância dos fatores “não econômicos”. Mas, de que fatores “não econômicos” estamos falando? (Ortega e Silva, 2011, p. 48-51; Zaoual, 2006,p.35-36).Paraalgunsautores,comoPutnam (1996), trata-se do capital social28 e, para outros, como Bourdieu (2010), do campo simbólico.
Desta forma, os elementos imateriais – como crenças, mitos, valores, ritos, rotinas, hábitos, conhecimentos empíricos e informais, e experiências – ganharam protagonismo no “conteúdo” dos territórios “mais flexíveis” e, por conseguinte, passaram a influenciar os processos de desenvolvimento territorial. Assim sendo, os processos de desenvolvimento territorial passaram a decorrer de uma combinação de múltiplas dimensões da vida social – em diferentes situações, formas, texturas e contextos (Zaoual, 2006,p.173-198). Essa visão multidimensional do “conteúdo” territorial acoplou aos fenômenos econômicos uma série de elementos pluralistas: como a cooperação, a confiança, a reciprocidade, a solidariedade, a generosidade, a parceria, o “sentido compartilhado” e as participações em redes sociais.29
Neste sentido, Bourdieu (2010) trata os elementos imateriais/pluralistas em torno do conceito do campo simbólico. Logo, Bourdieu (2010, p. 11) identifica que osdiferentescampossimbólicosgeramlutas pelo poder, revelando que os elementos imateriais/pluralistas são instrumentos de dominação e legitimação da dominação,
elucidar os motivos de tantas assimetrias. Para Moyano Estrada (1999, p. 4), “más recientemente se han venido realizando algunos trabajos que han enfatizado la importancia de [...] la confianza, los flujos de información o las normas de reciprocidad existentes en una comunidad [...]”. Ou seja, os estudos (sobretudo, de agências multilaterais, como o Banco Mundial) explanam a importância dos fatores não econômicos no processo de desenvolvimento (Ortega e Silva, 2011, p. 48-51).
28 Ver também Saiz e Jiménez (2008, p. 250-263).
29 Surge, então, um tipo novo de economia, a “economia do cotidiano na medida em que dá privilégio
deumaclassesocialsobre a outra. Assim, os sistemas simbólicos desempenham uma função política, cujo poder é simbólico, invisível, “quase mágico”, e equivalente ao que é obtido pela força física ou econômica. Tal poder “sópoderáserexercidocom a conivência daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem” (Bourdieu, 2010, p. 11). É esse poder simbólico que produz uma cidadania ativa30 nos territórios “mais flexíveis” (Abramovay e Favareto, 2008, p. 1-12).
Enquantoisso,algunsautores,comoBagnascoetal(2003), Fukuyama (2001), Putnam (1996), e Woolcock (1998)31, agrupam os elementos imateriais/pluralistas em torno do conceito do capital social. Nesta perspectiva, o capital social representa umrecurso/ativo,comoocapitaleconômico,quepodeseracumulado, estando ligado à posse de uma rede durável de relações, mais ou menos institucionalizadas, que se materializam, sobretudo, por meio da confiança32, de redes de reciprocidade, e das regras de participação cívica (Putnam, 1996, p. 173-194). Na prática, o capital social favorece a cooperação, e a superação dos dilemas da ação coletiva e do oportunismo nos territórios “mais flexíveis”. Neste sentido, o capital social é tratado como um “bem público"33 (Bagnascoetal,2003, p. 123-152; Putnam, 1996, p. 173-194).
No contexto do desenvolvimento territorial, tanto o campo simbólico como o capital social, não se situam nem nos indivíduos, nem nos meios de produção, mas, nas redes sociais densas, que garantem a confiança nas estruturas sociais e admitem a geraçãodesolidariedade34. A cidadania ativa e o capital social podem ser vistos em, pelo menos, quatro dimensões: integração (laços intracomunitários); linkage ou conexões (laços extracomunitários); sinergia (laços entre as redes institucionais); e integridade organizacional (credibilidade e eficácia institucional) (Moyano Estrada, 1999, p. 3-39). Da combinação dessas quatro dimensões aparecem dois importantes efeitos analíticos e seus dilemas: o processo top-down (de cima para baixo) e bottom-
up (de baixo para cima) (Woolcock e Narayan, 2000, p. 239).
Quanto mais intensa for a cidadania ativa, e quanto maior for o capital social: mais elevado será o nível de confiança na sociedade local, maior será a cooperação
30 As distintas classes e frações de classes estão envolvidas em uma luta simbólica para imporem a
definição do mundo social, mas conforme os seus interesses (Bourdieu, 2010, p. 11).
31 Ver também Woolcock e Narayan (2000, p. 225-249).
32 Ver Guinnane (2005, p. 1-35) e Herreros Vázquez (2004, p. 605-626).
33 É importante lembrar que, por ser um “bem público”, os investimentos em capital social, em geral,
não são assumidos por investidores particulares, mas por agentes públicos (Adelman, 1972).
entre os atores socioeconômicos, e assim, melhor será o desempenho do governo e, consequentemente, da economia (Putnam, 1996, p. 173-194). Em outras palavras, a cidadania ativa e o capital social beneficiam a formação de uma sociedade forte, com economiaforte,ecomEstadoforte35 (Putnam,1996,p.173-194; Wassenhoven, 2008, p. 57; Woolcock, 1998, p. 151-208). Por exemplo, a experiência italiana corrobora o contexto de que a cidadania ativa e o capital social foram responsáveis pelos círculos virtuosos do desenvolvimento36 nos anos 1980/1990 (Bagnascoetal,2003, p. 123- 152; Putnam, 1996, p. 186-187; Zak e Knack, 1998, p. 32-33).
Assim, os territórios “mais flexíveis” com “conteúdos” coesos – cidadania ativaecapitalsocial sedimentado –tendemaconstruir um círculo virtuoso; enquanto queterritórios“mais flexíveis”com“conteúdos”fragmentadostendemaconstruir um círculo vicioso37. No mundo real, tanto o círculo virtuoso quanto o círculo vicioso podem ser “arrebentados” pelos “dilemas dinâmicos do desenvolvimento” (Moyano Estrada,1999,p.19;Myrdal,1972,p.32-34).Neste sentido, as fragmentações sociais, culturais, religiosas, linguísticas, étnicas, políticas e econômicas podem ser herdadas (historicamente)oucriadas,minimizadasoumaximizadas pela sociedade local, e/ou
enraizadas ou intercambiáveis38 segundo a natureza (Labart, 2010, p. 1-28; Murphy, 1989, p. 410-421; Uslaner e Brown, 2005, p. 868-894).39
Além disso, é importante destacar que criar cidadania ativa e formar capital social não são tarefas fáceis, pois não dependem apenas do contexto social imediato, mas ainda do contexto histórico que condiciona a sociedade local. Putnam (1996, p. 173-194) frisa que “a história pode ter consequências duradouras, subordinando a trajetória presente e, consequentemente, a trajetória futura. Assim, o lugar a que se pode chegar depende do lugar de onde se veio, e, simplesmente, é impossível chegar a certos lugares a partir de onde se está”. Neste contexto, em que a história importa,
35 Isto significa dizer que a cidadania ativa e o capital social são elementos básicos do dinamismo
econômico, e dependem do bom desempenho e da legitimidade governamental, em estabelecer uma adequada cooperação entre o legislativo, o executivo e o judiciário, entre os partidos políticos, entre o governo e a iniciativa privada, e assim por diante (Ortega e Silva, 2011, p. 48-51).
36 Ver também Myrdal (1972) Pires (2007, p. 155-163).
37 Woolcock e Narayan (2000, p. 232-237) realizam uma análise – por exemplo - entre o capital social
e a transição da pobreza, avaliando os seus impactos sobre o bem-estar social.
38 Ou seja, que podem ser trocados, ou compartilhados, ou ensinados (Zaoual, 2006, p. 35).
39 Ver as experiências africanas sobre as fragmentações no desenvolvimento (Easterly e Levine, 1997,
p. 1-40; Posner, 2004, p. 849-863). Neste contexto, em última instância, as fragmentações produzem exclusões sociais, justamente o contrário do capital social (Daly e Silver, 2008, p. 537-566).
o desafio dos territórios “mais flexíveis” é encontrar, no “conteúdo” territorial, a combinação ótima entre os seus elementos imateriais/pluralistas, constituindo uma visão multidimensional e favorável para o processo de desenvolvimento40.
Em suma, na visão territorial, o culturalismo e o simbolismo são “conteúdos” importantes no desenvolvimento da “massa crítica” endógena, e na manutenção das fronteiras. Essa “massa crítica” territorial está incrustada de culturas, de trajetórias, de historicidades, de experiências de vida individuais e coletivas, etc., revelando que as sociedades locais e os seus espaços territoriais de domínio são feitos não apenas de trocas calculáveis e não calculáveis, mas também de enraizamentos e de valores nãointercambiáveis(Zaoual,2006,p.35). Na realidade concreta, todos os elementos imateriais/pluralistas se misturam com os elementos materiais, e juntos influenciam as estruturas institucionais, numa relação dialética complexa, intensa e permanente (Carter, 2010, p. 969-987; Ortega e Silva, 2011, p. 48-51).