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Na formação discursiva dos trabalhadores rurais há diferenciações internas. O STR de Itaituba aceitou trabalhar em conjunto com funcionários do Incra para resolver os problemas ligados aos projetos de assentamento. A pavimentação da BR-163, quando acontecer, só será considerada por eles como fator positivo para o escoamento da produção se o asfalto chegar até o porto de Miritituba, o que facilitará e barateará o custo final de venda dos produtos. A entidade aponta como foco dos principais conflitos no município a relação com os produtores rurais, que não respeitam as áreas ocupadas pelos pequenos produtores.

Ao avaliar os PDS’s que estão sendo implantados no município de Itaituba, a presidente do STR desse município assegura que os maiores conflitos em relação ao governo federal estão ligados à falta de demarcação das áreas, à necessidade de ser criada infra-estrutura que possibilite a moradia e o trabalho aos assentados, inclusive reparando as precárias condições das vicinais e garantindo assistência técnica.

Na localidade de Caracol, por outro lado, os trabalhadores rurais também estão organizados em sindicato e têm como estratégia discursiva afirmar que a reserva legal não será cumprida, em função de que a utilização de apenas 20% das terras não é suficiente para dar sustentação a qualquer tipo de atividade econômica. Além dessa estratégia, criticam o governo federal por tentar impedir pela via legal, com a criação de UC’s, o uso de grande parte da madeira da região, porque entendem que essa é a atividade que mais aquece a economia, já que outras, como a agricultura – plantação de açaí, cupuaçu e babaçu, por exemplo – não podem existir porque não há energia elétrica e nem incentivo da União para que essa condição esteja resolvida em breve.

A pressão quanto à redução da reserva legal é reforçada quando é mencionada a política federal de crédito para os trabalhadores rurais: para pagar os financiamentos que o Banco da Amazônia vem liberando, afirmam que é preciso derrubar mais do que os 20%. Caso contrário, não é possível manter a família; além disso, para habilitação ao recebimento do crédito público é preciso que o trabalhador apresente o título de posse da terra, o que continua dependendo da regularização fundiária, que ainda não foi feita pelo Incra. Mesmo que haja a titulação das terras,

se for mantida a reserva legal de 80%, afirmam os dirigentes do sindicato que continuará a haver desmatamento além do permitido.

O discurso do presidente do STR de Caracol é marcado por acusações ao Incra de Miritituba, que teria entregue escrituras possessórias de áreas antes pertencentes à União e recebido dinheiro por essa irregularidade dos interessados que queriam se instalar nas terras, inclusive dos “grandes proprietários” que hoje têm milhares de cabeças de gado nas áreas destinadas à proteção integral. Os títulos de terra, portanto, teriam sido obtidos através de suborno aceito por funcionários corruptos do Incra que forneciam a documentação aos ocupantes das

áreas. No momento atual, quando o Incra tenta retirar as pessoas e transferi-las

para outras áreas, os sindicalistas garantem que essa alternativa não será aceita porque há muito trabalho nas terras ocupadas e os moradores não querem ter que iniciar toda a luta, já que agiram com o aval do governo federal.

Vale ressaltar que a avaliação feita por funcionários federais do Ibama, que trabalham no Programa de Controle de Desmatamento e Queimadas do MMA em Novo Progresso, é que não há condições de os trabalhadores rurais sobreviverem nos assentamentos porque falta transporte, estradas e energia elétrica. No assentamento Santa Júlia, por exemplo, o projeto de energia elétrica parou e não há como criar gado leiteiro, cabendo somente o gado para corte e, mesmo assim, com muitas dificuldades para colocar a produção à venda.

Há recorrência nos discursos dos setores não-estatais da acusação de que as instituições do Estado são ineficazes, corruptas e desagregadas entre si, fatos que, ocorrendo ou não até os dias atuais, comprometem a imagem de um poder que precisa ser reconhecido para fazer cumprir suas determinações. Há também nos discursos dos produtores rurais de Novo Progresso, assim como no dos trabalhadores rurais de Caracol, acusações freqüentes não apenas quanto à ausência do Estado mas também, e de forma veemente, quanto à falta de conhecimento deste sobre a região oeste do Pará. Assinalam que a própria Flona Jamanxim foi criada com base em dados totalmente desatualizados e que isso poderia até mesmo ter sido utilizado de má-fé, porque o governo federal queria justificar a criação dessa UC. Argumentos dessa natureza desqualificam a ação governamental, porque partem de pressupostos que tentam inviabilizar na origem o discurso expresso no Plano BR-163, no PAS e em outros instrumentos.

É fato que a realidade da região, pela abrangência do território que ocupa e pela ausência de mecanismos anteriores que possibilitassem o conhecimento mais detalhado e permanentemente atualizado da área de influência da Rodovia Santarém-Cuiabá, não é de pleno domínio das instituições do Estado. Somente a partir de estudos como o ZEE e de levantamentos como o que está sendo feito através de termo de cooperação para a identificação fundiária das áreas destinadas à reforma agrária - firmado entre o MDA e o Ministério da Defesa, através da Unidade Técnica deste instalada em Novo Progresso, que é subordinada a Manaus e ao Ministério da Ciência e Tecnologia -, haverá um conhecimento mais aprofundado sobre a realidade fundiária, social, política e econômica da região.

Mesmo considerando que os discursos dos atores não-estatais são movidos por interesses diversos, é estrategicamente importante para o governo federal, como havia sido previsto e enfaticamente citado no Plano BR-163 Sustentável, que as resistências e conflitos sejam tratados no campo da institucionalidade do Estado. De acordo com Foucault (1986, p. 148), não há poder que possa ser mantido unicamente por meio da censura e da repressão e, para que este seja forte, é preciso que não impeça o saber, muito pelo contrário, o produza. As relações de poder passam pelo saber e remetem às formas de dominação existentes no campo. Diante desse entendimento e dos discursos que apontam para a iminência de outros graves conflitos no oeste do Pará, se é arriscado manter uma política do saber acessível às forças em disputa no campo, por outro lado, mantê-la sob sigilo, ou sem os canais competentes capazes de dar vazão aos embates no nível institucional que poderão ser travados a partir do saber, torna-se tanto mais difícil o domínio do campo e o controle dos limites dos conflitos.