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Um grande representante das ideias modernistas aplicadas ao Currículo, e que difundiu esta concepção, foi Ralph Tyler que, em 1950, publicou a obra Basic

Principles of Curriculum Instruction. Trata-se, segundo ele, de uma síntese das

ideias precedentes sobre o currículo – de Franklin Bobbitt, W. W. Charters, John Dewey, Boyd Bode, Harold Rugg e Henry Harap (DOLL JR., 1997, p. 68). Veremos, no entanto, que o trabalho de Dewey, por exemplo, vai de encontro às propostas e conceitos enunciados por Tyler, representando concepções para além do seu tempo.

Tyler enuncia quatro questões que expressam e simbolizam uma estrutura caracterizada como linear, de causa-efeito, mostrando sua concepção modernista.

1. Que objetivos educacionais deve a escola procurar atingir? 2. Que experiências educacionais podem ser oferecidas que tenham probabilidade de alcançar esses propósitos?

3. Como organizar eficientemente essas experiências educacionais?

4. Como podemos ter certeza de que esses objetivos estão sendo alcançados? (TYLER, 1979, p. 1).

Para Doll Jr., a ênfase da ideia de Tyler sobre Currículo está na escolha dos objetivos. “De fato, Tyler afirma que a seleção de objetivos não só é o primeiro ato que deve ser realizado no planejamento do currículo, como é também a chave de todo o processo” (DOLL JR., 1997, p. 69). Esta afirmação corrobora o trabalho de Cunha (1998) que fundamenta sua metodologia por meio da análise de conteúdo, segundo os conceitos de Bardin (1977), realizada na obra Princípios Básicos de Currículo e Ensino, de Tyler, a fim de explicitar os elementos internos veiculados em sua concepção. Esta autora concluiu que, embora Tyler não enuncie claramente qual é seu entendimento de currículo, é possível analisar sua visão a respeito, através da análise de conteúdo de seu texto. Assim como Doll Jr., Cunha também aponta o destaque que Tyler dá à palavra “objetivos” notando que a mesma aparece em 81,41% das páginas da obra, com uma média de 3,55 palavras por página, indicando, assim, um predomínio absoluto em relação às demais (Tabela 1).

Tabela 1 – Demonstrativo das Palavras Básicas Constitutivas da Concepção de Currículo Subjacente à Obra de Ralph Tyler

Frequências

Palavras Nº de páginas em que a palavra aparece Percentual Nº de vezes em que a palavra aparece/obra Média palavra / página

Currículo 56 49,55% 110 1,00 Objetivo 92 81,41% 402 3,55 Experiência 60 53,09% 235 2,07 Comportamento 54 47,78% 158 1,39 Programa 39 34,51% 79 0,69 Eficiência/Eficácia 37 32,74% 58 0,51 Conteúdo 36 32,73% 89 0,78 Interesse 34 30,08% 89 0,78 Avaliação 23 20,35% 103 0,91 Fonte: Cunha (1998).

Prosseguindo em busca de uma compreensão implícita para a definição que Tyler daria ao currículo, Cunha buscou uma palavra recorrente que pudesse ilustrar a ideia de elaboração, de planejamento de fases, já que havia concluído que, antes da elaboração, Tyler estava preocupado com os objetivos de um currículo. A palavra encontrada foi “programa” e, após a análise desta palavra em seu contexto frasal, foram detectadas as categorias expressas na tabela 2, concluindo que, para Tyler, a essência da concepção de currículo é o programa educacional.

Tabela 2 – Categorias Relativas à Palavra Programa em seu Contexto Frasal na Obra de Ralph Tyler

Palavra Categorias Frequências (número de ocorrências) Frequências (em %)

Educacional 28 35,44 De ensino 16 20,26 Sem adjetivação 13 16,45 Escolar 05 6,33 De avaliação 05 6,33 Curricular 04 5,05 De treinamento 02 2,54 PROGRAMA Total 02 2,54

Palavra Categorias Frequências (número de ocorrências) Frequências (em %) Nuclear 02 2,54 Individual 01 1,26 PROGRAMA De matemática 01 1,26 T O T A L 79 100 Fonte: Cunha (1998).

Cunha ainda detecta cinco vulnerabilidades presentes nesta obra de Tyler: 1ª - Sistematizar princípios básicos de currículo sem assumir explicitamente o que este significa.

2ª - Preocupar-se com o planejamento do currículo, sem ter previamente interpretado, considerado e analisado o que o currículo é, como, aliás, Tyler propõe no início da obra e não cumpre.

Esta vulnerabilidade se evidencia na análise feita por Cunha (Ibid.), expressa na tabela 3. Observa-se que, apesar de citar 114 vezes a palavra currículo, em 97,37% das vezes que o faz, seu objeto de preocupação é com o planejamento curricular. Praticamente não considera uma reflexão sobre o conceito do currículo em si e, mesmo assim, nas únicas três vezes que o fez foi para declarar intenções que não se cumpriram.

Tabela 3 – Demonstrativo das Categorias Básicas da Palavra Currículo na Obrade Ralph Tyler em Relação ao seu Objeto de Problematização.

Palavra Categorias Subcategorias Frequências

Número de

ocorrências Porcentagem

Planejamento em si 71 62,28

Aspectos internos do planejamento 16 14,04

Exemplos de planejamento 15 13,15

Processodo Planejamento

Consideração de estudos que

embasam o planejamento 09 7,89

Subtotal: 111 97,37

Que é Explicitação problematizar da intenção de 03 2,69

CURRÍCULO Problematizado

em relação ao:

Currículo em si Total: 114 100

3ª - Existência de relações diretas entre objetivos e avaliação, ignorando as relações entre avaliação e experiência. Ora, se a função da avaliação é apenas a de verificar se os objetivos foram ou não alcançados, ela apenas considera os aspectos declarados do processo e ignora todos os aspectos latentes que possam ocorrer com base na dinamicidade das experiências.

4ª - Referência ao “bom currículo”, embora em nenhuma parte da obra Tyler discuta a questão de valores. O que seria um currículo bom? A análise dos resultados demonstrou, conforme pode ser observado na tabela 1, uma grande incidência das palavras eficiência e eficácia, sugerindo que um currículo bom é aquele que é eficaz, ou seja, atinge seus objetivos.

5ª - Esta vulnerabilidade detectada é aquela que diz mais respeito ao nosso trabalho, pois trata da questão do conteúdo. A preocupação de Tyler neste sentido é evidenciada no esforço que faz para demonstrar a sua não importância, a ponto de camuflá-lo e colocá-lo embutido, como elemento acessório dos objetivos. Esta afirmação pode ser comprovada através da análise da tabela 4, mostrando que das 89 vezes em que citou a palavra conteúdo, em 77 vezes está associada, de modo direto, aos objetivos. Existe, portanto, uma ausência de reflexão sobre as relações entre conhecimento escolar e poder.

Tabela 4 – Demonstrativo das Categorias e Sub-Categorias Relativas à Palavra Conteúdo na Obra de Ralph Tyler, tomada em seu Contexto Frasal.

Palavra Categorias Subcategorias Frequências

Número de

ocorrências Porcentagem

De modo explícito, incorporado a estes 49 55,06

Fazendo parte

dos objetivos De modo exemplificativo, explicando como se faz a incorporação ao seu

objetivo 28 31,46 Subtotal: 77 86,52 Ênfase no conteúdo em si 03 3,37 Elemento nuclear em si, com: Ênfase em exemplos 09 10,11 Subtotal: 12 13,48 CONTEÚDO Percebido como: Total: 89 100 Fonte: Cunha (1998).

Desta maneira, Cunha propõe uma definição de currículo tyleriana:

Assim, currículo é um programa educacional que tem nos

objetivos sua fase mais importante, porque devem direcionar o

comportamento que se espera que os alunos modifiquem com base em seus interesses. Devem ser selecionadas e organizadas

experiências que serão meios para o alcance dos objetivos. A avaliação deve mensurar se houve o alcance desses com eficiência e eficácia. (CUNHA, 1998).

As palavras destacadas apresentam grande incidência na análise feita e sugerem a importância que Tyler concede a elas.