4.4 Oppsummering
5.1.1 Egen historie
“No sé cómo ni por qué me dio por preguntar quién estaba mirándome desde los ojos de Diana” (CASARES, 2005, p. 135). Bordenave se faz essa pergunta após a volta de Diana para casa. Ele não sabe que está diante apenas do corpo de sua mulher, mas pressente que há algo errado porque não reconhece a alma que, daqueles olhos, fita-o. Mas não é apenas por intuição que o relojoeiro desconfia da alma de Diana, pois, na verdade, depois de alguns dias de convivência intensa, ele observa que essa nova mulher não possui determinadas características que eram muito próprias de sua esposa. Ademais, a impostora não consegue renunciar a toda a sua vida antiga, o que a impede de esconder todas as suas paixões, que, logicamente, diferenciavam-na da esposa do relojoeiro. Apesar de ter sido bem treinada pelos médicos do hospício, que para saber os detalhes da vida do relojoeiro vigiaram-no em sua própria casa, a impostora comete alguns deslizes que são fundamentais para que Bordenave comece a desconfiar dela. A Diana verdadeira é uma exímia cozinheira e gosta muito de cozinhar, por isso, não aceita que nenhum ingrediente de seu prato seja artificial. Sua especialidade são as tortas de milho como conta o próprio Bordenave:
En casa habrá muchas fallas, pero no en lo que se come. Permítame que deje el punto debidamente aclarado: siempre Diana presumió de buena mano en la cocina. Un mérito de reconocido peso en el hogar. Sus pastelitos rellenos de choclo son justamente famosos en la intimidad y aun entre la parentela. (CASARES, 2005, p. 20).
Bordenave faz questão de dizer que esse talento de Diana para cozinhar é conhecido na intimidade de seu lar e entre a família, ou seja, trata-se de algo que jamais os médicos poderiam adivinhar apenas vigiando a casa do relojoeiro, inclusive porque quando o fizeram, Diana já estava internada. Quando a impostora já está instalada na casa do relojoeiro, Ceferina desconfia de sua autenticidade. Para testá-la, pede que ela faça sua famosa torta de milho para a família. A impostora responde dizendo que não está com vontade de cozinhar, mas Ceferina não aceita a resposta e insiste, usando uma insinuação como isca: “-Acordate que para vos todos los días son de aniversario.” (CASARES, 2005, p. 118). Bordenave comenta a reação da falsa Diana: “Créame, Diana parecía una pobre colegiala a quien la maestra llamaba al frente para tomarle una lección que no sabía.” (CASARES, 2005, p. 119). A impostora realmente não sabia essa lição, então, decidida a atender ao pedido de Ceferina, diz algo que contraria toda a prática da Diana verdadeira: “¿Venís, Lucho? – me dijo –.
Vamos a comprar la masa y una lata de choclo.” (CASARES, 2005, p. 119). Bordenave comenta:
¿Qué pasaba? El ama de casa que siempre exigió del verdulero los choclos más frescos ¿ahora se avenía a comprarlos en lata? Todavía algo más increíble: una cocinera, tan orgullosa de la liviandad y del sello inconfundible que según es fama lograba en pasteles, empanadas y demás repostería ¿iba a comprar la masa en la fábrica de pastas? (CASARES, 2005, p. 119).
Já durante o almoço em família, enquanto os adultos conversavam, Martincito, o sobrinho por quem a verdadeira Diana tinha loucura, brincava com seu amiguinho. Então, Adriana María pede a Diana que leve o sobrinho à cozinha para tomar leite. Atendendo ao pedido da irmã, a impostora, que não sabia qual dos meninos era Martincito, pega a mão do amiguinho dele com a intenção de levá-lo à cozinha. Todos se assustam com isso: “Ante el asombro general, Diana se presentó con el gordo. Todos, créame, soltamos la risa, incluso don Martín.” (CASARES, 2005, p. 125).
Mas a impostora não levantou suspeita apenas por não ter algumas características de Diana. A saudade de sua vida anterior, da enfermeira que era antes do experimento médico, era tanta, que ela não resistiu em pedir a Bordenave que a levasse para passear na Praça Irlanda, lugar onde morava antes de tomar o corpo de Diana. O relojoeiro estranha esse pedido que, inclusive, é feito mais de uma vez:
Yo me acostumbré tanto que un día, porque Diana me pidió que la llevara a la Plaza Irlanda, la miré sin disimular la sorpresa. Cuando iba a increparla, recapacité que mi señora siempre fue propensa a los antojos y que el de ir a la Plaza Irlanda era de los más inocentes. (CASARES, 2005, p. 111).
Mas Bordenave fica intrigado com o pedido: “Mientras recorríamos la plaza, no pude menos que preguntarme: ‘¿Por qué insistió en venir?’. No hablaba casi, parecía preocupada.” (CASARES, 2005, p. 111). Porém, mais intrigado fica o relojoeiro quando Ceferina, muito desconfiada da impostora, revira todo o seu quarto na busca de algo que prove que ela não é Diana. A mãe de criação de Bordenave encontra, bem escondida, uma foto de uma jovem com o nome do local onde foi tirada: Praça Irlanda. Diante dessa revelação, o relojoeiro confessa: “Vi que el papel estaba despegado y enrolado en el ángulo que la vieja tuvo entre los dedos. Cuidadosamente lo desenrollé, lo estiré sobre el cartón; apareció entonces la inscripción impresa: Recuerdo de la Plaza Irlanda. Me desconcertó un poco.” (CASARES, 2005, p. 130).
A estratégia que Silvina Ocampo adotou de observar e considerar as paixões, as manias, os hábitos, enfim, as práticas cotidianas e a intimidade de seu cachorrinho – a qual só pode ser conhecida com o convívio do dia-a-dia – para conhecer sua alma, poderá servir para que a impostora e o impostor que habitam os corpos de Diana e Bordenave sejam desmascarados. A desconfiança do relojoeiro e de sua mãe de criação em relação à verdadeira personalidade da Diana falsa que voltou do hospício foi provocada justamente porque, por mais que uma pessoa esquadrinhe uma vida a fim de imitá-la perfeitamente, há hábitos e paixões que nunca mudam. Assim, o falsário sempre revelará algo muito próprio de sua personalidade verdadeira, e jamais conseguirá imitar todas as manias, gestos e paixões da pessoa que é invadida por ele. Sempre há algo profundo e visceral na intimidade do indivíduo que jamais poderá ser alcançado por ninguém. Porém, outro fato endossa a proposta de comunidade feita por Roberto Esposito: para que cada singularidade possa ser realmente conhecida e considerada pelo outro, é necessário que haja troca e circulação efetivas e abertas – com a acolhida e o devido respeito às diferenças – dos afetos entre os indivíduos que estabelecem esses vínculos comunitários.