4. PRESENTASJON AV CASE – SEILDUKSGATA 26
4.3 Historie, fra 1800-tallet frem til i dag
Para finalizar esta exposição da metodologia que desenhou o trabalho de campo, parece fundamental ainda sublinhar a relação entre o conjunto de mulheres entrevistadas e o segmento ao qual esse conjunto pertence. Se, em primeira instância, os critérios que pautaram a escolha das entrevistadas decorrem das características físicas relativas ao sexo e cor, tal identificação também se correlaciona a parâmetros traçados por diversos indicadores demográficos e socioeconômicos, fartamente delineados nos instrumentos de mensuração quantitativos, censitários e amostrais, que apontam a desigualdade socioeconômica em diferentes dimensões, como, por exemplo, o acesso à escola, ao trabalho remunerado e à renda. Como os tópicos do roteiro de entrevista levantam e cruzam respostas relativas a esses indicadores, pode- se identificar as mulheres negras entrevistadas como pertencendo a um conjunto mais amplo, o segmento populacional da sociedade brasileira que se
Tal identificação enfatiza a homogeneidade do recorte e permite inferir que existe uma possibilidade relativa de generalizar os dados levantados a respeito dos juízos morais das entrevistadas, sobre suas situações e condições de vida, para além desse circunscrito conjunto de 12 entrevistas, projetando-os para o conjunto populacional mais amplo. Em decorrência disso, não parece ousadia afirmar também que os dados levantados nessa pesquisa de campo apontam uma situação de iniqüidade que atinge todo segmento.
Cabe ainda salientar dois aspectos concernentes à característica da metodologia aplicada nesta tese. O primeiro deles diz respeito ao fato da proposta teórico metodológica buscar apreender a realidade social por meio da dissociação do conceito qualidade de vida nas categorias de qualidade de vida, de saúde e de atenção à saúde. Cada uma dessas categorias, subdivididas a partir de características relacionadas em maior ou menor grau à dimensão material, evidencia que o conceito qualidade de vida deve ser entendido de forma abrangente, estendendo-se da dimensão social à área da saúde, enfocada a partir dos serviços que dispensam cuidados médicos.
Relacionado ao primeiro, o segundo aspecto diz respeito à definição do corpo como parâmetro fundante da análise empreendida na Discussão. Foi possível mesclar elementos objetivos na análise dos dados subjetivos levantados em campo porque estes se baseiam na corporeidade, o que confere unidade ao material, tornando possível perceber como as experiências subjetivas das mulheres negras entrevistadas refletem a realidade social objetiva, quantitativamente mensurável, que condiciona suas vidas. Ou seja, é
por meio de suas experiências corporais, de suas sensações e interpretações subjetivas, que estas mulheres captam e explicam o mundo que as cerca.
A realidade que advém da subjetividade é o que se buscou apreender a partir do roteiro de entrevista. Embora esse instrumento tenha sido delineado para captar a experiência enquanto corpo, ou seja, a existência física e social concreta das entrevistadas, foi contraposto a outras formas de quantificar a experiência da realidade, também mensuráveis, que apontam as condições objetivas sob as quais se dá essa experiência. Este último material, já citado
12;13;14;15;16 são os levantamentos feitos por pesquisas quantitativas, que
apontam os elementos infra-estruturais da vida material que estão presentes ou ausentes em seu cotidiano, os quais sejam arbitrariamente, ou consensualmente, tidos como imprescindíveis.
No tocante aos aspectos subjetivos é importante esclarecer ainda que os sub-itens específicos, que organizam cada uma das categorias analíticas, têm como fundamento as sensações de dor e prazer, com as quais todos estão relacionados. Mesmo quando as sensações de dor e prazer se apresentam de maneira mais elaborada ou complexa, associadas a outros conceitos ou formas de classificar a experiência da realidade, elas permanecem como base da estrutura simbólica do pensamento. Assim, o prazer e a dor demarcam o campo da experiência no/do mundo, constituindo-se os estímulos primordiais que movem o ser humano adiante em sua vida, dotando a existência de sentido e conferindo a perspectiva de continuidade no tempo.
e especificamente na Antropologia, pode trazer aportes à reflexão no campo da Bioética, cuja perspectiva ainda está bastante colada ao viés biomédico. Ao explicitar a interface entre os fenômenos observados na realidade social e os percebidos na atenção à saúde, a adoção de tal metodologia pode contribuir para apontar os fatores determinantes ou condicionantes dos dilemas éticos imediatos da assistência. Ao retratar uma face da realidade social o instrumental utilizado facilita a compreensão dos dilemas e conflitos éticos que acabam por eclodir nos serviços de atenção à saúde, mas que não podem ser respondidos apenas ali, sob risco de se eternizarem.
Há que se mencionar, contudo, uma limitação deste método, observada nas situações em que os dados foram interpretados. Ao fazer tais interpretações considerou-se que a realidade vivenciada pelas entrevistadas configurava-se nos limites do inconcebível, expressando aspectos de seu cotidiano insuportáveis de serem pensados e expressados por elas. Desse modo, tais pontos correm o risco de ficarem submetidos a uma duplicidade de interpretações subjetivas, sendo a primeira a dos próprios sujeitos e a segunda a da pesquisadora. Porém, considerando que não existe neutralidade axiológica do pesquisador, seja no momento de recortar o campo, levantar os dados, ou em sua análise, optou-se por realizar essas interpretações, mas sempre com o cuidado de evidenciar que isso estava sendo feito, diferenciando com precisão o que emergia diretamente das falas das entrevistadas e que somente vinha à tona por esta forma de análise do material.