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A defesa do diálogo entre filosofia hermenêutica e epistemologia ainda tem se mostrado de uma maneira tímida nos círculos de debates acadêmicos. Sobretudo no Brasil, ainda não existem pesquisas consistentes nesse sentido. Diante disso, o objetivo central desta dissertação foi tentar evidenciar um possível caminho para que esse diálogo ocorra, além de tentar apontar alguns resultados parciais da efetivação deste.

Dentro desta conjuntura, a obra de Bachelard acabou se mostrando um produtivo suporte que, me parece, abre o caminho para a interação entre o paradigma hermenêutico e as ciências (e as formas de saberes que dela derivam). Uma intensões deste trabalho, foi, justamente, revisitar a filosofia bachelardiana, que parece ter sido esquecida tanto pela tradição do estudos dos paradigmas científicos, quanto pela hermenêutica filosófica. Tentei demonstrar, portanto, como as categorias bachelardiana acerca das ciências servem de chave de acesso aos axiomas científicos por parte da hermenêutica filosófica. A obra epistemológica de Bachelard entraria em cena quando houvesse um efetivo interesse de autores hermeneutas no estudo aprofundado dos axiomas científicos, já que, oferece as categorias históricas da construção dos saberes das ciências, facilitando, assim, uma leitura que se aproxime da própria hermenêutica filosófica.

Busquei atentar – a partir de Vattimo – que um efetivo diálogo entre a hermenêutica filosófica e a epistemologia acaba dando um certo substrato à fundamentação da hermenêutica como filosofia da modernidade – como a que melhor servisse de chave de leitura das complexas realidades históricas contemporâneas. Nesse sentido, uma aproximação com a obra epistemológica de Bachelard ganha a conotação de referencial teórico, na medida em que tal epistemologia construiu categorias que se aproximam muito do modusoperandi hermenêutico, apesar de não partirem – hermenêutica e epistemologia de bachelardiana – exatamente das mesmas bases. A aproximação com Bachelard auxilia na inserção do paradigma hermenêutico em estudos aprofundados acerca da realidade científica contemporânea, auxiliando, assim, em sua fundamentação argumentativa, como caminho ideal à leitura da contemporaneidade.

Como pode se perceber, não são poucas as possíveis proximidades que mesmo uma leitura inicial pode constatar entre elementos da hermenêutica filosófica e a epistemologia bachelardiana. As ressonâncias da epistemologia de Bachelard são

102 bastante notórias nas filosofias de Foucault, Bourdeiu, Althusser, dentro outros. Em epistemologia, mais propriamente, pode-se sentir uma acentuada influência bachelardiana no pensamento de Thomas Kuhn. Não sem motivos, Richard Rorty vai buscar na filosofia de Kuhn um possível substrato para a coexistência harmoniosa entre hermenêutica e epistemologia na contemporaneidade. No decorrer desta dissertação, busquei evidenciar que a epistemologia bachelardiana é a que melhor parece servir ao propósito do diálogo, na medida em que suas categorias (como cogitamus, filosofia dialogada ou a crítica ao sistema ternário, só para citar algumas) se assemelham

diretamente a instâncias do pensamento hermenêutico (como o aspecto histórico dos

saberes, a crítica à racionalidade objetivista ou à necessária abertura para o diálogo). Embora se faça necessáriorelembrar constantemente que ambas abordagens filosóficas partem de bases distintas, ignorar uma possível aproximação direta, seria ignorar a própria possibilidade de diálogo.

Aquilo que acredito ser a grande contribuição deste trabalho, não somente no que se refere ao retorno à obra de Bachelard ou à relação entre hermenêutica e epistemologia, mas também, no âmbito de uma leitura adequada da realidade contemporânea a partir da hermenêutica filosófica; me refiro, mais precisamente, à problematização do espaço que vai do axioma científico à cultura massificada. A epistemologia bachelardiana evidencia que o saber científico em muito difere do saber comum, mas a hermeneutização dos objetos e discursos inseridos nesse espaço – aparente vazio – é o que vai garantir, me parece, uma leitura mais precisa dos fenômenos do mundo da vida. Tal leitura parte da efetiva compreensão histórica dos discursos das ciências contemporâneas e passa pela análise de como estes discursos acabam se distorcendo (ou sendo expostos de maneira simplista ou ainda retrógrada) nas esferas pedagógica, mercadológica e política. Justamente, a ideia da anexação destas esferas – aquilo que chamei de complexização – é o que guiará trabalhos futuros, no sentido de, mais uma vez, afirmar uma relação mais próxima entre a hermenêutica e a epistemologia e de afirmar os possíveis produtos desta relação na academia.

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